quarta-feira, novembro 14, 2012
sábado, novembro 10, 2012
segunda-feira, outubro 08, 2012
O Nascimento
terça-feira, outubro 02, 2012
domingo, setembro 16, 2012
Pantocrator
| Cristo Pantocrator com duas faces, a divina e a humana. Monastério de Sta Catarina, Monte Sinai. |
É sempre impactante encontrá-lo
nas primeiras horas da manhã. Com o seus cabelos longos, o jovem caminha por
entre os carros e lança um olhar inquiridor que atravessa o vidro e a
indiferença dos que aguardam na fila pelo sinal verde. Sua expressão é daqueles
que já não fazem mais parte desse mundo, a mesma que vemos nos que estão na
antesala da morte, para além da vida. Sobre um de seus ombros pende um cobertor
surrado que ele ajeitou à moda das vestimentas antigas: um manto que cobre
parte de suas roupas rasgadas e que ele segura com uma das mãos como se fosse
um senador romano. A
outra ele movimenta como um mudra que perfaz o gesto da bênção dos ícones
antigos: seus dedos ora se unem na indicação trinitária que abençoa e
materializa os mistérios do céu e da terra, ora se espalmam no gesto da súplica
pela esmola. Seu olhar não implora, mas solicita com legítima autoridade e nos
culpabiliza pelo que nem sabemos nominar. Algo entre a omissão social e a
podridão egoísta de nossa natureza humana e bestial. Nosso Pantocrator diário
tem a resistência do ícone que personifica: já o vimos em outras esquinas, com
as mesmas mãos sobre a boca, segurando um plástico com algo que ele aspira com
sofreguidão. Já o surpreendemos em uma corrida, de banho tomado, atravessando
as ruas como um atleta que se prepara para um festival olímpico. Mas ele sempre
comparece no horário sagrado das manhãs. E embora mantenhamos a distância por
entre o vidro fechado do carro, ele nos acompanha e continua conosco pelo resto
do dia.
sexta-feira, setembro 07, 2012
domingo, julho 01, 2012
Um dia virá
E um dia virá, sim, um dia virá em mim a capacidade tão vermelha e afirmativa quanto clara e suave, um dia o que eu fizer será cegamente, seguramente, inconscientemente, pisando em mim, na minha verdade, tão integralmente lançada no que fizer que serei incapaz de falar, sobretudo um dia virá em que todo meu movimento será criação, nascimento. Eu romperei todos os nãos que existem dentro de mim, provarei a mim mesma que nada há a temer, que tudo o que eu for será sempre onde haja uma mulher com meu princípio, erguerei dentro de mim o que sou um dia, a um gesto meu minhas vagas se levantarão poderosas, água pura submergindo a dúvida, a consciência, eu serei forte como a alma de um animal e quando eu falar serão palavras não pensadas e lentas, não levemente sentidas, não cheias de vontade de humanidade, não o passado corroendo o futuro! O que eu disser soará fatal e inteiro. Não haverá nenhum espaço dentro de mim para eu saber que existe o tempo, os homens, as dimensões, não haverá nenhum espaço dentro de mim para notar sequer que estarei criando instante por instante, não instante por instante; sempre fundido, porque então viverei, só então serei maior que na infância, serei brutal e mal feita como uma pedra, serei leve e vaga como o que se sente e não se entende, me ultrapassarei em ondas. Ah, Deus, e que tudo venha e caia sobre mim, até a compreensão de mim mesma em certos momentos brancos porque basta me cumprir e então nada impedirá o meu caminho até a morte sem medo de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo.
LISPECTOR, Clarice. Perto do Coração Selvagem.
terça-feira, maio 08, 2012
segunda-feira, abril 30, 2012
Miragem
segunda-feira, janeiro 16, 2012
Da ausência
NO QUINTAL DA LUA
Maria Luisa Ribeiro
E impõe se a dor
Maria Luisa Ribeiro
E impõe se a dor
com suas pegadas de chumbo
seus resquícios de gorjeios
e um calhamaço de silêncio
que machuca além da conta.
