segunda-feira, novembro 20, 2006

O cara é demais, fala sério

Nenhuma palavra dá conta do que somos e isso se relaciona com a nossa finitude.

Hans - Georg Gadamer

quarta-feira, novembro 15, 2006

Redenção

Todas as dores podem ser suportadas
se você as puser numa história
ou contar uma história sobre elas.
Isak Dinesen
Andava sem rumo pelo centro da cidade. A certa altura, tirou os sapatos, pois lhe doíam os pés. Ninguém a percebeu. Olhou-se em vitrines coloridas, observou figuras indiferentes, e uma música antiga na decadente loja com discos de vinil a fez chorar. Lembrou-se de quem era. O corpo pedia o descanso final. As ruas acesas pelas luzes dançantes, o vai e vem de carros enlouquecidos, o trânsito alucinado de pessoas apressadas. Tudo era movimento e ruído. A vida era tão insuficiente. Sentiu-se só, em silêncio. As portas da capela aberta eram um convite ao recolhimento, mas havia gente demais, padres e palavras em excesso, rígidas convenções e incômodas músicas natalinas. Mendigos abordavam carros e passantes. Sentiu-se como eles. Suplicando à vida. Naquele dia, todo o sofrimento do mundo pesava sobre os seus ombros. Por que diabos não desistia? O viaduto sobre a rodovia era um chamado. Olhou a rua, calculou a altura e imaginou segundos de um vôo cego. Teve tonturas e sentou-se com o rosto entre os joelhos. Ninguém a notou. Uma estrela jovem já se fazia ver entre os edifícios. Maldita luz que derrotava a noite da queda na escuridão. Levantou-se e caminhou cambaleante, com um fio de esperança, naquela direção. Estava gelada, mas não sentia frio. O estômago doía, mas não era fome de alimento. Casualmente, um filhote de gato atravessou-lhe o caminho. Era magro e parecia triste. Entreolharam-se. Estáticos, temerosos. O felino aproximou-se devagar para cheirar-lhe os dedos trêmulos de hesitação. Sentou-se no meio fio com o gato a enroscar-lhe as pernas. Tentou lembrar-se do rumo de casa e se havia leite na geladeira. Com o gato no colo, só conseguiu perceber as luzes fortes, ouvir o freio ensurdecedor de carros que se chocavam e sentir uma dor imensa. Naquele dia, soube, afinal, o que é morrer de amor.
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imagem: Starry Night - V. Van Gogh

quarta-feira, novembro 08, 2006

Fim de Caso

E como vai ser quando, arrastando-se de amor, você levar um pontapé daqueles em que vai parar na esquina? Não vou insistir para que seja diferente. Mas, e se sua indignação for tanta que a faça debulhar-se em argumentos para tentar uma reconciliação? Não moverei uma palha, sequer. Considere que, na paixão, nada é tão previsível. Você viverá contradições. Vai querer pedir pra ficar. E se ele não quiser? Vou mandá-lo se ferrar. Não, não diga isso. Conte até vinte, antes de qualquer ato impensado. Pessoas não são coisas. E se ele não tiver pena e reagir? Melhor pra ele. Não quero que fique comigo por compaixão. Bah, quer saber? Acho que você ainda não amou. Acha é? Pois tenho outra teoria: seu modelo de amor - dependência tem marcas de culpa cristã.

