quinta-feira, outubro 06, 2011

domingo, outubro 02, 2011

Psicopompo


Auguste Rodin.
Gênio do Repouso Eterno, 1899
Pinacoteca. Parque da Luz/SP

Penetra surdamente no reino das palavras...
Drummond. Estação da Luz/SP

Já não me importa ganhar coisas. Nem pessoas. Muito menos o mundo. Ver tudo da minha janela já me basta. Viajo por obrigação. Com objetivos definidos, datas e locais bem arranjados. Mas, faço sempre com má vontade, nunca sem tensão. Foi assim que cheguei pela primeira vez em São Paulo este ano. Cidade ambígua e silente. Sim, havia muito silêncio no murmúrio indefinido das ruas, nas conversas esparsas, no deslocamento rápido e ensimesmado de pessoas nos ônibus, nas estações de metrô. Tanto ruído, quanto silêncio. Éramos seres impessoais, encapsulados em pequenos mundos, personagens no enredo de um filme de ficção científica.
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Da segunda vez, entretanto, algo diferente aconteceu. Hospedei-me em um lugar central, entre ruas escuras cheias de histórias noturnas. De repente, a São Paulo silente dos seres de plástico, soltava o corpo e a voz entre loucos carros e sussurros, no tilintar de copos em bares bêbados, no ranger de portas entreabertas das boites, no salto de mulheres que animam o vai e vem das esquinas, na súplica dos moradores das calçadas, no cochichar de combinações e segredos dos cantos obscuros.
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Em meu temor forasteiro, encontrei um amigo. Assim, de forma meio inesperada, sem contabilizadas garantias, quase sem querer. De entrada, forneceu-me um cartão de metrô com passagens pagas para que eu não ficasse em filas. Indicou-me rotas facilitadas para que eu não me perdesse na imensidão das ruas. Pagou-me cafés. Enviou-me sms’s com msgs desconcertantes, do tipo: comeu? tá onde? te espero no bloqueio do metrô. Nos intervalos da obrigação, insistiu para que eu visitasse obras, jardins, exposições, experimentasse as frequentações do espírito. Segurou minha mão para me proteger, manter-me em equilíbrio no passo e no ritmo, sem saber que meu corpo-espírito ferido beirava a exaustão e o desalinho.
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Aceitei tudo com dificuldade e parcimônia. Preciso de tempo para digerir dádivas. Neste transe iniciático, ele foi o instrutor, o guardião-guia no umbral desta dura travessia metonímica. Com percepção lenta para os milagres do instante, não me desculpei por não conseguir absorver de forma plena os valiosos presentes que recebi, assim, de maneira tão generosa, nem mesmo sei se soube agradecer a passagem, as entradas que me transportariam da república à estação da luz. Foram momentos de diálogo mudo, instantes em que as falas sem sentido e os corpos tristes das ruas se transformariam no reino das palavras e em esculturas e formas transmutadas em beleza e criação.
(para Leo)

domingo, setembro 04, 2011

Suave Coniunctio (ou Setembro)


seu amor é líquido
suave veludo que escorre
entre alfazemas e camomilas
*
meu amor é fogo
sol de dias frios
manhãs azuis
*
nosso amor é sopro
 aragens sutis
em que acordamos a terra
*
é dia frágil
quando ervas e aromas
brotam nos solos
em que nos encontramos claros
férteis e úmidos


sábado, setembro 03, 2011

Forum


Com pés descalços
caminho por esquinas
imponentes
da cidade fantasma
*
Revisito a
velha casa
vazia
na mesma
solidão das ruas
*
Em cima da mesa
empoeirada
uma carta
escrita à mão
com letras trêmulas
*
Pontifex maximus
evoca-me
a identidade do gesto
a dor que não sangra
o claustro
o ritmo
o passo

