domingo, março 26, 2006

É bom cantar...

Quando a gente não tem o que dizer.
É Isso Aí

Ana Carolina
Composição: Ana Carolina
É isso aí
Como a gente achou que ia ser
A vida tão simples é boa
Quase sempre
É isso aí
Os passos vão pelas ruas
Ninguém reparou na lua
A vida sempre continua
Eu não sei parar de te olhar
Eu não sei parar de te olhar
Não vou parar de te olhar
Eu não me canso de olhar
Não sei parar
De te olhar
É isso aí
Há quem acredite em milagres
Há quem cometa maldades
Há quem não saiba dizer a verdade
É isso aí
Um vendedor de flores
Ensinar seus filhos a escolher seus amores
Eu não sei parar de te olhar
Não sei parar de te olhar
Não vou parar de te olhar
Eu não me canso de olhar
Não vou parar de te olhar
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sábado, março 18, 2006

Mate-me Senhor, enquanto sou anjo!

Tenho uma amiga que sempre diz esta frase. Quando está indignada e não encontra solução para os absurdos do mundo. Num café durante a semana, ela me contou um sonho, antes de repetir a súplica. Um em que encontrava um antigo namorado. Ele lhe dizia: amarei-a eternamente, mas sou comprometido. Meu amor por você é sublime, indestrutível. Ela sorria candidamente, ao mesmo tempo em que balançava a cabeça e pensava: também amo a Jesus do mesmo modo, seu FDP. Então, de repente, ela se rebelou. Suavemente, como pedia a circunstância, vale ressaltar. Disse a ele que agradecia amor tão sublime, mas que preferia algo mais pé-no-chão, pele na pele, algo que envolvesse suor, esforço, o sangue da existência. Ele parecia não ouvir. Queria continuar intocável, etéreo, ideal. Ela, então, levantou-se, agradeceu a prosopopéia flácida para acalentar bovinos* e foi embora. Angelical, etérea, inatingível, como exigia o momento.
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*Conversa mole pra boi dormir.

terça-feira, março 14, 2006

O Morador

Mora alguém dentro de mim.
Alguém que me sabe
sabe o tempo e sabe o mundo.
Esse alguém não tem ouvidos
além de sua própria existência.
Com discreta autoridade
alguém ignora minhas vontades,
desfaz projetos e sonhos.
Temo por suas duras determinações
conhecidas logo antes, desde sempre.
Alguém fala forte dentro de mim.
Às vezes, chego a sentir que
somos os mesmos,
mas, ao primeiro desacordo
penso que somos outros.
Aceito-o, então, em meus aposentos.
Submissa, ignorante,
quase inocente, menos distante,
ávida de encontro.

domingo, março 12, 2006

Palavras e Sofrimento

É tão relativamente pouco o que as palavras podem fazer em relação ao sofrimento. Tão relativamente pouco que as palavras podem fazer em relação a seja lá o que for. Mas, que outra coisa temos?

(Höeg, Peter. Senhorita Smilla e o Sentido da Neve).

segunda-feira, março 06, 2006

Celibatária, graças a Deus.

Assisti ao Programa Saia Justa no Gnt, no sábado. Assunto: sexo. E complementos: masturbação feminina (com indicação de manuais na net), preguiça sexual, histeria masculina (pensavam que era doença de mulher, é?), além de outros assuntos como a dificuldade de atualização do mito de Dom Juan (o mascarado prometia casamentos às vítimas, o que, convenhamos, no século XXI não pode ser mais usado como estratégia de sedução). De tudo, destaco uma posição que ouvi das mulheres: celibato não é patologia psicológica, é opção. Sim, sexo dá trabalho. Manter uma libido em altos níveis é um esforço. Pense em sexo, pense em sexo, imagino isso, enquanto escrevo estas poucas linhas e passo os olhos na mesa cheia de projetos, provas, livros e o relógio que marca o início das aulas que vou ministrar ainda hoje. E sexo significa comprometimento, relacionamento, planejamento, prevenção. Para quem tem parceiro fixo, é preciso inovar, seduzir cotidianamente. Tudo muito estudado e pouco espontâneo. Para quem não tem, é preciso escolher e assumir o risco do investimento. Na análise do custo - benefício, as mulheres acham que, muitas vezes, é mais vantajoso apelar para a tecnologia. A que não exige nada mais do que um pouco de técnica e ritmo. Sexo por sexo. Isso é cada vez menos satisfatório. E, admitamos, não anda nada fácil encontrar alguém com boa sinastria astrológica, para a devida ocupação na agenda diária.

quarta-feira, março 01, 2006

A Saída Narrativa

Ouço muitas histórias. De muitas pessoas. Em muitos tons e gêneros. Dos alunos, da família, de alguns poucos amigos. Não raro, as narrativas giram em torno do mesmo assunto, envolvem as mesmas pessoas, que escuto em momentos diferentes, com versões diversas do mesmo fato, da mesma idéia, do mesmo problema. Nem sempre as histórias são sobre outras pessoas. Às vezes, referem-se a mim mesma (um boato alheio, uma opinião, um comentário de alguém), o que é de mais fácil trato. E como aprendo nesta escuta. Aprendo que todos têm razão. Do seu ponto de vista e do seu lugar no mundo. Nestas horas procuro não dizer nada, permanecer em silêncio. E observo que muitos conflitos poderiam ser evitados, com um pouco mais de escuta e boa vontade em ver e sentir o outro, com um pouco mais de flexibilidade. Nada muito significativo, não. Só um pouquinho de sensibilidade. Aquela, garantida entre pessoas que se amam e que precisam se lembrar disso antes de tomar qualquer atitude, antes de emitir qualquer julgamento. Tudo bem, não amamos todo mundo. Mas podemos, pelo menos tentar compreender o outro. Escutar histórias. Parece tão simples e óbvio. Quanto sofrimento poderia ser evitado.
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Li num livro o que Jürgen Habermas, escreveu sobre Marcuse em seu leito de morte:

