Não sei se é porque era maio e maio é o mês de Maria e eu sou mariana convicta, ou se é porque era o Wesak e a lua cheia de maio sempre me deixou assim, como diria, sensível aos impulsos mais profundos da alma, ou se porque ela chorou e eu também por constatar que era verdade, havia alguém dentro de mim, ou, quem sabe, porque ela me conquista a cada dia com tantos desafios, com sua inteligência viva e superioridade de espírito, eu não sei, só sei que há exatamente dezessete anos, 19:40h, do ano de 1992, nascia Maria Clara. Deus, esse amor não tem nome.
sexta-feira, maio 08, 2009
Oito de Maio
Não sei se é porque era maio e maio é o mês de Maria e eu sou mariana convicta, ou se é porque era o Wesak e a lua cheia de maio sempre me deixou assim, como diria, sensível aos impulsos mais profundos da alma, ou se porque ela chorou e eu também por constatar que era verdade, havia alguém dentro de mim, ou, quem sabe, porque ela me conquista a cada dia com tantos desafios, com sua inteligência viva e superioridade de espírito, eu não sei, só sei que há exatamente dezessete anos, 19:40h, do ano de 1992, nascia Maria Clara. Deus, esse amor não tem nome.
sexta-feira, maio 01, 2009
Frustração

O caminho parecia-lhe fértil e verde no fundo da janela que emoldurava o perfil no carro. Ele falava e gesticulava de um modo único, com aquelas mãos de proporções equilibradas e seguras no volante. Aceitou o convite dele sem duvidar que o sim era mais do que o aceite de um convite para almoçar naquele local próximo à cidade. Era um sim a ele e a todas as suas sutis investidas. Conversaram muito para não dar espaço ao verdadeiro sentido de estarem ali, anônimos de si mesmos, sob todos os disfarces dos desejos encobertos nos assuntos. Num instante e já se encontravam na vila feito baratas tontas, sem que ela fosse objetiva quando ele perguntava sobre onde iriam. Ele queria um sinal explícito e sua hesitação cheirava a medo. Depois de alguns talvez, você é quem sabe, pode ser, foram parar naquela pousada que tinha um enorme jardim. Achavam que não queriam um quarto, iam primeiro visitar o local. Caminharam constrangidos e cautelosos pela trilha que levava ao chalé mais distante da portaria, sentaram-se em frente a um pequeno lago e permaneceram falando sem trégua naquela manhã ensolarada e incerta. Foi, então, que ela tirou os sapatos e colocou os pés na água para diminuir a tensão, dar espaço aos impulsos sensoriais e naturais de fundo que os uniram. Ele pareceu não entender o gesto, riu dos seus pés pequenos e a convidou para ir embora. O sol agora os queimava. Almoçaram num restaurante de comida sem tempero, falaram mais ainda na longa viagem de volta e se despediram com aquele até mais banal e definitivo.
domingo, abril 26, 2009
A Calúnia e a Fofoca
+Goya.jpg)
Aqueles pós, (trouxeram esses lodos).
Da série Os Caprichos de Goya (1792)
Perseverar no cumprimento de seu dever e guardar silêncio
é a melhor resposta à calúnia." (George Washington)
A Calúnia e a Fofoca
Roque Theophilo
Calúnia é um termo que vem do latim, calumnia, engodo, embuste. A calúnia não se confunde nem com a difamação nem com a injúria, outros dois crimes contra a honra. A difamação (do latim diffamare) significa desacreditar, sendo um crime que consiste em atribuir a alguém fato ofensivo à sua reputação de pessoa fiel à moralidade e aos bons costumes. Não se confunde com a calúnia, pois esta consiste numa imputação injusta de fato tipificado como crime. Na difamação o que se busca é desacreditar a vítima, embora sem apontá-la como autora de fato criminoso. (...)
Quanto à injúria do latim injuria, de in jus, injustiça, falsidade, trata-se de um crime contra a honra consistente em ofender, verbalmente, por escrito, ou fisicamente (injúria real), a dignidade ou o decoro de alguém. A injúria ofende o moral, abate o ânimo da vítima, ao passo que a calúnia e a difamação ferem a moral da vítima. (...)