Perguntas

Tinha aquela incômoda mania de investigar a alma humana. Fazia indagações, muitas. As respostas eram sempre relativas, desconfortáveis. Pareciam-lhe ora ingênuas, ora injustas, ora fragmentadas, não raro arrogantes demais. Até que todas as ansiedades cessaram. Não porque houvesse obtido a revelação última , mas por ter percebido que só podia controlar as perguntas. E foi em torno delas que construiu sentidos. Em lógicas mínimas, suficientes para mantê-lo vivo.

domingo, novembro 05, 2006

Espantalho Descarado




















Espantalho Descarado

ando assim
tipo um erro flácido ambulante
sem êxito, hesitante
disco riscado
fora de catálogo
no pó do instante
ando assim oco, uma crosta
vodu cansado que com a sorte
nem mais dialoga – diamante
ando assim sem linguagem
sem faro, espantalho fora de foco
ando assim
mais opaco que olímpico
esquivo, íntimo, insípido
um mastodonte pensando
desamparado
aspirando a paralelepípedo
ando assim meio buster keaton
um tanto de lágrima hasteando o riso
ando assim raso
indiferente
me divertindo um bocado
eu ando mijando no poste
porque o banheiro está sempre lotado

Marcelo Montenegro. in "Orfanato Portátil", 2003
Imagem: Augusto Gomes

sexta-feira, novembro 03, 2006

Palavras me aguardam

Alguns, dos meus “inúmeros” leitores andaram reclamando de minha ausência por aqui. Minto. Não foram tantos protestos assim, já que a estratégia não costuma funcionar comigo. Se você pode dizer não, nunca diga sim, esse é o lema do cabeça dura. Nos últimos tempos, tenho vindo aqui só para entrar nos links ao lado. Quando posso, leio os blogs dos amigos, mas também não comento. Falta de vontade. Algo ligado, talvez, à minha vida suspensa. Nela, há tão pouco de meu. Tenho prioridades. E são tantas e de ordens tão diversas. Dedico-me ao estudo produzido por outros, reproduzo idéias, cumpro obrigações. Chego a orgulhar-me de minha eficiência em caminhar para tão longe de mim. Palavras me aguardam. Para gritar, chorar, elaborar, tentar entender, talvez. Mas, ainda é cedo. As coisas andam por um fio. Preciso economizar. Além das minhas energias já tão desgastadas e de dinheiro – sempre - é claro, promessas, convicções, expectativas, esperanças, desesperos, elaborações de qualquer ordem. Permaneçamos todos neste silêncio expectante, portanto. Amém.

terça-feira, setembro 19, 2006

Mistério Cotidiano

No ritmo das horas
mãos ordinárias
ensaiam gestos claros
cegos, comuns.
Pesados coturnos
dançam no escuro
com pés previsíveis
rápidos, cadentes.

Mas meu coração sorri
com Djavan, em segredo.

Se eu tivesse mais alma pra dar,
eu daria.

quinta-feira, setembro 14, 2006

Amor além da vida

Tristão acorda ao lado de Isolda com cara amassada. Discute com ela a arrumação da cabana na floresta idílica, reclama da comida do dia anterior. Dá para imaginar isso? Romeu entediado com Julieta, Psique dizendo a Eros que está naqueles dias? Não, não dá. Deve ser por isso que meu primeiro e, único amor - único em muitos sentidos, vale dizer - sonhou comigo a noite toda. Contou-me hoje, num telefonema na hora do almoço. Sobrevoávamos a cidade de mãos dadas. Havia um ataque de naves alienígenas. Éramos super-heróis. Encontraríamos a salvação. Foi um sonho tão real, explicou em meio a outras conversas, com aquela polidez encantadora. Pediu-me que interpretasse o sonho, se um dia lhe desvendasse o significado. Ficarei em silêncio. Não lhe direi que o sonho está em seu olhar sobre nós: no que está acima do bem e do mal. Eros e Psique juntos, no Olimpo, Tristão e Isolda selando o seu destino num amor além da vida. Sem concretudes, por favor. Este é o nosso lugar: o que é intocável e não pode ser realizado nunca. Foi ruim, foi bom. E é assim, a vida.

sexta-feira, setembro 08, 2006

Entre o Mar e o Cerrado

p/ Joel

Tenho sido o que em mim fingiu ser eu, e quando fui verdadeiro não me reconheceram, e fui visto como estrangeiro. Tenho sido para mim mesmo um fingimento surdo de não querer ser quem Eu Sou. E eu bem que queria não chorar por nada que a vida me levasse ou trouxesse. Jamais encontrei o meu menino em mim. Uma certa nostalgia faz-me ter saudades do cerrado quando estou no mar, e maravilhar-me de mar quando estou no cerrado. A parte que em mim é vasta não sabe sentir solidão. Quando sou vasto como o grande silêncio, contenho multidões.

