Estou aqui por um motivo simples. Preciso de um atestado de sanidade mental (por que diabos estou com a mão fria?). Ah, questões de admissão em emprego, aprovada em primeiro lugar, obrigada (cof, cof). Sim, estou bem, sou daqui mesmo, professora, acho que por vocação (que divã esquisito). Tenho uma filha adolescente, detalhe importante. Hã? Vida afetiva? Nula, quer dizer, não que eu seja contra, mas no momento, assim, sozinha (contenha-se). Sim, houve alguém, já faz um tempo (sem detalhes sua burra). Fui casada, contribui com a instituição (sorriso amarelo). Amigos, poucos, às vezes um cinema, um encontro na casa de alguém, muitos conhecidos (preguiça mortal de gente, silêncio, por favor). Estou bem, sim, feliz pela aprovação, claro. Imagine, obrigada (meu cabelo está horrível, estou sem batom e meu tênis está um lixo). Depressão? Não que eu saiba. Dores de estimação, melancolias, tristeza, isso sim, de vez em quando com motivos acho que justificados, quase sempre. Religião? Ah, sim, católica não praticante, quase agnóstica (perdão, Deus). Psicanálise freudiana? Não, fiz algo assim, terapia meio gestalt, meio transpessoal (santa, cale a boca). Caminho sim, exercícios regulares (descarada), gosto bastante embora tenha pouco tempo (o que isso tem a ver?). Passei no teste? Ah, que bom, obrigada. Como? Desculpe, não entendi. Bem, é fácil me conhecer, só me ligar (cretino). Caminhar juntos, por que não? Amanhã, sim (danou-se), combinado. Ligo sim, pode deixar (morri).
terça-feira, fevereiro 24, 2009
segunda-feira, janeiro 12, 2009
De imaginários e iconografias
(porque o real é aquilo que imagino)
Índole Investigativa
Amo tudo aquilo com o qual me envolvo. E funciona assim com coisas, conteúdos, pessoas. E o envolvimento nem sempre é desejável, nem sempre é voluntário. Conheço, muitas vezes por algum estímulo mais ou menos consciente, fruto de alguma escolha ou obrigação. E é assim que disponho-me a abrir para investigar, ver, relacionar, ouvir, compreender. E este esforço me salva do tédio, cria redes de significado, começa a fazer parte de mim de alguma forma. Então, independente do universo de valor deste objeto, ele passa a ser amado. Num contexto onde todos só querem se envolver com aquilo que amam, eu, ao contrário, apaixono-me por tudo aquilo com o qual me envolvo.
Iconoclastia
Reencontrei um antigo namorado. Um ex-namorado importante, vale dizer. Ele é casado e me convidou para jantar em sua casa. Numa reunião com amigos íntimos, coloquei o convite em pauta. As opiniões se dividiram. Alguns acharam que eu deveria ir, seria uma forma de transformar a relação, profanar o ícone como uma referência intocável do passado (isso ajudaria no presente, argumentaram). Outros opinaram que não. Seria de uma formalidade constrangedora e desnecessária, quase uma dor. E, depois, quem disse que é bom destruir referências? Desde que não nos imobilizem, modelos ideais servem como parâmetros daquilo que realmente importa, refúgios em momentos de aridez emocional.
Amo tudo aquilo com o qual me envolvo. E funciona assim com coisas, conteúdos, pessoas. E o envolvimento nem sempre é desejável, nem sempre é voluntário. Conheço, muitas vezes por algum estímulo mais ou menos consciente, fruto de alguma escolha ou obrigação. E é assim que disponho-me a abrir para investigar, ver, relacionar, ouvir, compreender. E este esforço me salva do tédio, cria redes de significado, começa a fazer parte de mim de alguma forma. Então, independente do universo de valor deste objeto, ele passa a ser amado. Num contexto onde todos só querem se envolver com aquilo que amam, eu, ao contrário, apaixono-me por tudo aquilo com o qual me envolvo.