Fofoca é o mexerico, intriga, a bisbilhotice. É um mal que para muitos é divertimento sem importância, mas que é extremamente destrutivo: A vontade de passar informações faz parte do homem, é a comunicação, é uma ação humana natural e normal, mas na maioria das vezes esquecemos do outro e não medimos as conseqüências das nossas palavras. Quando uma pessoa não controla a cobiça, o resultado é a inveja, que desperta o instinto animal de prejudicar o próximo pela difamação. O vaidoso que é infestado pelo orgulho e pela arrogância, é muito propenso a usar a fofoca. (...)
Afirmativas como “onde há fumaça há fogo”, em verdade são armas utilizadas pelos caluniadores. O correto é: “onde há fumaça há um caluniador”. Para bom entendedor, quem está sendo exposto não é o caluniado, mas sim o caluniador: revela-se e desvenda um interior conflitado.
O caluniador é uma pessoa que está sempre em conflito consigo mesmo. Quem está de bem com a vida não tem sequer vontade de caluniar, quer apreciar as coisas boas da vida.
Por vezes, as pessoas lidam de forma inadequada com suas perturbações. Por exemplo, passam a ingerir muita bebida de álcool, ou mergulham num mundo imaginário e se afastam da vida real. Outra forma inadequada é a calúnia. O caluniador procura transferir seu desequilíbrio para outra pessoa. Lançando uma calúnia ele percebe que o interior da pessoa atingida começa a se desorganizar. Para que isso ocorra, a calúnia deve ser impactante, deve penetrar no interior da vítima e estourar como uma bomba. Portanto, agora quem está desequilibrado é o outro e não mais ele. Ou há mais alguém perturbado e em sofrimento como ele.
Como este artifício é fantasioso, não promove um alívio duradouro ao caluniador, como um vício ele sente necessidade de repetir e repetir o ato de caluniar. É uma falsa saída para seu desequilíbrio. É como se alguém pegasse o lixo de sua casa e jogasse no pátio do vizinho. Por alguns momentos tem a sensação de estar limpo. Mas o lixo reaparece na sua casa, pois ela é o gerador de lixo.
Existem dois tipos de caluniadores: aquele que calúnia sistematicamente e aquele que o faz num momento em que sua vida não vai bem.
E existem também as pessoas que levam adiante a calúnia gerada por outro. É um fenômeno que acompanha a humanidade desde sempre. Um dramaturgo romano, Plauto, escreve em uma de suas peças: “Os que propalam a calúnia e os que a escutam, se prevalecesse minha opinião, deveriam ser enforcados, os primeiros pela língua e os outros pela orelha”.
Brincadeiras à parte, temos que aprender a lidar com estes fenômenos. Todos estamos sujeitos a ele. Sheakespeare escreveu: “Mesmo que sejas tão puro quanto a neve, não escaparás à calúnia”.(...)
Aquele que se percebe gerando calúnia se beneficiará de uma ajuda profissional para procurar lidar de uma maneira mais eficaz com seus desequilíbrios.
Provavelmente, graças a esse poder contaminante do pensamento primário é que, muitas vezes, julgamos uma causa por sua aparência, brigamos com amigos por detalhes fúteis e esquecemos o imprescindível para guardar o periférico. (...)
Provavelmente, graças a esse poder contaminante do pensamento primário é que, muitas vezes, julgamos uma causa por sua aparência, brigamos com amigos por detalhes fúteis e esquecemos o imprescindível para guardar o periférico. (...)
quinta-feira, abril 23, 2009
Os Olhos Mentem
segunda-feira, abril 20, 2009
Ofélia

Para os amores mortos e loucos, - aqueles que se auto-sacrificam e, envoltos em flores, ingenuidade e delicadeza se precipitam nas águas, - a fluidez de Ofélia de Elsinore, o emblema do sonho e da fragilidade em cada um de nós.
J.E.Millais, Ophelia, 1851.
Às vezes, quando vou por altas horas, quando
fujo através da noite, a este amor que reveste
de um tênue véu de névoa a face do meu sonho,
de lábios infantis que, uma e outra vez, murmuram
uma queixa, como a de alguém que se maltrata,
um murmúrio, afinal, que só tu poderias
compreender, fico a olhar os jardins solitários
que ornam a calma azul por onde vou passando.