(...)

Já não escrevo para que me amem, nem mais escrevo só para não morrer. Hoje escrevo enquanto vivo.

(Brasigóis Felício – Vozes do Farol).

quinta-feira, setembro 07, 2006

Tarô Mítico

O homem é o sonho de uma sombra. Deve sofrer para compreender. Oréstia, Ésquilo.
Acendo o incenso, coloco um música suave, forro o chão com a toalha rúnica e espalho as lâminas em cartas claras. Íris, a mensageira, enfrenta as dificuldades da estrada. O carro corta-lhe o caminho, impede-lhe de realizar-se como Helena, a Rainha de Copas, uma mulher com vocação para o amor. Está sob o peso de decisões importantes, impasses. Aparentemente, ela viaja rumo à conclusão da viagem. Todavia, num nível mais profundo, submete-se à vontade maior de Zeus, o deus dos deuses. No passado, era com a fertilidade e a abundância solar de Deméter que ela se identificava. Hoje, é no mundo de Hades que caminha. Como a Sacerdotisa - Psiqué, desce as escadas, na escuridão, para o encontro marcado com Perséfone, sua sombra. É sua face de trabalho incessante que mostra aos outros. Ocultamente, entretanto, está submetida às determinações de Apolo, o deus solar. Sob as ordens dos deuses, Orestes, aquele que nasceu marcado pelo peso da maldição familiar, sugere: faça o que está determinado e aceite as limitações momentâneas do seu destino.

domingo, setembro 03, 2006

Banal

Nino faz som no meu ouvido que funciona. Vejo os números da hora embaçada no visor do relógio. 5:30h. É cedo. Meu corpo pensa enquanto minha mente obriga-me a manter-me alerta. Preciso pegar os papéis do mestrado para a reunião. Sento-me na cama e coloco o Nino no colo. Encosto-lhe em mim e faço-lhe carinho por alguns minutos. Digo-lhe frases idiotas e ele retribui com aquele olhar sonhador. Deixo-o ronronando enquanto sigo cambaleante para o quarto de Maria Clara. 5:45h. Checo as horas para manter-me em pé. Preciso preparar a aula de depois de amanhã. Forço o dia, acendo a luz e compenso o ato com massagens nas costas e algumas frases de carinho. Já é hora. Ela faz um gesto reflexo: oferece-me os braços, como se ainda fosse um bebê de colo. Abraço-a com amor e tento estimular o dia com frases de efeito. Nino se faz presente, interpondo-se entre nós para receber atenção. 6:30h: informo-lhe, num tom ameaçador. Preciso enviar o artigo para o congresso daqui a cinco dias. Deixo-a e corro com a comida. Ração para o Nino, café, suco de laranja. Nino convida-me para uma corrida nos corredores. A TV conta-me do mundo, dos dias. Preciso ligar para a advogada hoje, sem falta. 6:30h. O comentarista avisa-me, sem mentir. Maria Clara chega na cozinha, quando já terminei de tomar o café. Ela examina as possibilidades com despreocupada calma e eu coloco a xícara na pia indicando o fim do ritual. Arrumo a mesa, desligo a tv e apago a luz. Ela reclama algo e o sol se faz ver no horizonte. 6:40h. No banho, registro que preciso corrigir os trabalhos dos alunos até daqui a dois dias. Ouço-a com a escova de dentes. Ao prepararmos a saída, invejamos o sono matinal do Nino, agora aconchegado no sofá da sala. Preciso levar Maria Clara ao dentista hoje. Passo batom no elevador, sem olhar-me. Preciso ir na gráfica aprovar o folder do curso. Faltam cinco minutos para as 7:00h. No carro, ouvimos “somos quem podemos ser”.

