segunda-feira, maio 23, 2011

Evangelização Diária

Generosidade
Então, você cria galinhas?
Crio, tenho nove. Crio para matar.
Para matar? Mas, você não tem pena?
Só quando a faca tá cega e elas me olham.

Flexibilidade
Minha cunhada é uma pessoa boa,
Trabalhou em um caixa, mas, saiu. Suspeita de roubo.

Devoção
Esta prateleira ficará ótima lá em casa, vou tirar uma foto.
Mandarei fazer uma idêntica.
Quando for comprar aquele peixe, traga para mim.
Quero um igual.
Aquela massa de pastel é boa, compre-me uma.
Da mesma marca, viu?
Esse tempero é muito bom, vou levar.
Ficará como o que você fez outro dia, igual.
Esse batom é bonito, vou querer um.
Da mesma cor.

Obediência
Lave roupas pela manhã, por causa do sol.
(lavo todos os dias à tarde, e depois fecho as janelas para que sequem à sombra)
Não se esqueça de colocar água para o gato, chego tarde.
(a vasilha do gato permanece vazia até a hora que alguém chega para enchê-la, essa é minha regra)
Quando tirar os acessórios da pia do lugar, devolva-os para facilitar que eu os encontre.
(a saboneteira fica sempre escondida em cima da caixa do vaso sanitário após a arrumação, assim é melhor)

Oração de Intercessão Diária
(recitada em reação a qualquer tentativa de diálogo)
Tsc Tsc Tsc Tsc Tsc
Tsc Tsc Tsc Tsc Tsc

quinta-feira, maio 19, 2011

Metamorfoses


Metamorfoses de Narciso. Salvador Dali, 1937.

Em silhueta introspecta
dobro os olhos
sobre joelhos
ressequidos
encarquilhados
eu e meu duplo
torpor narcísico
olhos viciados em ver
ecos de morte e vida
águas paradas
em que me precipito
para ser pedra
ruína
flor

domingo, maio 08, 2011

A Rosa Meditativa

Rosa Meditativa. Salvador Dali

Foi o destino. Estava tudo programado e algo em mim sabia. Que seria difícil. Algo no ápice da intensidade: do medo, da dor, da alegria. Alguém estranho, mas, ao mesmo tempo, tão próximo: mesmo tipo sanguíneo, mesmo jeito de olhar, e, logo, os mesmos hábitos, gostos literários, a mesma paixão pelo silêncio, pela escrita, pela arte. Não sem alguma culpa, identifico-me, também, com algumas dificuldades (doloroso suspiro). Admiro-me por sua singularidade na sutileza e inteligência, por sua sabedoria nata e, suprema glória compartilhada: pela nossa compreensão mútua, sem palavras. Como naquele momento, há exatos dezenove anos, era o dia das mães. Ela era o meu presente: Maria Clara, minha Rosa Meditativa, sublime expressão de força, sabedoria e beleza. Nem Dali poderia interpretar esta florescência amorosa para além das raízes e dos frutos.

sábado, maio 07, 2011

Libertango


"trago a vida agora calma, um tango dentro d' alma"....

sexta-feira, abril 15, 2011

sexta-feira, abril 01, 2011

Aproveitar o Tempo

APOSTILA (11-4-1928)



Aproveitar o tempo!

Ah, deixem-me não aproveitar nada!

Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!...
Deixem-me ser uma folha de árvore, titilada por brisa,
A poeira de uma estrada involuntária e sozinha,
O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras,
O pião do garoto, que vai a parar,

E estremece, no mesmo movimento que o da terra,
E oscila, no mesmo movimento que o da alma,
E cai, como caem os deuses, no chão do Destino.


(Álvaro de Campos)

quinta-feira, janeiro 13, 2011

A Última Folha


"Subsistem folhas nas árvores, aqui e ali. E fico freqüentemente diante delas, pensativo. Contemplo uma folha e fixo nela minha esperança. Quando o vento brinca com ela, todo o meu ser treme. E se ela cai, que se pode fazer, minha esperança cai com ela.”

