Minha filha queria saber sobre as denúncias em torno da morte de Jango que foram publicadas em Carta Capital e ele nos ouviu conversar a respeito. Ele, que, aos oitenta, é sempre o que assiste aos jornais, lê os livros da moda e as revistas semanais, trouxe-nos um exemplar no domingo seguinte, e em todos os outros em que almoçamos juntos. Depois do episódio, ele sempre nos compra uma Carta Capital antes de dirigir meia hora para pagar nosso almoço, contar histórias que me fazem rir, tomar sorvete ao final das refeições e sair dirigindo à toda como se tivesse vinte e nove anos (por muitos anos, meu pai nos disse que fazia vinte e nove em aniversários). Ontem, depois de uma quimioterapia, assistimos parte do jogo do Brasil juntos. No seu enrolado portunhol, ele reclamou de um tal de Pato, indignou-se, aliviou-se com o pênalti que deu a vitória apertada ao Brasil, enquanto eu, secretamente, torcia para os egípcios. Controlei sua febre com medicamentos e minha natural chateação de colocar a mão nele de meia em meia hora. Ele se esquivou e protestou com seu habitual Reina, eu sou homem. Dormimos pouco à noite, mas hoje cedo, ele mal esperou o dia clarear para agradecer-me, dizer que tudo ia ficar bem e despedir-se olhando o relógio, planejando inadiáveis compromissos. Ao fechar a porta depois de acompanhá-lo ao elevador, segurei a última Carta Capital, a que dá mais detalhes sobre a morte súbita de Jango. E foi impossível não pensar na morte e nos pequenos detalhes que fazem toda uma vida.
terça-feira, junho 16, 2009
domingo, junho 14, 2009
Por aí...
O fato:
Levar-te à boca,
beber a água
mais funda do teu ser -
se a luz é tanta,
como se pode morrer?
Eugénio Andrade
Daqui: Ene Coisas
E a explicação:
Levar-te à boca,
beber a água
mais funda do teu ser -
se a luz é tanta,
como se pode morrer?
Eugénio Andrade
Daqui: Ene Coisas
E a explicação:
Dizer que a paixão implica em perda da razão não parece correto. Talvez seja mais apropriado dizer que a paixão carrega uma outra razão. A paixão, para mim, é como a leitura de um poema. Ou nos arrebata ou não é poesia. Nem paixão. A paixão é como uma palavra, num poema, uma palavra que busca uma rima. Quando duas palavras se beijam, nasce a poesia. Para mim, a paixão tem a ver com aquela "realidade ficcional" na qual estamos imersos quando lemos um romance: uma suspensão temporária do descrédito do mundo e do outro.
Rodrigo Garcia Lopes
E daqui: Orfanato Portátil
Rodrigo Garcia Lopes
sábado, maio 16, 2009
Own
Oi louquinha,
Dia das Mães é pra reforçar como eu gosto de morar com você, como eu adoro ver você loucona* de manhã, adoro te irritar em tardes de domingo, amo conversar assuntos profundos com você e sinto falta quando você não tá em casa pra conversar comigo em momentos sem fazer nada. E é engraçado como todo mundo fala que a gente parece já de cara, porque a gente não é igual só fisicamente, como emocionalmente, e eu agradeço todas as qualidades e defeitos que você passou pra mim e que me fizeram ser o que eu sou hoje, que me fazem ter uma noção maior das coisas, ser uma pessoa bem melhor. Não precisa nem dizer que eu te amo muito e que mesmo quando a gente “se libertar”, eu for pra São Paulo e você pra FNLT**, eu vou continuar no seu pé, te enchendo o saco. Amo você, feliz dia das mães, de sua filha chata que te adora e te admira, M.C.
Dia das Mães é pra reforçar como eu gosto de morar com você, como eu adoro ver você loucona* de manhã, adoro te irritar em tardes de domingo, amo conversar assuntos profundos com você e sinto falta quando você não tá em casa pra conversar comigo em momentos sem fazer nada. E é engraçado como todo mundo fala que a gente parece já de cara, porque a gente não é igual só fisicamente, como emocionalmente, e eu agradeço todas as qualidades e defeitos que você passou pra mim e que me fizeram ser o que eu sou hoje, que me fazem ter uma noção maior das coisas, ser uma pessoa bem melhor. Não precisa nem dizer que eu te amo muito e que mesmo quando a gente “se libertar”, eu for pra São Paulo e você pra FNLT**, eu vou continuar no seu pé, te enchendo o saco. Amo você, feliz dia das mães, de sua filha chata que te adora e te admira, M.C.
_____
* (estabanada, stressada e despenteada?)
**Frente Nacional para Libertação do Tibet
sexta-feira, maio 15, 2009
Cinema
Sabia que eram parecidos também nisso. Diriam um olá como uma ponta de iceberg cheia de lacônicos conteúdos e trocariam idéias sobre muitas coisas, ririam de bobagens sem sentido e deixariam o que não se podia dizer assim, encolhido no campo do medo. Havia algo de excessivamente íntimo e profundamente ridículo no amor, amar era definitivamente inadequado e desconfortável. Assim, nada mais útil do que deixar que a história de amor falasse por eles, permitisse o disfarce da atenção nos detalhes sobre a atuação dos atores, o que haviam lido na crítica, qualquer coisa que os desviasse da tensão essencial do filme na tela e fora dela. E a não ser quando havia a traição no toque secreto e ressonante dos braços pacificados na poltrona, era comum a vontade louca de ir embora e afastar o risco.
sexta-feira, maio 08, 2009
Oito de Maio
Não sei se é porque era maio e maio é o mês de Maria e eu sou mariana convicta, ou se é porque era o Wesak e a lua cheia de maio sempre me deixou assim, como diria, sensível aos impulsos mais profundos da alma, ou se porque ela chorou e eu também por constatar que era verdade, havia alguém dentro de mim, ou, quem sabe, porque ela me conquista a cada dia com tantos desafios, com sua inteligência viva e superioridade de espírito, eu não sei, só sei que há exatamente dezessete anos, 19:40h, do ano de 1992, nascia Maria Clara. Deus, esse amor não tem nome.
sexta-feira, maio 01, 2009
Frustração

O caminho parecia-lhe fértil e verde no fundo da janela que emoldurava o perfil no carro. Ele falava e gesticulava de um modo único, com aquelas mãos de proporções equilibradas e seguras no volante. Aceitou o convite dele sem duvidar que o sim era mais do que o aceite de um convite para almoçar naquele local próximo à cidade. Era um sim a ele e a todas as suas sutis investidas. Conversaram muito para não dar espaço ao verdadeiro sentido de estarem ali, anônimos de si mesmos, sob todos os disfarces dos desejos encobertos nos assuntos. Num instante e já se encontravam na vila feito baratas tontas, sem que ela fosse objetiva quando ele perguntava sobre onde iriam. Ele queria um sinal explícito e sua hesitação cheirava a medo. Depois de alguns talvez, você é quem sabe, pode ser, foram parar naquela pousada que tinha um enorme jardim. Achavam que não queriam um quarto, iam primeiro visitar o local. Caminharam constrangidos e cautelosos pela trilha que levava ao chalé mais distante da portaria, sentaram-se em frente a um pequeno lago e permaneceram falando sem trégua naquela manhã ensolarada e incerta. Foi, então, que ela tirou os sapatos e colocou os pés na água para diminuir a tensão, dar espaço aos impulsos sensoriais e naturais de fundo que os uniram. Ele pareceu não entender o gesto, riu dos seus pés pequenos e a convidou para ir embora. O sol agora os queimava. Almoçaram num restaurante de comida sem tempero, falaram mais ainda na longa viagem de volta e se despediram com aquele até mais banal e definitivo.
domingo, abril 26, 2009
A Calúnia e a Fofoca
+Goya.jpg)
Aqueles pós, (trouxeram esses lodos).
Da série Os Caprichos de Goya (1792)
Perseverar no cumprimento de seu dever e guardar silêncio
é a melhor resposta à calúnia." (George Washington)
A Calúnia e a Fofoca
Roque Theophilo
Calúnia é um termo que vem do latim, calumnia, engodo, embuste. A calúnia não se confunde nem com a difamação nem com a injúria, outros dois crimes contra a honra. A difamação (do latim diffamare) significa desacreditar, sendo um crime que consiste em atribuir a alguém fato ofensivo à sua reputação de pessoa fiel à moralidade e aos bons costumes. Não se confunde com a calúnia, pois esta consiste numa imputação injusta de fato tipificado como crime. Na difamação o que se busca é desacreditar a vítima, embora sem apontá-la como autora de fato criminoso. (...)
Quanto à injúria do latim injuria, de in jus, injustiça, falsidade, trata-se de um crime contra a honra consistente em ofender, verbalmente, por escrito, ou fisicamente (injúria real), a dignidade ou o decoro de alguém. A injúria ofende o moral, abate o ânimo da vítima, ao passo que a calúnia e a difamação ferem a moral da vítima. (...)
Fofoca é o mexerico, intriga, a bisbilhotice. É um mal que para muitos é divertimento sem importância, mas que é extremamente destrutivo: A vontade de passar informações faz parte do homem, é a comunicação, é uma ação humana natural e normal, mas na maioria das vezes esquecemos do outro e não medimos as conseqüências das nossas palavras. Quando uma pessoa não controla a cobiça, o resultado é a inveja, que desperta o instinto animal de prejudicar o próximo pela difamação. O vaidoso que é infestado pelo orgulho e pela arrogância, é muito propenso a usar a fofoca. (...)
Afirmativas como “onde há fumaça há fogo”, em verdade são armas utilizadas pelos caluniadores. O correto é: “onde há fumaça há um caluniador”. Para bom entendedor, quem está sendo exposto não é o caluniado, mas sim o caluniador: revela-se e desvenda um interior conflitado.
O caluniador é uma pessoa que está sempre em conflito consigo mesmo. Quem está de bem com a vida não tem sequer vontade de caluniar, quer apreciar as coisas boas da vida.
Por vezes, as pessoas lidam de forma inadequada com suas perturbações. Por exemplo, passam a ingerir muita bebida de álcool, ou mergulham num mundo imaginário e se afastam da vida real. Outra forma inadequada é a calúnia. O caluniador procura transferir seu desequilíbrio para outra pessoa. Lançando uma calúnia ele percebe que o interior da pessoa atingida começa a se desorganizar. Para que isso ocorra, a calúnia deve ser impactante, deve penetrar no interior da vítima e estourar como uma bomba. Portanto, agora quem está desequilibrado é o outro e não mais ele. Ou há mais alguém perturbado e em sofrimento como ele.
Como este artifício é fantasioso, não promove um alívio duradouro ao caluniador, como um vício ele sente necessidade de repetir e repetir o ato de caluniar. É uma falsa saída para seu desequilíbrio. É como se alguém pegasse o lixo de sua casa e jogasse no pátio do vizinho. Por alguns momentos tem a sensação de estar limpo. Mas o lixo reaparece na sua casa, pois ela é o gerador de lixo.
Existem dois tipos de caluniadores: aquele que calúnia sistematicamente e aquele que o faz num momento em que sua vida não vai bem.
E existem também as pessoas que levam adiante a calúnia gerada por outro. É um fenômeno que acompanha a humanidade desde sempre. Um dramaturgo romano, Plauto, escreve em uma de suas peças: “Os que propalam a calúnia e os que a escutam, se prevalecesse minha opinião, deveriam ser enforcados, os primeiros pela língua e os outros pela orelha”.
Brincadeiras à parte, temos que aprender a lidar com estes fenômenos. Todos estamos sujeitos a ele. Sheakespeare escreveu: “Mesmo que sejas tão puro quanto a neve, não escaparás à calúnia”.(...)
Aquele que se percebe gerando calúnia se beneficiará de uma ajuda profissional para procurar lidar de uma maneira mais eficaz com seus desequilíbrios.
Provavelmente, graças a esse poder contaminante do pensamento primário é que, muitas vezes, julgamos uma causa por sua aparência, brigamos com amigos por detalhes fúteis e esquecemos o imprescindível para guardar o periférico. (...)
Provavelmente, graças a esse poder contaminante do pensamento primário é que, muitas vezes, julgamos uma causa por sua aparência, brigamos com amigos por detalhes fúteis e esquecemos o imprescindível para guardar o periférico. (...)
quinta-feira, abril 23, 2009
Os Olhos Mentem
segunda-feira, abril 20, 2009
Ofélia

Para os amores mortos e loucos, - aqueles que se auto-sacrificam e, envoltos em flores, ingenuidade e delicadeza se precipitam nas águas, - a fluidez de Ofélia de Elsinore, o emblema do sonho e da fragilidade em cada um de nós.
J.E.Millais, Ophelia, 1851.
Às vezes, quando vou por altas horas, quando
fujo através da noite, a este amor que reveste
de um tênue véu de névoa a face do meu sonho,
de lábios infantis que, uma e outra vez, murmuram
uma queixa, como a de alguém que se maltrata,
um murmúrio, afinal, que só tu poderias
compreender, fico a olhar os jardins solitários
que ornam a calma azul por onde vou passando.
***
E às vezes, paro e sonho à frente de um cipreste;
outras, invejo o ardor de um canteiro tristonho
alvos lírios claustrais que aromam e fulguram,
como fantásticos turíbulos de prata.
Outras, quando anda a lua entre as ruas sombrias
e as flores tomam o ar de votos funerários,
cada aléia é como um regato cintilando,
onde um Ofélia, de alva e imponderável veste
loira e fria, tombou, morta de amor e sonho.