sábado, setembro 02, 2006

Barroco

em contrapontos
solidão
variações em fuga
euforia
simetria harmônica
tristeza
em episódios livres
e sacralidade
no lirismo contínuo
sob conflitos
hoje só um largo de Bach

domingo, agosto 06, 2006

Post para o Luis Ene

A mulher negra, vestida de branco, banha-se com as flores do Ipê Amarelo. Conta-me de Oxum, da força e beleza da natureza feminina. Lembra-me a potencialidade da árvore, que intensifica sua explosão em flores, quanto mais difícil é o inverno, a seca. O Ipê agradece ao derramar, com gestos suaves, delicadas flores sobre nossas cabeças.

Clarice, antes de dormir:

O que atrapalha ao escrever é ter que usar palavras. É incômodo. Se eu pudesse escrever por intermédio de desenhar na madeira ou de alisar uma cabeça de menino ou de passear pelo campo, jamais teria entrado pelo caminho da palavra. Faria o que tanta gente que não escreve faz, e exatamente com a mesma alegria e o mesmo tormento de quem escreve e, com as mesmas profundas decepções inconsoláveis: não usaria palavras. O que pode vir a ser minha solução. Se for, bem-vinda.

Portanto, escrevo todos os dias. :)

quinta-feira, julho 27, 2006

Hoje

Hoje, meu silêncio dói. Talvez seja porque há vozes e sussurros, uma profusão de sentimentos, uma apatia quase louca, uma ferida que goteja, um corpo cansado, uma teia. Esfumo o horizonte com o acúmulo dos dias e o apagar das horas. Afogo a alma nua num banho quente. Ligo um rádio para encobrir os pensamentos, e o som sai bem baixinho porque a música também me agride. Hoje, meu silêncio grita. Hoje não tenho lugar, nem desejos, nem forma. Hoje, morrer nem faz sentido.

domingo, julho 16, 2006

O Quarto Elemento

-Mãe, você gostou da peça?
-Sim, adorei. Encontros e desencontros no amor, quem não os tem?
-Qual a mensagem dos atores sobre o amor?
-Ah, penso que muitas: amar é correr riscos, é entregar-se, é viver contradições, é "sangrar de um jeito próprio"...
-Em resumo, algo que nem sempre vale a pena.
-Não, ao contrário, algo que sempre vale a pena, apesar de tudo.
-Sua teoria não pode ser aplicada a você, né?
-É que eu amo de forma impessoal, deve ser do signo...
-Mas, a peça não fala do amor universal, mas do amor humano e íntimo.
-É...
-É. Mas, você acha que o amor atrapalha a vida das pessoas?
-(...)
-Você está pensando numa forma sutil de me dizer "sim, atrapalha".
-Acho que "a pessoa é para o que nasce", algumas nasceram para viver junto com outras, outras para ficarem sozinhas.
-(...)
-("é que eu ando tão cansada, e todo amor em mim, dói"...).


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Notas:
*O 4o Elemento é um espetáculo de direção e texto de Tetê Caetano, apresentado no Centro Municipal de Cultura Goiânia Ouro. "Uma história dos encontros e desencontros no amor, um espetáculo que fala com palavras e coreografias aéreas sobre possibilidades, desejos, busca, paixão, desespero, fim e recomeço".
*A Pessoa é Para o que Nasce é um filme de Roberto Berliner sobre a história de vida de três mulheres cegas, seus dramas, misérias e amores. Também apresentado no Centro Municipal de Cultura Goiânia Ouro.
*16 de julho - Data do meu casamento. Há mais de catorze anos. Divorciei-me há 7.