quinta-feira, junho 16, 2011

terça-feira, maio 24, 2011

Amores Captativos














O beijo de Judas (painel 31), Giotto, Capela Scrovegni, 1304-6

É impressionante como ao ler um mesmo texto, temos diferentes concepções de seu significado conforme o tempo em que o lemos. (Re)li, como se fosse a primeira vez, a análise do arquétipo de Judas no livro do Jean-Yves Leloup*. O autor discute nossas relações uns com os outros, em especial, quando estamos em idolatria, que é semelhante à paixão: quando pedimos o absoluto a um ser relativo. Quando este ser nos decepciona, entramos, naturalmente, no desespero. E ele segue com análises importantes. Conta-nos como Judas não consegue se colocar no meio na relação com o Mestre. Segundo o autor, precisamos aprender a tocar o outro no meio, entre sua dimensão humana e divina. Judas queria um líder político e não um homem que salvasse a poucos e se prestasse às calúnias e à morte. É por essa decepção que passa facilmente da idolatria ao desprezo. Ele esperava demais, com ilimitadas expectativas, e, paradoxalmente, com uma limitada visão das coisas. E é essa atitude que o faz vender e trair o Mestre. Depois do ato, Judas se enclausura na própria culpa e se envenena. Diferente de Pedro, que erra e se redime, pois é capaz da prática do perdão com o outro e, portanto, consigo próprio. Com a atitude típica de um suicida, Judas não crê no perdão e isso se volta contra ele. Ele era assim e por esse motivo, útil ao serviço da traição. Leloup nos lembra que a palavra doença, em hebraico, significa andar em círculos, estar preso em um círculo, estar fechado na conseqüência dos seus atos e do seu carma. Leloup nos recorda a incapacidade de perdoar, o excesso de expectativas e a avareza destes homens que, não souberam compreender Madalena, o arquétipo contrário a Judas. A que lavou os pés de Jesus com caros perfumes e foi por isso repreendida (seria mais útil “dar o dinheiro aos pobres”). Homens como Judas, que se prestaram ao serviço da traição, não souberam ver a generosidade de Madalena, a grandeza de seu abnegado gesto, que dava mais do que o que possuía, além de oferecer de si própria. Madalena é o arquétipo da generosidade e da entrega, incapaz de se realizar em homens presos nos sintomas de seu desespero, na ilusão e avareza das aparências, na idolatria que não concebe o respeito, o amor como algo que se coloca entre o humano e o divino. No arquétipo de Judas há alguma coisa deste estado de consciência que nos envenena, que envenena a existência. Como conclui o autor: em Madalena, vemos o arquétipo do amor oblativo e em Judas, o do amor captativo, tão bem expresso em Giotto na cena do beijo. Um gesto que tem a aparência de amor, mas é um gesto vazio.

Tai, agora entendi.

__________________

*Leloup, Jean-Yves. Caminhos de Realização. Dos Medos do Eu ao Mergulho no Ser. Ed. Vozes.

Caeiro e o Pasmo Essencial











nascido a cada momento
para a eterna novidade do mundo.

segunda-feira, maio 23, 2011

Evangelização Diária

Generosidade
Então, você cria galinhas?
Crio, tenho nove. Crio para matar.
Para matar? Mas, você não tem pena?
Só quando a faca tá cega e elas me olham.

Flexibilidade
Minha cunhada é uma pessoa boa,
Trabalhou em um caixa, mas, saiu. Suspeita de roubo.

Devoção
Esta prateleira ficará ótima lá em casa, vou tirar uma foto.
Mandarei fazer uma idêntica.
Quando for comprar aquele peixe, traga para mim.
Quero um igual.
Aquela massa de pastel é boa, compre-me uma.
Da mesma marca, viu?
Esse tempero é muito bom, vou levar.
Ficará como o que você fez outro dia, igual.
Esse batom é bonito, vou querer um.
Da mesma cor.