Antes de completar oitenta anos, e preparando uma entrevista, Marcuse e eu mantivemos uma longa discussão sobre como poderíamos explicar a base normativa da Teoria Crítica. No verão passado, quando o vi pela primeira vez após esta discussão, Herbert estava sob cuidados intensivos de um hospital de Frankfurt, com todo tipo de aparato controlando-o à direita e à esquerda. Nenhum de nós sabia que isso era o princípio do fim. Naquela ocasião, em verdade nosso último encontro filosófico, Herbert lembrou a polêmica que mantivemos anos antes, e me disse: Sabe, já sei de onde se originam nossos juízos de valor mais básicos: na compaixão, em nosso sentimento pelo sofrimento dos demais.
(Jürgen Habermas, 1980).

terça-feira, fevereiro 28, 2006

Na Varanda








Sentada na varanda da casa
observo o céu límpido e profundo da manhã.
Cega pelo sol vejo tudo inundado de luz intensa
sobre a grama verde brilhante.
Uma rajada de vento surdo
faz voltas e acaricia-me a face.
Pouso o livro sobre o colo.
De olhos fechados meu corpo é acolhido
e embalado pela luz branca do sol morno.
E se o céu perder o azul?
Ouço a frase num rádio distante
enquanto sinto o vento no roçar das folhas
e planto-me com tronco e raízes.
Estendo os braços para brincar com o vento
compartilho a alegria dos pássaros
e o tilintar dos talheres na cozinha é música.
Uma vibração sonora indica um carro adiante
na estrada em que viajo sentada na varanda
para chegar a lugar nenhum.

domingo, fevereiro 26, 2006

Contínuo

Deito sentimentos na folha branca intacta e o sangue corre pelas veias sem transbordar ou encontrar expressão nos gestos loucos do teclado no silêncio da boca. Os órgãos trabalham em comandos mínimos automáticos e mantém aquilo a que chamo vida por não ter outro nome.Tanta indefinição esgota as linhas e entrelinhas do texto que seleciono tudo e apago os símbolos mesmo que o coração mantenha o ritmo e os olhos fiquem abertos e a folha branca continue sem a tinta das gotas que formam rios represados disciplinados em seu curso.A folha branca insiste e lembra-me do oceano. Desfaço o contratexto e mantenho as palavras sempre poucas. Insuficientes. De todo inúteis.

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

Noturno

Escalo paredes de pedra.
Apoios frágeis
largam-se da base.

O gato cai da janela.

Solto-me das bordas
e sou levada pela rua
em águas incontidas.

(preocupação).

Acendo as luzes.

Sinto frio, calor,
uma pressão nas costas,
que é quase dor.

Algo toca-me a nuca.

(medo).

Ligo o som de
um lamento tibetano.
Mantras ao fundo
revelam caos e sofrimento
no tumulto multicolorido dos passantes.

(dor).

terça-feira, janeiro 31, 2006

Manter o foco

Além de surda, nasci com um desvio ocular de convergência (alguém tem idéia do que é corrigir isso num aparelho em que se fica duas horas olhando para o mesmo ponto, com tanta vida, tanta vida lá fora?)

Morte aos ortoptistas e especialistas!

Meus olhos desejavam abarcar o mundo.

sábado, janeiro 28, 2006

Pois, é.

Eu tinha dezoito anos e fazia faculdade de história. Ele, vinte. Seria arquiteto. Éramos puros e acreditávamos no amor romântico.

Eu poderia começar assim, este post. Mas, vou trilhar outro caminho.

Ontem, amanheci aborrecida, preocupada. Coloquei uma roupa amarela, que me deixou com tonalidade hepática na pele, mas que me lembrava o sol, que tanto amo e necessito. Pela pressa e pelo estado de espírito, acho que mal usei um batom (mulheres entenderão o sentido deste detalhe no decorrer da leitura do texto). Prendi o cabelo num rabo de cavalo despreocupado (meu pouco cabelo não gosta de mim), saí de casa e fui para o trabalho (aquele, dos meus problemas todos e desafios diários). Passei, antes, na faculdade para organizar uns papéis (reinício do semestre na semana que vem) e cheguei ao meu destino final um pouco tarde. Sentei-me na mesa, liguei o micro e permaneci arrumando coisas, como é de costume (a luz do meu escritório é a única que se mantém acesa, por contenção de gastos e pela minha solidão). De repente, vi um vulto que se aproximava. Não o haviam anunciado. Quem seria? Não era um credor, mas ele. O arquiteto, aquele, dos vinte anos. Levantei-me surpresa e ouvi, num abraço afetuoso: tentei ligar para você, mas o telefone não era mais o mesmo, então, resolvi visitar-lhe, pessoalmente. Parabéns pelo aniversário. Fiquei sem palavras (quase disse “beijos para todos”, mas a frase era inadequada para a ocasião). Ele se sentou e conversamos por mais ou menos uma hora. Pareceu-me o mesmo: a mesma tenacidade, a mesma gentileza à toda prova, os mesmos cabelos, agora nos ombros. Contei-lhe que, no ano passado, depois de uma conversa fortuita por telefone, escrevi um texto, inspirado nele, que se intitulava Diálogo Para um Amor Perdido. Ele, então, argumentou: Então, é assim que você percebe? Como um amor perdido? Eu considero um amor eterno.
Pois, é (outra expressão eloqüente para dizer o indizível).
Pois, é.
Em homenagem a ele, vou republicar o texto. E, antes, que me perguntem, ele é casado, sim, e o amor está mais do que guardado, sublimado. Sem esperanças cor-de-rosa, portanto.

