sábado, junho 07, 2008

Eternidade

Ver o mundo num grão de areia,
Um céu numa flor silvestre,
Ter o infinito na palma da sua mão
E a eternidade numa hora.
(William Blake)

Era sábado na hora sagrada da manhã de sol. Liguei para um amigo que estranhou logo o pedido: preciso vê-lo agora. Mas, aconteceu alguma coisa? Não, nada. Mas, mas. Tem que ser agora. E daí a alguns minutos, eu corria pela rua para dar-lhe um presente de alma: o livro. Um que fala da beleza em todas as coisas, das nossas motivações mais profundas, da beleza da dor, da solidão e dos riscos de seguirmos nossos próprios caminhos. Fala da eternidade na hora pequena em que a manhã de sol nos inspira e nos faz sentir. O livro me recolocou naquela manhã solitária em que eu aguardava os alunos do curso. Eu o vi por acaso e o li por motivo nenhum, numa dessas horas inúteis em que tudo acontece. Ele me fez rever motivações íntimas, e, por alguns instantes, naquele espaço de frios rituais acadêmicos, lembrei-me de quem eu era. Eu precisava compartilhar. Ele não compreendeu, mas aceitou o livro e foi embora. Eu voltei para a sala com a sensação de dever cumprido. Falei com alunos e professores em outros tons, reencontrei uma velha amiga no pátio e choramos juntas por motivo algum. E era sábado. Em uma intensa manhã de sol morno.

domingo, junho 01, 2008

Mosaico

Há pouco descobri-me um mosaico de contradições.
Quero ouvir outros sons que não os da minha dor híbrida.
Os da minha ansiedade mundana ou da minha solidão sagrada.

Irrito-me com a TV da sala
e a velha música barroca não abafa os meus gritos.
Tem alguém aí? Alguém menos surdo, cego e incapaz?
Alguém menos limitado e com esperança? Não há resposta.

Concentro-me no diálogo do cello com o violino e eles choram.
Aumento o volume. Quero ouvir meus próprios sons.
As horas não passam, os dias não passam, a vida parece eterna
e é tudo tão lento, frágil e inútil. Escrevo até cansar os dedos,
embotar a mente, até que o cansaço me cale a voz, o corpo,
o medo de encarar a noite e os sons deste silêncio surdo.

E eu que pensei que não havia enredo nesta trama,
fio condutor nestes fragmentos, estilhaços de um mosaico
em que revejo-me inteira, inacabada, estranha e exausta.

Preciso acompanhar as variações do violino.Elas haverão de levar-me
a um lugar de sentido.Os sons inundam a sala. Imagino espaços,
visualizo pessoas, mas o allegro se transforma em adágio
e novamente me disperso, ouço os sons do teclado,
os chiados abafados da TV vindos da sala. O oboé me resgata.

Deixo-me levar por um cravo que recomeça.
Um violino costura tudo e parece contar uma história.

sexta-feira, maio 30, 2008

Salgadas e Puras

Há tempos assim, estéreis de palavras. Em outros, entretanto, elas nos chegam como dádivas, lampejos de esperança. Aqui, em um texto curto e engenhoso de minha filha, a reflexão sobre a inexorabilidade do destino, sobre o amor e a morte e, ainda, instantes de beleza em momentos únicos.