Obediência
Lave roupas pela manhã, por causa do sol.
(lavo todos os dias à tarde, e depois fecho as janelas para que sequem à sombra)
Não se esqueça de colocar água para o gato, chego tarde.
(a vasilha do gato permanece vazia até a hora que alguém chega para enchê-la, essa é minha regra)
Quando tirar os acessórios da pia do lugar, devolva-os para facilitar que eu os encontre.
(a saboneteira fica sempre escondida em cima da caixa do vaso sanitário após a arrumação, assim é melhor)

Oração de Intercessão Diária
(recitada em reação a qualquer tentativa de diálogo)
Tsc Tsc Tsc Tsc Tsc
Tsc Tsc Tsc Tsc Tsc

quinta-feira, maio 19, 2011

Metamorfoses


Metamorfoses de Narciso. Salvador Dali, 1937.

Em silhueta introspecta
dobro os olhos
sobre joelhos
ressequidos
encarquilhados
eu e meu duplo
torpor narcísico
olhos viciados em ver
ecos de morte e vida
águas paradas
em que me precipito
para ser pedra
ruína
flor

domingo, maio 08, 2011

A Rosa Meditativa

Rosa Meditativa. Salvador Dali

Foi o destino. Estava tudo programado e algo em mim sabia. Que seria difícil. Algo no ápice da intensidade: do medo, da dor, da alegria. Alguém estranho, mas, ao mesmo tempo, tão próximo: mesmo tipo sanguíneo, mesmo jeito de olhar, e, logo, os mesmos hábitos, gostos literários, a mesma paixão pelo silêncio, pela escrita, pela arte. Não sem alguma culpa, identifico-me, também, com algumas dificuldades (doloroso suspiro). Admiro-me por sua singularidade na sutileza e inteligência, por sua sabedoria nata e, suprema glória compartilhada: pela nossa compreensão mútua, sem palavras. Como naquele momento, há exatos dezenove anos, era o dia das mães. Ela era o meu presente: Maria Clara, minha Rosa Meditativa, sublime expressão de força, sabedoria e beleza. Nem Dali poderia interpretar esta florescência amorosa para além das raízes e dos frutos.

sábado, maio 07, 2011

Libertango


"trago a vida agora calma, um tango dentro d' alma"....

sexta-feira, abril 15, 2011

sexta-feira, abril 01, 2011

Aproveitar o Tempo

APOSTILA (11-4-1928)



Aproveitar o tempo!

Ah, deixem-me não aproveitar nada!

Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!...
Deixem-me ser uma folha de árvore, titilada por brisa,
A poeira de uma estrada involuntária e sozinha,
O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras,
O pião do garoto, que vai a parar,

E estremece, no mesmo movimento que o da terra,
E oscila, no mesmo movimento que o da alma,
E cai, como caem os deuses, no chão do Destino.


(Álvaro de Campos)

quinta-feira, janeiro 13, 2011

A Última Folha


"Subsistem folhas nas árvores, aqui e ali. E fico freqüentemente diante delas, pensativo. Contemplo uma folha e fixo nela minha esperança. Quando o vento brinca com ela, todo o meu ser treme. E se ela cai, que se pode fazer, minha esperança cai com ela.”

Para poder interrogar a sorte, é preciso uma pergunta alternativa (mal me quer/bem me quer), um objeto suscetível de uma variação simples (vai cair/não vai cair) e uma força exterior (divindade, acaso, vento) que marque um dos pólos da variação. Faço sempre a mesma pergunta (serei amado?), e essa pergunta é alternativa: tudo ou nada; não concebo que as coisas amadureçam, escapem às conveniências do desejo. Não sou dialético. A dialética diria: a folha não cairá, e depois ela cairá; mas enquanto isso você terá mudado e não fará mais a pergunta.

(ao consultar quem quer que seja, espero que me digam: “a pessoa que você ama também o ama e vai lhe dizer isso essa noite”).