Diálogo para um amor perdido

Para L.R.J.
Vazio no estômago, respiração curta. Os dedos gelados discam um número de celular. Está chamando. Demora a atender. Pensa em desligar, mas antes que recoloque o telefone no gancho, uma voz grave, diferente, quase ríspida e sem emoção atende do outro lado da linha. “Alô!” Será ele? E se não for, o que dirá? Desliga? Reflete por um segundo antes de responder hesitante: Gostaria de falar com Diego Lima. A voz sai trêmula e insegura. “É ele”. É ele? Repete de forma incrédula e idiota. “É sim”. Ele confirma num tom inquiridor. Aqui é Marta Flores. “Marta?” Ele quase a interrompe num ato estremecido, de outro tom. “Que surpresa”! Completa. Numa emoção cheia de expectativas, Marta continua: Você pode falar agora? “Estou no trânsito”, Diego responde, “mas chegarei ao meu destino daqui a dez minutos. Posso te ligar de volta nesse número?” Marta desmorona. Ele não quer falar, pensa. Não deveria ter ligado. Se ele fosse objetivo não saberia o que dizer depois de tantos anos. Não é necessário, conclui . Ligo numa outra ocasião, completa Marta com voz firme, desistindo. Todavia, Diego insiste: “Não, por favor! Então ligue para mim daqui a dez minutos, ok?” Está certo, responde Marta, sabendo que não cumpriria a promessa. Não deveria ter ligado, martiriza-se. Quantos anos a separavam dele? Quinze, vinte? Tinha saudades sem dor. Saudades de sua inocência e do amor imenso que sentia. Um amor incondicional, fiel, silencioso, generoso e tímido. E era um amor correspondido. Alimentado por cartas, desenhos e retratos que ele elaborava com arte, bilhetes apaixonados escritos em guardanapos de papel. O tempo corria. 5 minutos. Por que mesmo haviam chegado ao fim? Não conseguia se lembrar. Foi um final distraído. Um “até mais” com um beijo apaixonado no alto de uma escada rolante de um shopping recém inaugurado, recorda-se, em fragmentos. Havia ligado por saudades. Viu sua foto num jornal com divulgação de seus trabalhos artísticos. A mesma tez indiana e os mesmos olhos negros. Os olhos ternos que tanto amou. 12 minutos. Pegou no telefone e o colocou distante. Melhor assim, decidiu. Entretanto, antes que deixasse a sala, o aparelho toca alto. Atende, num sobressalto. “Marta, sou eu, Diego. Você não ligou, resolvi arriscar o número.” Marta enterneceu-se...
Conversaram longamente. Falaram de amenidades, coisas de trabalho, sobre os rumos que a vida de cada um tinha tomado... num diálogo cordial, discreto, tentando disfarçar a emoção. Ao final, nas despedidas, falaram da saudade. Num ato de coragem, como se fosse o último diálogo que teriam em vida, Marta ousa revelar: Eu o amarei pelo resto dos meus dias... “Eu também”, Diego afirma, correspondendo, como fazia sempre. “Independente de qualquer coisa, eu sempre vou amar você”, diz, emocionado. Até um dia, “até um dia”. Desligam.

quinta-feira, janeiro 26, 2006

Beijos para todos

Amanhã é meu aniversário. 42 anos. Não sei bem o que isso significa. A não ser quando olho no espelho e imediatamente me lembro das propostas (sempre recusadas) do médico, meu compadre, que tem uma clínica de estética (o que será que ele quis dizer com as tais propostas, né? Melhor não investigar). Aquário, ascendente câncer (dura por fora, mole por dentro). Não gosto de aniversários. Sou absolutamente sem graça para cumprimentos. Fico encabulada, e por instantes (especialmente quando começam a dizer coisas bonitas e coisa e tal) fico surda dos dois ouvidos. Não trabalhei isso na terapia a tempo. Elogios, então? Deus, que coisa mais constrangedora. Não gosto. Fujo quilômetros. Este aniversário está engraçado, indefinido, como muitas coisas na minha vida. Todavia, depois de examinar a situação como um todo (financeira, emocional, grupal e o resto), decidi com MC e Góia (minha amiga-irmã), que iremos comer uma pizza de rúcula lá na Pizzaria Paulista. Fico aqui torcendo para ir pouca gente (Góia é uma agenciadora sacana, uma fdp*). Para que eu possa dar mais atenção às pessoas e ir embora logo (durmo cedo, que veieira). E, se disserem coisas bonitas, eu vou ficar surda. E, também, dura como pedra, nestes dias de bipolaridade momento down (como diz a Perséfone), em que choro vendo novela. E, se eu tiver que dizer alguma coisa, farei como uma vez me contaram: a moça tinha que fazer um discurso solene e não sabia o que dizer. Então, subiu no palco, agarrou o microfone e arriscou a frase síntese: beijos para todos, obrigada.
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*fdp: flor de pequi.

quarta-feira, janeiro 25, 2006

terça-feira, janeiro 24, 2006

Nino na gaveta



Não costumo colocar imagens neste blog.