Iconoclastia
Reencontrei um antigo namorado. Um ex-namorado importante, vale dizer. Ele é casado e me convidou para jantar em sua casa. Numa reunião com amigos íntimos, coloquei o convite em pauta. As opiniões se dividiram. Alguns acharam que eu deveria ir, seria uma forma de transformar a relação, profanar o ícone como uma referência intocável do passado (isso ajudaria no presente, argumentaram). Outros opinaram que não. Seria de uma formalidade constrangedora e desnecessária, quase uma dor. E, depois, quem disse que é bom destruir referências? Desde que não nos imobilizem, modelos ideais servem como parâmetros daquilo que realmente importa, refúgios em momentos de aridez emocional.
quinta-feira, novembro 27, 2008
Clarice

Psicologicamente parece que fui muito condicionada. Mas sou livre: minha liberdade é escrever. Foi escolha ao que parece.
Minha liberdade? Minha própria liberdade não é livre: corre sobre trilhos invisíveis. Nem a loucura é livre. Mas também é verdade que a liberdade sem uma diretiva seria uma borboleta voando no ar. Mas no sonho dos acordados há uma ligeireza inconseqüente de riacho borbulhando e correndo. O estado de ser. A improvisação como modo de viver (...). Como é que se pode aprisionar um instante de beleza? E nem se pode aprisionar a harmonia. Tudo que é mais valioso não passa de um momento rápido – e logo extinto – de libertação (...).
Estou cega pelo desejo de liberdade.
Ser livre – livre de mim mesma, esse mim que foi trucidado pelo excesso secante de idéias.
Quando quero ficar livre, fico sozinha, e nua e sobretudo sem relógio.
___________________________________
Para me divertir eu poderia inventar muitos fatos e histórias, inventar é fácil e não me falta a capacidade. Mas não quero usar esse dom que eu desprezo, pois "sentir"é mais inalcançável e ao mesmo tempo mais arriscado. Sentindo-se pode-se cair num abismo mortal.
O que procuro? Procuro o deslumbramento. O deslumbramento que eu só conseguirei através da abstração total de mim.
Eu quero não a idéia e sim o nervo do sonho que resulta na única realidade onde posso encontrar uma verdade. É como se eu tivesse inventado a vida - e - fiat lux. Mas o deslumbramento que eu tenho dura o espaço instantâneo de uma visão e eis-me de novo no escuro.
Como posso subir, senão aceitando minha miséria humana.
Minha liberdade? Minha própria liberdade não é livre: corre sobre trilhos invisíveis. Nem a loucura é livre. Mas também é verdade que a liberdade sem uma diretiva seria uma borboleta voando no ar. Mas no sonho dos acordados há uma ligeireza inconseqüente de riacho borbulhando e correndo. O estado de ser. A improvisação como modo de viver (...). Como é que se pode aprisionar um instante de beleza? E nem se pode aprisionar a harmonia. Tudo que é mais valioso não passa de um momento rápido – e logo extinto – de libertação (...).
Estou cega pelo desejo de liberdade.
Ser livre – livre de mim mesma, esse mim que foi trucidado pelo excesso secante de idéias.
Quando quero ficar livre, fico sozinha, e nua e sobretudo sem relógio.
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Para me divertir eu poderia inventar muitos fatos e histórias, inventar é fácil e não me falta a capacidade. Mas não quero usar esse dom que eu desprezo, pois "sentir"é mais inalcançável e ao mesmo tempo mais arriscado. Sentindo-se pode-se cair num abismo mortal.
O que procuro? Procuro o deslumbramento. O deslumbramento que eu só conseguirei através da abstração total de mim.
Eu quero não a idéia e sim o nervo do sonho que resulta na única realidade onde posso encontrar uma verdade. É como se eu tivesse inventado a vida - e - fiat lux. Mas o deslumbramento que eu tenho dura o espaço instantâneo de uma visão e eis-me de novo no escuro.
Como posso subir, senão aceitando minha miséria humana.
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Clarice Lispector apud Borelli, Olga. Esboço Para um Possível Retrato. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1981.
Clarice Lispector apud Borelli, Olga. Esboço Para um Possível Retrato. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1981.
domingo, novembro 02, 2008
Dicionário de Pequenas Coisas
Felicidade
Como o pudim de chocolate diet e penso como sou feliz neste momento. Com tudo que aprendi sobre ser inteiro no instante, mesmo que tudo seja tão limitado, que eu tenha uma bagagem nem sempre tão boa ou agradável ou mesmo que chova amanhã. Hoje, agora, sinto-me feliz e isto é bom.