domingo, junho 25, 2006

Inventário

Coisas importantes. Sempre nos atos mínimos. No inventário final, talvez seja o que permanece. A recepção inesperada de um sorriso, o carinho dos alunos, o café quente para acordar o dia, o bolo de chocolate com cobertura de creme de leite da Maria, programa do Raul Gil no hiato despreocupado de uma tarde morna de sábado, a gargalhada na leitura do Drops, a conversa de adultos com Maria Clara, os comentários dos amigos no blog, aquele reencontro no final de uma semana difícil, a aula inteira e energizante na manhã do sábado de sol, os olhos de satisfação dos alunos, as sonecas depois de um bom livro literário após o almoço, o mail surpresa daquele amor perdido, o pequeno reconhecimento depois de árduos esforços, o scrap no orkut, o abraço sincero e amoroso do amigo que você nem vê, o lampejo de esperança. Sutilezas me emocionam. Deve ser por isso que gostei tanto dos poemas de Marcelo Montenegro, o que quer “expressar a vida nas pequenas coisas”:

Buquê de Presságios

De tudo, talvez, permaneça
o que significa. O que
não interessa. De tudo,
quem sabe, fique aquilo
que passa. Um gerânio
de aflição. Um gosto
de obturação na boca.
Você de cabelo molhado
saindo do banho.
Uma piada. Um provérbio.
Um buquê de presságios.
Sons de gotas na torneira da pia.
Tranqueiras líricas
na velha caixa de sapatos.
De tudo, talvez restem
bêbadas anotações
no guardanapo.
E aquela música linda
que nunca toca no rádio.


Poema Estatístico

Tem uma esquina prenha de um latido.
Trechos de pássaros que permanecem
nos muros que ficam. E vice-versa.
Um mail anotado às pressas no canhoto
do tintureiro.
A cirrose portátil. A síndrome do pânico.
O enroladinho de presunto e queijo.

Tem a Mulher mais Linda da Cidade.
Groupies de cabelo rosa. Poodles
da solidariedade. Alguém chorando lágrimas
de tubaína. Penélopes charmosas.
Dick Vigaristas. Um cara que já sai desviando
do cinema Del arte, evitando ser atingido
Por alguma conversa perdida.

Tem a mulher da vídeo-locadora
que não conhece o filme que estou procurando.
Um amigo que diz que escreve só para colocar
epígrafes.
Taxistas infláveis. Manicures em chamas.
Um casal que desce a rua na banguela
prolongando a gasolina daquilo tudo
que um dia fora. Eu ando apaixonado
pela mulher da vídeo-locadora.
Lendo revistas na sala de espera
do consultório dentário. Tem uma
que venta. E um que desiste.
De arranhar os vidros do aquário.

(Marcelo Montenegro)

segunda-feira, junho 19, 2006

Auto-suficiência

Entrou na sala de meditação e postou-se à espera, em silêncio. Alguém conversava algo desinteressante. Sentou-se e manteve o olhar vazio para evitar ressonâncias. Contemplou o dedo ferido pelo sapato. Uma mão cuidadosa invadiu-lhe o campo: as mãos do instrutor. Um óleo, um bálsamo, um carinho, uma vontade de chorar.