Mas, no clima da Fal e da Renata, abrirei uma exceção.

A Última Gota

Era a gota que faltava. Para que eu tomasse uma decisão importante na minha vida. Eu já queria fazer isso há muito tempo. Nino e eu vimos um programa, ontem, na TV Comunitária (sim, ele também assiste, embora seja bastante seletivo, e sempre durma no meio, como eu). Já havia começado. Uma mulher com uma expressão simpática e uma voz suave, falava sobre animais. Sobre o comportamento dos porcos (Nino deve ter achado uma bobagem, de início). Ela contou que eles são animais sociáveis e brincalhões, facilmente domesticáveis. Até aí, tudo bem. Gostei das imagens dos porquinhos bebês em diversas situações, embora o Nino já estivesse dormitando. Depois desta cena, a palestrante começou a mostrar o sistema de criação e abate para o consumo de carne de porco. Informou como as porcas ficam obesas, por processos antinaturais, para que produzam carne em abundância e de bom valor comercial. As cenas foram revelando como, a partir de algum tempo, elas só conseguem fazer dois movimentos: deitar e levantar. E eu fui ficando enjoada. Ela, então, começou a mostrar o mesmo processo para a carne de vaca. Animais em abatedouro, sim senhores. Passo a passo, fomos vendo como são enclausurados no corredor da morte, o pânico, os choques para que se mantenham andando, a injeção que os idiotiza (processo sofisticado), antes que recebam as pauladas finais. Uma funcionária de um matadouro, contou, com a cara mais lavada do mundo, que já se acostumou a ver aquilo, embora não ousasse olhar para o rosto dos animais. A cena mais chocante: um boi recebendo a injeção e tombando sobre um vomitório (sim, é assim que se chama), antes que fosse golpeado e sangrado. As cenas do documentário eram intercaladas por profissionais gabaritados que explicavam sobre o “mito da proteína”, sobre as toxinas produzidas por um organismo animal acuado, agredido. A essa altura, Nino já havia abandonado a sala. E eu estava com o controle na mão (vantagem exclusiva de mulheres sem marido), pronta para mudar de canal. Não como carne vermelha há tempos, mesmo, dei de ombros. Não consegui, entretanto, trocar a estação, antes que visse o processo do frango. Os pintinhos (aqueles, amarelinhos, que a gente admirava em calendários) sendo selecionados. Como coisas, os que não estão “perfeitos”(se é que algum animal possa ser perfeito nascendo nessas condições, sem filiação, de maneira forçada) são separados em grandes tanques para serem triturados. Eles têm o bico cortado, pois desenvolvem canibalismo, uma beleza. Isso faz com que comam desmesuradamente a ração, o que é ótimo para o criador. Um dos entrevistados falou que nós somos seres fúteis, pois, além de tudo, queremos consumir a carne de avestruz, de cão, de gato, de perdiz e o escambau. Coloque uma criança africana num quarto, depois de três dias sem comer, com uma maçã e um coelho. Ela escolherá comer a maçã e brincar com o coelho. Ei, não somos carnívoros, PQP, só faltou o cara dizer esta última frase. Tive que me levantar para providenciar um remédio para o estômago. A partir de hoje, não comerei mais nenhum tipo de carne. Sim, eu sei. É antipático e antisocial. Bem, &*$#@*%. Tenho mais de quarenta anos, ainda posso escolher os meus amigos. Em relação aos outros, vou fazer como cavalo em desfiles comemorativos: permanecer cagando e andando.

Não acreditam em mim?

Visitem, com tempo, o site do Instituto Nina Rosa. E mostrem para os seus filhos. Ainda seremos humanos no século XXI? Quem sabe.

segunda-feira, janeiro 23, 2006

Desejo

Eu não quero ver você cuspindo ódio. Eu não quero ver você fumando ópio pra sarar a dor. Eu não quero ver você chorar veneno. Não quero beber o teu café pequeno. Eu não quero isso (seja lá o que isso for). Eu não quero aquele, eu não quero aquilo, peixe na boca do crocodilo, braço da Vênus de Milo acenando ciao. Não quero medir a altura do tombo. Nem passar agosto esperando setembro (se bem me lembro). O melhor futuro, este, hoje escuro. O maior desejo da boca é o beijo. Eu não quero ter o Tejo me escorrendo das mãos. Quero a Guanabara quero o rio Nilo! Quero tudo ter: estrela, flor, estilo! Tua língua em meu mamilo, água e sal... Nada tenho (vez em quando, tudo). Tudo quero mais ou menos quanto. Vida. Vida noves fora zero. Quero viver. Quero ouvir, quero ver. Nada tenho (vez em quando, tudo). Tudo quero (mais ou menos quanto). Vida. Vida noves fora zero Se é assim, quero sim. Acho que vim pra te ver.
(Bandeira. Zeca Baleiro)

domingo, janeiro 22, 2006

Temporal

APROVEITE o dia.
Viva para o PRAZER.
ESCOLHA o que te faz feliz.
Faça tudo HOJE.