***
E às vezes, paro e sonho à frente de um cipreste;
outras, invejo o ardor de um canteiro tristonho
alvos lírios claustrais que aromam e fulguram,
como fantásticos turíbulos de prata.
Outras, quando anda a lua entre as ruas sombrias
e as flores tomam o ar de votos funerários,
cada aléia é como um regato cintilando,
onde um Ofélia, de alva e imponderável veste
loira e fria, tombou, morta de amor e sonho.
***
Junto às grades hostis que os jardins enclausuram
e que, ao fulgor da luz, são de ouro, bronze ou prata,
descanso, muita vez, as mãos longas e frias.
E enquanto a lua evoca extáticos cenários
de paisagens do polo e torna em verde brando
todo o azul que lhe nimba a tristeza celeste,
das grades através, como através de um sonho
de prisioneiro, a cujo olhar se transfiguram
as visões do exterior, tenho a visão exata
da noite que convida às grandes nostalgias.
***
Eu sou o doce irmão dos jardins solitários,
que lhes conhece a dor, que os vê da sombra, olhando
pelo ermo e triste e verde olhar de algum cipreste...
Uns são feitos de tudo, enfim, que há no meu sonho.
E é por isso, talvez, que ora ardem e fulguram,
ora são tristes como esses vitrais de prata
onde Cristo ergue a Deus as mãos longas e frias.
***
Eu sou o doce irmão dos jardins solitários,
desses jardins que exalto, amo e celebro,
quando por horas mortas vou,
do amor que me reveste de amargura, fugindo,
ao longo do meu sonho.
***
E, ao longo do meu sonho, os jardins se enclausuram de lágrimas!
(Ah! sobre essas grades de prata quando virás pousar as mãos longas e frias?
Quando abrirás, sorrindo, os jardins solitários, tu que hás de amar-me um dia e que eu espero? Quando?)
***
GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera (1916)
sexta-feira, abril 17, 2009
A Forasteira
Vejo o mundo com lentes
E a sensação estrangeira
De estar sempre de passagem
Com pronta e pesada bagagem
Na mala segredos absolutos
Restos de sonhos cansados
E o tédio infindo de viajar
De ver, ouvir, estar
E não chegar nunca
E a sensação estrangeira
De estar sempre de passagem
Com pronta e pesada bagagem
Na mala segredos absolutos
Restos de sonhos cansados
E o tédio infindo de viajar
De ver, ouvir, estar
E não chegar nunca
domingo, abril 12, 2009
Agrocultura e o Amor
Em terra de machões, os homens maduros preferem as mocinhas, ainda mais que os outros. Tem-se aquela coisa de afirmação da virilidade em curva descendente, além das acentuações dos traços do agroman: essa é minha mulher, não é jovem e bonita? Ainda dou no coro. O resto, ou é gigolô, ou é casado, ou é gay. Bem vindos ao ceticismo de entrada e à preguiça amorosa das lobas. Com certa vergonha, elas ainda acreditam, secretamente, no amor. Apesar de tudo: dos casamentos desfeitos, das desilusões, dos cavalos que chegaram sem os príncipes. Ainda assistem Em Algum Lugar do Passado com seus lencinhos e preferem sonhar com amores de ontem, ou com os que virão quando as antenas estiverem mais ajustadas e eles as cobrirem de romantismo novelesco e aceitarem dormir em quartos separados. Elas mantêm-se solitárias, claro. Aut Caesar, aut nihil.
domingo, abril 05, 2009
A Dor
“Conclusão: a própria dor deve ter sua medida: É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira da nossa dor.”
Paulo Mendes Campos
daqui:
http://colunistas.ig.com.br/palavrasdafal/2009/03/30/nao-e-justo/
Paulo Mendes Campos
daqui:
http://colunistas.ig.com.br/palavrasdafal/2009/03/30/nao-e-justo/
domingo, março 29, 2009
Então
Então, minha mãe estava doente e queria conhecê-la. Não deu tempo. Ela faleceu antes. Uma um ano antes da outra. Ter quarenta anos é, dentre outras coisas, começar a participar do cruel e implacável espetáculo humano de perdas sucessivas. Depois ainda querem que conheçamos pessoas novas para amar todos os dias.