***
Junto às grades hostis que os jardins enclausuram
e que, ao fulgor da luz, são de ouro, bronze ou prata,
descanso, muita vez, as mãos longas e frias.
E enquanto a lua evoca extáticos cenários
de paisagens do polo e torna em verde brando
todo o azul que lhe nimba a tristeza celeste,
das grades através, como através de um sonho
de prisioneiro, a cujo olhar se transfiguram
as visões do exterior, tenho a visão exata
da noite que convida às grandes nostalgias.
***
Eu sou o doce irmão dos jardins solitários,
que lhes conhece a dor, que os vê da sombra, olhando
pelo ermo e triste e verde olhar de algum cipreste...
Uns são feitos de tudo, enfim, que há no meu sonho.
E é por isso, talvez, que ora ardem e fulguram,
ora são tristes como esses vitrais de prata
onde Cristo ergue a Deus as mãos longas e frias.
***
Eu sou o doce irmão dos jardins solitários,
desses jardins que exalto, amo e celebro,
quando por horas mortas vou,
do amor que me reveste de amargura, fugindo,
ao longo do meu sonho.
***
E, ao longo do meu sonho, os jardins se enclausuram de lágrimas!
(Ah! sobre essas grades de prata quando virás pousar as mãos longas e frias?
Quando abrirás, sorrindo, os jardins solitários, tu que hás de amar-me um dia e que eu espero? Quando?)
***
GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera (1916)
sexta-feira, abril 17, 2009
A Forasteira
Vejo o mundo com lentes
E a sensação estrangeira
De estar sempre de passagem
Com pronta e pesada bagagem
Na mala segredos absolutos
Restos de sonhos cansados
E o tédio infindo de viajar
De ver, ouvir, estar
E não chegar nunca
E a sensação estrangeira
De estar sempre de passagem
Com pronta e pesada bagagem
Na mala segredos absolutos
Restos de sonhos cansados
E o tédio infindo de viajar
De ver, ouvir, estar
E não chegar nunca
domingo, abril 12, 2009
Agrocultura e o Amor
Em terra de machões, os homens maduros preferem as mocinhas, ainda mais que os outros. Tem-se aquela coisa de afirmação da virilidade em curva descendente, além das acentuações dos traços do agroman: essa é minha mulher, não é jovem e bonita? Ainda dou no coro. O resto, ou é gigolô, ou é casado, ou é gay. Bem vindos ao ceticismo de entrada e à preguiça amorosa das lobas. Com certa vergonha, elas ainda acreditam, secretamente, no amor. Apesar de tudo: dos casamentos desfeitos, das desilusões, dos cavalos que chegaram sem os príncipes. Ainda assistem Em Algum Lugar do Passado com seus lencinhos e preferem sonhar com amores de ontem, ou com os que virão quando as antenas estiverem mais ajustadas e eles as cobrirem de romantismo novelesco e aceitarem dormir em quartos separados. Elas mantêm-se solitárias, claro. Aut Caesar, aut nihil.
domingo, abril 05, 2009
A Dor
“Conclusão: a própria dor deve ter sua medida: É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira da nossa dor.”
Paulo Mendes Campos
daqui:
http://colunistas.ig.com.br/palavrasdafal/2009/03/30/nao-e-justo/
Paulo Mendes Campos
daqui:
http://colunistas.ig.com.br/palavrasdafal/2009/03/30/nao-e-justo/
domingo, março 29, 2009
Então
Então, minha mãe estava doente e queria conhecê-la. Não deu tempo. Ela faleceu antes. Uma um ano antes da outra. Ter quarenta anos é, dentre outras coisas, começar a participar do cruel e implacável espetáculo humano de perdas sucessivas. Depois ainda querem que conheçamos pessoas novas para amar todos os dias.
Então, ela, que já sabia, entendeu profundamente que o maior inimigo do amor não é o ódio, é o medo.
Então, ele contou que todos os seus problemas estavam em torno de uma criança sofrida. E que ao buscar uma imagem que o confortasse, ele via a mãe, falecida, ajeitando-lhe um cobertor durante a noite. A busca desse aconchego estava, todos os dias, acima do preço que tinha que pagar para recebê-lo. E ele estava farto de pagar o preço para se cobrir de amor.
Então, ele revelou que discutiram como eram opostos nos aspectos profissional e emocional. Perguntei-lhe sobre mim e ele deu-me o xeque mate: profissionalmente você é perfeita, emocionalmente, você é um blefe.
Então, ela, que já sabia, entendeu profundamente que o maior inimigo do amor não é o ódio, é o medo.
Então, ele contou que todos os seus problemas estavam em torno de uma criança sofrida. E que ao buscar uma imagem que o confortasse, ele via a mãe, falecida, ajeitando-lhe um cobertor durante a noite. A busca desse aconchego estava, todos os dias, acima do preço que tinha que pagar para recebê-lo. E ele estava farto de pagar o preço para se cobrir de amor.
Então, ele revelou que discutiram como eram opostos nos aspectos profissional e emocional. Perguntei-lhe sobre mim e ele deu-me o xeque mate: profissionalmente você é perfeita, emocionalmente, você é um blefe.
quarta-feira, março 18, 2009
Ansiedade

Faça um chá de erva-cidreira-folha-corta-a-mão que sua avó tinha no quintal. Ainda quente, coloque numa xícara alta, decorada, a que você acha linda e que, de preferência, tenha sido um presente intuitivo de um amigo que você ama. Coloque-a ao lado do computador e curta devagar o prazer de segurá-la por inteiro, os quatro dedos na alça grossa, a outra mão que abraça o copo. Logo você se sentirá mais aquecida e menos trêmula. Feche os olhos por instantes, respire devagar, sinta o aroma. Tome o chá em pequenos goles intercalados, entre hiatos de pensamentos tristes, questões insolúveis, cansaço criativo. Ensaie um texto, escreva sonhos cansados e espere o poema.
terça-feira, fevereiro 24, 2009
Sanidade Mental
Estou aqui por um motivo simples. Preciso de um atestado de sanidade mental (por que diabos estou com a mão fria?). Ah, questões de admissão em emprego, aprovada em primeiro lugar, obrigada (cof, cof). Sim, estou bem, sou daqui mesmo, professora, acho que por vocação (que divã esquisito). Tenho uma filha adolescente, detalhe importante. Hã? Vida afetiva? Nula, quer dizer, não que eu seja contra, mas no momento, assim, sozinha (contenha-se). Sim, houve alguém, já faz um tempo (sem detalhes sua burra). Fui casada, contribui com a instituição (sorriso amarelo). Amigos, poucos, às vezes um cinema, um encontro na casa de alguém, muitos conhecidos (preguiça mortal de gente, silêncio, por favor). Estou bem, sim, feliz pela aprovação, claro. Imagine, obrigada (meu cabelo está horrível, estou sem batom e meu tênis está um lixo). Depressão? Não que eu saiba. Dores de estimação, melancolias, tristeza, isso sim, de vez em quando com motivos acho que justificados, quase sempre. Religião? Ah, sim, católica não praticante, quase agnóstica (perdão, Deus). Psicanálise freudiana? Não, fiz algo assim, terapia meio gestalt, meio transpessoal (santa, cale a boca). Caminho sim, exercícios regulares (descarada), gosto bastante embora tenha pouco tempo (o que isso tem a ver?). Passei no teste? Ah, que bom, obrigada. Como? Desculpe, não entendi. Bem, é fácil me conhecer, só me ligar (cretino). Caminhar juntos, por que não? Amanhã, sim (danou-se), combinado. Ligo sim, pode deixar (morri).
segunda-feira, janeiro 12, 2009
De imaginários e iconografias
(porque o real é aquilo que imagino)
Índole Investigativa
Amo tudo aquilo com o qual me envolvo. E funciona assim com coisas, conteúdos, pessoas. E o envolvimento nem sempre é desejável, nem sempre é voluntário. Conheço, muitas vezes por algum estímulo mais ou menos consciente, fruto de alguma escolha ou obrigação. E é assim que disponho-me a abrir para investigar, ver, relacionar, ouvir, compreender. E este esforço me salva do tédio, cria redes de significado, começa a fazer parte de mim de alguma forma. Então, independente do universo de valor deste objeto, ele passa a ser amado. Num contexto onde todos só querem se envolver com aquilo que amam, eu, ao contrário, apaixono-me por tudo aquilo com o qual me envolvo.
Iconoclastia
Reencontrei um antigo namorado. Um ex-namorado importante, vale dizer. Ele é casado e me convidou para jantar em sua casa. Numa reunião com amigos íntimos, coloquei o convite em pauta. As opiniões se dividiram. Alguns acharam que eu deveria ir, seria uma forma de transformar a relação, profanar o ícone como uma referência intocável do passado (isso ajudaria no presente, argumentaram). Outros opinaram que não. Seria de uma formalidade constrangedora e desnecessária, quase uma dor. E, depois, quem disse que é bom destruir referências? Desde que não nos imobilizem, modelos ideais servem como parâmetros daquilo que realmente importa, refúgios em momentos de aridez emocional.
Amo tudo aquilo com o qual me envolvo. E funciona assim com coisas, conteúdos, pessoas. E o envolvimento nem sempre é desejável, nem sempre é voluntário. Conheço, muitas vezes por algum estímulo mais ou menos consciente, fruto de alguma escolha ou obrigação. E é assim que disponho-me a abrir para investigar, ver, relacionar, ouvir, compreender. E este esforço me salva do tédio, cria redes de significado, começa a fazer parte de mim de alguma forma. Então, independente do universo de valor deste objeto, ele passa a ser amado. Num contexto onde todos só querem se envolver com aquilo que amam, eu, ao contrário, apaixono-me por tudo aquilo com o qual me envolvo.
Iconoclastia
Reencontrei um antigo namorado. Um ex-namorado importante, vale dizer. Ele é casado e me convidou para jantar em sua casa. Numa reunião com amigos íntimos, coloquei o convite em pauta. As opiniões se dividiram. Alguns acharam que eu deveria ir, seria uma forma de transformar a relação, profanar o ícone como uma referência intocável do passado (isso ajudaria no presente, argumentaram). Outros opinaram que não. Seria de uma formalidade constrangedora e desnecessária, quase uma dor. E, depois, quem disse que é bom destruir referências? Desde que não nos imobilizem, modelos ideais servem como parâmetros daquilo que realmente importa, refúgios em momentos de aridez emocional.
quinta-feira, novembro 27, 2008
Clarice

Psicologicamente parece que fui muito condicionada. Mas sou livre: minha liberdade é escrever. Foi escolha ao que parece.
Minha liberdade? Minha própria liberdade não é livre: corre sobre trilhos invisíveis. Nem a loucura é livre. Mas também é verdade que a liberdade sem uma diretiva seria uma borboleta voando no ar. Mas no sonho dos acordados há uma ligeireza inconseqüente de riacho borbulhando e correndo. O estado de ser. A improvisação como modo de viver (...). Como é que se pode aprisionar um instante de beleza? E nem se pode aprisionar a harmonia. Tudo que é mais valioso não passa de um momento rápido – e logo extinto – de libertação (...).
Estou cega pelo desejo de liberdade.
Ser livre – livre de mim mesma, esse mim que foi trucidado pelo excesso secante de idéias.
Quando quero ficar livre, fico sozinha, e nua e sobretudo sem relógio.
___________________________________
Para me divertir eu poderia inventar muitos fatos e histórias, inventar é fácil e não me falta a capacidade. Mas não quero usar esse dom que eu desprezo, pois "sentir"é mais inalcançável e ao mesmo tempo mais arriscado. Sentindo-se pode-se cair num abismo mortal.
O que procuro? Procuro o deslumbramento. O deslumbramento que eu só conseguirei através da abstração total de mim.
Eu quero não a idéia e sim o nervo do sonho que resulta na única realidade onde posso encontrar uma verdade. É como se eu tivesse inventado a vida - e - fiat lux. Mas o deslumbramento que eu tenho dura o espaço instantâneo de uma visão e eis-me de novo no escuro.
Como posso subir, senão aceitando minha miséria humana.
Minha liberdade? Minha própria liberdade não é livre: corre sobre trilhos invisíveis. Nem a loucura é livre. Mas também é verdade que a liberdade sem uma diretiva seria uma borboleta voando no ar. Mas no sonho dos acordados há uma ligeireza inconseqüente de riacho borbulhando e correndo. O estado de ser. A improvisação como modo de viver (...). Como é que se pode aprisionar um instante de beleza? E nem se pode aprisionar a harmonia. Tudo que é mais valioso não passa de um momento rápido – e logo extinto – de libertação (...).
Estou cega pelo desejo de liberdade.
Ser livre – livre de mim mesma, esse mim que foi trucidado pelo excesso secante de idéias.
Quando quero ficar livre, fico sozinha, e nua e sobretudo sem relógio.
___________________________________
Para me divertir eu poderia inventar muitos fatos e histórias, inventar é fácil e não me falta a capacidade. Mas não quero usar esse dom que eu desprezo, pois "sentir"é mais inalcançável e ao mesmo tempo mais arriscado. Sentindo-se pode-se cair num abismo mortal.
O que procuro? Procuro o deslumbramento. O deslumbramento que eu só conseguirei através da abstração total de mim.
Eu quero não a idéia e sim o nervo do sonho que resulta na única realidade onde posso encontrar uma verdade. É como se eu tivesse inventado a vida - e - fiat lux. Mas o deslumbramento que eu tenho dura o espaço instantâneo de uma visão e eis-me de novo no escuro.
Como posso subir, senão aceitando minha miséria humana.
____________________
Clarice Lispector apud Borelli, Olga. Esboço Para um Possível Retrato. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1981.