(A superficialidade da
auto ajuda motivacional
provoca-me risos).

Escrevo isto enquanto me preparo
para mais um dia.
Em que faço o que não gosto
e não escolho fazer.
No hoje que se tece em estações.
De uma existência, talvez.

Tarefas que se cumprem num tempo humano.
Um átimo do que serve à eternidade
de uma vida impessoal.

Pelo menos, é verão.

quarta-feira, janeiro 18, 2006

Construção de Intimidade

Neste final de semana, reuni-me com alguns primos para o bate papo ameno no almoço de Domingo. Conversamos sobre relacionamentos, sobre a história da família, sobre casamentos. Um deles contou como é difícil a lição da intimidade entre duas pessoas. Relatou que num dos dias da lua de mel, foi ao banheiro da suíte do casal e, constrangido com a proximidade, tentou relaxar e concentrar-se sem fazer barulhos. Aliviar-se no silêncio, como definiu. Esforço inglório. Ao primeiro ruído, surdo e tímido, o parceiro, no outro cômodo, soltou a infame frase que fez com que desejasse estar morto: peidou, hein?
Nada mais constrangedor, rimos às gargalhadas. Fiquei chocada. Eles parecem tão arrumadinhos e sóbrios, tão respeitosos. E eles não se separaram, não. Ao contrário, vão comemorar bodas de prata. Lembramos, então, de uma passagem do filme Gênio Indomável. Quando o psicólogo conta das flatulências incontinentes da esposa já falecida e diz, com o exemplo, que num relacionamento, é a aceitação das idiossincrasias do outro que tece a teia da intimidade. Só eu sabia algumas particularidades dela, e isso fazia com que ela fosse minha, de alguma forma, confessa o psicólogo. Ninguém é perfeito, ele conclui, resta saber se são perfeitos um para o outro.

segunda-feira, janeiro 16, 2006

Roberto Crema

Pouca coisa me interessa na TV. Além do Raul Gil (não riam, é sério), um jornal, de vez em quando, um filme. Outro dia assisti a um filme da Barbie. MC passou pela sala e me lançou um olhar compassivo, enquanto balançava a cabeça num tsc tsc. Há um canal, entretanto, que sempre me detém: o canal comunitário. Ali, há muitas palestras, com assuntos variados que tratam de saúde, de educação, de psicologia, de questões ambientais e outros. Sexta estava lá o Roberto Crema. Da Unipaz. Uma graça. O entrevistador era um autômato, limitou-se a ler suas perguntas, não interagiu com o entrevistado. Pior pra todo mundo. Mas, ainda assim, foi bom ouví-lo falar sobre a necessidade que todos têm de cuidar e de serem cuidados. Cuidar significa escutar o outro, estimulá-lo a curar-se por si mesmo. Cuidar significa assumir uma atitude terapêutica, em relação a si mesmo e ao outro. Grandes dores transformam-se em grandes talentos, quem nunca ouviu a fórmula? Pois, é. De forma suave e poética, Crema falou sobre a crise mundial, sobre as guerras e sobre o trabalho silencioso da Unipaz para estimular a tolerância, a atitude inter-religiosa sem sincretismos superficiais e forçados. É. A gente só escuta as más notícias, e não percebe que uma floresta cresce silenciosamente nos diversos trabalhos para a paz que se espalham pelo mundo. Ele estará em Goiânia no início de março. Assistam.

domingo, janeiro 15, 2006

Recado

Sou deficiente auditiva. Só um dos ouvidos funciona, por uma anomalia congênita. A natureza encarregou-se de me transmitir mensagens importantes: ouça o mundo, em parte. Busque outros tipos de escuta. Faça um esforço, além do habitual, para ouvir e interpretar. Nem todo som é sensorial e ruidoso. Alguns só são perceptíveis no silêncio.

sábado, janeiro 14, 2006

Saori San

Depois de um ano de encontros e desencontros, MC Saori San e eu fomos almoçar num shopping. Conseguimos conversar. Assunto: a complexidade humana, relacionamentos. Cada um com a sua história, a sua dor, a sua forma de ver o mundo e de se relacionar com as pessoas. Compreender isso é importante para ver o outro, acolher suas contradições e retirar dos encontros o que há de melhor. Alguém já disse que se um indivíduo tem uma virtude, apenas, é com essa que devemos nos relacionar. Sem julgamentos. Não há santos ou demônios, concluímos. Também temos nossas idiossincrasias. Converso com ela de coração, colocando-me, também, eu e minha história. Ela, então, apresentou-me uma lista de pessoas: pediu-me um laudo de alguns de seus amigos. E, de brincadeira, como um exercício, fui detalhando minha percepção sobre cada um deles. Ela dizia, às vezes, surpresa: como você sabe isso? Li no seu corpo, respondia. Ela, então, concordava, discordava, argumentava que eu estava sendo tendenciosa em alguns casos, o que provavelmente era verdade (eu admitia, com sinceridade). Falamos, também, de relacionamentos amorosos, de decepções e desilusões. Contei-lhe que isso, inevitavelmente, vai acontecer. E que ela vai sofrer, mas vai sobreviver a isso, também. É preciso saber lidar com frustrações quando nos relacionamos, controlar expectativas (ela já tem namorado). O melhor de tudo foi poder conversar com minha filha, estabelecer um canal de comunicação. Ás vezes, esqueço que ela tem só treze anos. Admiro-lhe a personalidade forte. A firmeza de opiniões, a abertura em relação a questões polêmicas como aborto, homossexualidade, eutanásia. Ela tem um humor sutil, uma ironia certeira que consegue me arrancar gargalhadas. É uma delícia conversar com ela. À noite, vimos um filme juntas, de meia e pijama, no sofá. Eu lhe disse, então, que tinha saudades de minha menininha. Ela, então, aproveitou-se do enlevo nostálgico e sugeriu: então, seja uma boa mãe, vá até à cozinha e faça um lanchinho. Sua menininha está com fome.