Saudade
E foi então que olhei pra você e você pareceu diferente. Ou meus olhos haviam mudado? Era curioso e triste. Eu gostava dos meus olhos antigos pousados sobre os seus gestos, sua solicitude, sua delicada forma de amar. Agora, você era alguém que eu não conhecia e isso era ao mesmo tempo libertador e solitário. Era bom ter você em mim.
Solidão
Tenho preguiça de gente. E eu idem. Mas, pense, não se pode viver sozinho. Sim, mas preciso de momentos de solidão. Reunião com mais de cinco, não se vê ninguém. Estar com mais de cinco é uma forma de preservar-se, de permanecer sozinho. Certo, mas então para quê estar? Sei lá, é bom, às vezes. Não ser sempre profundo, não ser sempre direto, não ser sempre sério. Estar com pessoas assim, sem objetivo definido, sem a alma alerta, com o espírito desarmado pelo passado ou pelo futuro. Simplesmente estar. Estar distraído em grupo pode produzir milagres.
Memória
E de repente, em meio à fala protocolar, você fez algo antigo: mordeu os lábios para umedecê-los. E foi aí que eu me lembrei do suave gesto de contorná-los, como se com a ponta dos dedos eu pudesse guardar sua boca. E todo o resto irrompeu-se num mar de gostos, aromas e salivas fluidas.
Como o pudim de chocolate diet e penso como sou feliz neste momento. Com tudo que aprendi sobre ser inteiro no instante, mesmo que tudo seja tão limitado, que eu tenha uma bagagem nem sempre tão boa ou agradável ou mesmo que chova amanhã. Hoje, agora, sinto-me feliz e isto é bom.
Saudade
E foi então que olhei pra você e você pareceu diferente. Ou meus olhos haviam mudado? Era curioso e triste. Eu gostava dos meus olhos antigos pousados sobre os seus gestos, sua solicitude, sua delicada forma de amar. Agora, você era alguém que eu não conhecia e isso era ao mesmo tempo libertador e solitário. Era bom ter você em mim.
Solidão
Tenho preguiça de gente. E eu idem. Mas, pense, não se pode viver sozinho. Sim, mas preciso de momentos de solidão. Reunião com mais de cinco, não se vê ninguém. Estar com mais de cinco é uma forma de preservar-se, de permanecer sozinho. Certo, mas então para quê estar? Sei lá, é bom, às vezes. Não ser sempre profundo, não ser sempre direto, não ser sempre sério. Estar com pessoas assim, sem objetivo definido, sem a alma alerta, com o espírito desarmado pelo passado ou pelo futuro. Simplesmente estar. Estar distraído em grupo pode produzir milagres.
Memória
E de repente, em meio à fala protocolar, você fez algo antigo: mordeu os lábios para umedecê-los. E foi aí que eu me lembrei do suave gesto de contorná-los, como se com a ponta dos dedos eu pudesse guardar sua boca. E todo o resto irrompeu-se num mar de gostos, aromas e salivas fluidas.
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Discussão
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Calou-se diante de tão brilhantes argumentos. Fixou-se no saleiro em forma de pinguim sobre a mesa e permaneceu ali, intimamente concentrado, quase feliz.
Adélia Prado
Exausto
Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.
Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.
sexta-feira, outubro 31, 2008
Arte Poética
Vai, poema, procura
a voz literal que desocultamente fala
sob tanta literatura.
Se a escutares, porém, tapa os ouvidos,
porque pela primeira vez estás sozinho.
Regressa então, se puderes,
pelo caminho das interpretações e dos sentidos.
Mas não olhes para trás, não olhes para trás,
ou jamais te perderás;
e teu canto, insensato,
será feito só de melancolia e de despeito.
E de discórdia.
E todavia
sob tanto passado insepulto
o que encontraste senão tumulto,
senão de novo ressentimento e ironia?
(Manuel Antônio Pina)
a voz literal que desocultamente fala
sob tanta literatura.
Se a escutares, porém, tapa os ouvidos,
porque pela primeira vez estás sozinho.