Estúpida,
com seu chapéu de violetas densas
e um cravo de chorar no vão do peito,
ela vai dançando o canto gregoriano
em um espaço oco
que aprendemos a chamar de saudade
E quando tudo se cala
apenas o pio de um pássaro ancorado em um graveto seco
seus resquícios de gorjeios
e um calhamaço de silêncio
que machuca além da conta.
Estúpida,
com seu chapéu de violetas densas
e um cravo de chorar no vão do peito,
ela vai dançando o canto gregoriano
em um espaço oco
que aprendemos a chamar de saudade
E quando tudo se cala
apenas o pio de um pássaro ancorado em um graveto seco
e um pingo de chuva estatelado na vidraça
de uma cobertura no aeroporto da cidade.
Calou-se o brado de Espanha...
e cá do meu batente de anjo caído e torto
eu olho pra cima e te contemplo.
Sóbria , sem desespero e sem dores miúdas
um pássaro... um pio... e... junto –me a ti
num canto de Bocelli no quintal da lua.
de uma cobertura no aeroporto da cidade.
Calou-se o brado de Espanha...
e cá do meu batente de anjo caído e torto
eu olho pra cima e te contemplo.
Sóbria , sem desespero e sem dores miúdas
um pássaro... um pio... e... junto –me a ti
num canto de Bocelli no quintal da lua.
*********************
Presente de minha amiga escritora Maria Luisa Ribeiro, por ocasião da morte de meu pai, há doze dias.
Fica aqui minha gratidão a ela e a homenagem a ele, afinal. Por enquanto, não tenho mais palavras.
sexta-feira, dezembro 02, 2011
Da presença
domingo, novembro 27, 2011
"A Nave Fantasma"
![]() |
| Yoko e Lennon - créditos
Como termina um amor? - O quê? Termina? Em suma ninguém - exceto os outros - sabe disso; uma espécie de inocência mascara o fim dessa coisa concebida, afirmada, vivida como se fosse eterna. O que quer que se torne objeto amado, quer ele desapareça ou passe à região da amizade, de qualquer maneira, eu não o vejo nem mesmo se dissipar: o amor que termina se afasta para um outro mundo como uma nave espacial que deixa de piscar: o ser amado ressoava como um clamor, de repente, ei-lo sem brilho (o outro nunca desaparece como se esperava). Esse fenômeno resulta de uma imposição do discurso amoroso: eu mesmo (sujeito enamorado) não posso construir até o fim minha história de amor: sou o poeta (recitante) apenas do começo; o final dessa história, assim como minha própria morte, pertence aos outros; eles que escrevam o romance, narrativa exterior, mítica. (Roland Barthes. Fragmentos de um Discurso Amoroso).
|
segunda-feira, novembro 21, 2011
Vivo em Goi
![]() |
| Leonardo Lobo |
FUTURARTES
meu futuro está nas artes
meu futuro está presente
e eu estou desferrolhado
(...)
assim como na dor
é dever gargalhar
como assim no azedume
é dever amar
e na falta de amor
armar, inventar
inverter
(...)
eu quero mesmo isso aqui?
é isso mesmo isso daí?
pelo que me cabe
talvez eu esteja
carente doente
dormente
quente
quente
(Leonardo Carmo)
domingo, novembro 20, 2011
A Sagração
"Sonhei com um grande ritual pagão! Tive uma soberba visão
repleta dos mais inusitados efeitos sonoros indefiníveis..."
Em três tempos sagra-se uma
mulher à primavera. Ela parte de si. A música lhe chega como sedução leve,
alento aos seus dias limitados em forma e construção de sentidos. Ela se
entrega aos poucos, até que a música a tome, afinal. Ela se dá ao piano, aos
sons, aos impulsos das forças anímicas que a colocam no limite entre os mundos
humano e animal. Rastejante como um réptil, agressiva e armada como um tigre,
ela se movimenta, dissonante, e agoniza. Ao fim deste ato, ela já está despida
do que a limitava em espaços e formas. Desconstrói-se nos ímpetos entre ritmos
e pausas. Timbres, percussões e ritmos acima da harmonia, transformam-na em uma
noiva primitiva. Algo enfim, se define e costura uma trama. Como Ariadne em
torno do labirinto, ela enlaça fios entre a razão e a loucura. Forças
primitivas incontroláveis violentam o ato e a impelem à construção de uma
geografia sagrada, gestos que se ritualizam na repetição e nos impulsos. Ao
final, no colo do piano, ela se transmuta em uma massa informe, algo ainda não
nascido, zoomórfico, um ser que ensaia um vôo frágil.