Fui dormir cedo. Não raro, ela vai à minha cama para ajeitar as cobertas, dar-me um beijo de boa noite, antes de fechar a porta da biblioteca para conversar com os amigos na net e ouvir bandas de metal.

Amo minha filha. E não é só pelo fato em si. É uma conquista contínua. E ela está se tornando uma bela mulher, em muitos sentidos.

sexta-feira, janeiro 13, 2006

Os Sonhos

Mar adentro, mar adentro
E na leveza do fundo
onde se cumprem os sonhos,
juntam-se duas vontades
Para cumprir um desejo.

Um beijo incendeia a vida
com um relâmpago e um trovão
e em uma metamorfose
meu corpo não era meu corpo;
era como penetrar no centro do universo:

O abraço mais pueril,
e o mais puro dos beijos
até sermos reduzidos
em um único desejo:

Seu olhar e meu olhar
Como um eco repetindo, sem palavras:
mais adentro, mais adentro
até o mais além do todo
pelo sangue e pelos ossos.

Mas sempre acordo
e sempre quero estar morto
para seguir com minha boca
enredada em seus cabelos.

(Ramon Sampedro. Cartas do Inferno)

domingo, janeiro 08, 2006

Alma Nua

Numa festa de final de ano, na faculdade, convidaram um aluno para cantar. Ele, então, apresentou-nos uma música, Alma Nua, de Vander Lee, que passei a ouvir, desde então. Vander Lee, como descobri, depois, é um cantor e compositor mineiro. Dele, já conhecia uma bela música gravada pela Gal Costa : Onde Deus Possa Me Ouvir. Fiquei, ainda, mais encantada com o resto da obra. Alma Nua é uma oração ao Pai. Podemos chamar o Pai do que quisermos, a partir de tradições religiosas ou laicas. Bom saber é que o Pai está naquele lugar de sabedoria, aquele de endereço incerto e que possui algum nome, embora não saibamos bem qual seja. Um lugar especial, portanto, onde podemos nos apresentar nus, com nossas perguntas e solicitações mais genuínas.

Na primeira estrofe, já uma solicitação:

Ó Pai
Não deixes que façam de mim
O que da pedra tu fizestes
E que a fria luz da razão
Não cale o azul da aura que me vestes


Peço ao Pai que não permita que eu compreenda o mundo apenas pela fria luz da razão. Sim, a razão não é suficiente como chave de interpretação do mundo. Os artistas e poetas sabem, pois utilizam a intuição. E, o compositor ainda solicita: mesmo que eu tente verbalizar, compreender racionalmente todas as coisas, não permita que elas sejam apresentadas como pedra fria, letra morta: que minhas coisas tenham o azul das coisas celestes, uma aura nem sempre visível, mas presente, do mistério que as envolve, do sentido que apreendo além da razão, embora não saiba nominá-lo.

Dá-me leveza nas mãos
Faze de mim um nobre domador
Laçando acordes e versos
Dispersos no tempo
Pro templo do amor

Aqui, uma outra súplica importante: o autor pede leveza nas mãos. Quer interpretar o mundo, agir nele, mas solicita fazer isso com suavidade. Intenciona lutar, domar feras, mas pede ao Pai que o ajude a realizar sua ação com poesia, com versos. E que mesmo que sua produção seja dispersa, inconstante e com freqüência temporal variável para o tempo humano, ou mesmo incompreensível racionalmente, ela possa caminhar rumo à beleza. Chicotes, facas e armas só devem ser utilizadas com a linguagem da suavidade e com esta intenção: o nobre desejo de auxiliar na caminhada rumo ao amor. O verso posterior confirma a idéia:

Que se eu tiver que ficar nu
Hei de envolver-me em pura poesia
E dela farei minha casa,
minha asa
loucura de cada dia.

Na criação genuína, onde a razão contribuiu tanto quanto a intuição, estou nu, porque não é possível criar sem desvestir-se. Do que já aprendi, dos modelos absolutamente pré-estabelecidos, que podem auxiliar, mas não determinar os rumos e o resultado da obra final. Para abrir-se ao novo, é preciso esvaziar-se, estar desarmado. E esta nossa nudez, se por um lado nos traz insegurança e frio, veste-nos da beleza, da poesia da criação. Estou nu, mas a ousadia criativa me devolve meu lugar de poder e sabedoria. Esta atitude me confere asas e me faz voar, em êxtase e liberdade. E, também, me faz louco, porque não há como vivê-la sem flexibilidade anticonvencional.