Para poder interrogar a sorte, é preciso uma pergunta alternativa (mal me quer/bem me quer), um objeto suscetível de uma variação simples (vai cair/não vai cair) e uma força exterior (divindade, acaso, vento) que marque um dos pólos da variação. Faço sempre a mesma pergunta (serei amado?), e essa pergunta é alternativa: tudo ou nada; não concebo que as coisas amadureçam, escapem às conveniências do desejo. Não sou dialético. A dialética diria: a folha não cairá, e depois ela cairá; mas enquanto isso você terá mudado e não fará mais a pergunta.

(ao consultar quem quer que seja, espero que me digam: “a pessoa que você ama também o ama e vai lhe dizer isso essa noite”).

A Última Folha. BARTHES, Roland. Fragmentos de Um Discurso Amoroso. RJ, Francisco Alves, 1989.p.146.

sexta-feira, novembro 26, 2010

Poema Sem Drama


Entre Lírios e Ausências



Na mesa da sala vejo lírios sem perfume.
Um encontro roubado, o cartão, genuíno?
A letra, um nome em desalinho.
Bulbos cerrados que nunca se abrirão.
Pólen que mancha toalhas, a roupa, o chão.
Estética estéril do amor carcomido.
Na pureza perdida, é de sangue o que enche a jarra de vidro.

sexta-feira, setembro 17, 2010

Primavera

Sandro Botticelli. Primavera. 1482, Têmpera sobre Madeira, 203 x 314 cm Florença, Galeria Ufizzi.

Obra de temática profana mitológica clássica, que com símbolos das divindades pagãs, apresenta-nos a chegada da estação que abre o círculo da vida e da sua renovação, ou seja, a primavera. Na concepção mitológica, Vênus, deusa do amor dos humanos e dos deuses, é a responsável pelo desejo da água, que tudo fecunda e renova. No quadro de Botticelli, Vênus aparece no centro da obra, mas não sendo a principal personagem da pintura. A deusa é representada de forma discreta, vestida. Vênus tem gestos nas mãos, e como uma madona parece abençoar o mundo. À sua cabeça, vemos Cupido, que com os olhos vendados, aponta a sua seta para a três Graças, que estão do lado esquerdo da deusa do amor. Quando descortinamos a obra a partir da figura de Aglaia , Tália e Eufrósine[1], as três Graças, Cárites ou Dons, é que começamos a encontrar sinais dos traços precisos da filosofia neoplatônica. As Graças surgem profanas, virginais, sensuais, trajando vestes transparentes, harmonizando a beleza das cores primaveris, pulsantes pela intervenção dos corpos humanos. Mais a esquerda do quadro está Mercúrio (Hermes), o mensageiro dos deuses, com suas sandálias aladas, trazendo uma túnica vermelha. Mercúrio dissipa as nuvens, rompe com o inverno, e traz o sol de primavera. Warburg associou esta pintura às festividades de maio na Corte dos Médici: o torneio de 1475, celebrado pelo poeta Poliziano, na qual se ilustrou Giuliano de Médici: a volta da paz, depois do fracasso da Conspiração dos Pazzi, que matou Giuliano e poupou Lourenço de Médici. Apesar disso, segundo o mitógrafo Jean Seznec,[2] há um ar longínquo, uma atmosfera quase irreal na obra: estamos num mundo que não parece ser o dos vivos e ali, os grandes enigmas da Natureza, da Morte e da Ressureição flutuam em volta das formas sonhadoras da Juventude, do Amor e da Beleza, fantasmas de um Olimpo ideal.

Quando voltamos para a direita de Vênus, vamos encontrar Flora, a deusa das florestas e das flores. Flora traja roupas floris, das roupas a deusa espalha as flores pelos campos. Flora é a única personagem da obra a olhar diretamente para o observador, como se fosse atirar as flores além daquela paisagem, atingindo todos os que contemplam a obra. À direita da obra surge Zéfiro, o vento do oeste. Zéfiro na mitologia é personificado como um vento agradável, uma brisa suave, é ele o mais suave de todos os ventos, o mensageiro da primavera. Zéfiro, retratado aqui como um ser esverdeado, enlaça a bela ninfa Clóris. Logo que Zéfiro a toca, flores perfumadas saem de sua boca e e ei-la transformada em Flora, a mensageira da renovação. Eu era Clóris e agora é que me chamam Flora, escreveu Ovídio em suas Metamorfoses.