segunda-feira, outubro 24, 2011
quinta-feira, outubro 13, 2011
Supernovas
Supernova I
sou uma mulher que pulsa
um oco no fim da expiração
um lugar seguro
no quintal da infância
onde eu brincava só
sou um brincar que pulsa
um sopro no fim da expiração
um vôo no portal da infância
um quintal no fim
uma mulher só
Supernova II
sou um pulsar que brinca um oco no quintal
uma mulher na infância
sou um vôo no fim
um oco no portal um
quintal no fim um lugar
uma mulher um
sopro um vôo sou um sopro
no fim uma mulher na
infância um pulsar um
brincar um vôo sou só um
sopro no fim só
um sopro que pulsa
que brinca que voa
Supernova III
sou
um pulsar
que brinca
um oco
no quintal
uma mulher
na infância
um vôo
no fim
sou
um oco
no portal
um quintal
um lugar
um vôo
uma mulher
um quasar
um brincar
sou
um sopro
no fim
um vôo
só
quinta-feira, outubro 06, 2011
domingo, outubro 02, 2011
Psicopompo
Auguste Rodin.
Gênio do Repouso Eterno, 1899
Pinacoteca. Parque da Luz/SP
Penetra surdamente no reino das palavras...
Drummond. Estação da Luz/SP
Já não me importa ganhar coisas. Nem pessoas. Muito menos o mundo. Ver tudo da minha janela já me basta. Viajo por obrigação. Com objetivos definidos, datas e locais bem arranjados. Mas, faço sempre com má vontade, nunca sem tensão. Foi assim que cheguei pela primeira vez em São Paulo este ano. Cidade ambígua e silente. Sim, havia muito silêncio no murmúrio indefinido das ruas, nas conversas esparsas, no deslocamento rápido e ensimesmado de pessoas nos ônibus, nas estações de metrô. Tanto ruído, quanto silêncio. Éramos seres impessoais, encapsulados em pequenos mundos, personagens no enredo de um filme de ficção científica.
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Da segunda vez, entretanto, algo diferente aconteceu. Hospedei-me em um lugar central, entre ruas escuras cheias de histórias noturnas. De repente, a São Paulo silente dos seres de plástico, soltava o corpo e a voz entre loucos carros e sussurros, no tilintar de copos em bares bêbados, no ranger de portas entreabertas das boites, no salto de mulheres que animam o vai e vem das esquinas, na súplica dos moradores das calçadas, no cochichar de combinações e segredos dos cantos obscuros.
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Em meu temor forasteiro, encontrei um amigo. Assim, de forma meio inesperada, sem contabilizadas garantias, quase sem querer. De entrada, forneceu-me um cartão de metrô com passagens pagas para que eu não ficasse em filas. Indicou-me rotas facilitadas para que eu não me perdesse na imensidão das ruas. Pagou-me cafés. Enviou-me sms’s com msgs desconcertantes, do tipo: comeu? tá onde? te espero no bloqueio do metrô. Nos intervalos da obrigação, insistiu para que eu visitasse obras, jardins, exposições, experimentasse as frequentações do espírito. Segurou minha mão para me proteger, manter-me em equilíbrio no passo e no ritmo, sem saber que meu corpo-espírito ferido beirava a exaustão e o desalinho.
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Aceitei tudo com dificuldade e parcimônia. Preciso de tempo para digerir dádivas. Neste transe iniciático, ele foi o instrutor, o guardião-guia no umbral desta dura travessia metonímica. Com percepção lenta para os milagres do instante, não me desculpei por não conseguir absorver de forma plena os valiosos presentes que recebi, assim, de maneira tão generosa, nem mesmo sei se soube agradecer a passagem, as entradas que me transportariam da república à estação da luz. Foram momentos de diálogo mudo, instantes em que as falas sem sentido e os corpos tristes das ruas se transformariam no reino das palavras e em esculturas e formas transmutadas em beleza e criação.
(para Leo)
domingo, setembro 04, 2011
Suave Coniunctio (ou Setembro)
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