Então, ela, que já sabia, entendeu profundamente que o maior inimigo do amor não é o ódio, é o medo.
Então, ele contou que todos os seus problemas estavam em torno de uma criança sofrida. E que ao buscar uma imagem que o confortasse, ele via a mãe, falecida, ajeitando-lhe um cobertor durante a noite. A busca desse aconchego estava, todos os dias, acima do preço que tinha que pagar para recebê-lo. E ele estava farto de pagar o preço para se cobrir de amor.
Então, ele revelou que discutiram como eram opostos nos aspectos profissional e emocional. Perguntei-lhe sobre mim e ele deu-me o xeque mate: profissionalmente você é perfeita, emocionalmente, você é um blefe.
Então, ela, que já sabia, entendeu profundamente que o maior inimigo do amor não é o ódio, é o medo.
Então, ele contou que todos os seus problemas estavam em torno de uma criança sofrida. E que ao buscar uma imagem que o confortasse, ele via a mãe, falecida, ajeitando-lhe um cobertor durante a noite. A busca desse aconchego estava, todos os dias, acima do preço que tinha que pagar para recebê-lo. E ele estava farto de pagar o preço para se cobrir de amor.
Então, ele revelou que discutiram como eram opostos nos aspectos profissional e emocional. Perguntei-lhe sobre mim e ele deu-me o xeque mate: profissionalmente você é perfeita, emocionalmente, você é um blefe.
quarta-feira, março 18, 2009
Ansiedade

Faça um chá de erva-cidreira-folha-corta-a-mão que sua avó tinha no quintal. Ainda quente, coloque numa xícara alta, decorada, a que você acha linda e que, de preferência, tenha sido um presente intuitivo de um amigo que você ama. Coloque-a ao lado do computador e curta devagar o prazer de segurá-la por inteiro, os quatro dedos na alça grossa, a outra mão que abraça o copo. Logo você se sentirá mais aquecida e menos trêmula. Feche os olhos por instantes, respire devagar, sinta o aroma. Tome o chá em pequenos goles intercalados, entre hiatos de pensamentos tristes, questões insolúveis, cansaço criativo. Ensaie um texto, escreva sonhos cansados e espere o poema.
terça-feira, fevereiro 24, 2009
Sanidade Mental
Estou aqui por um motivo simples. Preciso de um atestado de sanidade mental (por que diabos estou com a mão fria?). Ah, questões de admissão em emprego, aprovada em primeiro lugar, obrigada (cof, cof). Sim, estou bem, sou daqui mesmo, professora, acho que por vocação (que divã esquisito). Tenho uma filha adolescente, detalhe importante. Hã? Vida afetiva? Nula, quer dizer, não que eu seja contra, mas no momento, assim, sozinha (contenha-se). Sim, houve alguém, já faz um tempo (sem detalhes sua burra). Fui casada, contribui com a instituição (sorriso amarelo). Amigos, poucos, às vezes um cinema, um encontro na casa de alguém, muitos conhecidos (preguiça mortal de gente, silêncio, por favor). Estou bem, sim, feliz pela aprovação, claro. Imagine, obrigada (meu cabelo está horrível, estou sem batom e meu tênis está um lixo). Depressão? Não que eu saiba. Dores de estimação, melancolias, tristeza, isso sim, de vez em quando com motivos acho que justificados, quase sempre. Religião? Ah, sim, católica não praticante, quase agnóstica (perdão, Deus). Psicanálise freudiana? Não, fiz algo assim, terapia meio gestalt, meio transpessoal (santa, cale a boca). Caminho sim, exercícios regulares (descarada), gosto bastante embora tenha pouco tempo (o que isso tem a ver?). Passei no teste? Ah, que bom, obrigada. Como? Desculpe, não entendi. Bem, é fácil me conhecer, só me ligar (cretino). Caminhar juntos, por que não? Amanhã, sim (danou-se), combinado. Ligo sim, pode deixar (morri).
segunda-feira, janeiro 12, 2009
De imaginários e iconografias
(porque o real é aquilo que imagino)
Índole Investigativa
Amo tudo aquilo com o qual me envolvo. E funciona assim com coisas, conteúdos, pessoas. E o envolvimento nem sempre é desejável, nem sempre é voluntário. Conheço, muitas vezes por algum estímulo mais ou menos consciente, fruto de alguma escolha ou obrigação. E é assim que disponho-me a abrir para investigar, ver, relacionar, ouvir, compreender. E este esforço me salva do tédio, cria redes de significado, começa a fazer parte de mim de alguma forma. Então, independente do universo de valor deste objeto, ele passa a ser amado. Num contexto onde todos só querem se envolver com aquilo que amam, eu, ao contrário, apaixono-me por tudo aquilo com o qual me envolvo.