Salgadas e Puras

Maria Clara Capel

“Você vai morrer num lugar com água”, foram suas últimas palavras antes que a sessão terminasse. Estupefato, não desprendia meus olhos de sua face, esperando, esperançosamente, que ela dissesse mais algumas palavras. Talvez, só uma, uma bastaria. Água suja? Água de esgoto? Isso sim me previniria. Mas água? Logo água? “Dona, você tem certeza?” perguntei-lhe em tom de súplica, e logo completei: “Sou nadador, entro sempre na água. Como é que eu vou conseguir entrar na piscina novamente sabendo que posso morrer?! Olhos frios, ela disse apenas:“Água, água salgada e pura”.
Entreguei o dinheiro e voltei para casa pensando no que poderia significar água salgada e pura, características aparentemente tão contrárias. A antítese martelava em minha cabeça quando, ainda meio tonto, abri a porta de casa. Minha esposa veio até mim, permitindo-me um rápido beijo e me puxando pela mão. Não entendi o alvoroço, mas a segui até o quarto, onde revistas se espalhavam por todo o carpete, algumas abertas e marcadas.
“Decidi onde vamos passar as férias”, ela exclamou sorrindo. Perguntei-lhe aonde, e ela apenas estendeu uma das revistas. Talvez tenha ficado ali apenas dois minutos, mas pareceram-me décadas, admirando as “Ilhas do Sol, onde você escolhe entre as águas do mar, ou os lagos da maior pureza”. Sim, ali estava a resposta, um lugar de águas salgadas e lagos puros. Olhava a página como um homem olha o seu próprio caixão.
Se não fui? Sim. De início relutei. Tentei convencê-la de outro lugar. Mas ela não aceitava, me acusava de frieza e ausência. Por fim cedi, pois que o destino decidisse, afinal, não foi fugindo que Édipo conseguiu rompê-lo.
Chegamos à ilha no fim da tarde, e o quarto de hotel ainda estava ocupado. Resolvemos dar uma volta e conhecer a praia sem compromissos. De mãos dadas andávamos descalços pisando na areia fofa, enquanto o sol e sua luz fraca, mas acolhedora, nos iluminava a cabeça. Virei-me e olhei-a. Ela chorava. Emocionada, não resistia ao sol e me abraçava. Lágrimas salgadas e ao mesmo tempo tão puras, transformaram minha antítese num paradoxo, e sim, matavam-me, e reviviam-me após aquele momento.

quinta-feira, novembro 08, 2007

sexta-feira, outubro 12, 2007

Mário Quintana

"E quase que escurece a chama triste"...

(Os Parceiros. Apontamentos de História Sobrenatural, Mário Quintana, p.161)


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A Sue me passou uma brincadeira literária. As regras eram assim:
1ª) Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);
2ª) Abra-o na página 161;
3ª) Procurar a 5ª frase completa;
4ª) Postar essa frase em seu blog;
5ª) Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6ª) Repassar para outros 5 blogs (como não havia advertências ao descumprimento desta regra, como boa aquariana, escolhi esta para quebrar).

quinta-feira, outubro 11, 2007

Travessia

Sonhei que havia morrido. Na verdade, fiquei pouco tempo morta, porque voltei, para a decepção de alguns. Para passar dessa para uma melhor, precisei atravessar uma porta rústica. Imaginem a expectativa. Respirei fundo e fui com a coragem leviana que me é característica. Era uma porta mal pintada, como dessas casas que a gente começa a reformar e não termina nunca. Do outro lado, surpresa, nada de anjinhos cantando ou mesmo a balança implacável da Deusa Maat querendo pesar meu coração sincero com uma peninha de contrapeso. Nada disso. O céu (será que era céu?) era um espaço como o dos bastidores dos teatros. Havia cadeiras empilhadas, mesas, roupas. Tudo muito bagunçado. Procurei pessoas e foi então que pude ver salas que pareciam ambulatórios médicos do SUS. Pessoas sentadas em macas submetiam-se a testes. Saiam daqui que esse sonho não lhes pertence, decretei em pensamento por segurança, porque os sonhos são mesmo ilógicos e eu estava desorientada. Pedi informações a alguém que parecia mais apressado que o coelho de Alice. Perguntei-lhe onde era o inferno e ele me mostrou uma cratera flamejante (por que eu queria saber isso, deus do céu?). Nós, candidatos aos Campos de Ialu egípcios deveríamos saltar sobre ele para continuar o caminho. Todavia, o coelho me mandou voltar, pois ainda não era a hora de fazer a travessia. Dirigi-me obediente para a direção de onde havia entrado, sem olhar pra trás porque me lembrei de Orfeu. Rezei para o João do Pulo. Hora de encarnar a personagem humana novamente, ahneim (ô especiezinha degenerada e sem solução). De tudo, achei o lugarzinho ruim. Pior do que aqui? Ah, sei lá. Aqui, pelo menos, quando a coisa aperta a gente olha o céu e espera alguma nave mãe.

