quinta-feira, outubro 06, 2011
domingo, outubro 02, 2011
Psicopompo
domingo, setembro 04, 2011
Suave Coniunctio (ou Setembro)
sábado, setembro 03, 2011
Forum
quinta-feira, junho 16, 2011
terça-feira, maio 24, 2011
Amores Captativos

É impressionante como ao ler um mesmo texto, temos diferentes concepções de seu significado conforme o tempo em que o lemos. (Re)li, como se fosse a primeira vez, a análise do arquétipo de Judas no livro do Jean-Yves Leloup*. O autor discute nossas relações uns com os outros, em especial, quando estamos em idolatria, que é semelhante à paixão: quando pedimos o absoluto a um ser relativo. Quando este ser nos decepciona, entramos, naturalmente, no desespero. E ele segue com análises importantes. Conta-nos como Judas não consegue se colocar no meio na relação com o Mestre. Segundo o autor, precisamos aprender a tocar o outro no meio, entre sua dimensão humana e divina. Judas queria um líder político e não um homem que salvasse a poucos e se prestasse às calúnias e à morte. É por essa decepção que passa facilmente da idolatria ao desprezo. Ele esperava demais, com ilimitadas expectativas, e, paradoxalmente, com uma limitada visão das coisas. E é essa atitude que o faz vender e trair o Mestre. Depois do ato, Judas se enclausura na própria culpa e se envenena. Diferente de Pedro, que erra e se redime, pois é capaz da prática do perdão com o outro e, portanto, consigo próprio. Com a atitude típica de um suicida, Judas não crê no perdão e isso se volta contra ele. Ele era assim e por esse motivo, útil ao serviço da traição. Leloup nos lembra que a palavra doença, em hebraico, significa andar em círculos, estar preso em um círculo, estar fechado na conseqüência dos seus atos e do seu carma. Leloup nos recorda a incapacidade de perdoar, o excesso de expectativas e a avareza destes homens que, não souberam compreender Madalena, o arquétipo contrário a Judas. A que lavou os pés de Jesus com caros perfumes e foi por isso repreendida (seria mais útil “dar o dinheiro aos pobres”). Homens como Judas, que se prestaram ao serviço da traição, não souberam ver a generosidade de Madalena, a grandeza de seu abnegado gesto, que dava mais do que o que possuía, além de oferecer de si própria. Madalena é o arquétipo da generosidade e da entrega, incapaz de se realizar em homens presos nos sintomas de seu desespero, na ilusão e avareza das aparências, na idolatria que não concebe o respeito, o amor como algo que se coloca entre o humano e o divino. No arquétipo de Judas há alguma coisa deste estado de consciência que nos envenena, que envenena a existência. Como conclui o autor: em Madalena, vemos o arquétipo do amor oblativo e em Judas, o do amor captativo, tão bem expresso em Giotto na cena do beijo. Um gesto que tem a aparência de amor, mas é um gesto vazio.
Tai, agora entendi.
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*Leloup, Jean-Yves. Caminhos de Realização. Dos Medos do Eu ao Mergulho no Ser. Ed. Vozes.
segunda-feira, maio 23, 2011
Evangelização Diária
quinta-feira, maio 19, 2011
domingo, maio 08, 2011
A Rosa Meditativa

sábado, maio 07, 2011
sexta-feira, abril 15, 2011
sexta-feira, abril 01, 2011
Aproveitar o Tempo

Aproveitar o tempo!
Ah, deixem-me não aproveitar nada!
Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!...
Deixem-me ser uma folha de árvore, titilada por brisa,
A poeira de uma estrada involuntária e sozinha,
O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras,
O pião do garoto, que vai a parar,
E estremece, no mesmo movimento que o da terra,
E oscila, no mesmo movimento que o da alma,
E cai, como caem os deuses, no chão do Destino.
(Álvaro de Campos)
quinta-feira, janeiro 13, 2011
A Última Folha

"Subsistem folhas nas árvores, aqui e ali. E fico freqüentemente diante delas, pensativo. Contemplo uma folha e fixo nela minha esperança. Quando o vento brinca com ela, todo o meu ser treme. E se ela cai, que se pode fazer, minha esperança cai com ela.”
sexta-feira, novembro 26, 2010
Poema Sem Drama