Iconoclastia
Reencontrei um antigo namorado. Um ex-namorado importante, vale dizer. Ele é casado e me convidou para jantar em sua casa. Numa reunião com amigos íntimos, coloquei o convite em pauta. As opiniões se dividiram. Alguns acharam que eu deveria ir, seria uma forma de transformar a relação, profanar o ícone como uma referência intocável do passado (isso ajudaria no presente, argumentaram). Outros opinaram que não. Seria de uma formalidade constrangedora e desnecessária, quase uma dor. E, depois, quem disse que é bom destruir referências? Desde que não nos imobilizem, modelos ideais servem como parâmetros daquilo que realmente importa, refúgios em momentos de aridez emocional.
Amo tudo aquilo com o qual me envolvo. E funciona assim com coisas, conteúdos, pessoas. E o envolvimento nem sempre é desejável, nem sempre é voluntário. Conheço, muitas vezes por algum estímulo mais ou menos consciente, fruto de alguma escolha ou obrigação. E é assim que disponho-me a abrir para investigar, ver, relacionar, ouvir, compreender. E este esforço me salva do tédio, cria redes de significado, começa a fazer parte de mim de alguma forma. Então, independente do universo de valor deste objeto, ele passa a ser amado. Num contexto onde todos só querem se envolver com aquilo que amam, eu, ao contrário, apaixono-me por tudo aquilo com o qual me envolvo.
Iconoclastia
Reencontrei um antigo namorado. Um ex-namorado importante, vale dizer. Ele é casado e me convidou para jantar em sua casa. Numa reunião com amigos íntimos, coloquei o convite em pauta. As opiniões se dividiram. Alguns acharam que eu deveria ir, seria uma forma de transformar a relação, profanar o ícone como uma referência intocável do passado (isso ajudaria no presente, argumentaram). Outros opinaram que não. Seria de uma formalidade constrangedora e desnecessária, quase uma dor. E, depois, quem disse que é bom destruir referências? Desde que não nos imobilizem, modelos ideais servem como parâmetros daquilo que realmente importa, refúgios em momentos de aridez emocional.
quinta-feira, novembro 27, 2008
Clarice

Psicologicamente parece que fui muito condicionada. Mas sou livre: minha liberdade é escrever. Foi escolha ao que parece.
Minha liberdade? Minha própria liberdade não é livre: corre sobre trilhos invisíveis. Nem a loucura é livre. Mas também é verdade que a liberdade sem uma diretiva seria uma borboleta voando no ar. Mas no sonho dos acordados há uma ligeireza inconseqüente de riacho borbulhando e correndo. O estado de ser. A improvisação como modo de viver (...). Como é que se pode aprisionar um instante de beleza? E nem se pode aprisionar a harmonia. Tudo que é mais valioso não passa de um momento rápido – e logo extinto – de libertação (...).
Estou cega pelo desejo de liberdade.
Ser livre – livre de mim mesma, esse mim que foi trucidado pelo excesso secante de idéias.
Quando quero ficar livre, fico sozinha, e nua e sobretudo sem relógio.
___________________________________
Para me divertir eu poderia inventar muitos fatos e histórias, inventar é fácil e não me falta a capacidade. Mas não quero usar esse dom que eu desprezo, pois "sentir"é mais inalcançável e ao mesmo tempo mais arriscado. Sentindo-se pode-se cair num abismo mortal.
O que procuro? Procuro o deslumbramento. O deslumbramento que eu só conseguirei através da abstração total de mim.
Eu quero não a idéia e sim o nervo do sonho que resulta na única realidade onde posso encontrar uma verdade. É como se eu tivesse inventado a vida - e - fiat lux. Mas o deslumbramento que eu tenho dura o espaço instantâneo de uma visão e eis-me de novo no escuro.