quarta-feira, junho 14, 2006

E Viva o Brasil

Alô! Foi assim, de modo imperativo, rápido e ríspido, que a voz feminina atendeu-me do outro lado da linha. É do Hospital do Rim? Arrisquei. É. Ela respondeu, com o tom irônico da idéia implícita: se você discou esse número, é daqui, sim, ô idiota. Ignorei a receptividade e fui logo ao assunto: você tem médico de plantão? Hum? Ela perguntou num tom entre a incredulidade e a indignação. Depois que repeti a dúvida, a fulana encetou uma conversa abafada com alguém (digo que tem ou que não tem? ah, acho que ele foi embora. vá lá ver). Silêncio. Ouço uma TV. O hino nacional. Ah, pode vir. Depois de alguns minutos foi o que disse, antes de desligar, antes que eu ensaiasse uma despedida. Cheguei ao local sem me importar com a identificação de quem havia desligado o telefone na minha cara. Devia ser uma das moças sentadas no hall de espera dos consultórios. Eram dez pessoas, consegui contar, só pra passar o tempo, desviar a mente. Estavam todos em frente à TV. Estréia do Brasil na copa. O médico estaria lá, também, no meio deles? Deus não permitiria, roguei. Sentei-me em algum lugar distante depois de fazer a ficha com uma recepcionista de cara amarrada e retomei minha leitura de Paul Ricoeur, entre mudanças de posição para tornar a dor mais suportável. Com este capítulo, atingimos a meta proposta nos anteriores, em que a ênfase era dada às aporias do tempo fenomenológico...rede globo na copa! A voz do locutor sobressaía-se entre gritos e buzinas. Dor é psicológico. Não estou com dor. Repetia-me entre reflexões a respeito da disposição médica em me atender naquela hora (lá fora estava escrito plantão 24h, azar dele) e o controle da vontade de chorar. Não vou chorar, não vou chorar. Não vou chorar por essa dor, nem por todas as outras. Olhei para cima e concentrei-me nas bandeirolas verde-amarelas que balançavam no teto. Ele chegou apressado: você é a paciente? Não, sou sua mãe, pensei comigo. Fiquei com vontade de rir ao contemplar a figura: aparentava vinte anos, e, dentro do jaleco, uma camiseta da seleção. Eu o tirei de casa na hora do jogo, tive uma satisfação quase sádica ao constatar o fato. Trocamos poucas palavras, o suficiente para que preenchesse os pedidos de exames, indicasse o analgésico que eu já havia tomado meia hora antes e eu fosse rapidamente dispensada. Deve ser rim. Ele concluiu com raro brilhantismo perceptivo. Na saída, atravessei o hall entre as comemorações do primeiro gol. Ninguém notou que não olhei a TV, nem por um instante. Também não fiz comentários sobre minha repulsa à euforia verde-amarela ou ao nosso nacionalismo hipócrita. Corri para casa, tomei mais um Buscopan e me protegi dos fogos de comemoração da vitória do time com um travesseiro sobre os ouvidos. Lá fora, um grito abafado: e viva o Brasil!

quarta-feira, junho 07, 2006

O Cocô do Cavalo do Bandido

Há dias, e não são poucos, em que me sinto assim...

Mas, meus alunos me colocam novamente em pé com tanto carinho e generosidade.
Deus nos conserve nesta relação de amor.

Misticismo

Heloisa, extensão da arte
arte que não se olvida.
Uma - a alma aquece-
Outra- enternece a vida
.


Na faculdade havia uma professora;
Não uma professora qualquer.
Não sei se mulher feito um anjo,
Ou se um anjo feito mulher.

Em seus olhos calmos e serenos,
Havia algo de místico e singular.
Quando surgia na sala,
Como que por encanto,
Algo se punha a brilhar.

Ninguém soube ainda explicar,
Se brilhava por encanto,
Ou se o encanto
Era a luz de seu olhar.


José Maria Alencar – 3o Período

HELOÍSA

Menina, que canta história
Elo, Heloísa, canção
Sob a égide da memória
Traz nos olhos o coração
Alma leve de criança
Mãe de Clara menina
Os olhos que conta a História
A boca que fala e ensina
A mente que ao passado vai
Põe a mão a deslizar
Sob rascunhos e rabiscos
Baús, saudades e cheiros a relembrar
O Elo que liga Heloísa
É tênue como a própria luz
Que do umbigo vai ao céu
Buscando o amor de Jesus
Elo, Heloísa canção
Heloísa Elo coração.

Alba Franco – 1o período

sexta-feira, junho 02, 2006

Guimarães Rosa

"Os rios não querem chegar. Eles querem se tornar mais largos e mais profundos."