sexta-feira, setembro 17, 2010
Primavera

Sandro Botticelli. Primavera. 1482, Têmpera sobre Madeira, 203 x
Obra de temática profana mitológica clássica, que com símbolos das divindades pagãs, apresenta-nos a chegada da estação que abre o círculo da vida e da sua renovação, ou seja, a primavera. Na concepção mitológica, Vênus, deusa do amor dos humanos e dos deuses, é a responsável pelo desejo da água, que tudo fecunda e renova. No quadro de Botticelli, Vênus aparece no centro da obra, mas não sendo a principal personagem da pintura. A deusa é representada de forma discreta, vestida. Vênus tem gestos nas mãos, e como uma madona parece abençoar o mundo. À sua cabeça, vemos Cupido, que com os olhos vendados, aponta a sua seta para a três Graças, que estão do lado esquerdo da deusa do amor. Quando descortinamos a obra a partir da figura de Aglaia , Tália e Eufrósine[1], as três Graças, Cárites ou Dons, é que começamos a encontrar sinais dos traços precisos da filosofia neoplatônica. As Graças surgem profanas, virginais, sensuais, trajando vestes transparentes, harmonizando a beleza das cores primaveris, pulsantes pela intervenção dos corpos humanos. Mais a esquerda do quadro está Mercúrio (Hermes), o mensageiro dos deuses, com suas sandálias aladas, trazendo uma túnica vermelha. Mercúrio dissipa as nuvens, rompe com o inverno, e traz o sol de primavera. Warburg associou esta pintura às festividades de maio na Corte dos Médici: o torneio de 1475, celebrado pelo poeta Poliziano, na qual se ilustrou Giuliano de Médici: a volta da paz, depois do fracasso da Conspiração dos Pazzi, que matou Giuliano e poupou Lourenço de Médici. Apesar disso, segundo o mitógrafo Jean Seznec,[2] há um ar longínquo, uma atmosfera quase irreal na obra: estamos num mundo que não parece ser o dos vivos e ali, os grandes enigmas da Natureza, da Morte e da Ressureição flutuam em volta das formas sonhadoras da Juventude, do Amor e da Beleza, fantasmas de um Olimpo ideal.
Quando voltamos para a direita de Vênus, vamos encontrar Flora, a deusa das florestas e das flores. Flora traja roupas floris, das roupas a deusa espalha as flores pelos campos. Flora é a única personagem da obra a olhar diretamente para o observador, como se fosse atirar as flores além daquela paisagem, atingindo todos os que contemplam a obra. À direita da obra surge Zéfiro, o vento do oeste. Zéfiro na mitologia é personificado como um vento agradável, uma brisa suave, é ele o mais suave de todos os ventos, o mensageiro da primavera. Zéfiro, retratado aqui como um ser esverdeado, enlaça a bela ninfa Clóris. Logo que Zéfiro a toca, flores perfumadas saem de sua boca e e ei-la transformada em Flora, a mensageira da renovação. Eu era Clóris e agora é que me chamam Flora, escreveu Ovídio
Warburg vai ampliar os estudos e acrescentar a eles uma tônica psicossocial, considerada fundamental para os atuais estudos da imagem. Ele fará o reconhecimento de elementos que sobrevivem no tempo, as formas que traduzem a força psíquica das imagens e que tem função psicossocial e de reter a memória coletiva: a pathosformel. Termo desenvolvido por ele, as formas do pathos (do gr. paixão), foram usadas para localizar as sobrevivências viscerais da índole pagã, em tensão com a moral e a ética cristã, conflito próprio do homem do Renascimento. O pathos antigo estava relacionado a sentimentos intensos e dionisíacos em confronto com a harmonia apolínea, o controle e a disciplina da moral religiosa.
domingo, setembro 12, 2010
A Liberdade é Azul?
O azul evoca um movimento a um só tempo, de afastamento do homem e movimento dirigido unicamente para o próprio centro, que, no entanto, atrai o homem para o infinito, desperta-lhe um desejo de pureza e uma sede de sobrenatural. Wassily Kandinsky
As coisas não querem mais ser vistas por pessoas razoáveis: elas desejam ser olhadas de azul. Manoel de Barros
Azul do céu. Alguém vive uma tragédia: a perda do marido, um famoso compositor e da filha pequena em um acidente de carro. Acorda em um hospital, quando recebe a notícia. A vivência dessa dor é tratada de maneira sensorial, do ponto de vista interno da personagem. Cenas azuis.
Azul do vazio. Dor, silêncio, solidão. Na necessidade imperativa e inconformada de continuar, a personagem desfaz-se das referências de seu passado. Não sem antes revisitar a casa, contemplar as sobras de vida a animavam. Dentre os objetos, um pirulito. Degusta-o, tritura-o com força instintiva entre os dentes. Era um pirulito azul.
Azul do não estar em outro lugar, a não ser em si mesmo. Nas sobras, um objeto é preservado: um móbile de pequenos fragmentos de cristal lapidado. Brilho em meio à vacuidade, o móbile é pendurado na sala de outra casa, anônima, local onde se refugia para livrar-se do que foi, dos que foram, do que poderiam ser. O móbile é azul.
Azul da dor contida. Na estrada solitária em busca de um outro lugar, ao caminhar junto a um muro, desliza intencionalmente a mão sobre as pedras até sangrar. Algo externo e forte precisava se contrapor à dor interna, fria, contida, silente, azul.
Azul da água e dos sentimentos. Mergulha em uma piscina e chora. Lágrimas que se misturam (inúteis) no ambiente azul. Azul da água que tudo dissolve e de onde tudo se recria. Azul do mergulho e do inconsciente.
Azul da suavidade das formas. Como alguém que não mais pode ir ao passado e não tem perspectiva de futuro, a personagem fixa-se em detalhes: um torrão de açúcar que se dissolve em um café, no café que dissolve o sorvete. O doce e o amargo, o quente e o frio. Dissoluções. Sentimentos que levam ao azul.
Azul de frias recordações. Um jovem devolve a ela um crucifixo arrancado de seu pescoço durante o acidente. Ela o rejeita. Rejeita a cruz, o sacrifício, a referência antiga. Azul do distanciamento de velhas e desnecessárias bases de apoio.
Azul da libertação dos vínculos (afetivo-familiares, religiosos). A liberdade de fixar-se no que resta em meio à solidão, ao silêncio, à dor pacificada. A personagem reescreve a sinfonia do marido morto a partir das suas próprias referências. Desliza os dedos sobre uma partitura e a música é azul. Uma sinfonia para a união das nações. A busca por novas identidades em contraposição e/ou união-diálogo com o outro. Encontra a amante do marido morto, grávida. Mais um nível de libertação das idolatrias afetivo-emocionais. A personagem ampara a amante e elabora a traição. Uma nova criança nasceria. (Re)significação da união, da perda e da fragmentação em outros níveis.
Sim, a liberdade é azul.
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Trois Couleurs: Bleu (Krzysztof Kieslowski, 1993)
sábado, julho 10, 2010
Quem sabe espera a hora