A Última Folha. BARTHES, Roland. Fragmentos de Um Discurso Amoroso. RJ, Francisco Alves, 1989.p.146.

sexta-feira, novembro 26, 2010

Poema Sem Drama


Entre Lírios e Ausências



Na mesa da sala vejo lírios sem perfume.
Um encontro roubado, o cartão, genuíno?
A letra, um nome em desalinho.
Bulbos cerrados que nunca se abrirão.
Pólen que mancha toalhas, a roupa, o chão.
Estética estéril do amor carcomido.
Na pureza perdida, é de sangue o que enche a jarra de vidro.

sexta-feira, setembro 17, 2010

Primavera

Sandro Botticelli. Primavera. 1482, Têmpera sobre Madeira, 203 x 314 cm Florença, Galeria Ufizzi.

Obra de temática profana mitológica clássica, que com símbolos das divindades pagãs, apresenta-nos a chegada da estação que abre o círculo da vida e da sua renovação, ou seja, a primavera. Na concepção mitológica, Vênus, deusa do amor dos humanos e dos deuses, é a responsável pelo desejo da água, que tudo fecunda e renova. No quadro de Botticelli, Vênus aparece no centro da obra, mas não sendo a principal personagem da pintura. A deusa é representada de forma discreta, vestida. Vênus tem gestos nas mãos, e como uma madona parece abençoar o mundo. À sua cabeça, vemos Cupido, que com os olhos vendados, aponta a sua seta para a três Graças, que estão do lado esquerdo da deusa do amor. Quando descortinamos a obra a partir da figura de Aglaia , Tália e Eufrósine[1], as três Graças, Cárites ou Dons, é que começamos a encontrar sinais dos traços precisos da filosofia neoplatônica. As Graças surgem profanas, virginais, sensuais, trajando vestes transparentes, harmonizando a beleza das cores primaveris, pulsantes pela intervenção dos corpos humanos. Mais a esquerda do quadro está Mercúrio (Hermes), o mensageiro dos deuses, com suas sandálias aladas, trazendo uma túnica vermelha. Mercúrio dissipa as nuvens, rompe com o inverno, e traz o sol de primavera. Warburg associou esta pintura às festividades de maio na Corte dos Médici: o torneio de 1475, celebrado pelo poeta Poliziano, na qual se ilustrou Giuliano de Médici: a volta da paz, depois do fracasso da Conspiração dos Pazzi, que matou Giuliano e poupou Lourenço de Médici. Apesar disso, segundo o mitógrafo Jean Seznec,[2] há um ar longínquo, uma atmosfera quase irreal na obra: estamos num mundo que não parece ser o dos vivos e ali, os grandes enigmas da Natureza, da Morte e da Ressureição flutuam em volta das formas sonhadoras da Juventude, do Amor e da Beleza, fantasmas de um Olimpo ideal.

Quando voltamos para a direita de Vênus, vamos encontrar Flora, a deusa das florestas e das flores. Flora traja roupas floris, das roupas a deusa espalha as flores pelos campos. Flora é a única personagem da obra a olhar diretamente para o observador, como se fosse atirar as flores além daquela paisagem, atingindo todos os que contemplam a obra. À direita da obra surge Zéfiro, o vento do oeste. Zéfiro na mitologia é personificado como um vento agradável, uma brisa suave, é ele o mais suave de todos os ventos, o mensageiro da primavera. Zéfiro, retratado aqui como um ser esverdeado, enlaça a bela ninfa Clóris. Logo que Zéfiro a toca, flores perfumadas saem de sua boca e e ei-la transformada em Flora, a mensageira da renovação. Eu era Clóris e agora é que me chamam Flora, escreveu Ovídio em suas Metamorfoses.

Na mitologia romana Flora é a mulher de Zéfiro, na mitologia grega ela é identificada com Clóris, uma das Alseídas, ninfa das flores. Conta a lenda que Zéfiro viu Clóris num dia de primavera, apaixonou-se fulminantemente por ela, raptando-a. Do amor de Zéfiro e Clóris nasceu Carpo, o deus dos frutos. É no abraço (ou rapto) de Zéfiro a Clóris que começa a obra de Botticelli. As transformações e as progressões de Zéfiro a Clóris e deste a Flora exprimem, segundo Edgard Wind ( 1900 – 1971), a dialética neoplatônica do amor.