Clarice Lispector apud Borelli, Olga. Esboço Para um Possível Retrato. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1981.
domingo, novembro 02, 2008
Dicionário de Pequenas Coisas
Felicidade
Como o pudim de chocolate diet e penso como sou feliz neste momento. Com tudo que aprendi sobre ser inteiro no instante, mesmo que tudo seja tão limitado, que eu tenha uma bagagem nem sempre tão boa ou agradável ou mesmo que chova amanhã. Hoje, agora, sinto-me feliz e isto é bom.
Saudade
E foi então que olhei pra você e você pareceu diferente. Ou meus olhos haviam mudado? Era curioso e triste. Eu gostava dos meus olhos antigos pousados sobre os seus gestos, sua solicitude, sua delicada forma de amar. Agora, você era alguém que eu não conhecia e isso era ao mesmo tempo libertador e solitário. Era bom ter você em mim.
Solidão
Tenho preguiça de gente. E eu idem. Mas, pense, não se pode viver sozinho. Sim, mas preciso de momentos de solidão. Reunião com mais de cinco, não se vê ninguém. Estar com mais de cinco é uma forma de preservar-se, de permanecer sozinho. Certo, mas então para quê estar? Sei lá, é bom, às vezes. Não ser sempre profundo, não ser sempre direto, não ser sempre sério. Estar com pessoas assim, sem objetivo definido, sem a alma alerta, com o espírito desarmado pelo passado ou pelo futuro. Simplesmente estar. Estar distraído em grupo pode produzir milagres.
Memória
E de repente, em meio à fala protocolar, você fez algo antigo: mordeu os lábios para umedecê-los. E foi aí que eu me lembrei do suave gesto de contorná-los, como se com a ponta dos dedos eu pudesse guardar sua boca. E todo o resto irrompeu-se num mar de gostos, aromas e salivas fluidas.
Como o pudim de chocolate diet e penso como sou feliz neste momento. Com tudo que aprendi sobre ser inteiro no instante, mesmo que tudo seja tão limitado, que eu tenha uma bagagem nem sempre tão boa ou agradável ou mesmo que chova amanhã. Hoje, agora, sinto-me feliz e isto é bom.
Saudade
E foi então que olhei pra você e você pareceu diferente. Ou meus olhos haviam mudado? Era curioso e triste. Eu gostava dos meus olhos antigos pousados sobre os seus gestos, sua solicitude, sua delicada forma de amar. Agora, você era alguém que eu não conhecia e isso era ao mesmo tempo libertador e solitário. Era bom ter você em mim.
Solidão
Tenho preguiça de gente. E eu idem. Mas, pense, não se pode viver sozinho. Sim, mas preciso de momentos de solidão. Reunião com mais de cinco, não se vê ninguém. Estar com mais de cinco é uma forma de preservar-se, de permanecer sozinho. Certo, mas então para quê estar? Sei lá, é bom, às vezes. Não ser sempre profundo, não ser sempre direto, não ser sempre sério. Estar com pessoas assim, sem objetivo definido, sem a alma alerta, com o espírito desarmado pelo passado ou pelo futuro. Simplesmente estar. Estar distraído em grupo pode produzir milagres.
Memória
E de repente, em meio à fala protocolar, você fez algo antigo: mordeu os lábios para umedecê-los. E foi aí que eu me lembrei do suave gesto de contorná-los, como se com a ponta dos dedos eu pudesse guardar sua boca. E todo o resto irrompeu-se num mar de gostos, aromas e salivas fluidas.
.
Discussão
.
Calou-se diante de tão brilhantes argumentos. Fixou-se no saleiro em forma de pinguim sobre a mesa e permaneceu ali, intimamente concentrado, quase feliz.
Adélia Prado
Exausto
Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.
Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.
sexta-feira, outubro 31, 2008
Arte Poética
Vai, poema, procura
a voz literal que desocultamente fala
sob tanta literatura.
Se a escutares, porém, tapa os ouvidos,
porque pela primeira vez estás sozinho.
Regressa então, se puderes,
pelo caminho das interpretações e dos sentidos.
Mas não olhes para trás, não olhes para trás,
ou jamais te perderás;
e teu canto, insensato,
será feito só de melancolia e de despeito.
E de discórdia.
E todavia
sob tanto passado insepulto
o que encontraste senão tumulto,
senão de novo ressentimento e ironia?
(Manuel Antônio Pina)
a voz literal que desocultamente fala
sob tanta literatura.
Se a escutares, porém, tapa os ouvidos,
porque pela primeira vez estás sozinho.
Regressa então, se puderes,
pelo caminho das interpretações e dos sentidos.
Mas não olhes para trás, não olhes para trás,
ou jamais te perderás;
e teu canto, insensato,
será feito só de melancolia e de despeito.
E de discórdia.
E todavia
sob tanto passado insepulto
o que encontraste senão tumulto,
senão de novo ressentimento e ironia?
(Manuel Antônio Pina)
quarta-feira, julho 23, 2008
As Pedras
(...) Ah, a rara morte, quero esclarecer, quatro ou cinco ao longo da minha vida. Com as outras, tudo normal ou quase, o choque. A introspecção com a consolação filosofante. O apego a Deus e aos poucos aquela paciente cristalização da dor, pequenas pedras que vou guardando, de vez em quando tomo uma, sinto-lhe a forma, a cor, e afetuosamente a devolvo ao seu lugar. Mas há certas mortes que nos remetem à infância, ao medo das noites escuras que não vão amanhecer (...)
____
(Solo de Clarineta. Lygia Fagundes Teles, em Conspiração de Nuvens).
segunda-feira, julho 07, 2008
Clarice
Agora sei: sou só. Eu e minha liberdade que não sei usar. Grande responsabilidade da solidão. Quem não é perdido não conhece a liberdade e não a ama. Quanto a mim, assumo a minha solidão. Que às vezes se extasia como diante de fogos de artifício. Sou só e tenho que viver uma certa glória íntima que na solidão pode se tornar dor. E a dor, silêncio. Guardo o seu nome em silêncio. Preciso de segredos para viver.
(Clarice Lispector. Água Viva)
domingo, junho 29, 2008
Sinceros Demais
Passei da idade de ter amigos sinceros.
Quero ter amigos fofos. Pessoas que me amem de forma simples.
Quando quiser sinceridade, pago um terapeuta.
(algo mais ou menos assim, que li por aqui)
Quero ter amigos fofos. Pessoas que me amem de forma simples.
Quando quiser sinceridade, pago um terapeuta.
(algo mais ou menos assim, que li por aqui)
sexta-feira, junho 27, 2008
Realidade
Você viu que horror a história do pai que esfaqueou o filho pequeno?
-As crianças andam muito chatas.
***
Por que você acha que prefere contos às dissertações?
-Estou farta de realidade.
***
-Quem é você, afinal?
-Eu sou este momento.
-As crianças andam muito chatas.
***
Por que você acha que prefere contos às dissertações?
-Estou farta de realidade.
***
-Quem é você, afinal?
-Eu sou este momento.
sábado, junho 07, 2008
Eternidade
Ver o mundo num grão de areia,
Um céu numa flor silvestre,
Ter o infinito na palma da sua mão
E a eternidade numa hora.
(William Blake)
Era sábado na hora sagrada da manhã de sol. Liguei para um amigo que estranhou logo o pedido: preciso vê-lo agora. Mas, aconteceu alguma coisa? Não, nada. Mas, mas. Tem que ser agora. E daí a alguns minutos, eu corria pela rua para dar-lhe um presente de alma: o livro. Um que fala da beleza em todas as coisas, das nossas motivações mais profundas, da beleza da dor, da solidão e dos riscos de seguirmos nossos próprios caminhos. Fala da eternidade na hora pequena em que a manhã de sol nos inspira e nos faz sentir. O livro me recolocou naquela manhã solitária em que eu aguardava os alunos do curso. Eu o vi por acaso e o li por motivo nenhum, numa dessas horas inúteis em que tudo acontece. Ele me fez rever motivações íntimas, e, por alguns instantes, naquele espaço de frios rituais acadêmicos, lembrei-me de quem eu era. Eu precisava compartilhar. Ele não compreendeu, mas aceitou o livro e foi embora. Eu voltei para a sala com a sensação de dever cumprido. Falei com alunos e professores em outros tons, reencontrei uma velha amiga no pátio e choramos juntas por motivo algum. E era sábado. Em uma intensa manhã de sol morno.
Um céu numa flor silvestre,
Ter o infinito na palma da sua mão
E a eternidade numa hora.
(William Blake)
Era sábado na hora sagrada da manhã de sol. Liguei para um amigo que estranhou logo o pedido: preciso vê-lo agora. Mas, aconteceu alguma coisa? Não, nada. Mas, mas. Tem que ser agora. E daí a alguns minutos, eu corria pela rua para dar-lhe um presente de alma: o livro. Um que fala da beleza em todas as coisas, das nossas motivações mais profundas, da beleza da dor, da solidão e dos riscos de seguirmos nossos próprios caminhos. Fala da eternidade na hora pequena em que a manhã de sol nos inspira e nos faz sentir. O livro me recolocou naquela manhã solitária em que eu aguardava os alunos do curso. Eu o vi por acaso e o li por motivo nenhum, numa dessas horas inúteis em que tudo acontece. Ele me fez rever motivações íntimas, e, por alguns instantes, naquele espaço de frios rituais acadêmicos, lembrei-me de quem eu era. Eu precisava compartilhar. Ele não compreendeu, mas aceitou o livro e foi embora. Eu voltei para a sala com a sensação de dever cumprido. Falei com alunos e professores em outros tons, reencontrei uma velha amiga no pátio e choramos juntas por motivo algum. E era sábado. Em uma intensa manhã de sol morno.
domingo, junho 01, 2008
Mosaico
Há pouco descobri-me um mosaico de contradições.
Quero ouvir outros sons que não os da minha dor híbrida.
Os da minha ansiedade mundana ou da minha solidão sagrada.
Irrito-me com a TV da sala
e a velha música barroca não abafa os meus gritos.
Tem alguém aí? Alguém menos surdo, cego e incapaz?
Alguém menos limitado e com esperança? Não há resposta.
Concentro-me no diálogo do cello com o violino e eles choram.
Aumento o volume. Quero ouvir meus próprios sons.
As horas não passam, os dias não passam, a vida parece eterna
e é tudo tão lento, frágil e inútil. Escrevo até cansar os dedos,
embotar a mente, até que o cansaço me cale a voz, o corpo,
o medo de encarar a noite e os sons deste silêncio surdo.
E eu que pensei que não havia enredo nesta trama,
fio condutor nestes fragmentos, estilhaços de um mosaico
em que revejo-me inteira, inacabada, estranha e exausta.
Preciso acompanhar as variações do violino.Elas haverão de levar-me
a um lugar de sentido.Os sons inundam a sala. Imagino espaços,
visualizo pessoas, mas o allegro se transforma em adágio
e novamente me disperso, ouço os sons do teclado,
os chiados abafados da TV vindos da sala. O oboé me resgata.
Deixo-me levar por um cravo que recomeça.
Um violino costura tudo e parece contar uma história.
Quero ouvir outros sons que não os da minha dor híbrida.
Os da minha ansiedade mundana ou da minha solidão sagrada.
Irrito-me com a TV da sala
e a velha música barroca não abafa os meus gritos.
Tem alguém aí? Alguém menos surdo, cego e incapaz?
Alguém menos limitado e com esperança? Não há resposta.
Concentro-me no diálogo do cello com o violino e eles choram.
Aumento o volume. Quero ouvir meus próprios sons.
As horas não passam, os dias não passam, a vida parece eterna
e é tudo tão lento, frágil e inútil. Escrevo até cansar os dedos,
embotar a mente, até que o cansaço me cale a voz, o corpo,
o medo de encarar a noite e os sons deste silêncio surdo.
E eu que pensei que não havia enredo nesta trama,
fio condutor nestes fragmentos, estilhaços de um mosaico
em que revejo-me inteira, inacabada, estranha e exausta.
Preciso acompanhar as variações do violino.Elas haverão de levar-me
a um lugar de sentido.Os sons inundam a sala. Imagino espaços,
visualizo pessoas, mas o allegro se transforma em adágio
e novamente me disperso, ouço os sons do teclado,
os chiados abafados da TV vindos da sala. O oboé me resgata.
Deixo-me levar por um cravo que recomeça.
Um violino costura tudo e parece contar uma história.
sexta-feira, maio 30, 2008
Salgadas e Puras
Há tempos assim, estéreis de palavras. Em outros, entretanto, elas nos chegam como dádivas, lampejos de esperança. Aqui, em um texto curto e engenhoso de minha filha, a reflexão sobre a inexorabilidade do destino, sobre o amor e a morte e, ainda, instantes de beleza em momentos únicos.
Salgadas e Puras
Salgadas e Puras
Maria Clara Capel
“Você vai morrer num lugar com água”, foram suas últimas palavras antes que a sessão terminasse. Estupefato, não desprendia meus olhos de sua face, esperando, esperançosamente, que ela dissesse mais algumas palavras. Talvez, só uma, uma bastaria. Água suja? Água de esgoto? Isso sim me previniria. Mas água? Logo água? “Dona, você tem certeza?” perguntei-lhe em tom de súplica, e logo completei: “Sou nadador, entro sempre na água. Como é que eu vou conseguir entrar na piscina novamente sabendo que posso morrer?! Olhos frios, ela disse apenas:“Água, água salgada e pura”.