Na mitologia romana Flora é a mulher de Zéfiro, na mitologia grega ela é identificada com Clóris, uma das Alseídas, ninfa das flores. Conta a lenda que Zéfiro viu Clóris num dia de primavera, apaixonou-se fulminantemente por ela, raptando-a. Do amor de Zéfiro e Clóris nasceu Carpo, o deus dos frutos. É no abraço (ou rapto) de Zéfiro a Clóris que começa a obra de Botticelli. As transformações e as progressões de Zéfiro a Clóris e deste a Flora exprimem, segundo Edgard Wind ( 1900 – 1971), a dialética neoplatônica do amor.

Para alguns, esta dialética faz nascer a beleza de uma discórdia entre a castidade e o amor. Clóris é a castidade e Zéfiro, o amor: sua união engendra a beleza primaveril que cobre a terra de flores. Mas, no Jardim de Vênus, segundo Jean Delumeau, conhecemos apenas a primeira metamorfose do amor. Avalia o autor que, de fato, por baixo de Vênus, um cupido alveja com a mão segura, apesar dos olhos vendados, uma das três graças que dançam à esquerda. A vítima é a a que figura no meio do grupo das três irmãs, a Castidade. A da direita, com o penteado adornado de pérolas é a Beleza, a da esquerda, a mais atraente, é a Volúpia. [3] A Castidade é, portanto, a iniciada no amor pelas duas companheiras com a proteção de Vênus que conduz a dança das Três Graças: uma dança que não evoca a sensualidade terrena, pois a Castidade vira as costas para o mundo e olha Mercúrio, o mensageiro e deus hermafrodita, o que tem nas vestes chamas invertidas, símbolos funerários (Mercúrio era o que iniciava os homens nos segredos de além-túmulo). Na primavera, Mercúrio aponta o dedo para o Céu, e expulsa para longe, com seu caduceu, as nuvens, os desejos carnais, para que possa revelar às almas a eleição e a beleza oculta nos mistérios divinos.

Portanto, a voluptuosidade à qual a Castidade é convidada, não é a da terra, a flecha que a atinge é a flecha do amor transcendente. Assim revela-se a significação neo-platônica da obra: o movimento geral do quadro deve ser lido da direita para a esquerda e não é por acaso que Zéfiro é simétrico a Mercúrio. O ritmo dialético do universo neo-platônico está na dinâmica do emanatio, raptio e remeatio, isto é, na emanação dos seres a partir de Deus (emanatio), a conversão da alma ao Criador que a chama (raptio) e o regresso ao Divino (remeatio). Onde está Flora, o pintor representou a emanatio, a descida do divino ao concreto terrestre. Mas, ao centro, o filho de Vênus fere a alma sedenta de verdade. Castidade, iniciada pela Beleza e pela Volúpia, aceita um amor que a afasta da terra. Deixa-se levar (raptio) e volta-se para Deus. Mercúrio a guiará para a contemplação da Divina Beleza (remeatio).

É possível, portanto, a partir da obra, compreender a fórmula antes expressa por Jacob Burckhardt como a arte segundo as tarefas. Tarefas aqui entendidas como as comitências a questavam submetidos os artistas nas encomendas, no culto público, no gosto erudito eno gosto popular. As concepções neo-platônicas da Academia de Florença estavam nas raízes do povo italiano pela sua história pregressa, seus arranjos sócio-políticos, suas bases pré-antigas e sua cultura artística como afirmou Jacob Burckhardt. Pela obra de Botticelli, podemos acessar as características históricas de uma Itália moderna, ainda não unificada, em que imperava o espírito da cultura renascentista. A arte, explica-nos Burckhardt, é o sintoma de longos e complexos processos culturais. As características de uma cultura, cuja origem dificilmente se deixa detectar, às vezes estão em sensibilidades veladas, presentes muito antes de se expressarem na arte, quando, então, podem tomar consciência de si próprias.[5] Assim, as manifestações artísticas como resultado de interação entre forma e conteúdo poderiam ser avaliadas e utilizadas como fonte ímpar para a compreensão da cultura de uma época.