O lugar era escuro, janelas altas com vidros semi-abertos, de onde se podia ver um céu nublado da tarde de julho. Havia papéis na parede com instruções óbvias: “não encostar na divisória”, “acompanhantes devem aguardar na sala de espera”. Ali, tudo cheirava a dificuldades, algo entre o enfado e a opressão. E era tudo tão lento, deus, tão lento. Com a última senha do dia, conseguida ao custo de muito argumento com um segurança armado na porta de entrada, eu também aguardava a vez diante de um aparelho de TV com a imagem chuviscada. Estavam em greve e atendiam “só urgências”. As senhas eram distribuídas às 6h da manhã. Minha senha era a 106 e ainda chamavam a de número 80. Não, eu não podia reclamar. Fechei os olhos e rememorei o que havia me levado ali. Gritei com um gerente de Banco e meu seguro-desemprego foi bloqueado no mês seguinte. Ele me atendeu com a disposição de um funcionário de banco público ouvindo um desempregado. E eu compartilhava a fila com pessoas muito humildes, que mal conseguiam dizer o que precisavam. Foi o suficiente para me acender a fúria cidadã. Depois do meu escândalo, ele ficou uma seda e resolveu tudo muito rápido. Mas, ao final, disse-me, olhando-me nos olhos pela primeira vez: a gente só quer facilitar as coisas. Por um instante daquele olhar, percebi a inconsciência do seu orgulho pelo pequeno poder de gerente de um banco que nem tinha dono. Tive pena e aí soube que precisava ter me controlado. Para um pequeno teste tinha sido uma reprovação fácil. A sincronia do meu ato com o bloqueio do meu seguro ensinava-me que era preciso ser paciente, aceitar o que não poderia mudar e esperar, esperar e, quando estivesse cansada, ainda assim, esperar. Fechei os olhos e concentrei-me na minha respiração, acalmei a mente e controlei a ansiedade com a constatação de que eu estava de férias, poderia ficar ali o tempo que fosse. Foi, então, que me lembrei de um trecho do Hino ao Sol, do Akenaton. Recitei-o mentalmente muitas vezes, enquanto visualizava um sol no meu peito. Não sei quanto tempo de relógio isso durou, mas o fato é que a sensação física de calor naquela tarde de inverno fez-me abrir os olhos e perceber que um raio de sol infiltrado por entre as nuvens, atingia-me em cheio pelo vidro da janela alta. Foram apenas alguns minutos e as nuvens novamente o encobriram. Sim, o sol estava ali, eu só precisava me lembrar. Perdão, perdão, eu só conseguia pedir perdão. Fui chamada algum tempo depois, não sabia mais medir, mas tudo me pareceu eficiente e rápido.
sábado, maio 22, 2010
Ulisses

as mãos que trouxe
estrela de Antares me desvelo
e, grego, me apregôo.
se é tarde hasteio a vela ao tempo
e velejo à volta de meu ombro. aí vou
e onde ancoro salto e então revejo
a ilha de quem sou não tem fim.
arcano duende sofredor e crente
aceno o pano ao longe e à pele
do país da pessoa de onde eu venho.
aceno e já nem sei se eu creio
ou se advinho, na imagem do nome
do meu rosto, o meu destino.