“Você vai morrer num lugar com água”, foram suas últimas palavras antes que a sessão terminasse. Estupefato, não desprendia meus olhos de sua face, esperando, esperançosamente, que ela dissesse mais algumas palavras. Talvez, só uma, uma bastaria. Água suja? Água de esgoto? Isso sim me previniria. Mas água? Logo água? “Dona, você tem certeza?” perguntei-lhe em tom de súplica, e logo completei: “Sou nadador, entro sempre na água. Como é que eu vou conseguir entrar na piscina novamente sabendo que posso morrer?! Olhos frios, ela disse apenas:“Água, água salgada e pura”.
Entreguei o dinheiro e voltei para casa pensando no que poderia significar água salgada e pura, características aparentemente tão contrárias. A antítese martelava em minha cabeça quando, ainda meio tonto, abri a porta de casa. Minha esposa veio até mim, permitindo-me um rápido beijo e me puxando pela mão. Não entendi o alvoroço, mas a segui até o quarto, onde revistas se espalhavam por todo o carpete, algumas abertas e marcadas.
“Decidi onde vamos passar as férias”, ela exclamou sorrindo. Perguntei-lhe aonde, e ela apenas estendeu uma das revistas. Talvez tenha ficado ali apenas dois minutos, mas pareceram-me décadas, admirando as “Ilhas do Sol, onde você escolhe entre as águas do mar, ou os lagos da maior pureza”. Sim, ali estava a resposta, um lugar de águas salgadas e lagos puros. Olhava a página como um homem olha o seu próprio caixão.
Se não fui? Sim. De início relutei. Tentei convencê-la de outro lugar. Mas ela não aceitava, me acusava de frieza e ausência. Por fim cedi, pois que o destino decidisse, afinal, não foi fugindo que Édipo conseguiu rompê-lo.
Chegamos à ilha no fim da tarde, e o quarto de hotel ainda estava ocupado. Resolvemos dar uma volta e conhecer a praia sem compromissos. De mãos dadas andávamos descalços pisando na areia fofa, enquanto o sol e sua luz fraca, mas acolhedora, nos iluminava a cabeça. Virei-me e olhei-a. Ela chorava. Emocionada, não resistia ao sol e me abraçava. Lágrimas salgadas e ao mesmo tempo tão puras, transformaram minha antítese num paradoxo, e sim, matavam-me, e reviviam-me após aquele momento.
quinta-feira, novembro 08, 2007
sexta-feira, outubro 12, 2007
Mário Quintana
"E quase que escurece a chama triste"...
(Os Parceiros. Apontamentos de História Sobrenatural, Mário Quintana, p.161)
_________________________________
A Sue me passou uma brincadeira literária. As regras eram assim:
1ª) Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);
2ª) Abra-o na página 161;
3ª) Procurar a 5ª frase completa;
4ª) Postar essa frase em seu blog;
5ª) Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6ª) Repassar para outros 5 blogs (como não havia advertências ao descumprimento desta regra, como boa aquariana, escolhi esta para quebrar).
(Os Parceiros. Apontamentos de História Sobrenatural, Mário Quintana, p.161)
_________________________________
A Sue me passou uma brincadeira literária. As regras eram assim:
1ª) Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);
2ª) Abra-o na página 161;
3ª) Procurar a 5ª frase completa;
4ª) Postar essa frase em seu blog;
5ª) Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6ª) Repassar para outros 5 blogs (como não havia advertências ao descumprimento desta regra, como boa aquariana, escolhi esta para quebrar).
quinta-feira, outubro 11, 2007
Travessia
Sonhei que havia morrido. Na verdade, fiquei pouco tempo morta, porque voltei, para a decepção de alguns. Para passar dessa para uma melhor, precisei atravessar uma porta rústica. Imaginem a expectativa. Respirei fundo e fui com a coragem leviana que me é característica. Era uma porta mal pintada, como dessas casas que a gente começa a reformar e não termina nunca. Do outro lado, surpresa, nada de anjinhos cantando ou mesmo a balança implacável da Deusa Maat querendo pesar meu coração sincero com uma peninha de contrapeso. Nada disso. O céu (será que era céu?) era um espaço como o dos bastidores dos teatros. Havia cadeiras empilhadas, mesas, roupas. Tudo muito bagunçado. Procurei pessoas e foi então que pude ver salas que pareciam ambulatórios médicos do SUS. Pessoas sentadas em macas submetiam-se a testes. Saiam daqui que esse sonho não lhes pertence, decretei em pensamento por segurança, porque os sonhos são mesmo ilógicos e eu estava desorientada. Pedi informações a alguém que parecia mais apressado que o coelho de Alice. Perguntei-lhe onde era o inferno e ele me mostrou uma cratera flamejante (por que eu queria saber isso, deus do céu?). Nós, candidatos aos Campos de Ialu egípcios deveríamos saltar sobre ele para continuar o caminho. Todavia, o coelho me mandou voltar, pois ainda não era a hora de fazer a travessia. Dirigi-me obediente para a direção de onde havia entrado, sem olhar pra trás porque me lembrei de Orfeu. Rezei para o João do Pulo. Hora de encarnar a personagem humana novamente, ahneim (ô especiezinha degenerada e sem solução). De tudo, achei o lugarzinho ruim. Pior do que aqui? Ah, sei lá. Aqui, pelo menos, quando a coisa aperta a gente olha o céu e espera alguma nave mãe.terça-feira, outubro 09, 2007
Cidade de Goiás: meu delírio fundador
Sou uma mulher sem passado. Nunca visitei a cidade em que nasci. Não tenho conhecidos ou parentes na localidade. Uma amiga disse que tive sorte. Que cidades que começam com essa sílaba não costumam dar boa coisa, e, portanto, melhor que eu não me considerasse filha de tal rincão. Nasci em Cuiabá, e não espalhem o fato, se me fazem um favor. Por outro lado, fui plantada em Goiás. Numa cidade criada e, também, sem raízes como eu: Goiânia. Goiânia e eu não temos passado, portanto. Somos rizomáticas e nossas relações são horizontais e sempre novas. Mas, para seguir a moda, podemos inventar um passado, um mito pessoal fundador. Daí resolvi que quero ter origens na Cidade de Goiás. Ô cidade boa. Quero ser uma Fleury Godoy, daquela família de onde saíram as mulheres escritoras, as aparentadas do Bernardo Élis, sabem como é? Não estudei na Cidade de Goiás, mas voltarei lá nos anos de madureza e poderei me estabelecer na “casa de mamãe”. Quero uma construção colonial próxima ao mercado. Local onde irei, anônima, tomar suco de cajuzinho do campo e comer pastel de queijo. Nas manhãs ensolaradas lerei os clássicos que sempre quis ler e nunca tive como, escreverei coisas sem importância. Ouvirei os sinos das igrejas chamando para os serviços e acreditarei em Deus e nos santos. Em tardes quentes, dormirei numa rede preguiçosa e me sentarei à porta ao final do dia para cumprimentar os passantes, encontrar os amigos. Quando acontecer, vou, também, batalhar para acabarem com esse negócio de patrimônio e de festival de cinema. Quero a Cidade de Goiás assim: quente de provocar miragens, indolente, daquele jeito despreocupado de quem tem tudo que precisa e se orgulha de ser assim. Quero a cidade de Goiás intocável, todinha pra mim. Nasci lá, sabiam? terça-feira, setembro 04, 2007
Das Sensibilidades
segunda-feira, agosto 13, 2007
quinta-feira, junho 14, 2007
Dever Materno
-Preciso falar com você. Quero te dizer que não gosto de viver sózinha. Isto não é modelo de vida.
Anhan.
-E que se eu tivesse outra formação inicial, nunca faria história, que alguns chamam de “subcurso espera-marido”.
Tá.
-E que pessoas heterossexuais tendem a viver de forma menos complicada.
Hum.
-E que que filhos devem ter pai e mãe.
Certo.
-E que as pessoas devem ir à igreja e acreditar em Deus.
Preciso ir à igreja para acreditar em Deus? Ok
-E que não permitirei mais que você tome coca-cola todos os dias, não adianta reclamar.
Pare de me olhar com essa cara e fale alguma coisa!
Vou tomar suco de laranja a partir de hoje. Estou dispensada?
Anhan.
-E que se eu tivesse outra formação inicial, nunca faria história, que alguns chamam de “subcurso espera-marido”.
Tá.
-E que pessoas heterossexuais tendem a viver de forma menos complicada.
Hum.
-E que que filhos devem ter pai e mãe.
Certo.
-E que as pessoas devem ir à igreja e acreditar em Deus.
Preciso ir à igreja para acreditar em Deus? Ok
-E que não permitirei mais que você tome coca-cola todos os dias, não adianta reclamar.
Pare de me olhar com essa cara e fale alguma coisa!
Vou tomar suco de laranja a partir de hoje. Estou dispensada?
domingo, março 25, 2007
Você tem um grande amor pra lembrar?
Foi a pergunta que rolou. A maioria tinha e gostaria de preservar a memória. Para manter alcançável a inocência perdida e sempre almejada do amor ideal, para refugiar-se quando a construção cotidiana do amor fosse tão difícil, para não perder a esperança e a fé no amor. Dor de amor inocente é a mais dolorida, disseram. A gente ainda não sabe que vai sobreviver. Grande amor do passado deve ficar bem guardado no arquivo morto, para não interferir nos amores do presente. Afinal, amor é ralação. Chato, trabalhoso. Mas, possível.
sábado, março 10, 2007
Sophia, ainda.

Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.
Gosto de uivar no vento com os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.
A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.
(Pirata, Sophia de Mello Breyner Andresen)
Vida Responsável
Conduzir mas sem ter um acidente,
comprar massas e desodorantes
e cortar as unhas às minhas filhas.
Madrugar outra vez e ter cuidado
Em não dizer inconveniências,
Esmerar-me na prosa de umas folhas
E estou-me nas tintas para elas,
Retocar de vermelho cada face.
Lembrar-me da consulta ao pediatra,
Responder ao correio, estender roupa,
Declarar rendimentos, ler uns livros,
Fazer umas chamadas telefônicas.
Bem gostaria de me dar ao luxo
De ter o tempo todo que quisesse
Para fazer só coisas esquisitas,
Coisas desnecessárias, prescindíveis
E, sobretudo, inúteis e patetas.
Por exemplo, amar-te com loucura.
(Amália Bautista, Espanha, 1962)
comprar massas e desodorantes
e cortar as unhas às minhas filhas.
Madrugar outra vez e ter cuidado
Em não dizer inconveniências,
Esmerar-me na prosa de umas folhas
E estou-me nas tintas para elas,
Retocar de vermelho cada face.
Lembrar-me da consulta ao pediatra,
Responder ao correio, estender roupa,
Declarar rendimentos, ler uns livros,
Fazer umas chamadas telefônicas.
Bem gostaria de me dar ao luxo
De ter o tempo todo que quisesse
Para fazer só coisas esquisitas,
Coisas desnecessárias, prescindíveis
E, sobretudo, inúteis e patetas.
Por exemplo, amar-te com loucura.
(Amália Bautista, Espanha, 1962)
quinta-feira, março 08, 2007
Espera
terça-feira, março 06, 2007
Questão de Lógica
Depois de chegar do WR, aquele colégio estilo militar que me deprime - criado para candidatos a medicina - em que os alunos estudam os três períodos do dia e que custa uma fábula:
-Mãe, a Rayssa vai fazer veterinária.
-Hum, credo.
-Nem vem. O pai dela é veterinário, portanto, ela vai fazer veterinária.
-Anhan, interessante, boa sorte pra ela.
-Então, continuando o raciocínio: minha mãe é professora de história, portanto...
-Mãe, a Rayssa vai fazer veterinária.
-Hum, credo.
-Nem vem. O pai dela é veterinário, portanto, ela vai fazer veterinária.
-Anhan, interessante, boa sorte pra ela.
-Então, continuando o raciocínio: minha mãe é professora de história, portanto...
Procelária

(Sophia de Mello Breyner Andresen)
É vista quando há vento e grande vaga
É vista quando há vento e grande vaga
Ela faz o ninho no rolar da fúria
E voa firme e certa como bala
As suas asas empresta
à tempestade
Quando os leões do mar rugem nas grutas
Sobre os abismos passa e vai em frente
Ela não busca a rocha o cabo o cais
Mas faz da insegurança a sua força
E do risco de morrer seu alimento
Por isso me parece imagem justa
Para quem vive e canta no mau tempo
__________________
(Toda a luminosidade dos poemas de Sophia de Mello Breyner, na voz profunda de Maria Bethânia, em Mar de Sophia. É de chorar).
quinta-feira, março 01, 2007
Assuntos Mórbidos
Alguém pode me explicar por favor, por qual motivo vejo um carro de funerária quase que diariamente nos últimos três anos? Fênix, Funerária São Paulo, Pax Domini...meus amigos lunáticos diriam que vivo uma lenta morte simbólica e, por esse motivo, os atraio. Bom, melhor do que encontrar ambulâncias ou o carro da rotam, não é?
++++++++
Um amigo me contou que foi a uma festa na casa de um dono de funerária. Ele tem um jardim, que chamou de mater alguma coisa e que é dedicado à sua mãe já falecida. Entre árvores e plantas ornamentais, um objeto pessoal da mãe é iluminado junto à imagem de uma das versões da Virgem Maria. Eu hein?!!
Um amigo me contou que foi a uma festa na casa de um dono de funerária. Ele tem um jardim, que chamou de mater alguma coisa e que é dedicado à sua mãe já falecida. Entre árvores e plantas ornamentais, um objeto pessoal da mãe é iluminado junto à imagem de uma das versões da Virgem Maria. Eu hein?!!