Warburg vai ampliar os estudos e acrescentar a eles uma tônica psicossocial, considerada fundamental para os atuais estudos da imagem. Ele fará o reconhecimento de elementos que sobrevivem no tempo, as formas que traduzem a força psíquica das imagens e que tem função psicossocial e de reter a memória coletiva: a pathosformel. Termo desenvolvido por ele, as formas do pathos (do gr. paixão), foram usadas para localizar as sobrevivências viscerais da índole pagã, em tensão com a moral e a ética cristã, conflito próprio do homem do Renascimento. O pathos antigo estava relacionado a sentimentos intensos e dionisíacos em confronto com a harmonia apolínea, o controle e a disciplina da moral religiosa.

[1] Definidas dessa forma na Teogonia de Hesíodo.

[2] Citado por Jean Delumeau, op. cit, p. 222.

[3] DELUMEAU, Jean. A Civilização do Renascimento. Lisboa, Editorial Estampa, 1983, p. 114.

[5] BURCHARDT, Jacob. A Cultura do Renascimento na Itália. São Paulo, Cia das Letras, 1991. p. 219.

domingo, setembro 12, 2010

A Liberdade é Azul?


Wassily Kandinsky. In Blue. 1925. Oil on canvas. 80 x 110 cm. Kunstsammlung Nordrhein-Westfalen, Düsseldorf, Germany

O azul evoca um movimento a um só tempo, de afastamento do homem e movimento dirigido unicamente para o próprio centro, que, no entanto, atrai o homem para o infinito, desperta-lhe um desejo de pureza e uma sede de sobrenatural. Wassily Kandinsky


As coisas não querem mais ser vistas por pessoas razoáveis: elas desejam ser olhadas de azul. Manoel de Barros


Azul do céu. Alguém vive uma tragédia: a perda do marido, um famoso compositor e da filha pequena em um acidente de carro. Acorda em um hospital, quando recebe a notícia. A vivência dessa dor é tratada de maneira sensorial, do ponto de vista interno da personagem. Cenas azuis.


Azul do vazio. Dor, silêncio, solidão. Na necessidade imperativa e inconformada de continuar, a personagem desfaz-se das referências de seu passado. Não sem antes revisitar a casa, contemplar as sobras de vida a animavam. Dentre os objetos, um pirulito. Degusta-o, tritura-o com força instintiva entre os dentes. Era um pirulito azul.

Azul do não estar em outro lugar, a não ser em si mesmo. Nas sobras, um objeto é preservado: um móbile de pequenos fragmentos de cristal lapidado. Brilho em meio à vacuidade, o móbile é pendurado na sala de outra casa, anônima, local onde se refugia para livrar-se do que foi, dos que foram, do que poderiam ser. O móbile é azul.


Azul da dor contida. Na estrada solitária em busca de um outro lugar, ao caminhar junto a um muro, desliza intencionalmente a mão sobre as pedras até sangrar. Algo externo e forte precisava se contrapor à dor interna, fria, contida, silente, azul.


Azul da água e dos sentimentos. Mergulha em uma piscina e chora. Lágrimas que se misturam (inúteis) no ambiente azul. Azul da água que tudo dissolve e de onde tudo se recria. Azul do mergulho e do inconsciente.


Azul da suavidade das formas. Como alguém que não mais pode ir ao passado e não tem perspectiva de futuro, a personagem fixa-se em detalhes: um torrão de açúcar que se dissolve em um café, no café que dissolve o sorvete. O doce e o amargo, o quente e o frio. Dissoluções. Sentimentos que levam ao azul.


Azul de frias recordações. Um jovem devolve a ela um crucifixo arrancado de seu pescoço durante o acidente. Ela o rejeita. Rejeita a cruz, o sacrifício, a referência antiga. Azul do distanciamento de velhas e desnecessárias bases de apoio.


Azul da libertação dos vínculos (afetivo-familiares, religiosos). A liberdade de fixar-se no que resta em meio à solidão, ao silêncio, à dor pacificada. A personagem reescreve a sinfonia do marido morto a partir das suas próprias referências. Desliza os dedos sobre uma partitura e a música é azul. Uma sinfonia para a união das nações. A busca por novas identidades em contraposição e/ou união-diálogo com o outro. Encontra a amante do marido morto, grávida. Mais um nível de libertação das idolatrias afetivo-emocionais. A personagem ampara a amante e elabora a traição. Uma nova criança nasceria. (Re)significação da união, da perda e da fragmentação em outros níveis.


Sim, a liberdade é azul.


............................

