Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundomal de te amar neste lugar de imperfeição
onde tudo nos quebra e emudece
onde tudo nos mente e nos separa.
(Sophia de Mello Breyner Andresen, Coral)


Esquecer a carteira, perder a bolsa ou os documentos pessoais, a chave do carro ou de casa. Quem nunca viveu esta experiência? Meu antigo terapeuta dizia que são reflexos comuns aos períodos de mudança interna (o sacana ainda costumava dar os parabéns) . Sempre que estamos em processo, isso pode ocorrer. Acrescentei-lhe à lista o perder-se no trânsito: de repente, não saber onde estamos e nem para onde ir. Disse-lhe, na época, que me sentia como uma poça d’água. Algo assim, com limites fluidos, indefinidos. Pergunto-me se o que sinto hoje tem a ver com aquele momento. Isso porque chego, assim, estrangeira em todos os lugares e caminho numa espécie de zona morta. Desidentifico-me, mais uma vez, com todas as referências. Será que este processo não tem fim?

Andava sem rumo pelo centro da cidade. A certa altura, tirou os sapatos, pois lhe doíam os pés. Ninguém a percebeu. Olhou-se em vitrines coloridas, observou figuras indiferentes, e uma música antiga na decadente loja com discos de vinil a fez chorar. Lembrou-se de quem era. O corpo pedia o descanso final. As ruas acesas pelas luzes dançantes, o vai e vem de carros enlouquecidos, o trânsito alucinado de pessoas apressadas. Tudo era movimento e ruído. A vida era tão insuficiente. Sentiu-se só, em silêncio. As portas da capela aberta eram um convite ao recolhimento, mas havia gente demais, padres e palavras em excesso, rígidas convenções e incômodas músicas natalinas. Mendigos abordavam carros e passantes. Sentiu-se como eles. Suplicando à vida. Naquele dia, todo o sofrimento do mundo pesava sobre os seus ombros. Por que diabos não desistia? O viaduto sobre a rodovia era um chamado. Olhou a rua, calculou a altura e imaginou segundos de um vôo cego. Teve tonturas e sentou-se com o rosto entre os joelhos. Ninguém a notou. Uma estrela jovem já se fazia ver entre os edifícios. Maldita luz que derrotava a noite da queda na escuridão. Levantou-se e caminhou cambaleante, com um fio de esperança, naquela direção. Estava gelada, mas não sentia frio. O estômago doía, mas não era fome de alimento. Casualmente, um filhote de gato atravessou-lhe o caminho. Era magro e parecia triste. Entreolharam-se. Estáticos, temerosos. O felino aproximou-se devagar para cheirar-lhe os dedos trêmulos de hesitação. Sentou-se no meio fio com o gato a enroscar-lhe as pernas. Tentou lembrar-se do rumo de casa e se havia leite na geladeira. Com o gato no colo, só conseguiu perceber as luzes fortes, ouvir o freio ensurdecedor de carros que se chocavam e sentir uma dor imensa. Naquele dia, soube, afinal, o que é morrer de amor.
E como vai ser quando, arrastando-se de amor, você levar um pontapé daqueles em que vai parar na esquina? Não vou insistir para que seja diferente. Mas, e se sua indignação for tanta que a faça debulhar-se em argumentos para tentar uma reconciliação? Não moverei uma palha, sequer. Considere que, na paixão, nada é tão previsível. Você viverá contradições. Vai querer pedir pra ficar. E se ele não quiser? Vou mandá-lo se ferrar. Não, não diga isso. Conte até vinte, antes de qualquer ato impensado. Pessoas não são coisas. E se ele não tiver pena e reagir? Melhor pra ele. Não quero que fique comigo por compaixão. Bah, quer saber? Acho que você ainda não amou. Acha é? Pois tenho outra teoria: seu modelo de amor - dependência tem marcas de culpa cristã.
Alguns, dos meus “inúmeros” leitores andaram reclamando de minha ausência por aqui. Minto. Não foram tantos protestos assim, já que a estratégia não costuma funcionar comigo. Se você pode dizer não, nunca diga sim, esse é o lema do cabeça dura. Nos últimos tempos, tenho vindo aqui só para entrar nos links ao lado. Quando posso, leio os blogs dos amigos, mas também não comento. Falta de vontade. Algo ligado, talvez, à minha vida suspensa. Nela, há tão pouco de meu. Tenho prioridades. E são tantas e de ordens tão diversas. Dedico-me ao estudo produzido por outros, reproduzo idéias, cumpro obrigações. Chego a orgulhar-me de minha eficiência em caminhar para tão longe de mim. Palavras me aguardam. Para gritar, chorar, elaborar, tentar entender, talvez. Mas, ainda é cedo. As coisas andam por um fio. Preciso economizar. Além das minhas energias já tão desgastadas e de dinheiro – sempre - é claro, promessas, convicções, expectativas, esperanças, desesperos, elaborações de qualquer ordem. Permaneçamos todos neste silêncio expectante, portanto. Amém.