terça-feira, outubro 09, 2007

Cidade de Goiás: meu delírio fundador

Sou uma mulher sem passado. Nunca visitei a cidade em que nasci. Não tenho conhecidos ou parentes na localidade. Uma amiga disse que tive sorte. Que cidades que começam com essa sílaba não costumam dar boa coisa, e, portanto, melhor que eu não me considerasse filha de tal rincão. Nasci em Cuiabá, e não espalhem o fato, se me fazem um favor. Por outro lado, fui plantada em Goiás. Numa cidade criada e, também, sem raízes como eu: Goiânia. Goiânia e eu não temos passado, portanto. Somos rizomáticas e nossas relações são horizontais e sempre novas. Mas, para seguir a moda, podemos inventar um passado, um mito pessoal fundador. Daí resolvi que quero ter origens na Cidade de Goiás. Ô cidade boa. Quero ser uma Fleury Godoy, daquela família de onde saíram as mulheres escritoras, as aparentadas do Bernardo Élis, sabem como é? Não estudei na Cidade de Goiás, mas voltarei lá nos anos de madureza e poderei me estabelecer na “casa de mamãe”. Quero uma construção colonial próxima ao mercado. Local onde irei, anônima, tomar suco de cajuzinho do campo e comer pastel de queijo. Nas manhãs ensolaradas lerei os clássicos que sempre quis ler e nunca tive como, escreverei coisas sem importância. Ouvirei os sinos das igrejas chamando para os serviços e acreditarei em Deus e nos santos. Em tardes quentes, dormirei numa rede preguiçosa e me sentarei à porta ao final do dia para cumprimentar os passantes, encontrar os amigos. Quando acontecer, vou, também, batalhar para acabarem com esse negócio de patrimônio e de festival de cinema. Quero a Cidade de Goiás assim: quente de provocar miragens, indolente, daquele jeito despreocupado de quem tem tudo que precisa e se orgulha de ser assim. Quero a cidade de Goiás intocável, todinha pra mim. Nasci lá, sabiam?

terça-feira, setembro 04, 2007

Das Sensibilidades


Se se pode pôr os cinco dedos através, é porque é grade, se não é porta. Fecha os olhos e vê.

(De Ulisses, James Joyce)

segunda-feira, agosto 13, 2007

...


Quiero escribir

pero me sale espuma...


quinta-feira, junho 14, 2007

Dever Materno

-Preciso falar com você. Quero te dizer que não gosto de viver sózinha. Isto não é modelo de vida.

Anhan.

-E que se eu tivesse outra formação inicial, nunca faria história, que alguns chamam de “subcurso espera-marido”.

Tá.

-E que pessoas heterossexuais tendem a viver de forma menos complicada.

Hum.

-E que que filhos devem ter pai e mãe.

Certo.

-E que as pessoas devem ir à igreja e acreditar em Deus.

Preciso ir à igreja para acreditar em Deus? Ok

-E que não permitirei mais que você tome coca-cola todos os dias, não adianta reclamar.
Pare de me olhar com essa cara e fale alguma coisa!

Vou tomar suco de laranja a partir de hoje. Estou dispensada?

domingo, março 25, 2007

Você tem um grande amor pra lembrar?

Foi a pergunta que rolou. A maioria tinha e gostaria de preservar a memória. Para manter alcançável a inocência perdida e sempre almejada do amor ideal, para refugiar-se quando a construção cotidiana do amor fosse tão difícil, para não perder a esperança e a fé no amor. Dor de amor inocente é a mais dolorida, disseram. A gente ainda não sabe que vai sobreviver. Grande amor do passado deve ficar bem guardado no arquivo morto, para não interferir nos amores do presente. Afinal, amor é ralação. Chato, trabalhoso. Mas, possível.

sábado, março 10, 2007

Sophia, ainda.












Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.

Gosto de uivar no vento com os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.

A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.

(Pirata, Sophia de Mello Breyner Andresen)

Vida Responsável

Conduzir mas sem ter um acidente,
comprar massas e desodorantes
e cortar as unhas às minhas filhas.
Madrugar outra vez e ter cuidado
Em não dizer inconveniências,
Esmerar-me na prosa de umas folhas
E estou-me nas tintas para elas,
Retocar de vermelho cada face.
Lembrar-me da consulta ao pediatra,
Responder ao correio, estender roupa,
Declarar rendimentos, ler uns livros,
Fazer umas chamadas telefônicas.
Bem gostaria de me dar ao luxo
De ter o tempo todo que quisesse
Para fazer só coisas esquisitas,
Coisas desnecessárias, prescindíveis
E, sobretudo, inúteis e patetas.
Por exemplo, amar-te com loucura.

(Amália Bautista, Espanha, 1962)

quinta-feira, março 08, 2007

Espera

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

mal de te amar neste lugar de imperfeição

onde tudo nos quebra e emudece

onde tudo nos mente e nos separa.


(Sophia de Mello Breyner Andresen, Coral)

terça-feira, março 06, 2007

Questão de Lógica

Depois de chegar do WR, aquele colégio estilo militar que me deprime - criado para candidatos a medicina - em que os alunos estudam os três períodos do dia e que custa uma fábula:

-Mãe, a Rayssa vai fazer veterinária.

-Hum, credo.

-Nem vem. O pai dela é veterinário, portanto, ela vai fazer veterinária.

-Anhan, interessante, boa sorte pra ela.

-Então, continuando o raciocínio: minha mãe é professora de história, portanto...

Procelária









(Sophia de Mello Breyner Andresen)

É vista quando há vento e grande vaga
Ela faz o ninho no rolar da fúria
E voa firme e certa como bala

As suas asas empresta
à tempestade
Quando os leões do mar rugem nas grutas
Sobre os abismos passa e vai em frente

Ela não busca a rocha o cabo o cais
Mas faz da insegurança a sua força
E do risco de morrer seu alimento

Por isso me parece imagem justa
Para quem vive e canta no mau tempo
__________________
(Toda a luminosidade dos poemas de Sophia de Mello Breyner, na voz profunda de Maria Bethânia, em Mar de Sophia. É de chorar).

quinta-feira, março 01, 2007

Assuntos Mórbidos

Alguém pode me explicar por favor, por qual motivo vejo um carro de funerária quase que diariamente nos últimos três anos? Fênix, Funerária São Paulo, Pax Domini...meus amigos lunáticos diriam que vivo uma lenta morte simbólica e, por esse motivo, os atraio. Bom, melhor do que encontrar ambulâncias ou o carro da rotam, não é?
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Um amigo me contou que foi a uma festa na casa de um dono de funerária. Ele tem um jardim, que chamou de mater alguma coisa e que é dedicado à sua mãe já falecida. Entre árvores e plantas ornamentais, um objeto pessoal da mãe é iluminado junto à imagem de uma das versões da Virgem Maria. Eu hein?!!
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Morrer dá trabalho, mas já tive vontade, sim, não nego. Tinha que ser num dia sem sol (nunca pela manhã) , sem alunos, nem filhos por perto. Isso seria um péssimo exemplo, credo. Pensando nisso vejo que tenho muita culpa cristã e pouca coragem.
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Meus amigos planejam seus funerais quando estão sem assunto. Um deles quer distribuir as cinzas entre os amigos. Cada um de nós deverá guardar sua porção e levá-la, num dia indicado no testamento, a um lugar do mundo. Se ele não deixar as passagens, acho que prefiro morrer antes.