Trois Couleurs: Bleu (Krzysztof Kieslowski, 1993)

sábado, julho 10, 2010

Quem sabe espera a hora

Relógios moles - Salvador Dali

O que quero é um sol mais sol que o Sol...
quero as coisas que existem,
não o tempo que as mede.
Alberto Caeiro

O lugar era escuro, janelas altas com vidros semi-abertos, de onde se podia ver um céu nublado da tarde de julho. Havia papéis na parede com instruções óbvias: “não encostar na divisória”, “acompanhantes devem aguardar na sala de espera”. Ali, tudo cheirava a dificuldades, algo entre o enfado e a opressão. E era tudo tão lento, deus, tão lento. Com a última senha do dia, conseguida ao custo de muito argumento com um segurança armado na porta de entrada, eu também aguardava a vez diante de um aparelho de TV com a imagem chuviscada. Estavam em greve e atendiam “só urgências”. As senhas eram distribuídas às 6h da manhã. Minha senha era a 106 e ainda chamavam a de número 80. Não, eu não podia reclamar. Fechei os olhos e rememorei o que havia me levado ali. Gritei com um gerente de Banco e meu seguro-desemprego foi bloqueado no mês seguinte. Ele me atendeu com a disposição de um funcionário de banco público ouvindo um desempregado. E eu compartilhava a fila com pessoas muito humildes, que mal conseguiam dizer o que precisavam. Foi o suficiente para me acender a fúria cidadã. Depois do meu escândalo, ele ficou uma seda e resolveu tudo muito rápido. Mas, ao final, disse-me, olhando-me nos olhos pela primeira vez: a gente só quer facilitar as coisas. Por um instante daquele olhar, percebi a inconsciência do seu orgulho pelo pequeno poder de gerente de um banco que nem tinha dono. Tive pena e aí soube que precisava ter me controlado. Para um pequeno teste tinha sido uma reprovação fácil. A sincronia do meu ato com o bloqueio do meu seguro ensinava-me que era preciso ser paciente, aceitar o que não poderia mudar e esperar, esperar e, quando estivesse cansada, ainda assim, esperar. Fechei os olhos e concentrei-me na minha respiração, acalmei a mente e controlei a ansiedade com a constatação de que eu estava de férias, poderia ficar ali o tempo que fosse. Foi, então, que me lembrei de um trecho do Hino ao Sol, do Akenaton. Recitei-o mentalmente muitas vezes, enquanto visualizava um sol no meu peito. Não sei quanto tempo de relógio isso durou, mas o fato é que a sensação física de calor naquela tarde de inverno fez-me abrir os olhos e perceber que um raio de sol infiltrado por entre as nuvens, atingia-me em cheio pelo vidro da janela alta. Foram apenas alguns minutos e as nuvens novamente o encobriram. Sim, o sol estava ali, eu só precisava me lembrar. Perdão, perdão, eu só conseguia pedir perdão. Fui chamada algum tempo depois, não sabia mais medir, mas tudo me pareceu eficiente e rápido.

sábado, maio 22, 2010

Ulisses





as mãos que trouxe

esqueço no meu corpo.
estrela de Antares me desvelo
e, grego, me apregôo.
se é tarde hasteio a vela ao tempo
e velejo à volta de meu ombro. aí vou
e onde ancoro salto e então revejo
a ilha de quem sou não tem fim.
arcano duende sofredor e crente
aceno o pano ao longe e à pele
do país da pessoa de onde eu venho.
aceno e já nem sei se eu creio
ou se advinho, na imagem do nome
do meu rosto, o meu destino.

(Carlos Rodrigues Brandão)

segunda-feira, abril 26, 2010

Nino


Soninho...

Que ventinho bom...

(Por Luiz Fernando Garibaldi)

quinta-feira, abril 22, 2010

Fluir

[H- Descreva-me a sensação de ser amada.
MC- Sei lá, acho que é algo líquido, vem da água.
H- Do mar, dos peixes? Pensava que vinha do céu e dos pássaros.
MC- Mas, nas origens, os pássaros já foram peixes...]


a intenção da água é o mar...*

Mia Couto

Hoje você disse que me amava. Simples assim, sem pudor. Rompendo as cadeias, os riscos e medos. Com insuspeitada calma e alegria. Depois de meio dia, suas palavras ainda ressoam em mim. Ainda não consigo descrever a sensação de ser amada. Procuro a culpa por receber esse amor, o dever de não usufruir dele, mas não encontro nada. Só ouço, repetidamente, sua declaração de amor que me escorre como água morna e me acaricia o corpo, me torna a alma líquida. Sob o sol cálido desta manhã azul de abril, você disse que me amava. E eu me transformei em peixe e o mar me pareceu pouco perto desta vontade de fluir pra sempre.