++++++++
Morrer dá trabalho, mas já tive vontade, sim, não nego. Tinha que ser num dia sem sol (nunca pela manhã) , sem alunos, nem filhos por perto. Isso seria um péssimo exemplo, credo. Pensando nisso vejo que tenho muita culpa cristã e pouca coragem.
++++++++
Meus amigos planejam seus funerais quando estão sem assunto. Um deles quer distribuir as cinzas entre os amigos. Cada um de nós deverá guardar sua porção e levá-la, num dia indicado no testamento, a um lugar do mundo. Se ele não deixar as passagens, acho que prefiro morrer antes.
Estrangeiro

Entre um rosto e um retrato
O real e o abstrato
Entre a loucura e a lucidez
Entre o uniforme e a nudez
Entre o fim do mundo e o fim do mês
Entre a verdade e o rock inglês
Entre os outros e vocês
Eu me sinto um estrangeiro
Passageiro de algum trem
Que não passa por aqui
Que não passa de ilusão
Entre mortos e feridos
Entre gritos e gemidos
A mentira e a verdade
A solidão e a cidade
Entre um copo e outro
Da mesma bebida
Entre tantos corpos
Com a mesma ferida
Eu me sinto um estrangeiro
Passageiro de algum trem
Que não passa por aqui
Que não passa de ilusão
Entre a crença e os fiéis
Entre os dedos e os anéis
Entra ano e sai ano
Sempre os mesmos planos
Entre a minha boca e a tua
Há tanto tempo, há tantos planos
Mas eu nunca sei
Pra onde vamos
Eu me sinto um estrangeiro
Passageiro de algum trem
Que não passa por aqui
Que não passa de ilusão
(Humberto Gessinger, Engenheiros do Hawaii, A Revolta dos Dândis I)
quarta-feira, fevereiro 28, 2007
A Posse
A gente pode se submeter a tudo na vida, mas vender a alma, jamais.
______________________________________
Instituto Histórico Geográfico de Goiás
Discurso de Posse - Heloisa Capel - Sócia Titular, Cadeira n. 29
27/02/07
Recebi a visita de um fantasma no último feriado. Um ilustre espectro que me fez rir e indignar-me com o tom de sua conversa um tanto irônica, mas não menos atrativa em seu conteúdo: Machado de Assis. Relemos dois de seus contos definitivos e passamos os dias de descanso em animada discussão a respeito dos temas de sua narrativa: o homem, as aparências, os cargos, as convenções sociais. Refiro-me, de forma específica, a dois de seus contos: Teoria do Medalhão e o Espelho.
No primeiro, Machado de Assis apresenta-nos um pai que aconselha o jovem filho. Ensina-o a como ser um “medalhão”, um notável social. Para isso, explica, como sem adotar filosofia alguma ou desenvolver imaginação deve sorrir sob qualquer circunstância, manter atitudes de neutralidade em todas as questões, usar - de preferência - palavras sem significado, nunca ficar desacompanhado - porque a solidão é uma oficina de idéias - e não se deve ter idéias próprias para não ter que escondê-las. Cultivar atitudes, enfim, que o façam parecer, sempre, o que não é, mas que lhe trazem um nome a ser lembrado sem muitos esforços a não ser o do decoro social.
As leituras não ficaram por aí, entretanto. A teoria do medalhão, como lhe intitulou o próprio autor, coaduna-se com outra, a teoria da alma humana, desenvolvida no segundo conto machadiano, o do Espelho. Neste, Jacobina, a personagem, expõe em uma narrativa autobiográfica, a original idéia de que o homem tem, na verdade, duas almas:
uma que olha de dentro pra fora, outra que olha de fora para dentro.
A alma que olha de fora para dentro pode dominar a outra. Foi o que ocorreu com Jacobina quando foi nomeado Alferes da Guarda Nacional. Desde o episódio, ele não era mais o Jacobina, era o Sr. Alferes. Senhor Alferes era como lhe chamavam os membros da família, os amigos. Era Senhor Alferes para lá, Senhor Alferes para cá, Alferes a toda hora. Um dia, Jacobina encontrou-se sozinho, e as vozes que alimentavam-lhe a alma que olha de fora para dentro e que o reverenciavam como Senhor Alferes, não se encontraram mais ao seu lado. Ele olhou-se no espelho e, surpreso, não conseguiu mais ver sua imagem. Jacobina não sabia mais quem era. Para aquietar-lhe o espírito, precisou vestir-se, rapidamente, de Alferes e só então o Senhor Alferes deixou-se ver, novamente, refletido. Jacobina, ou melhor, o Senhor Alferes, tinha apenas a alma que olha de fora para dentro.
Ah, Machado de Assis e suas metáforas sobre a sociedade. Cansei-me do morto e fui revirar a pilha de livros em busca de vida. Um autor que reverenciasse a vida... um poeta? nada mais adequado. Eis que me surge à mão, um conterrâneo: o poeta Manoel de Barros.
Ao contrário de Machado de Assis, Manoel de Barros não se interessa pelas condecorações, nem pela fama, nem pelas regras sociais. Escreveu livros com os sugestivos títulos: Livro sobre Nada ou mesmo Tratado Geral sobre as Grandezas do Ínfimo. Faz questão de dizer que tem doutorado em formigas e que como poeta, tem um amor legítimo por coisas desimportantes. É dele este poema, ouçam e prestem atenção no final:
Um homem catava pregos no chão.
Discurso de Posse - Heloisa Capel - Sócia Titular, Cadeira n. 29
27/02/07
Recebi a visita de um fantasma no último feriado. Um ilustre espectro que me fez rir e indignar-me com o tom de sua conversa um tanto irônica, mas não menos atrativa em seu conteúdo: Machado de Assis. Relemos dois de seus contos definitivos e passamos os dias de descanso em animada discussão a respeito dos temas de sua narrativa: o homem, as aparências, os cargos, as convenções sociais. Refiro-me, de forma específica, a dois de seus contos: Teoria do Medalhão e o Espelho.
No primeiro, Machado de Assis apresenta-nos um pai que aconselha o jovem filho. Ensina-o a como ser um “medalhão”, um notável social. Para isso, explica, como sem adotar filosofia alguma ou desenvolver imaginação deve sorrir sob qualquer circunstância, manter atitudes de neutralidade em todas as questões, usar - de preferência - palavras sem significado, nunca ficar desacompanhado - porque a solidão é uma oficina de idéias - e não se deve ter idéias próprias para não ter que escondê-las. Cultivar atitudes, enfim, que o façam parecer, sempre, o que não é, mas que lhe trazem um nome a ser lembrado sem muitos esforços a não ser o do decoro social.
As leituras não ficaram por aí, entretanto. A teoria do medalhão, como lhe intitulou o próprio autor, coaduna-se com outra, a teoria da alma humana, desenvolvida no segundo conto machadiano, o do Espelho. Neste, Jacobina, a personagem, expõe em uma narrativa autobiográfica, a original idéia de que o homem tem, na verdade, duas almas:
uma que olha de dentro pra fora, outra que olha de fora para dentro.
A alma que olha de fora para dentro pode dominar a outra. Foi o que ocorreu com Jacobina quando foi nomeado Alferes da Guarda Nacional. Desde o episódio, ele não era mais o Jacobina, era o Sr. Alferes. Senhor Alferes era como lhe chamavam os membros da família, os amigos. Era Senhor Alferes para lá, Senhor Alferes para cá, Alferes a toda hora. Um dia, Jacobina encontrou-se sozinho, e as vozes que alimentavam-lhe a alma que olha de fora para dentro e que o reverenciavam como Senhor Alferes, não se encontraram mais ao seu lado. Ele olhou-se no espelho e, surpreso, não conseguiu mais ver sua imagem. Jacobina não sabia mais quem era. Para aquietar-lhe o espírito, precisou vestir-se, rapidamente, de Alferes e só então o Senhor Alferes deixou-se ver, novamente, refletido. Jacobina, ou melhor, o Senhor Alferes, tinha apenas a alma que olha de fora para dentro.
Ah, Machado de Assis e suas metáforas sobre a sociedade. Cansei-me do morto e fui revirar a pilha de livros em busca de vida. Um autor que reverenciasse a vida... um poeta? nada mais adequado. Eis que me surge à mão, um conterrâneo: o poeta Manoel de Barros.
Ao contrário de Machado de Assis, Manoel de Barros não se interessa pelas condecorações, nem pela fama, nem pelas regras sociais. Escreveu livros com os sugestivos títulos: Livro sobre Nada ou mesmo Tratado Geral sobre as Grandezas do Ínfimo. Faz questão de dizer que tem doutorado em formigas e que como poeta, tem um amor legítimo por coisas desimportantes. É dele este poema, ouçam e prestem atenção no final:
Um homem catava pregos no chão.
Sempre os encontrava deitados de comprido,
ou de lado,ou de joelhos no chão.
Nunca de ponta.
Assim eles não furam mais - o homem pensava.
Eles não exercem mais a função de pregar.
São patrimônios inúteis da humanidade.
Ganharam o privilégio do abandono.
O homem passava o dia inteiro nessa função de catar
pregos enferrujados.
Acho que essa tarefa lhe dava algum estado.
Estado de pessoas que se enfeitam a trapos.
Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser.
Garante a soberania de Ser mais do que Ter.[1]
Leio mais alguns poemas de Manoel de Barros e concluo que Machado gostaria de tê-lo conhecido. Manoel de Barros tem a alma que olha de dentro pra fora.
Mas, afinal, este é um discurso de posse, pelos empossados. Cadeira de número 01, cadeira de número 7, cadeira de número 29, sócios eméritos, sócios correspondentes, sócios honorários. Imagino-os, incluindo-me, ao telefone, daqui a alguns dias: "aqui é o Sócio Emérito, gostaria de falar com a Cadeira número 29, por favor". Será divertido.
Agora, eu deveria falar de nós. Mas, sou novamente assaltada por opiniões alheias. Desta vez por Samuel Beckett, em O inominável, de quem tomo a licença da palavra:
Devo falar agora de nós...
Isto seria um passo
Na direção do silêncio.
E toda esta reflexão é para dizer, afinal, de nossa alegria por estar aqui. A importância do Instituto Histórico Geográfico nós já conhecemos. Sabemos que a instituição, fundada no século XIX, teve um papel preponderante na manutenção de dados sobre a história e a geografia no Brasil e congregou nomes significativos na construção da memória nacional. Em Goiás, o Instituto Histórico e Geográfico, fundado na década de 30, é uma entidade guardiã da documentação sobre a cultura e um centro de estudos que favorece a produção intelectual e literária na região. Isso já sabemos e nos orgulhamos.
Todavia, que toda essa nossa conversa sirva como um chamamento. Que sejamos conhecidos pelo nosso trabalho em prol dos estudos da história, da geografia, do meio ambiente, do folclore, das artes. Em aspectos pontuais, no trabalho diário.
Em consonância com Machado de Assis e Manoel de Barros, que possamos estar sonhados de glicínias e na paciente trajetória de trabalho dos caramujos, nossas almas, as que olham de dentro para fora, estejam inundadas de girassóis.
E, finalmente, que nesta disposição de conchas em nós ouvindo hinos, nossas ações falem pelos títulos que recebemos.
Muito obrigada.
[1]Manoel de Barros, O Catador. In Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo. Record, 2001.
Leio mais alguns poemas de Manoel de Barros e concluo que Machado gostaria de tê-lo conhecido. Manoel de Barros tem a alma que olha de dentro pra fora.
Mas, afinal, este é um discurso de posse, pelos empossados. Cadeira de número 01, cadeira de número 7, cadeira de número 29, sócios eméritos, sócios correspondentes, sócios honorários. Imagino-os, incluindo-me, ao telefone, daqui a alguns dias: "aqui é o Sócio Emérito, gostaria de falar com a Cadeira número 29, por favor". Será divertido.
Agora, eu deveria falar de nós. Mas, sou novamente assaltada por opiniões alheias. Desta vez por Samuel Beckett, em O inominável, de quem tomo a licença da palavra:
Devo falar agora de nós...
Isto seria um passo
Na direção do silêncio.
E toda esta reflexão é para dizer, afinal, de nossa alegria por estar aqui. A importância do Instituto Histórico Geográfico nós já conhecemos. Sabemos que a instituição, fundada no século XIX, teve um papel preponderante na manutenção de dados sobre a história e a geografia no Brasil e congregou nomes significativos na construção da memória nacional. Em Goiás, o Instituto Histórico e Geográfico, fundado na década de 30, é uma entidade guardiã da documentação sobre a cultura e um centro de estudos que favorece a produção intelectual e literária na região. Isso já sabemos e nos orgulhamos.
Todavia, que toda essa nossa conversa sirva como um chamamento. Que sejamos conhecidos pelo nosso trabalho em prol dos estudos da história, da geografia, do meio ambiente, do folclore, das artes. Em aspectos pontuais, no trabalho diário.
Em consonância com Machado de Assis e Manoel de Barros, que possamos estar sonhados de glicínias e na paciente trajetória de trabalho dos caramujos, nossas almas, as que olham de dentro para fora, estejam inundadas de girassóis.
E, finalmente, que nesta disposição de conchas em nós ouvindo hinos, nossas ações falem pelos títulos que recebemos.
Muito obrigada.