Para alguns, esta dialética faz nascer a beleza de uma discórdia entre a castidade e o amor. Clóris é a castidade e Zéfiro, o amor: sua união engendra a beleza primaveril que cobre a terra de flores. Mas, no Jardim de Vênus, segundo Jean Delumeau, conhecemos apenas a primeira metamorfose do amor. Avalia o autor que, de fato, por baixo de Vênus, um cupido alveja com a mão segura, apesar dos olhos vendados, uma das três graças que dançam à esquerda. A vítima é a a que figura no meio do grupo das três irmãs, a Castidade. A da direita, com o penteado adornado de pérolas é a Beleza, a da esquerda, a mais atraente, é a Volúpia. [3] A Castidade é, portanto, a iniciada no amor pelas duas companheiras com a proteção de Vênus que conduz a dança das Três Graças: uma dança que não evoca a sensualidade terrena, pois a Castidade vira as costas para o mundo e olha Mercúrio, o mensageiro e deus hermafrodita, o que tem nas vestes chamas invertidas, símbolos funerários (Mercúrio era o que iniciava os homens nos segredos de além-túmulo). Na primavera, Mercúrio aponta o dedo para o Céu, e expulsa para longe, com seu caduceu, as nuvens, os desejos carnais, para que possa revelar às almas a eleição e a beleza oculta nos mistérios divinos.

Portanto, a voluptuosidade à qual a Castidade é convidada, não é a da terra, a flecha que a atinge é a flecha do amor transcendente. Assim revela-se a significação neo-platônica da obra: o movimento geral do quadro deve ser lido da direita para a esquerda e não é por acaso que Zéfiro é simétrico a Mercúrio. O ritmo dialético do universo neo-platônico está na dinâmica do emanatio, raptio e remeatio, isto é, na emanação dos seres a partir de Deus (emanatio), a conversão da alma ao Criador que a chama (raptio) e o regresso ao Divino (remeatio). Onde está Flora, o pintor representou a emanatio, a descida do divino ao concreto terrestre. Mas, ao centro, o filho de Vênus fere a alma sedenta de verdade. Castidade, iniciada pela Beleza e pela Volúpia, aceita um amor que a afasta da terra. Deixa-se levar (raptio) e volta-se para Deus. Mercúrio a guiará para a contemplação da Divina Beleza (remeatio).

É possível, portanto, a partir da obra, compreender a fórmula antes expressa por Jacob Burckhardt como a arte segundo as tarefas. Tarefas aqui entendidas como as comitências a questavam submetidos os artistas nas encomendas, no culto público, no gosto erudito eno gosto popular. As concepções neo-platônicas da Academia de Florença estavam nas raízes do povo italiano pela sua história pregressa, seus arranjos sócio-políticos, suas bases pré-antigas e sua cultura artística como afirmou Jacob Burckhardt. Pela obra de Botticelli, podemos acessar as características históricas de uma Itália moderna, ainda não unificada, em que imperava o espírito da cultura renascentista. A arte, explica-nos Burckhardt, é o sintoma de longos e complexos processos culturais. As características de uma cultura, cuja origem dificilmente se deixa detectar, às vezes estão em sensibilidades veladas, presentes muito antes de se expressarem na arte, quando, então, podem tomar consciência de si próprias.[5] Assim, as manifestações artísticas como resultado de interação entre forma e conteúdo poderiam ser avaliadas e utilizadas como fonte ímpar para a compreensão da cultura de uma época.

Warburg vai ampliar os estudos e acrescentar a eles uma tônica psicossocial, considerada fundamental para os atuais estudos da imagem. Ele fará o reconhecimento de elementos que sobrevivem no tempo, as formas que traduzem a força psíquica das imagens e que tem função psicossocial e de reter a memória coletiva: a pathosformel. Termo desenvolvido por ele, as formas do pathos (do gr. paixão), foram usadas para localizar as sobrevivências viscerais da índole pagã, em tensão com a moral e a ética cristã, conflito próprio do homem do Renascimento. O pathos antigo estava relacionado a sentimentos intensos e dionisíacos em confronto com a harmonia apolínea, o controle e a disciplina da moral religiosa.