*Mia Couto

Ilha

Tenho a sede das ilhas

e esquece-me ser terra


meu amor, aconchega-me

meu amor, mareja-me


Depois, não

me ensines a estrada.

A intenção da água é o mar

a intenção de mim és tu.

domingo, fevereiro 28, 2010

Vaga

Flutuava no vácuo. Sem passado, sem futuro. Nem guardados, nem sonhos. Nada que fosse uma bússola ou âncora. Na verdade, nunca foi muito bom em horizontes. Agarrou-se ao velho chão e ele se mostrou flutuante, quase hostil, no mínimo, estranho. Olhou as estrelas e recolocou sua (auto) importância. Mas, havia a espera. Nela, a perspectiva. Procurou a palavra no alfarrábio do capitão e encontrou a idéia da pintura na alameda de jardim para iludir a vista. Agora estava certo: tornaria-se um marinheiro pintor, mágico ou ficcionista.

quarta-feira, dezembro 30, 2009

Revelação

Todos os mares, todos os estreitos, todas as baías, todos os golfos,
queria apertá-los ao peito, sentí-los bem e morrer!
Álvaro de Campos. Ode Marítima


Havia sido formalmente convidada. Viajou com alta carga de stress funcional como era de costume. Manter o foco, era essa a atitude que alimentava a profissional e fazia com que ignorasse o espaço, as pessoas e todo o resto. Aeroporto, táxi, balcão do hotel. Deitou as malas no chão do quarto e abriu as portas da sacada. Daí, a surpresa. O mar. Era o mar. A brisa marítima invadiu o quarto e aguçou-lhe os sentidos. O céu, as ondas e aquele entardecer a fizeram lembrar de quem havia sido. Alguém que estava ao lado, dentro, sabe-se lá em que tempo ou lugar. Por instantes, ela era outra. Recordou-se de velhos e simples desejos. Sentiu-se só e chorou. Sabia que a dor maior da solidão era não ter com quem compartilhar alegrias. Calçou um tênis e correu para a praia, antes que o sol fosse embora. Falou com desconhecidos, sentou-se pouco à vontade junto a um banco em frente às ondas, mas voltou logo para o quarto, para as malas, o texto da conferência que ainda precisava de ajustes. Sim, era essa sua zona de conforto diante de todas as misérias pessoais. Trabalhou até ficar com sono e sentir-se menos ridícula por aquele inadequado êxtase marítimo. A conferência foi um sucesso, muitos a parabenizaram pela competência e inquestionável segurança.

sábado, agosto 15, 2009

Aprendizado Tardio

Não devemos perder a oportunidade de dar aos outros a chance de nos dizer “não”. É libertador e muito elucidativo.

O silêncio é a maior arma contra a estupidez, especialmente quando ela se revela assim, sem máscaras diante de nós.

Um olhar verdadeiramente masculino é algo como borrifar um bom perfume. Você pode até não estar bem no momento, mas alguma coisa em você agradece.