Dá-me o silêncio da noite
Pra ouvir o sapo namorando a lua
Dá-me direito ao açoite
Ao ócio, ao cio
À vadiagem pela rua

Vander Lee continua assim. Pedindo ao Pai o silêncio. A quietude, a partir da qual posso ouvir vozes mais sutis e compreender as coisas simples como um sapo namorando a lua. A parte do valor poético da estrofe, o autor, pede, ainda o direito de ser humano. Errar, talvez, quando usa o acoite, ou dá expressão aos seus desejos. Na estrofe seguinte, ele "exige" o direito de se contradizer, de não ter que ser perfeito.

Ó meu Pai,
dá-me o direito
De dizer coisas sem sentido
De não ter que ser perfeito
Pretérito, sujeito, artigo definido


Na música, ele, também, solicita o ócio. O necessário para perceber o que vem da intuição. Desocupar-se para viver a sabedoria. Quem cria, sabe que não é na correria do relógio humano do tempo que nascem os insights originais. Como ensina: é preciso perder a hora para encontrar a rima.

Deixa-me perder a hora
Pra ter tempo de encontrar a rima
Ver o mundo de dentro pra fora
E a beleza que aflora de baixo pra cima

Minha obra assim, terá significados não visíveis, talvez, mas que podem ser sentidos de “dentro pra fora”, pois nela está presente o que não controlo só com o intelecto, mas que me chega do mistério e é captada, num lampejo, pela minha razão que a expressa. E a transforma em verso, em poesia, em música.

Virar os dados do destino
De me contradizer, de não ter meta
Me reinventar, ser meu próprio Deus
Viver menino, morrer poeta

E, quando eu errar, pois sou humano e contraditório, peço ao Pai para recomeçar, me reinventar e ser o meu próprio Deus, o que é criador, assim como eu. Encontrá-lo em meio à contradição, à dor dos meus erros, à minha falta de direção. Assim, posso viver como uma criança que tem sempre olhos novos e se dispõe a aprender, sempre.

Leiam toda a letra e ouçam a bela voz do compositor no site

http://www.vanderlee.com.br/
(não se esqueçam de vê-lo e ouví-lo no vídeo da música Esperando Aviões, por favor).

E, finalmente, comprem o disco. Valerá a pena.

Cura Hermenêutica

"A única dor insuportável, é aquela que não somos capazes de interpretar".
Jean-Yves Leloup

sábado, dezembro 31, 2005

Passagem

Depois da suprema agonia

Ele a segurou pela mão

e a elevou.


Mostrou-lhe os campos verdes, além.


Era preciso aceitar a dor e a morte

para conhecê-los.

domingo, dezembro 18, 2005

Entrega

Ando por espaços escuros,
entre paredes altas e pedras antigas.

Vejo janelas altas.
Portas centenárias
olham-me de cima, trancadas.

Há um odor indefinido.
Flores envelhecidas,
incensos apagados, cera queimada.

Procuro a passagem obscura,
mas não a encontro.

Todos já foram embora.
Estamos só eu, meus passos abafados e
gestos contidos que movem o espaço.

Piso devagar para aumentar o silêncio
e captar vozes distantes, sons inaudíveis.

O peito respira com força.
Sustenta o peso das costas, arrepios na nuca.

Sem dores ou perguntas.

Sou só sensações.

quinta-feira, dezembro 15, 2005

Sem Efeito

Os últimos dias foram bastante complicados. Neles, pude comprovar minha impotência.

2005 foi um dos anos mais difíceis, trabalhosos e improdutivos que já vivi. Todas as sementes plantadas (com muita dificuldade) caíram em solo infértil. Coincidentemente, hoje fui chamada na Editora da Universidade. Eu receberia uma homenagem, pois a revista que coordenei foi uma das mais vendidas no ano. De presente, um título de mérito editorial e um livro intitulado: Filha do Sol. Foi por esse motivo que me lembrei de partes de um poema:

Na escuridão da lua,
no rigor do inverno,
da guerra que se espalha,
do mundo em perigo,
eu caminho pela encosta rochosa,
semeando trevos...
(Wendel Berry)
______________
Ok.

sábado, dezembro 10, 2005

Acolhimento

Dou forma
às paredes
do peito
em massas de
inquietude
temor
dor.

Alimento
a criança
com leite
sedento.

Abraço o
corpo quente
em tetos
gotejantes
na chuva
fina
fria
incessante.

quinta-feira, dezembro 08, 2005

Reverberação

Quebro a janela.
Voam estilhaços
no vento que dança.

Arrombo portas.
Ganho hematomas
em braços feridos
e livres.

Descubro o telhado.
A luz do sol
inunda aposentos
e me deixa cega.

segunda-feira, dezembro 05, 2005

Mansidão Hermenêutica II

O homem esbraveja agressivo.
Percebo sua postura corporal
e apreendo sentidos ocultos.
Concentro-me na certeza
de que somos animados
pela mesma fonte.
Falo mais alto que ele
e expulso-o da sala.
Ele se acalma e vai
embora, em paz.