[1] Definidas dessa forma na Teogonia de Hesíodo.

[2] Citado por Jean Delumeau, op. cit, p. 222.

[3] DELUMEAU, Jean. A Civilização do Renascimento. Lisboa, Editorial Estampa, 1983, p. 114.

[5] BURCHARDT, Jacob. A Cultura do Renascimento na Itália. São Paulo, Cia das Letras, 1991. p. 219.

domingo, setembro 12, 2010

A Liberdade é Azul?


Wassily Kandinsky. In Blue. 1925. Oil on canvas. 80 x 110 cm. Kunstsammlung Nordrhein-Westfalen, Düsseldorf, Germany

O azul evoca um movimento a um só tempo, de afastamento do homem e movimento dirigido unicamente para o próprio centro, que, no entanto, atrai o homem para o infinito, desperta-lhe um desejo de pureza e uma sede de sobrenatural. Wassily Kandinsky


As coisas não querem mais ser vistas por pessoas razoáveis: elas desejam ser olhadas de azul. Manoel de Barros


Azul do céu. Alguém vive uma tragédia: a perda do marido, um famoso compositor e da filha pequena em um acidente de carro. Acorda em um hospital, quando recebe a notícia. A vivência dessa dor é tratada de maneira sensorial, do ponto de vista interno da personagem. Cenas azuis.


Azul do vazio. Dor, silêncio, solidão. Na necessidade imperativa e inconformada de continuar, a personagem desfaz-se das referências de seu passado. Não sem antes revisitar a casa, contemplar as sobras de vida a animavam. Dentre os objetos, um pirulito. Degusta-o, tritura-o com força instintiva entre os dentes. Era um pirulito azul.

Azul do não estar em outro lugar, a não ser em si mesmo. Nas sobras, um objeto é preservado: um móbile de pequenos fragmentos de cristal lapidado. Brilho em meio à vacuidade, o móbile é pendurado na sala de outra casa, anônima, local onde se refugia para livrar-se do que foi, dos que foram, do que poderiam ser. O móbile é azul.


Azul da dor contida. Na estrada solitária em busca de um outro lugar, ao caminhar junto a um muro, desliza intencionalmente a mão sobre as pedras até sangrar. Algo externo e forte precisava se contrapor à dor interna, fria, contida, silente, azul.


Azul da água e dos sentimentos. Mergulha em uma piscina e chora. Lágrimas que se misturam (inúteis) no ambiente azul. Azul da água que tudo dissolve e de onde tudo se recria. Azul do mergulho e do inconsciente.


Azul da suavidade das formas. Como alguém que não mais pode ir ao passado e não tem perspectiva de futuro, a personagem fixa-se em detalhes: um torrão de açúcar que se dissolve em um café, no café que dissolve o sorvete. O doce e o amargo, o quente e o frio. Dissoluções. Sentimentos que levam ao azul.


Azul de frias recordações. Um jovem devolve a ela um crucifixo arrancado de seu pescoço durante o acidente. Ela o rejeita. Rejeita a cruz, o sacrifício, a referência antiga. Azul do distanciamento de velhas e desnecessárias bases de apoio.


Azul da libertação dos vínculos (afetivo-familiares, religiosos). A liberdade de fixar-se no que resta em meio à solidão, ao silêncio, à dor pacificada. A personagem reescreve a sinfonia do marido morto a partir das suas próprias referências. Desliza os dedos sobre uma partitura e a música é azul. Uma sinfonia para a união das nações. A busca por novas identidades em contraposição e/ou união-diálogo com o outro. Encontra a amante do marido morto, grávida. Mais um nível de libertação das idolatrias afetivo-emocionais. A personagem ampara a amante e elabora a traição. Uma nova criança nasceria. (Re)significação da união, da perda e da fragmentação em outros níveis.