quinta-feira, julho 23, 2009

Sobre a Tirania



Um amigo disse-me outro dia que gosto de mandar. Outro, que sou uma “doce tirana”. Imaginando que, ao contrário, sempre preferi a autogestão anarquista aos regimes ditatoriais, estive às voltas com pensamentos a respeito da “tirania”. “Tirania”, parece-me óbvio, no sentido mais caricatural do conceito, no mais exagerado, só para enfatizar a idéia (pois, afinal, caricaturas podem servir como acentos elucidativos de princípios polêmicos). Refleti, então, talvez para o meu próprio consolo e frente ao meu preconceito iluminista à noção de autoridade, que a tirania, sem aspas mesmo, envolve certa dose de doação, alguma generosidade e muito compromisso e disposição. Alguém já assistiu individualistas autocentrados e egoístas à frente de algum projeto coletivo? Assumindo riscos, administrando contradições de relacionamentos e colocando a própria cabeça a prêmio? (No meu caso profissional, observo muitos carreiristas de carteirinha, os-que-só-pensam-em-si-próprios-e-o-resto-que-se-dane que nunca assumem nada). Fiquei pensando, também, que a gestão tirânica é sempre livre (e talvez seja essa a motivação essencial). A liberdade de escolher os grãos, o terreno, a cor das flores que vão nascer. Não há como planejar um campo sem envolver a alma nas sementes potenciais, sem assumir escolhas e entregar-se. A tirania envolve, dessa forma, liberdade, exposição e perigo. Por outro lado, paradoxalmente, não há como exercer a tirania, sem aceitar a imprevisibilidade: pode chover pouco naquele ano, os ventos não serem favoráveis. Em resumo, o plano pode não vingar. Daí que a tirania não pode ser efetivamente exercida sem alguma dose de flexibilidade e maturidade interior para o fracasso e a frustração. Vaidades em excesso, soberba em altas doses só cabem naqueles que usufruem de esquemas prontos. E campos em flor são terrenos férteis de atração para os que não contribuíram, mas desejam usufruir, os conhecidos oportunistas de plantão. Os que não perderão a chance de criticar os projetos para os quais não contribuíram e julgam ter o direito natural de uso dos benefícios. Assim é que o tirano está sempre acompanhado, mas, no fundo, sempre só. Solitário na reavaliação contínua do plano, do panorama idealizado, no esforço para ajustar as flutuações sem perder a motivação essencial do projeto. E é claro que há resultados desvirtuados, manipulados, distorcidos. Há também tempos em que os objetivos são plenamente alcançados e chega a hora de bater em retirada para manter o impulso criativo e a liberdade. Talvez certos “tiranos” sejam, no fundo, incorrigíveis sonhadores e peregrinos.

terça-feira, junho 16, 2009

Carta Capital

Minha filha queria saber sobre as denúncias em torno da morte de Jango que foram publicadas em Carta Capital e ele nos ouviu conversar a respeito. Ele, que, aos oitenta, é sempre o que assiste aos jornais, lê os livros da moda e as revistas semanais, trouxe-nos um exemplar no domingo seguinte, e em todos os outros em que almoçamos juntos. Depois do episódio, ele sempre nos compra uma Carta Capital antes de dirigir meia hora para pagar nosso almoço, contar histórias que me fazem rir, tomar sorvete ao final das refeições e sair dirigindo à toda como se tivesse vinte e nove anos (por muitos anos, meu pai nos disse que fazia vinte e nove em aniversários). Ontem, depois de uma quimioterapia, assistimos parte do jogo do Brasil juntos. No seu enrolado portunhol, ele reclamou de um tal de Pato, indignou-se, aliviou-se com o pênalti que deu a vitória apertada ao Brasil, enquanto eu, secretamente, torcia para os egípcios. Controlei sua febre com medicamentos e minha natural chateação de colocar a mão nele de meia em meia hora. Ele se esquivou e protestou com seu habitual Reina, eu sou homem. Dormimos pouco à noite, mas hoje cedo, ele mal esperou o dia clarear para agradecer-me, dizer que tudo ia ficar bem e despedir-se olhando o relógio, planejando inadiáveis compromissos. Ao fechar a porta depois de acompanhá-lo ao elevador, segurei a última Carta Capital, a que dá mais detalhes sobre a morte súbita de Jango. E foi impossível não pensar na morte e nos pequenos detalhes que fazem toda uma vida.

domingo, junho 14, 2009

Por aí...

O fato:

Levar-te à boca,
beber a água
mais funda do teu ser -

se a luz é tanta,
como se pode morrer?

Eugénio Andrade
Daqui: Ene Coisas

E a explicação:

Dizer que a paixão implica em perda da razão não parece correto. Talvez seja mais apropriado dizer que a paixão carrega uma outra razão. A paixão, para mim, é como a leitura de um poema. Ou nos arrebata ou não é poesia. Nem paixão. A paixão é como uma palavra, num poema, uma palavra que busca uma rima. Quando duas palavras se beijam, nasce a poesia. Para mim, a paixão tem a ver com aquela "realidade ficcional" na qual estamos imersos quando lemos um romance: uma suspensão temporária do descrédito do mundo e do outro.

Rodrigo Garcia Lopes
E daqui: Orfanato Portátil