Regressa então, se puderes,
pelo caminho das interpretações e dos sentidos.
Mas não olhes para trás, não olhes para trás,
ou jamais te perderás;
e teu canto, insensato,
será feito só de melancolia e de despeito.
E de discórdia.
E todavia
sob tanto passado insepulto
o que encontraste senão tumulto,
senão de novo ressentimento e ironia?
(Manuel Antônio Pina)
quarta-feira, julho 23, 2008
As Pedras
(...) Ah, a rara morte, quero esclarecer, quatro ou cinco ao longo da minha vida. Com as outras, tudo normal ou quase, o choque. A introspecção com a consolação filosofante. O apego a Deus e aos poucos aquela paciente cristalização da dor, pequenas pedras que vou guardando, de vez em quando tomo uma, sinto-lhe a forma, a cor, e afetuosamente a devolvo ao seu lugar. Mas há certas mortes que nos remetem à infância, ao medo das noites escuras que não vão amanhecer (...)
____
(Solo de Clarineta. Lygia Fagundes Teles, em Conspiração de Nuvens).
segunda-feira, julho 07, 2008
Clarice
Agora sei: sou só. Eu e minha liberdade que não sei usar. Grande responsabilidade da solidão. Quem não é perdido não conhece a liberdade e não a ama. Quanto a mim, assumo a minha solidão. Que às vezes se extasia como diante de fogos de artifício. Sou só e tenho que viver uma certa glória íntima que na solidão pode se tornar dor. E a dor, silêncio. Guardo o seu nome em silêncio. Preciso de segredos para viver.
(Clarice Lispector. Água Viva)
domingo, junho 29, 2008
Sinceros Demais
Passei da idade de ter amigos sinceros.
Quero ter amigos fofos. Pessoas que me amem de forma simples.
Quando quiser sinceridade, pago um terapeuta.
(algo mais ou menos assim, que li por aqui)
Quero ter amigos fofos. Pessoas que me amem de forma simples.
Quando quiser sinceridade, pago um terapeuta.
(algo mais ou menos assim, que li por aqui)
sexta-feira, junho 27, 2008
Realidade
Você viu que horror a história do pai que esfaqueou o filho pequeno?
-As crianças andam muito chatas.
***
Por que você acha que prefere contos às dissertações?
-Estou farta de realidade.
***
-Quem é você, afinal?
-Eu sou este momento.
-As crianças andam muito chatas.
***
Por que você acha que prefere contos às dissertações?
-Estou farta de realidade.
***
-Quem é você, afinal?
-Eu sou este momento.
sábado, junho 07, 2008
Eternidade
Ver o mundo num grão de areia,
Um céu numa flor silvestre,
Ter o infinito na palma da sua mão
E a eternidade numa hora.
(William Blake)
Era sábado na hora sagrada da manhã de sol. Liguei para um amigo que estranhou logo o pedido: preciso vê-lo agora. Mas, aconteceu alguma coisa? Não, nada. Mas, mas. Tem que ser agora. E daí a alguns minutos, eu corria pela rua para dar-lhe um presente de alma: o livro. Um que fala da beleza em todas as coisas, das nossas motivações mais profundas, da beleza da dor, da solidão e dos riscos de seguirmos nossos próprios caminhos. Fala da eternidade na hora pequena em que a manhã de sol nos inspira e nos faz sentir. O livro me recolocou naquela manhã solitária em que eu aguardava os alunos do curso. Eu o vi por acaso e o li por motivo nenhum, numa dessas horas inúteis em que tudo acontece. Ele me fez rever motivações íntimas, e, por alguns instantes, naquele espaço de frios rituais acadêmicos, lembrei-me de quem eu era. Eu precisava compartilhar. Ele não compreendeu, mas aceitou o livro e foi embora. Eu voltei para a sala com a sensação de dever cumprido. Falei com alunos e professores em outros tons, reencontrei uma velha amiga no pátio e choramos juntas por motivo algum. E era sábado. Em uma intensa manhã de sol morno.
Um céu numa flor silvestre,
Ter o infinito na palma da sua mão
E a eternidade numa hora.