Como posso subir, senão aceitando minha miséria humana.
Minha liberdade? Minha própria liberdade não é livre: corre sobre trilhos invisíveis. Nem a loucura é livre. Mas também é verdade que a liberdade sem uma diretiva seria uma borboleta voando no ar. Mas no sonho dos acordados há uma ligeireza inconseqüente de riacho borbulhando e correndo. O estado de ser. A improvisação como modo de viver (...). Como é que se pode aprisionar um instante de beleza? E nem se pode aprisionar a harmonia. Tudo que é mais valioso não passa de um momento rápido – e logo extinto – de libertação (...).
Estou cega pelo desejo de liberdade.
Ser livre – livre de mim mesma, esse mim que foi trucidado pelo excesso secante de idéias.
Quando quero ficar livre, fico sozinha, e nua e sobretudo sem relógio.
___________________________________
Para me divertir eu poderia inventar muitos fatos e histórias, inventar é fácil e não me falta a capacidade. Mas não quero usar esse dom que eu desprezo, pois "sentir"é mais inalcançável e ao mesmo tempo mais arriscado. Sentindo-se pode-se cair num abismo mortal.
O que procuro? Procuro o deslumbramento. O deslumbramento que eu só conseguirei através da abstração total de mim.
Eu quero não a idéia e sim o nervo do sonho que resulta na única realidade onde posso encontrar uma verdade. É como se eu tivesse inventado a vida - e - fiat lux. Mas o deslumbramento que eu tenho dura o espaço instantâneo de uma visão e eis-me de novo no escuro.
Como posso subir, senão aceitando minha miséria humana.
____________________
Clarice Lispector apud Borelli, Olga. Esboço Para um Possível Retrato. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1981.
Clarice Lispector apud Borelli, Olga. Esboço Para um Possível Retrato. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1981.
domingo, novembro 02, 2008
Dicionário de Pequenas Coisas
Felicidade
Como o pudim de chocolate diet e penso como sou feliz neste momento. Com tudo que aprendi sobre ser inteiro no instante, mesmo que tudo seja tão limitado, que eu tenha uma bagagem nem sempre tão boa ou agradável ou mesmo que chova amanhã. Hoje, agora, sinto-me feliz e isto é bom.
Saudade
E foi então que olhei pra você e você pareceu diferente. Ou meus olhos haviam mudado? Era curioso e triste. Eu gostava dos meus olhos antigos pousados sobre os seus gestos, sua solicitude, sua delicada forma de amar. Agora, você era alguém que eu não conhecia e isso era ao mesmo tempo libertador e solitário. Era bom ter você em mim.
Solidão
Tenho preguiça de gente. E eu idem. Mas, pense, não se pode viver sozinho. Sim, mas preciso de momentos de solidão. Reunião com mais de cinco, não se vê ninguém. Estar com mais de cinco é uma forma de preservar-se, de permanecer sozinho. Certo, mas então para quê estar? Sei lá, é bom, às vezes. Não ser sempre profundo, não ser sempre direto, não ser sempre sério. Estar com pessoas assim, sem objetivo definido, sem a alma alerta, com o espírito desarmado pelo passado ou pelo futuro. Simplesmente estar. Estar distraído em grupo pode produzir milagres.
Memória
E de repente, em meio à fala protocolar, você fez algo antigo: mordeu os lábios para umedecê-los. E foi aí que eu me lembrei do suave gesto de contorná-los, como se com a ponta dos dedos eu pudesse guardar sua boca. E todo o resto irrompeu-se num mar de gostos, aromas e salivas fluidas.
Como o pudim de chocolate diet e penso como sou feliz neste momento. Com tudo que aprendi sobre ser inteiro no instante, mesmo que tudo seja tão limitado, que eu tenha uma bagagem nem sempre tão boa ou agradável ou mesmo que chova amanhã. Hoje, agora, sinto-me feliz e isto é bom.
Saudade
E foi então que olhei pra você e você pareceu diferente. Ou meus olhos haviam mudado? Era curioso e triste. Eu gostava dos meus olhos antigos pousados sobre os seus gestos, sua solicitude, sua delicada forma de amar. Agora, você era alguém que eu não conhecia e isso era ao mesmo tempo libertador e solitário. Era bom ter você em mim.