[1]Manoel de Barros, O Catador. In Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo. Record, 2001.
terça-feira, fevereiro 27, 2007
Seguir em frente, sem hesitar
Para ler:
Um por um para o mar passam os barcos
Passam em frente de promontórios e terraços
Cortando as águas lisas como um chão
E todos os deuses são de novo nomeados
Para além das ruínas de seus templos
(Barcos. Sophia de Mello Breyner Andresen)
E ouvir:
http://www.vidailuminada.com.br/VentoNoLitoral.htm
Um por um para o mar passam os barcos
Passam em frente de promontórios e terraços
Cortando as águas lisas como um chão
E todos os deuses são de novo nomeados
Para além das ruínas de seus templos
(Barcos. Sophia de Mello Breyner Andresen)
E ouvir:
http://www.vidailuminada.com.br/VentoNoLitoral.htm
segunda-feira, fevereiro 26, 2007
Desejo Primeiro
Zona Morta
Esquecer a carteira, perder a bolsa ou os documentos pessoais, a chave do carro ou de casa. Quem nunca viveu esta experiência? Meu antigo terapeuta dizia que são reflexos comuns aos períodos de mudança interna (o sacana ainda costumava dar os parabéns) . Sempre que estamos em processo, isso pode ocorrer. Acrescentei-lhe à lista o perder-se no trânsito: de repente, não saber onde estamos e nem para onde ir. Disse-lhe, na época, que me sentia como uma poça d’água. Algo assim, com limites fluidos, indefinidos. Pergunto-me se o que sinto hoje tem a ver com aquele momento. Isso porque chego, assim, estrangeira em todos os lugares e caminho numa espécie de zona morta. Desidentifico-me, mais uma vez, com todas as referências. Será que este processo não tem fim?terça-feira, fevereiro 20, 2007
Lenta Digestão

Gostaria de escrever algo significativo aqui. Não por vontade. Mas para dar notícia de alguma sobrevivência aos amigos. Todavia, pelos lampejos de glória e intensidade dos absurdos, 2007, por enquanto, só conseguiu me calar. Faço de conta que não estou prestando atenção, guardo tudo para digerir no ritmo lento do meu fraco estômago e fico com o consolo do meu conterrâneo Manoel de Barros e seus pacientes caramujos:
Há um comportamento de eternidade nos caramujos.
Para subir o barranco de um rio, eles percorrem um
dia inteiro até chegar amanhã.
O próprio anoitecer faz parte de haver beleza nos caramujos.
Eles carregam com paciência o início do mundo.
No geral, os caramujos têm uma voz desconformada por dentro.
Talvez porque tenham a base trôpega.
Suas verdades podem não ser.
Desde quando a infância nos praticava na beira do rio
Nunca mais deixei de saber que esses pequenos moluscos
Ajudam as árvores a crescer.
E achei que essa história só caberia no impossível.
Mas não, ela cabe aqui também.
(Manoel de Barros, Os Caramujos. In. Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo. Record, 2001).
Há um comportamento de eternidade nos caramujos.
Para subir o barranco de um rio, eles percorrem um
dia inteiro até chegar amanhã.
O próprio anoitecer faz parte de haver beleza nos caramujos.
Eles carregam com paciência o início do mundo.
No geral, os caramujos têm uma voz desconformada por dentro.
Talvez porque tenham a base trôpega.
Suas verdades podem não ser.
Desde quando a infância nos praticava na beira do rio
Nunca mais deixei de saber que esses pequenos moluscos
Ajudam as árvores a crescer.
E achei que essa história só caberia no impossível.
Mas não, ela cabe aqui também.
(Manoel de Barros, Os Caramujos. In. Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo. Record, 2001).
sábado, dezembro 23, 2006
Sub-síndica*, a seu dispor
7:00 da manhã
Dona Heloisa, bom dia. Desculpe-me incomodar, síndico viajou, né? É que vou sair agora e preciso de vale transporte. Não vou de ônibus não, mas a senhora sabe, direitos são direitos. Vê se quebra o meu galho.
9:00
Dona Heloisa, a Cláudia, a chata do segundo andar, quer falar com a senhora urgente. A senhora vai dar aulas? Pois é, só que ela está uma fera porque a faxineira a chamou de capivara.
9:30
Dona, Heloisa, aqui é a faxineira. Só pra dizer que é tudo mentira, eu não xinguei não. E, aquele chicletes que aquela doida jogou no hall há sete dias atrás para testar minha limpeza foi um erro. Tava muito grudado no chão, não consegui retirar mesmo.
9:35
Dona Heloisa, aqui é a Cláudia. Como vai? Estou bem, obrigada. Posso fazer-lhe uma visita? Preciso que o condomínio resolva o problema da faxina e um desentupimento na minha área de serviço. Da última vez que meu filho jogou o carrinho no ralo...ah, desculpe-me, a senhora vai dar aulas agora? Está bem, acho que vou eu mesma chamar o prestador de serviços, depois ele leva a conta pra senhora.
13:00
Dona Heloisa, sei que incomodo, a senhora tá descansando depois do almoço, né? Mas é que as garagens estão todas com as luzes pifadas. Se estão queimadas? Não verifiquei ainda, mas já chamei o eletricista e ele cobrou R$ 70,00.
14:00
Dona Heloisa, a supervisora das faxineiras precisa falar com a senhora. Falei que a senhora saiu, depois a senhora liga pra ela, pode ser?
16:00, 18:00, 19:00...
1:00 da manhã
Dona Heloisa, a senhora estava dormindo, não é? Desculpe-me. É que estou extasiado(?). Alguém jogou uma garrafa de cerveja do décimo andar e eu vi. Isso é um absurdo....e blá, blá, blá. Olha, eu e x i j o que a senhora aplique uma multa e, se precisar de mim, a senhora sabe, de uma presença masculina, é só chamar. Boa noite.
Dona Heloisa, bom dia. Desculpe-me incomodar, síndico viajou, né? É que vou sair agora e preciso de vale transporte. Não vou de ônibus não, mas a senhora sabe, direitos são direitos. Vê se quebra o meu galho.
9:00
Dona Heloisa, a Cláudia, a chata do segundo andar, quer falar com a senhora urgente. A senhora vai dar aulas? Pois é, só que ela está uma fera porque a faxineira a chamou de capivara.
9:30
Dona, Heloisa, aqui é a faxineira. Só pra dizer que é tudo mentira, eu não xinguei não. E, aquele chicletes que aquela doida jogou no hall há sete dias atrás para testar minha limpeza foi um erro. Tava muito grudado no chão, não consegui retirar mesmo.
9:35
Dona Heloisa, aqui é a Cláudia. Como vai? Estou bem, obrigada. Posso fazer-lhe uma visita? Preciso que o condomínio resolva o problema da faxina e um desentupimento na minha área de serviço. Da última vez que meu filho jogou o carrinho no ralo...ah, desculpe-me, a senhora vai dar aulas agora? Está bem, acho que vou eu mesma chamar o prestador de serviços, depois ele leva a conta pra senhora.
13:00
Dona Heloisa, sei que incomodo, a senhora tá descansando depois do almoço, né? Mas é que as garagens estão todas com as luzes pifadas. Se estão queimadas? Não verifiquei ainda, mas já chamei o eletricista e ele cobrou R$ 70,00.
14:00
Dona Heloisa, a supervisora das faxineiras precisa falar com a senhora. Falei que a senhora saiu, depois a senhora liga pra ela, pode ser?
16:00, 18:00, 19:00...
1:00 da manhã
Dona Heloisa, a senhora estava dormindo, não é? Desculpe-me. É que estou extasiado(?). Alguém jogou uma garrafa de cerveja do décimo andar e eu vi. Isso é um absurdo....e blá, blá, blá. Olha, eu e x i j o que a senhora aplique uma multa e, se precisar de mim, a senhora sabe, de uma presença masculina, é só chamar. Boa noite.
___________________
*Sub-síndica: Heloisa, no auge do processo de purificação cármica, sob as influências planetárias de seu inferno astral.
terça-feira, novembro 28, 2006
Encrencada
Abre a porta. Acende as luzes. Chama seu nome. Sem respostas. Vai até o seu quarto. Onde ela estaria? Pega o telefone e liga em seu celular e sua falta de esperança se concretiza: o celular toca no quarto, a filha novamente esquecera de levá-lo. Tenta se acalmar, “ela deve chegar logo”, diz a si mesma. Liga a TV, porém não consegue se concentrar no final do filme da tarde. Olha a janela e percebe que o sol já ia embora dando lugar à noite na hora mais traiçoeira e perigosa. Deixara-a com um grupo de meninos para assistir um ensaio. E o que diria o pai sobre o tal ato de uma ex-esposa? Prefere não imaginar. Escurece. Desespera-se. Faria algo. Pega as chaves e sai de casa. Procuraria a filha. Antes, liga para conhecidos, amigos. Descobre o lugar. Vai até lá, mas a informam que dali sua filha já havia ido embora. Coração na mão. Por que deixara? Algo havia acontecido. Dirige rapidamente, olhando para as ruas, esperando vê-la por ali. Decide, então, ligar para casa. Após algum tempo, alguém atende. “Alô”, responde. “Filha?”, “Sim, sou eu!” Minutos de alívio, solta o ar preso nos pulmões, antes de dizer “Você está encrencada”.
___________________
Texto escrito por Maria Clara, minha filha de catorze anos, como parte do pagamento de um castigo. Método antigo para educação de filhos, de eficácia duvidosa.
domingo, novembro 26, 2006
Coisas da Meia Idade

Às vezes, sinto-me com cento e cinqüenta anos. Sério. É como se não houvesse mais novidades no mundo. Tudo já foi dito e escrito, tudo já foi ensinado. Já vivi isso e aquilo, isso já sei, aquilo, também. Dá uma preguiça de viver e de morrer... mas, há outros dias. Em que me vejo com dezoito. Espanto-me, sinto possibilidades, falo como jovens, maravilho-me com fé na vida que pulsa. Preciso reaprender tudo... a velha senhora e a jovem caminham juntas e ensinam-se mutuamente. Quando uma se abate, a outra assume o comando. Ainda bem.
segunda-feira, novembro 20, 2006
O cara é demais, fala sério
Nenhuma palavra dá conta do que somos e isso se relaciona com a nossa finitude.
Hans - Georg Gadamer
Hans - Georg Gadamer
quarta-feira, novembro 15, 2006
Redenção
Todas as dores podem ser suportadas
se você as puser numa história
ou contar uma história sobre elas.
Isak Dinesen
Andava sem rumo pelo centro da cidade. A certa altura, tirou os sapatos, pois lhe doíam os pés. Ninguém a percebeu. Olhou-se em vitrines coloridas, observou figuras indiferentes, e uma música antiga na decadente loja com discos de vinil a fez chorar. Lembrou-se de quem era. O corpo pedia o descanso final. As ruas acesas pelas luzes dançantes, o vai e vem de carros enlouquecidos, o trânsito alucinado de pessoas apressadas. Tudo era movimento e ruído. A vida era tão insuficiente. Sentiu-se só, em silêncio. As portas da capela aberta eram um convite ao recolhimento, mas havia gente demais, padres e palavras em excesso, rígidas convenções e incômodas músicas natalinas. Mendigos abordavam carros e passantes. Sentiu-se como eles. Suplicando à vida. Naquele dia, todo o sofrimento do mundo pesava sobre os seus ombros. Por que diabos não desistia? O viaduto sobre a rodovia era um chamado. Olhou a rua, calculou a altura e imaginou segundos de um vôo cego. Teve tonturas e sentou-se com o rosto entre os joelhos. Ninguém a notou. Uma estrela jovem já se fazia ver entre os edifícios. Maldita luz que derrotava a noite da queda na escuridão. Levantou-se e caminhou cambaleante, com um fio de esperança, naquela direção. Estava gelada, mas não sentia frio. O estômago doía, mas não era fome de alimento. Casualmente, um filhote de gato atravessou-lhe o caminho. Era magro e parecia triste. Entreolharam-se. Estáticos, temerosos. O felino aproximou-se devagar para cheirar-lhe os dedos trêmulos de hesitação. Sentou-se no meio fio com o gato a enroscar-lhe as pernas. Tentou lembrar-se do rumo de casa e se havia leite na geladeira. Com o gato no colo, só conseguiu perceber as luzes fortes, ouvir o freio ensurdecedor de carros que se chocavam e sentir uma dor imensa. Naquele dia, soube, afinal, o que é morrer de amor.________________
imagem: Starry Night - V. Van Gogh
quarta-feira, novembro 08, 2006
Fim de Caso
E como vai ser quando, arrastando-se de amor, você levar um pontapé daqueles em que vai parar na esquina? Não vou insistir para que seja diferente. Mas, e se sua indignação for tanta que a faça debulhar-se em argumentos para tentar uma reconciliação? Não moverei uma palha, sequer. Considere que, na paixão, nada é tão previsível. Você viverá contradições. Vai querer pedir pra ficar. E se ele não quiser? Vou mandá-lo se ferrar. Não, não diga isso. Conte até vinte, antes de qualquer ato impensado. Pessoas não são coisas. E se ele não tiver pena e reagir? Melhor pra ele. Não quero que fique comigo por compaixão. Bah, quer saber? Acho que você ainda não amou. Acha é? Pois tenho outra teoria: seu modelo de amor - dependência tem marcas de culpa cristã.Perguntas
Tinha aquela incômoda mania de investigar a alma humana. Fazia indagações, muitas. As respostas eram sempre relativas, desconfortáveis. Pareciam-lhe ora ingênuas, ora injustas, ora fragmentadas, não raro arrogantes demais. Até que todas as ansiedades cessaram. Não porque houvesse obtido a revelação última , mas por ter percebido que só podia controlar as perguntas. E foi em torno delas que construiu sentidos. Em lógicas mínimas, suficientes para mantê-lo vivo.
domingo, novembro 05, 2006
Espantalho Descarado

Espantalho Descarado
ando assim
tipo um erro flácido ambulante
sem êxito, hesitante
disco riscado
fora de catálogo
no pó do instante
ando assim oco, uma crosta
vodu cansado que com a sorte
nem mais dialoga – diamante
ando assim sem linguagem
sem faro, espantalho fora de foco
ando assim
mais opaco que olímpico
esquivo, íntimo, insípido
um mastodonte pensando
desamparado
aspirando a paralelepípedo
ando assim meio buster keaton
um tanto de lágrima hasteando o riso
ando assim raso
indiferente
me divertindo um bocado
eu ando mijando no poste
porque o banheiro está sempre lotado
Marcelo Montenegro. in "Orfanato Portátil", 2003
Imagem: Augusto Gomes
sexta-feira, novembro 03, 2006
Palavras me aguardam
Alguns, dos meus “inúmeros” leitores andaram reclamando de minha ausência por aqui. Minto. Não foram tantos protestos assim, já que a estratégia não costuma funcionar comigo. Se você pode dizer não, nunca diga sim, esse é o lema do cabeça dura. Nos últimos tempos, tenho vindo aqui só para entrar nos links ao lado. Quando posso, leio os blogs dos amigos, mas também não comento. Falta de vontade. Algo ligado, talvez, à minha vida suspensa. Nela, há tão pouco de meu. Tenho prioridades. E são tantas e de ordens tão diversas. Dedico-me ao estudo produzido por outros, reproduzo idéias, cumpro obrigações. Chego a orgulhar-me de minha eficiência em caminhar para tão longe de mim. Palavras me aguardam. Para gritar, chorar, elaborar, tentar entender, talvez. Mas, ainda é cedo. As coisas andam por um fio. Preciso economizar. Além das minhas energias já tão desgastadas e de dinheiro – sempre - é claro, promessas, convicções, expectativas, esperanças, desesperos, elaborações de qualquer ordem. Permaneçamos todos neste silêncio expectante, portanto. Amém.terça-feira, setembro 19, 2006
Mistério Cotidiano
No ritmo das horas
mãos ordinárias
ensaiam gestos claros
cegos, comuns.