(William Blake)
Era sábado na hora sagrada da manhã de sol. Liguei para um amigo que estranhou logo o pedido: preciso vê-lo agora. Mas, aconteceu alguma coisa? Não, nada. Mas, mas. Tem que ser agora. E daí a alguns minutos, eu corria pela rua para dar-lhe um presente de alma: o livro. Um que fala da beleza em todas as coisas, das nossas motivações mais profundas, da beleza da dor, da solidão e dos riscos de seguirmos nossos próprios caminhos. Fala da eternidade na hora pequena em que a manhã de sol nos inspira e nos faz sentir. O livro me recolocou naquela manhã solitária em que eu aguardava os alunos do curso. Eu o vi por acaso e o li por motivo nenhum, numa dessas horas inúteis em que tudo acontece. Ele me fez rever motivações íntimas, e, por alguns instantes, naquele espaço de frios rituais acadêmicos, lembrei-me de quem eu era. Eu precisava compartilhar. Ele não compreendeu, mas aceitou o livro e foi embora. Eu voltei para a sala com a sensação de dever cumprido. Falei com alunos e professores em outros tons, reencontrei uma velha amiga no pátio e choramos juntas por motivo algum. E era sábado. Em uma intensa manhã de sol morno.
domingo, junho 01, 2008
Mosaico
Há pouco descobri-me um mosaico de contradições.
Quero ouvir outros sons que não os da minha dor híbrida.
Os da minha ansiedade mundana ou da minha solidão sagrada.
Irrito-me com a TV da sala
e a velha música barroca não abafa os meus gritos.
Tem alguém aí? Alguém menos surdo, cego e incapaz?
Alguém menos limitado e com esperança? Não há resposta.
Concentro-me no diálogo do cello com o violino e eles choram.
Aumento o volume. Quero ouvir meus próprios sons.
As horas não passam, os dias não passam, a vida parece eterna
e é tudo tão lento, frágil e inútil. Escrevo até cansar os dedos,
embotar a mente, até que o cansaço me cale a voz, o corpo,
o medo de encarar a noite e os sons deste silêncio surdo.
E eu que pensei que não havia enredo nesta trama,
fio condutor nestes fragmentos, estilhaços de um mosaico
em que revejo-me inteira, inacabada, estranha e exausta.
Preciso acompanhar as variações do violino.Elas haverão de levar-me
a um lugar de sentido.Os sons inundam a sala. Imagino espaços,
visualizo pessoas, mas o allegro se transforma em adágio
e novamente me disperso, ouço os sons do teclado,
os chiados abafados da TV vindos da sala. O oboé me resgata.
Deixo-me levar por um cravo que recomeça.
Um violino costura tudo e parece contar uma história.
Quero ouvir outros sons que não os da minha dor híbrida.
Os da minha ansiedade mundana ou da minha solidão sagrada.
Irrito-me com a TV da sala
e a velha música barroca não abafa os meus gritos.
Tem alguém aí? Alguém menos surdo, cego e incapaz?
Alguém menos limitado e com esperança? Não há resposta.
Concentro-me no diálogo do cello com o violino e eles choram.
Aumento o volume. Quero ouvir meus próprios sons.
As horas não passam, os dias não passam, a vida parece eterna
e é tudo tão lento, frágil e inútil. Escrevo até cansar os dedos,
embotar a mente, até que o cansaço me cale a voz, o corpo,
o medo de encarar a noite e os sons deste silêncio surdo.
E eu que pensei que não havia enredo nesta trama,
fio condutor nestes fragmentos, estilhaços de um mosaico
em que revejo-me inteira, inacabada, estranha e exausta.
Preciso acompanhar as variações do violino.Elas haverão de levar-me
a um lugar de sentido.Os sons inundam a sala. Imagino espaços,
visualizo pessoas, mas o allegro se transforma em adágio
e novamente me disperso, ouço os sons do teclado,
os chiados abafados da TV vindos da sala. O oboé me resgata.
Deixo-me levar por um cravo que recomeça.
Um violino costura tudo e parece contar uma história.
sexta-feira, maio 30, 2008
Salgadas e Puras
Há tempos assim, estéreis de palavras. Em outros, entretanto, elas nos chegam como dádivas, lampejos de esperança. Aqui, em um texto curto e engenhoso de minha filha, a reflexão sobre a inexorabilidade do destino, sobre o amor e a morte e, ainda, instantes de beleza em momentos únicos.