Estrangeiro












Entre um rosto e um retrato
O real e o abstrato
Entre a loucura e a lucidez
Entre o uniforme e a nudez
Entre o fim do mundo e o fim do mês
Entre a verdade e o rock inglês
Entre os outros e vocês

Eu me sinto um estrangeiro
Passageiro de algum trem
Que não passa por aqui
Que não passa de ilusão

Entre mortos e feridos
Entre gritos e gemidos
A mentira e a verdade
A solidão e a cidade

Entre um copo e outro
Da mesma bebida
Entre tantos corpos
Com a mesma ferida

Eu me sinto um estrangeiro
Passageiro de algum trem
Que não passa por aqui
Que não passa de ilusão

Entre a crença e os fiéis
Entre os dedos e os anéis
Entra ano e sai ano
Sempre os mesmos planos
Entre a minha boca e a tua
Há tanto tempo, há tantos planos
Mas eu nunca sei
Pra onde vamos

Eu me sinto um estrangeiro
Passageiro de algum trem
Que não passa por aqui
Que não passa de ilusão

(Humberto Gessinger, Engenheiros do Hawaii, A Revolta dos Dândis I)

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

A Posse

A gente pode se submeter a tudo na vida, mas vender a alma, jamais.
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Instituto Histórico Geográfico de Goiás
Discurso de Posse - Heloisa Capel - Sócia Titular, Cadeira n. 29
27/02/07


Recebi a visita de um fantasma no último feriado. Um ilustre espectro que me fez rir e indignar-me com o tom de sua conversa um tanto irônica, mas não menos atrativa em seu conteúdo: Machado de Assis. Relemos dois de seus contos definitivos e passamos os dias de descanso em animada discussão a respeito dos temas de sua narrativa: o homem, as aparências, os cargos, as convenções sociais. Refiro-me, de forma específica, a dois de seus contos: Teoria do Medalhão e o Espelho.

No primeiro, Machado de Assis apresenta-nos um pai que aconselha o jovem filho. Ensina-o a como ser um “medalhão”, um notável social. Para isso, explica, como sem adotar filosofia alguma ou desenvolver imaginação deve sorrir sob qualquer circunstância, manter atitudes de neutralidade em todas as questões, usar - de preferência - palavras sem significado, nunca ficar desacompanhado - porque a solidão é uma oficina de idéias - e não se deve ter idéias próprias para não ter que escondê-las. Cultivar atitudes, enfim, que o façam parecer, sempre, o que não é, mas que lhe trazem um nome a ser lembrado sem muitos esforços a não ser o do decoro social.

As leituras não ficaram por aí, entretanto. A teoria do medalhão, como lhe intitulou o próprio autor, coaduna-se com outra, a teoria da alma humana, desenvolvida no segundo conto machadiano, o do Espelho. Neste, Jacobina, a personagem, expõe em uma narrativa autobiográfica, a original idéia de que o homem tem, na verdade, duas almas:

uma que olha de dentro pra fora, outra que olha de fora para dentro.

A alma que olha de fora para dentro pode dominar a outra. Foi o que ocorreu com Jacobina quando foi nomeado Alferes da Guarda Nacional. Desde o episódio, ele não era mais o Jacobina, era o Sr. Alferes. Senhor Alferes era como lhe chamavam os membros da família, os amigos. Era Senhor Alferes para lá, Senhor Alferes para cá, Alferes a toda hora. Um dia, Jacobina encontrou-se sozinho, e as vozes que alimentavam-lhe a alma que olha de fora para dentro e que o reverenciavam como Senhor Alferes, não se encontraram mais ao seu lado. Ele olhou-se no espelho e, surpreso, não conseguiu mais ver sua imagem. Jacobina não sabia mais quem era. Para aquietar-lhe o espírito, precisou vestir-se, rapidamente, de Alferes e só então o Senhor Alferes deixou-se ver, novamente, refletido. Jacobina, ou melhor, o Senhor Alferes, tinha apenas a alma que olha de fora para dentro.