Pesados coturnos
dançam no escuro
com pés previsíveis
rápidos, cadentes.
Mas meu coração sorri
com Djavan, em segredo.
Se eu tivesse mais alma pra dar,
eu daria.
mãos ordinárias
ensaiam gestos claros
cegos, comuns.
Pesados coturnos
dançam no escuro
com pés previsíveis
rápidos, cadentes.
Mas meu coração sorri
com Djavan, em segredo.
Se eu tivesse mais alma pra dar,
eu daria.
quinta-feira, setembro 14, 2006
Amor além da vida
Tristão acorda ao lado de Isolda com cara amassada. Discute com ela a arrumação da cabana na floresta idílica, reclama da comida do dia anterior. Dá para imaginar isso? Romeu entediado com Julieta, Psique dizendo a Eros que está naqueles dias? Não, não dá. Deve ser por isso que meu primeiro e, único amor - único em muitos sentidos, vale dizer - sonhou comigo a noite toda. Contou-me hoje, num telefonema na hora do almoço. Sobrevoávamos a cidade de mãos dadas. Havia um ataque de naves alienígenas. Éramos super-heróis. Encontraríamos a salvação. Foi um sonho tão real, explicou em meio a outras conversas, com aquela polidez encantadora. Pediu-me que interpretasse o sonho, se um dia lhe desvendasse o significado. Ficarei em silêncio. Não lhe direi que o sonho está em seu olhar sobre nós: no que está acima do bem e do mal. Eros e Psique juntos, no Olimpo, Tristão e Isolda selando o seu destino num amor além da vida. Sem concretudes, por favor. Este é o nosso lugar: o que é intocável e não pode ser realizado nunca. Foi ruim, foi bom. E é assim, a vida.
sexta-feira, setembro 08, 2006
Entre o Mar e o Cerrado
p/ Joel
Tenho sido o que em mim fingiu ser eu, e quando fui verdadeiro não me reconheceram, e fui visto como estrangeiro. Tenho sido para mim mesmo um fingimento surdo de não querer ser quem Eu Sou. E eu bem que queria não chorar por nada que a vida me levasse ou trouxesse. Jamais encontrei o meu menino em mim. Uma certa nostalgia faz-me ter saudades do cerrado quando estou no mar, e maravilhar-me de mar quando estou no cerrado. A parte que em mim é vasta não sabe sentir solidão. Quando sou vasto como o grande silêncio, contenho multidões.
(...)
Já não escrevo para que me amem, nem mais escrevo só para não morrer. Hoje escrevo enquanto vivo.
(Brasigóis Felício – Vozes do Farol).
Tenho sido o que em mim fingiu ser eu, e quando fui verdadeiro não me reconheceram, e fui visto como estrangeiro. Tenho sido para mim mesmo um fingimento surdo de não querer ser quem Eu Sou. E eu bem que queria não chorar por nada que a vida me levasse ou trouxesse. Jamais encontrei o meu menino em mim. Uma certa nostalgia faz-me ter saudades do cerrado quando estou no mar, e maravilhar-me de mar quando estou no cerrado. A parte que em mim é vasta não sabe sentir solidão. Quando sou vasto como o grande silêncio, contenho multidões.
(...)
Já não escrevo para que me amem, nem mais escrevo só para não morrer. Hoje escrevo enquanto vivo.
(Brasigóis Felício – Vozes do Farol).
quinta-feira, setembro 07, 2006
Tarô Mítico
O homem é o sonho de uma sombra. Deve sofrer para compreender. Oréstia, Ésquilo.
Acendo o incenso, coloco um música suave, forro o chão com a toalha rúnica e espalho as lâminas em cartas claras. Íris, a mensageira, enfrenta as dificuldades da estrada. O carro corta-lhe o caminho, impede-lhe de realizar-se como Helena, a Rainha de Copas, uma mulher com vocação para o amor. Está sob o peso de decisões importantes, impasses. Aparentemente, ela viaja rumo à conclusão da viagem. Todavia, num nível mais profundo, submete-se à vontade maior de Zeus, o deus dos deuses. No passado, era com a fertilidade e a abundância solar de Deméter que ela se identificava. Hoje, é no mundo de Hades que caminha. Como a Sacerdotisa - Psiqué, desce as escadas, na escuridão, para o encontro marcado com Perséfone, sua sombra. É sua face de trabalho incessante que mostra aos outros. Ocultamente, entretanto, está submetida às determinações de Apolo, o deus solar. Sob as ordens dos deuses, Orestes, aquele que nasceu marcado pelo peso da maldição familiar, sugere: faça o que está determinado e aceite as limitações momentâneas do seu destino.
domingo, setembro 03, 2006
Banal
Nino faz som no meu ouvido que funciona. Vejo os números da hora embaçada no visor do relógio. 5:30h. É cedo. Meu corpo pensa enquanto minha mente obriga-me a manter-me alerta. Preciso pegar os papéis do mestrado para a reunião. Sento-me na cama e coloco o Nino no colo. Encosto-lhe em mim e faço-lhe carinho por alguns minutos. Digo-lhe frases idiotas e ele retribui com aquele olhar sonhador. Deixo-o ronronando enquanto sigo cambaleante para o quarto de Maria Clara. 5:45h. Checo as horas para manter-me em pé. Preciso preparar a aula de depois de amanhã. Forço o dia, acendo a luz e compenso o ato com massagens nas costas e algumas frases de carinho. Já é hora. Ela faz um gesto reflexo: oferece-me os braços, como se ainda fosse um bebê de colo. Abraço-a com amor e tento estimular o dia com frases de efeito. Nino se faz presente, interpondo-se entre nós para receber atenção. 6:30h: informo-lhe, num tom ameaçador. Preciso enviar o artigo para o congresso daqui a cinco dias. Deixo-a e corro com a comida. Ração para o Nino, café, suco de laranja. Nino convida-me para uma corrida nos corredores. A TV conta-me do mundo, dos dias. Preciso ligar para a advogada hoje, sem falta. 6:30h. O comentarista avisa-me, sem mentir. Maria Clara chega na cozinha, quando já terminei de tomar o café. Ela examina as possibilidades com despreocupada calma e eu coloco a xícara na pia indicando o fim do ritual. Arrumo a mesa, desligo a tv e apago a luz. Ela reclama algo e o sol se faz ver no horizonte. 6:40h. No banho, registro que preciso corrigir os trabalhos dos alunos até daqui a dois dias. Ouço-a com a escova de dentes. Ao prepararmos a saída, invejamos o sono matinal do Nino, agora aconchegado no sofá da sala. Preciso levar Maria Clara ao dentista hoje. Passo batom no elevador, sem olhar-me. Preciso ir na gráfica aprovar o folder do curso. Faltam cinco minutos para as 7:00h. No carro, ouvimos “somos quem podemos ser”.
sábado, setembro 02, 2006
Barroco
em contrapontos
solidão
variações em fuga
euforia
simetria harmônica
tristeza
em episódios livres
e sacralidade
no lirismo contínuo
sob conflitos
hoje só um largo de Bach
solidão
variações em fuga
euforia
simetria harmônica
tristeza
em episódios livres
e sacralidade
no lirismo contínuo
sob conflitos
hoje só um largo de Bach
domingo, agosto 06, 2006
Post para o Luis Ene
A mulher negra, vestida de branco, banha-se com as flores do Ipê Amarelo. Conta-me de Oxum, da força e beleza da natureza feminina. Lembra-me a potencialidade da árvore, que intensifica sua explosão em flores, quanto mais difícil é o inverno, a seca. O Ipê agradece ao derramar, com gestos suaves, delicadas flores sobre nossas cabeças.Clarice, antes de dormir:
O que atrapalha ao escrever é ter que usar palavras. É incômodo. Se eu pudesse escrever por intermédio de desenhar na madeira ou de alisar uma cabeça de menino ou de passear pelo campo, jamais teria entrado pelo caminho da palavra. Faria o que tanta gente que não escreve faz, e exatamente com a mesma alegria e o mesmo tormento de quem escreve e, com as mesmas profundas decepções inconsoláveis: não usaria palavras. O que pode vir a ser minha solução. Se for, bem-vinda.
Portanto, escrevo todos os dias. :)
O que atrapalha ao escrever é ter que usar palavras. É incômodo. Se eu pudesse escrever por intermédio de desenhar na madeira ou de alisar uma cabeça de menino ou de passear pelo campo, jamais teria entrado pelo caminho da palavra. Faria o que tanta gente que não escreve faz, e exatamente com a mesma alegria e o mesmo tormento de quem escreve e, com as mesmas profundas decepções inconsoláveis: não usaria palavras. O que pode vir a ser minha solução. Se for, bem-vinda.
Portanto, escrevo todos os dias. :)
quinta-feira, julho 27, 2006
Hoje
Hoje, meu silêncio dói. Talvez seja porque há vozes e sussurros, uma profusão de sentimentos, uma apatia quase louca, uma ferida que goteja, um corpo cansado, uma teia. Esfumo o horizonte com o acúmulo dos dias e o apagar das horas. Afogo a alma nua num banho quente. Ligo um rádio para encobrir os pensamentos, e o som sai bem baixinho porque a música também me agride. Hoje, meu silêncio grita. Hoje não tenho lugar, nem desejos, nem forma. Hoje, morrer nem faz sentido.
domingo, julho 16, 2006
O Quarto Elemento
-Mãe, você gostou da peça?
-Sim, adorei. Encontros e desencontros no amor, quem não os tem?
-Qual a mensagem dos atores sobre o amor?
-Ah, penso que muitas: amar é correr riscos, é entregar-se, é viver contradições, é "sangrar de um jeito próprio"...
-Em resumo, algo que nem sempre vale a pena.
-Não, ao contrário, algo que sempre vale a pena, apesar de tudo.
-Sua teoria não pode ser aplicada a você, né?
-É que eu amo de forma impessoal, deve ser do signo...
-Mas, a peça não fala do amor universal, mas do amor humano e íntimo.
-É...
-É. Mas, você acha que o amor atrapalha a vida das pessoas?
-(...)
-Você está pensando numa forma sutil de me dizer "sim, atrapalha".
-Acho que "a pessoa é para o que nasce", algumas nasceram para viver junto com outras, outras para ficarem sozinhas.
-(...)
-("é que eu ando tão cansada, e todo amor em mim, dói"...).
____________________
Notas:
*O 4o Elemento é um espetáculo de direção e texto de Tetê Caetano, apresentado no Centro Municipal de Cultura Goiânia Ouro. "Uma história dos encontros e desencontros no amor, um espetáculo que fala com palavras e coreografias aéreas sobre possibilidades, desejos, busca, paixão, desespero, fim e recomeço".
*A Pessoa é Para o que Nasce é um filme de Roberto Berliner sobre a história de vida de três mulheres cegas, seus dramas, misérias e amores. Também apresentado no Centro Municipal de Cultura Goiânia Ouro.
-Sim, adorei. Encontros e desencontros no amor, quem não os tem?
-Qual a mensagem dos atores sobre o amor?
-Ah, penso que muitas: amar é correr riscos, é entregar-se, é viver contradições, é "sangrar de um jeito próprio"...
-Em resumo, algo que nem sempre vale a pena.
-Não, ao contrário, algo que sempre vale a pena, apesar de tudo.
-Sua teoria não pode ser aplicada a você, né?
-É que eu amo de forma impessoal, deve ser do signo...
-Mas, a peça não fala do amor universal, mas do amor humano e íntimo.
-É...
-É. Mas, você acha que o amor atrapalha a vida das pessoas?
-(...)
-Você está pensando numa forma sutil de me dizer "sim, atrapalha".
-Acho que "a pessoa é para o que nasce", algumas nasceram para viver junto com outras, outras para ficarem sozinhas.