Salgadas e Puras
Salgadas e Puras
Maria Clara Capel
“Você vai morrer num lugar com água”, foram suas últimas palavras antes que a sessão terminasse. Estupefato, não desprendia meus olhos de sua face, esperando, esperançosamente, que ela dissesse mais algumas palavras. Talvez, só uma, uma bastaria. Água suja? Água de esgoto? Isso sim me previniria. Mas água? Logo água? “Dona, você tem certeza?” perguntei-lhe em tom de súplica, e logo completei: “Sou nadador, entro sempre na água. Como é que eu vou conseguir entrar na piscina novamente sabendo que posso morrer?! Olhos frios, ela disse apenas:“Água, água salgada e pura”.
“Você vai morrer num lugar com água”, foram suas últimas palavras antes que a sessão terminasse. Estupefato, não desprendia meus olhos de sua face, esperando, esperançosamente, que ela dissesse mais algumas palavras. Talvez, só uma, uma bastaria. Água suja? Água de esgoto? Isso sim me previniria. Mas água? Logo água? “Dona, você tem certeza?” perguntei-lhe em tom de súplica, e logo completei: “Sou nadador, entro sempre na água. Como é que eu vou conseguir entrar na piscina novamente sabendo que posso morrer?! Olhos frios, ela disse apenas:“Água, água salgada e pura”.
Entreguei o dinheiro e voltei para casa pensando no que poderia significar água salgada e pura, características aparentemente tão contrárias. A antítese martelava em minha cabeça quando, ainda meio tonto, abri a porta de casa. Minha esposa veio até mim, permitindo-me um rápido beijo e me puxando pela mão. Não entendi o alvoroço, mas a segui até o quarto, onde revistas se espalhavam por todo o carpete, algumas abertas e marcadas.
“Decidi onde vamos passar as férias”, ela exclamou sorrindo. Perguntei-lhe aonde, e ela apenas estendeu uma das revistas. Talvez tenha ficado ali apenas dois minutos, mas pareceram-me décadas, admirando as “Ilhas do Sol, onde você escolhe entre as águas do mar, ou os lagos da maior pureza”. Sim, ali estava a resposta, um lugar de águas salgadas e lagos puros. Olhava a página como um homem olha o seu próprio caixão.
Se não fui? Sim. De início relutei. Tentei convencê-la de outro lugar. Mas ela não aceitava, me acusava de frieza e ausência. Por fim cedi, pois que o destino decidisse, afinal, não foi fugindo que Édipo conseguiu rompê-lo.
Chegamos à ilha no fim da tarde, e o quarto de hotel ainda estava ocupado. Resolvemos dar uma volta e conhecer a praia sem compromissos. De mãos dadas andávamos descalços pisando na areia fofa, enquanto o sol e sua luz fraca, mas acolhedora, nos iluminava a cabeça. Virei-me e olhei-a. Ela chorava. Emocionada, não resistia ao sol e me abraçava. Lágrimas salgadas e ao mesmo tempo tão puras, transformaram minha antítese num paradoxo, e sim, matavam-me, e reviviam-me após aquele momento.
quinta-feira, novembro 08, 2007
sexta-feira, outubro 12, 2007
Mário Quintana
"E quase que escurece a chama triste"...
(Os Parceiros. Apontamentos de História Sobrenatural, Mário Quintana, p.161)
_________________________________
A Sue me passou uma brincadeira literária. As regras eram assim:
1ª) Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);
2ª) Abra-o na página 161;
3ª) Procurar a 5ª frase completa;
4ª) Postar essa frase em seu blog;
5ª) Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6ª) Repassar para outros 5 blogs (como não havia advertências ao descumprimento desta regra, como boa aquariana, escolhi esta para quebrar).