Ah, Machado de Assis e suas metáforas sobre a sociedade. Cansei-me do morto e fui revirar a pilha de livros em busca de vida. Um autor que reverenciasse a vida... um poeta? nada mais adequado. Eis que me surge à mão, um conterrâneo: o poeta Manoel de Barros.

Ao contrário de Machado de Assis, Manoel de Barros não se interessa pelas condecorações, nem pela fama, nem pelas regras sociais. Escreveu livros com os sugestivos títulos: Livro sobre Nada ou mesmo Tratado Geral sobre as Grandezas do Ínfimo. Faz questão de dizer que tem doutorado em formigas e que como poeta, tem um amor legítimo por coisas desimportantes. É dele este poema, ouçam e prestem atenção no final:

Um homem catava pregos no chão.
Sempre os encontrava deitados de comprido,
ou de lado,ou de joelhos no chão.
Nunca de ponta.
Assim eles não furam mais - o homem pensava.
Eles não exercem mais a função de pregar.
São patrimônios inúteis da humanidade.
Ganharam o privilégio do abandono.
O homem passava o dia inteiro nessa função de catar
pregos enferrujados.
Acho que essa tarefa lhe dava algum estado.
Estado de pessoas que se enfeitam a trapos.
Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser.
Garante a soberania de Ser mais do que Ter.[1]

Leio mais alguns poemas de Manoel de Barros e concluo que Machado gostaria de tê-lo conhecido. Manoel de Barros tem a alma que olha de dentro pra fora.

Mas, afinal, este é um discurso de posse, pelos empossados. Cadeira de número 01, cadeira de número 7, cadeira de número 29, sócios eméritos, sócios correspondentes, sócios honorários. Imagino-os, incluindo-me, ao telefone, daqui a alguns dias: "aqui é o Sócio Emérito, gostaria de falar com a Cadeira número 29, por favor". Será divertido.

Agora, eu deveria falar de nós. Mas, sou novamente assaltada por opiniões alheias. Desta vez por Samuel Beckett, em O inominável, de quem tomo a licença da palavra:

Devo falar agora de nós...

Isto seria um passo
Na direção do silêncio.

E toda esta reflexão é para dizer, afinal, de nossa alegria por estar aqui. A importância do Instituto Histórico Geográfico nós já conhecemos. Sabemos que a instituição, fundada no século XIX, teve um papel preponderante na manutenção de dados sobre a história e a geografia no Brasil e congregou nomes significativos na construção da memória nacional. Em Goiás, o Instituto Histórico e Geográfico, fundado na década de 30, é uma entidade guardiã da documentação sobre a cultura e um centro de estudos que favorece a produção intelectual e literária na região. Isso já sabemos e nos orgulhamos.

Todavia, que toda essa nossa conversa sirva como um chamamento. Que sejamos conhecidos pelo nosso trabalho em prol dos estudos da história, da geografia, do meio ambiente, do folclore, das artes. Em aspectos pontuais, no trabalho diário.

Em consonância com Machado de Assis e Manoel de Barros, que possamos estar sonhados de glicínias e na paciente trajetória de trabalho dos caramujos, nossas almas, as que olham de dentro para fora, estejam inundadas de girassóis.

E, finalmente, que nesta disposição de conchas em nós ouvindo hinos, nossas ações falem pelos títulos que recebemos.

Muito obrigada.

[1]Manoel de Barros, O Catador. In Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo. Record, 2001.

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Seguir em frente, sem hesitar

Para ler:

Um por um para o mar passam os barcos
Passam em frente de promontórios e terraços
Cortando as águas lisas como um chão

E todos os deuses são de novo nomeados
Para além das ruínas de seus templos

(Barcos. Sophia de Mello Breyner Andresen)

E ouvir:

http://www.vidailuminada.com.br/VentoNoLitoral.htm