Solidão
Tenho preguiça de gente. E eu idem. Mas, pense, não se pode viver sozinho. Sim, mas preciso de momentos de solidão. Reunião com mais de cinco, não se vê ninguém. Estar com mais de cinco é uma forma de preservar-se, de permanecer sozinho. Certo, mas então para quê estar? Sei lá, é bom, às vezes. Não ser sempre profundo, não ser sempre direto, não ser sempre sério. Estar com pessoas assim, sem objetivo definido, sem a alma alerta, com o espírito desarmado pelo passado ou pelo futuro. Simplesmente estar. Estar distraído em grupo pode produzir milagres.
Memória
E de repente, em meio à fala protocolar, você fez algo antigo: mordeu os lábios para umedecê-los. E foi aí que eu me lembrei do suave gesto de contorná-los, como se com a ponta dos dedos eu pudesse guardar sua boca. E todo o resto irrompeu-se num mar de gostos, aromas e salivas fluidas.
.
Discussão
.
Calou-se diante de tão brilhantes argumentos. Fixou-se no saleiro em forma de pinguim sobre a mesa e permaneceu ali, intimamente concentrado, quase feliz.
Adélia Prado
Exausto
Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.
Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.
sexta-feira, outubro 31, 2008
Arte Poética
Vai, poema, procura
a voz literal que desocultamente fala
sob tanta literatura.
Se a escutares, porém, tapa os ouvidos,
porque pela primeira vez estás sozinho.
Regressa então, se puderes,
pelo caminho das interpretações e dos sentidos.
Mas não olhes para trás, não olhes para trás,
ou jamais te perderás;
e teu canto, insensato,
será feito só de melancolia e de despeito.
E de discórdia.
E todavia
sob tanto passado insepulto
o que encontraste senão tumulto,
senão de novo ressentimento e ironia?
(Manuel Antônio Pina)
a voz literal que desocultamente fala
sob tanta literatura.
Se a escutares, porém, tapa os ouvidos,
porque pela primeira vez estás sozinho.
Regressa então, se puderes,
pelo caminho das interpretações e dos sentidos.
Mas não olhes para trás, não olhes para trás,
ou jamais te perderás;
e teu canto, insensato,
será feito só de melancolia e de despeito.
E de discórdia.
E todavia
sob tanto passado insepulto
o que encontraste senão tumulto,
senão de novo ressentimento e ironia?
(Manuel Antônio Pina)
quarta-feira, julho 23, 2008
As Pedras
(...) Ah, a rara morte, quero esclarecer, quatro ou cinco ao longo da minha vida. Com as outras, tudo normal ou quase, o choque. A introspecção com a consolação filosofante. O apego a Deus e aos poucos aquela paciente cristalização da dor, pequenas pedras que vou guardando, de vez em quando tomo uma, sinto-lhe a forma, a cor, e afetuosamente a devolvo ao seu lugar. Mas há certas mortes que nos remetem à infância, ao medo das noites escuras que não vão amanhecer (...)
____
(Solo de Clarineta. Lygia Fagundes Teles, em Conspiração de Nuvens).
segunda-feira, julho 07, 2008
Clarice
Agora sei: sou só. Eu e minha liberdade que não sei usar. Grande responsabilidade da solidão. Quem não é perdido não conhece a liberdade e não a ama. Quanto a mim, assumo a minha solidão. Que às vezes se extasia como diante de fogos de artifício. Sou só e tenho que viver uma certa glória íntima que na solidão pode se tornar dor. E a dor, silêncio. Guardo o seu nome em silêncio. Preciso de segredos para viver.
(Clarice Lispector. Água Viva)
domingo, junho 29, 2008
Sinceros Demais
Passei da idade de ter amigos sinceros.
Quero ter amigos fofos. Pessoas que me amem de forma simples.
Quando quiser sinceridade, pago um terapeuta.
(algo mais ou menos assim, que li por aqui)
Quero ter amigos fofos. Pessoas que me amem de forma simples.
Quando quiser sinceridade, pago um terapeuta.
(algo mais ou menos assim, que li por aqui)
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