(Os Parceiros. Apontamentos de História Sobrenatural, Mário Quintana, p.161)
_________________________________
A Sue me passou uma brincadeira literária. As regras eram assim:
1ª) Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);
2ª) Abra-o na página 161;
3ª) Procurar a 5ª frase completa;
4ª) Postar essa frase em seu blog;
5ª) Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6ª) Repassar para outros 5 blogs (como não havia advertências ao descumprimento desta regra, como boa aquariana, escolhi esta para quebrar).
quinta-feira, outubro 11, 2007
Travessia
Sonhei que havia morrido. Na verdade, fiquei pouco tempo morta, porque voltei, para a decepção de alguns. Para passar dessa para uma melhor, precisei atravessar uma porta rústica. Imaginem a expectativa. Respirei fundo e fui com a coragem leviana que me é característica. Era uma porta mal pintada, como dessas casas que a gente começa a reformar e não termina nunca. Do outro lado, surpresa, nada de anjinhos cantando ou mesmo a balança implacável da Deusa Maat querendo pesar meu coração sincero com uma peninha de contrapeso. Nada disso. O céu (será que era céu?) era um espaço como o dos bastidores dos teatros. Havia cadeiras empilhadas, mesas, roupas. Tudo muito bagunçado. Procurei pessoas e foi então que pude ver salas que pareciam ambulatórios médicos do SUS. Pessoas sentadas em macas submetiam-se a testes. Saiam daqui que esse sonho não lhes pertence, decretei em pensamento por segurança, porque os sonhos são mesmo ilógicos e eu estava desorientada. Pedi informações a alguém que parecia mais apressado que o coelho de Alice. Perguntei-lhe onde era o inferno e ele me mostrou uma cratera flamejante (por que eu queria saber isso, deus do céu?). Nós, candidatos aos Campos de Ialu egípcios deveríamos saltar sobre ele para continuar o caminho. Todavia, o coelho me mandou voltar, pois ainda não era a hora de fazer a travessia. Dirigi-me obediente para a direção de onde havia entrado, sem olhar pra trás porque me lembrei de Orfeu. Rezei para o João do Pulo. Hora de encarnar a personagem humana novamente, ahneim (ô especiezinha degenerada e sem solução). De tudo, achei o lugarzinho ruim. Pior do que aqui? Ah, sei lá. Aqui, pelo menos, quando a coisa aperta a gente olha o céu e espera alguma nave mãe.terça-feira, outubro 09, 2007
Cidade de Goiás: meu delírio fundador
Sou uma mulher sem passado. Nunca visitei a cidade em que nasci. Não tenho conhecidos ou parentes na localidade. Uma amiga disse que tive sorte. Que cidades que começam com essa sílaba não costumam dar boa coisa, e, portanto, melhor que eu não me considerasse filha de tal rincão. Nasci em Cuiabá, e não espalhem o fato, se me fazem um favor. Por outro lado, fui plantada em Goiás. Numa cidade criada e, também, sem raízes como eu: Goiânia. Goiânia e eu não temos passado, portanto. Somos rizomáticas e nossas relações são horizontais e sempre novas. Mas, para seguir a moda, podemos inventar um passado, um mito pessoal fundador. Daí resolvi que quero ter origens na Cidade de Goiás. Ô cidade boa. Quero ser uma Fleury Godoy, daquela família de onde saíram as mulheres escritoras, as aparentadas do Bernardo Élis, sabem como é? Não estudei na Cidade de Goiás, mas voltarei lá nos anos de madureza e poderei me estabelecer na “casa de mamãe”. Quero uma construção colonial próxima ao mercado. Local onde irei, anônima, tomar suco de cajuzinho do campo e comer pastel de queijo. Nas manhãs ensolaradas lerei os clássicos que sempre quis ler e nunca tive como, escreverei coisas sem importância. Ouvirei os sinos das igrejas chamando para os serviços e acreditarei em Deus e nos santos. Em tardes quentes, dormirei numa rede preguiçosa e me sentarei à porta ao final do dia para cumprimentar os passantes, encontrar os amigos. Quando acontecer, vou, também, batalhar para acabarem com esse negócio de patrimônio e de festival de cinema. Quero a Cidade de Goiás assim: quente de provocar miragens, indolente, daquele jeito despreocupado de quem tem tudo que precisa e se orgulha de ser assim. Quero a cidade de Goiás intocável, todinha pra mim. Nasci lá, sabiam? terça-feira, setembro 04, 2007
Das Sensibilidades
segunda-feira, agosto 13, 2007
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