Sim, a liberdade é azul.


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Trois Couleurs: Bleu (Krzysztof Kieslowski, 1993)

sábado, julho 10, 2010

Quem sabe espera a hora

Relógios moles - Salvador Dali

O que quero é um sol mais sol que o Sol...
quero as coisas que existem,
não o tempo que as mede.
Alberto Caeiro

O lugar era escuro, janelas altas com vidros semi-abertos, de onde se podia ver um céu nublado da tarde de julho. Havia papéis na parede com instruções óbvias: “não encostar na divisória”, “acompanhantes devem aguardar na sala de espera”. Ali, tudo cheirava a dificuldades, algo entre o enfado e a opressão. E era tudo tão lento, deus, tão lento. Com a última senha do dia, conseguida ao custo de muito argumento com um segurança armado na porta de entrada, eu também aguardava a vez diante de um aparelho de TV com a imagem chuviscada. Estavam em greve e atendiam “só urgências”. As senhas eram distribuídas às 6h da manhã. Minha senha era a 106 e ainda chamavam a de número 80. Não, eu não podia reclamar. Fechei os olhos e rememorei o que havia me levado ali. Gritei com um gerente de Banco e meu seguro-desemprego foi bloqueado no mês seguinte. Ele me atendeu com a disposição de um funcionário de banco público ouvindo um desempregado. E eu compartilhava a fila com pessoas muito humildes, que mal conseguiam dizer o que precisavam. Foi o suficiente para me acender a fúria cidadã. Depois do meu escândalo, ele ficou uma seda e resolveu tudo muito rápido. Mas, ao final, disse-me, olhando-me nos olhos pela primeira vez: a gente só quer facilitar as coisas. Por um instante daquele olhar, percebi a inconsciência do seu orgulho pelo pequeno poder de gerente de um banco que nem tinha dono. Tive pena e aí soube que precisava ter me controlado. Para um pequeno teste tinha sido uma reprovação fácil. A sincronia do meu ato com o bloqueio do meu seguro ensinava-me que era preciso ser paciente, aceitar o que não poderia mudar e esperar, esperar e, quando estivesse cansada, ainda assim, esperar. Fechei os olhos e concentrei-me na minha respiração, acalmei a mente e controlei a ansiedade com a constatação de que eu estava de férias, poderia ficar ali o tempo que fosse. Foi, então, que me lembrei de um trecho do Hino ao Sol, do Akenaton. Recitei-o mentalmente muitas vezes, enquanto visualizava um sol no meu peito. Não sei quanto tempo de relógio isso durou, mas o fato é que a sensação física de calor naquela tarde de inverno fez-me abrir os olhos e perceber que um raio de sol infiltrado por entre as nuvens, atingia-me em cheio pelo vidro da janela alta. Foram apenas alguns minutos e as nuvens novamente o encobriram. Sim, o sol estava ali, eu só precisava me lembrar. Perdão, perdão, eu só conseguia pedir perdão. Fui chamada algum tempo depois, não sabia mais medir, mas tudo me pareceu eficiente e rápido.

sábado, maio 22, 2010

Ulisses





as mãos que trouxe

esqueço no meu corpo.
estrela de Antares me desvelo
e, grego, me apregôo.
se é tarde hasteio a vela ao tempo
e velejo à volta de meu ombro. aí vou
e onde ancoro salto e então revejo
a ilha de quem sou não tem fim.
arcano duende sofredor e crente
aceno o pano ao longe e à pele
do país da pessoa de onde eu venho.
aceno e já nem sei se eu creio
ou se advinho, na imagem do nome
do meu rosto, o meu destino.

(Carlos Rodrigues Brandão)

segunda-feira, abril 26, 2010

Nino


Soninho...

Que ventinho bom...

(Por Luiz Fernando Garibaldi)