-(...)
-("é que eu ando tão cansada, e todo amor em mim, dói"...).
____________________
Notas:
*O 4o Elemento é um espetáculo de direção e texto de Tetê Caetano, apresentado no Centro Municipal de Cultura Goiânia Ouro. "Uma história dos encontros e desencontros no amor, um espetáculo que fala com palavras e coreografias aéreas sobre possibilidades, desejos, busca, paixão, desespero, fim e recomeço".
*A Pessoa é Para o que Nasce é um filme de Roberto Berliner sobre a história de vida de três mulheres cegas, seus dramas, misérias e amores. Também apresentado no Centro Municipal de Cultura Goiânia Ouro.
*16 de julho - Data do meu casamento. Há mais de catorze anos. Divorciei-me há 7.
domingo, junho 25, 2006
Inventário
Coisas importantes. Sempre nos atos mínimos. No inventário final, talvez seja o que permanece. A recepção inesperada de um sorriso, o carinho dos alunos, o café quente para acordar o dia, o bolo de chocolate com cobertura de creme de leite da Maria, programa do Raul Gil no hiato despreocupado de uma tarde morna de sábado, a gargalhada na leitura do Drops, a conversa de adultos com Maria Clara, os comentários dos amigos no blog, aquele reencontro no final de uma semana difícil, a aula inteira e energizante na manhã do sábado de sol, os olhos de satisfação dos alunos, as sonecas depois de um bom livro literário após o almoço, o mail surpresa daquele amor perdido, o pequeno reconhecimento depois de árduos esforços, o scrap no orkut, o abraço sincero e amoroso do amigo que você nem vê, o lampejo de esperança. Sutilezas me emocionam. Deve ser por isso que gostei tanto dos poemas de Marcelo Montenegro, o que quer “expressar a vida nas pequenas coisas”:
Buquê de Presságios
De tudo, talvez, permaneça
o que significa. O que
não interessa. De tudo,
quem sabe, fique aquilo
que passa. Um gerânio
de aflição. Um gosto
de obturação na boca.
Você de cabelo molhado
saindo do banho.
Uma piada. Um provérbio.
Um buquê de presságios.
Sons de gotas na torneira da pia.
Tranqueiras líricas
na velha caixa de sapatos.
De tudo, talvez restem
bêbadas anotações
no guardanapo.
E aquela música linda
que nunca toca no rádio.
Poema Estatístico
Tem uma esquina prenha de um latido.
Trechos de pássaros que permanecem
nos muros que ficam. E vice-versa.
Um mail anotado às pressas no canhoto
do tintureiro.
A cirrose portátil. A síndrome do pânico.
O enroladinho de presunto e queijo.
Tem a Mulher mais Linda da Cidade.
Groupies de cabelo rosa. Poodles
da solidariedade. Alguém chorando lágrimas
de tubaína. Penélopes charmosas.
Dick Vigaristas. Um cara que já sai desviando
do cinema Del arte, evitando ser atingido
Por alguma conversa perdida.
Tem a mulher da vídeo-locadora
que não conhece o filme que estou procurando.
Um amigo que diz que escreve só para colocar
epígrafes.
Taxistas infláveis. Manicures em chamas.
Um casal que desce a rua na banguela
prolongando a gasolina daquilo tudo
que um dia fora. Eu ando apaixonado
pela mulher da vídeo-locadora.
Lendo revistas na sala de espera
do consultório dentário. Tem uma
que venta. E um que desiste.
De arranhar os vidros do aquário.
(Marcelo Montenegro)
Buquê de Presságios
De tudo, talvez, permaneça
o que significa. O que
não interessa. De tudo,
quem sabe, fique aquilo
que passa. Um gerânio
de aflição. Um gosto
de obturação na boca.
Você de cabelo molhado
saindo do banho.
Uma piada. Um provérbio.
Um buquê de presságios.
Sons de gotas na torneira da pia.
Tranqueiras líricas
na velha caixa de sapatos.
De tudo, talvez restem
bêbadas anotações
no guardanapo.
E aquela música linda
que nunca toca no rádio.
Poema Estatístico
Tem uma esquina prenha de um latido.
Trechos de pássaros que permanecem
nos muros que ficam. E vice-versa.
Um mail anotado às pressas no canhoto
do tintureiro.
A cirrose portátil. A síndrome do pânico.
O enroladinho de presunto e queijo.
Tem a Mulher mais Linda da Cidade.
Groupies de cabelo rosa. Poodles
da solidariedade. Alguém chorando lágrimas
de tubaína. Penélopes charmosas.
Dick Vigaristas. Um cara que já sai desviando
do cinema Del arte, evitando ser atingido
Por alguma conversa perdida.
Tem a mulher da vídeo-locadora
que não conhece o filme que estou procurando.
Um amigo que diz que escreve só para colocar
epígrafes.
Taxistas infláveis. Manicures em chamas.
Um casal que desce a rua na banguela
prolongando a gasolina daquilo tudo
que um dia fora. Eu ando apaixonado
pela mulher da vídeo-locadora.
Lendo revistas na sala de espera
do consultório dentário. Tem uma
que venta. E um que desiste.
De arranhar os vidros do aquário.
(Marcelo Montenegro)
segunda-feira, junho 19, 2006
Auto-suficiência
Entrou na sala de meditação e postou-se à espera, em silêncio. Alguém conversava algo desinteressante. Sentou-se e manteve o olhar vazio para evitar ressonâncias. Contemplou o dedo ferido pelo sapato. Uma mão cuidadosa invadiu-lhe o campo: as mãos do instrutor. Um óleo, um bálsamo, um carinho, uma vontade de chorar.
quarta-feira, junho 14, 2006
E Viva o Brasil
Alô! Foi assim, de modo imperativo, rápido e ríspido, que a voz feminina atendeu-me do outro lado da linha. É do Hospital do Rim? Arrisquei. É. Ela respondeu, com o tom irônico da idéia implícita: se você discou esse número, é daqui, sim, ô idiota. Ignorei a receptividade e fui logo ao assunto: você tem médico de plantão? Hum? Ela perguntou num tom entre a incredulidade e a indignação. Depois que repeti a dúvida, a fulana encetou uma conversa abafada com alguém (digo que tem ou que não tem? ah, acho que ele foi embora. vá lá ver). Silêncio. Ouço uma TV. O hino nacional. Ah, pode vir. Depois de alguns minutos foi o que disse, antes de desligar, antes que eu ensaiasse uma despedida. Cheguei ao local sem me importar com a identificação de quem havia desligado o telefone na minha cara. Devia ser uma das moças sentadas no hall de espera dos consultórios. Eram dez pessoas, consegui contar, só pra passar o tempo, desviar a mente. Estavam todos em frente à TV. Estréia do Brasil na copa. O médico estaria lá, também, no meio deles? Deus não permitiria, roguei. Sentei-me em algum lugar distante depois de fazer a ficha com uma recepcionista de cara amarrada e retomei minha leitura de Paul Ricoeur, entre mudanças de posição para tornar a dor mais suportável. Com este capítulo, atingimos a meta proposta nos anteriores, em que a ênfase era dada às aporias do tempo fenomenológico...rede globo na copa! A voz do locutor sobressaía-se entre gritos e buzinas. Dor é psicológico. Não estou com dor. Repetia-me entre reflexões a respeito da disposição médica em me atender naquela hora (lá fora estava escrito plantão 24h, azar dele) e o controle da vontade de chorar. Não vou chorar, não vou chorar. Não vou chorar por essa dor, nem por todas as outras. Olhei para cima e concentrei-me nas bandeirolas verde-amarelas que balançavam no teto. Ele chegou apressado: você é a paciente? Não, sou sua mãe, pensei comigo. Fiquei com vontade de rir ao contemplar a figura: aparentava vinte anos, e, dentro do jaleco, uma camiseta da seleção. Eu o tirei de casa na hora do jogo, tive uma satisfação quase sádica ao constatar o fato. Trocamos poucas palavras, o suficiente para que preenchesse os pedidos de exames, indicasse o analgésico que eu já havia tomado meia hora antes e eu fosse rapidamente dispensada. Deve ser rim. Ele concluiu com raro brilhantismo perceptivo. Na saída, atravessei o hall entre as comemorações do primeiro gol. Ninguém notou que não olhei a TV, nem por um instante. Também não fiz comentários sobre minha repulsa à euforia verde-amarela ou ao nosso nacionalismo hipócrita. Corri para casa, tomei mais um Buscopan e me protegi dos fogos de comemoração da vitória do time com um travesseiro sobre os ouvidos. Lá fora, um grito abafado: e viva o Brasil!
quarta-feira, junho 07, 2006
O Cocô do Cavalo do Bandido
Há dias, e não são poucos, em que me sinto assim...
Mas, meus alunos me colocam novamente em pé com tanto carinho e generosidade.
Deus nos conserve nesta relação de amor.
Misticismo
Heloisa, extensão da arte
arte que não se olvida.
Uma - a alma aquece-
Outra- enternece a vida.
Na faculdade havia uma professora;
Não uma professora qualquer.
Não sei se mulher feito um anjo,
Ou se um anjo feito mulher.
Em seus olhos calmos e serenos,
Havia algo de místico e singular.
Quando surgia na sala,
Como que por encanto,
Algo se punha a brilhar.
Ninguém soube ainda explicar,
Se brilhava por encanto,
Ou se o encanto
Era a luz de seu olhar.
José Maria Alencar – 3o Período
HELOÍSA
Menina, que canta história
Elo, Heloísa, canção
Sob a égide da memória
Traz nos olhos o coração
Alma leve de criança
Mãe de Clara menina
Os olhos que conta a História
A boca que fala e ensina
A mente que ao passado vai
Põe a mão a deslizar
Sob rascunhos e rabiscos
Baús, saudades e cheiros a relembrar
O Elo que liga Heloísa
É tênue como a própria luz
Que do umbigo vai ao céu
Buscando o amor de Jesus
Elo, Heloísa canção
Heloísa Elo coração.
Alba Franco – 1o período
Mas, meus alunos me colocam novamente em pé com tanto carinho e generosidade.
Deus nos conserve nesta relação de amor.
Misticismo
Heloisa, extensão da arte
arte que não se olvida.
Uma - a alma aquece-
Outra- enternece a vida.
Na faculdade havia uma professora;
Não uma professora qualquer.
Não sei se mulher feito um anjo,
Ou se um anjo feito mulher.
Em seus olhos calmos e serenos,
Havia algo de místico e singular.
Quando surgia na sala,
Como que por encanto,
Algo se punha a brilhar.
Ninguém soube ainda explicar,
Se brilhava por encanto,
Ou se o encanto
Era a luz de seu olhar.
José Maria Alencar – 3o Período
HELOÍSA
Menina, que canta história
Elo, Heloísa, canção
Sob a égide da memória
Traz nos olhos o coração
Alma leve de criança
Mãe de Clara menina
Os olhos que conta a História
A boca que fala e ensina
A mente que ao passado vai
Põe a mão a deslizar
Sob rascunhos e rabiscos
Baús, saudades e cheiros a relembrar
O Elo que liga Heloísa
É tênue como a própria luz
Que do umbigo vai ao céu
Buscando o amor de Jesus
Elo, Heloísa canção
Heloísa Elo coração.
Alba Franco – 1o período
sexta-feira, junho 02, 2006
terça-feira, maio 30, 2006
Sob o sol das manhãs
Por mais que eu me encha de motivos, não consigo ficar infeliz num dia de sol. O grande Deus Rá, pai do Céu e da Terra, venceu a noite e fez nascer o dia. Eliminou a serpente Apópis e trouxe os deuses na barca da manhã. É como se o astro-rei, soberano, redimensionasse o mundo. Sob o sol morno das manhãs, cores, pessoas, situações, tudo fica renovado e cheio de luz. No banho cálido e protetor do sol, o mundo está seguro. Dá uma confiança panteísta no universo. No sol de lá e no de cá. No que nasce todos os dias, para todos, a despeito de tudo, em todos os lugares. O que mais importa?
sexta-feira, maio 26, 2006
O Manobrista
Quem poderia esquecer aquele sorriso? Fecho os olhos e vejo-o com nitidez. Todos os dias, nas mesmas manhãs, um jovem acompanhava-me no estacionamento próximo ao trabalho. Com uma eficiência sem palavras, ele indicava-me vagas e cuidava para que eu colocasse o automóvel, sem dificuldades, em locais seguros. Nas saídas, postava-se ao pé da rampa de acesso à rua. E acenava-me com um sorriso largo, sincero, amigo. Vestia o mesmo uniforme azul e, por muito tempo, anos até, comunica-mo-nos por estes pequenos gestos diários compartilhados à distância, nos poucos minutos em que eu permanecia na meia luz do subsolo. Incontáveis as vezes em que estava preocupada e séria, ou mesmo distraída, e fui tomada por aquele aceno acompanhado de um sorriso luminoso e acolhedor. Até que um dia, ele se aproximou. Ainda não compreendo porque tive medo. Se foi porque ele era Apolo em sua carruagem anunciando o dia em mil raios de luz e vida, um deus que não se podia macular em sua epifania ou por outro motivo qualquer. Ele chegou bem perto e disse: só para dizer que você tem um sorriso muito bonito. Agradeci sem jeito. E nunca tive a oportunidade de dizer-lhe que era um reflexo da luz que me oferecia assim, tão gratuitamente, todos os dias. Perdi a vaga no estacionamento e ele, provavelmente, mudou de emprego. Deve ter ido iluminar outros becos em que burocratas trancafiados em seus automóveis blindados mal percebem a rua, os deuses e os pequenos milagres cotidianos
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