(ser manso não é ser passivo,
mas obediente)

sábado, dezembro 03, 2005

Mansidão Hermenêutica

O homem esbraveja, agressivo.
Percebo sua postura corporal.
Apreendo sentidos além
da rigidez aparente.
Deixo que fale.
Cruzo os dedos das mãos
sobre a mesa e permaneço
em silêncio
enquanto leio significados.
Ele me faz muitas perguntas
e dá, ele mesmo, as respostas.
Visualizo seu coração e
concentro-me na certeza de
que somos animados
pela mesma fonte.
Ele se transforma
num pequeno ponto negro
sobre uma folha branca.

sexta-feira, dezembro 02, 2005

Nino, o predador

Nino está feliz. Recuperou o peso e está gordinho de apertar. Cresceu o pelo. Corre e brinca por toda a casa (nas poucas horas diárias em que se mantém acordado). Esfrega-se tanto no Trilogia de Nova York do Auster que penso que deseja comê-lo. Faz o mesmo com as violetas. Chamo-o pelo nome para oferecer-lhe algum carinho e ele nem move a cabeça. Só se aproxima depois de um tempo de pausa e, quando finalmente atende ao chamado, disfarça ao cheirar uma pequena formiga, ou algo insignificante pelo caminho. Deixa claro, dessa forma, que não atende ordens. Quando é o contrário, faz tudo para ser notado. Sobe no teclado, ajeita-se entre mim e o monitor, mia em vários tons. Nesta semana, torturou uma lagartixa. Ele a perseguiu como se fosse um brinquedo, até que ela expirasse. Nosso bichinho de pelúcia, não passa de um felino predador, pensei. Fiquei desapontada e dei-lhe conselhos. Contei-lhe a história do filhote Zumbi, da Carmem, que foi adotado pela gata Nina que o amamenta com farta produção de leite, mesmo sendo castrada. Ele ignorou e me lançou aquele olhar doce, amoroso. Perdoei tudo.
____________
(Este post é dedicado à Maria do Carmo de Castro Teixeira. Ela tem uma alma nobre, tecida de sensibilidade, de beleza e do amor pela vida das plantas e dos animais).

Incoerência

Estou apenas esperando o amor para poder afinal me abandonar inteiramente em suas mãos. Por isso já é tão tarde e por isso fui culpado de tantas faltas.
Elas vêm com as suas leis e os seus códigos para obrigar-me a uma decisão rápida; mas consigo sempre afugentá-las, porque estou esperando o amor para me abandonar por fim em suas mãos.
As pessoas me censuram e me chamam negligente; não duvido que tenham razão para me censurar.
O dia da feira terminou e cessou o trabalho no mercado. Esses que vieram e em vão me chamaram, voltaram desapontados. Estou apenas esperando o amor para finalmente me abandonar de todo em suas mãos.
________
P.S. O título é meu e o texto é do TAGORE, Rabindranath. Gitanjali. Oferenda Lírica. Livro pelo qual recebeu o Prêmio Nobel em 1913.

quinta-feira, dezembro 01, 2005

Espasmo

Digo menos
do que sei
na palavra solta
sempre contida
inexata.
Ela vem
de algum lugar
entre o estômago
e o coração.
Escrevo dor
como quem
escreve amor
em movimentos
involuntários
e rítmicos.

quarta-feira, novembro 30, 2005

Espelho

Olhos.
Só eles existem
no cristal especular.

Uma rosa no peito.
A dor incessante que
jorra da fonte rubra.

Um vazio incômodo.
O que preenche espaços
entre o estômago
e o coração.

Uma alma nova.
É a que sai pela boca
numa golfada
de vômito.

segunda-feira, novembro 28, 2005

Casa

Do quarto à sala
os mesmos gestos.

Portas trancadas.
Janelas de vidro.

Paredes
quadros
livros
retratos
olham inertes.

Passos
armários
a caneta
roçando o papel.

A mandala rúnica
evoca sons
sobre a mesa.

Tudo é ruído e silêncio.

sábado, novembro 26, 2005

Engano

Tomou-a nos braços
e a levou para longe do vale da morte.
Mostrou-lhe campos verdes.
Sua expressão era doce
e sua boca estava cheia de palavras.

Vê, isto tudo pode ser nosso.

Foi, então, que ela percebeu.
Aquele não era o caminho do encontro.
Agradeceu-lhe o gesto
e voltou solitária aos campos de luta.

terça-feira, novembro 22, 2005

Luxor

Ouço o vento dentro e fora.

A respiração espectral
dos olhos atrás dos portais.

Com olhos semicerrados
pela luz cega caminho.

Em círculos inúteis
por entre as altas colunas.

Tudo está reduzido a pó.
Poeira, pedra, ruína.

segunda-feira, novembro 21, 2005

Expectante

Depois do medo da noite
o dia tem uma estranha calma.
No vazio desta antiga espera
tudo agora é silêncio.

sábado, novembro 19, 2005

Estratégia

Na ataraxia
acima do pensar e do sentir,
cumpro o caminho sobre os
ponteiros dos dias.

Sonho com a luz do sol
à meia noite.

Sento-me à sombra
sob o sol do meio dia.

Então, simplesmente, caminho.

quinta-feira, novembro 17, 2005

Pendências

Em meio à correria dos meus dias insanos, no trânsito, em casa antes de cair exausta na cama, tento fixar-me em algo desimportante e inofensivo. Descubro que não são muitas as opções. Um pensamento me leva a outro, que evoca tal emoção e assim vai. De galho em galho, vou tentando desviar-me do que vejo, do que penso, do que sinto. Para resistir, sobreviver, guardo tudo no baú das pendências. Amanhã vejo isso, amanhã telefono, amanhã respondo a este mail, amanhã resolvo isto, amanhã...sempre um dia que não é hoje e que não chega nunca. Vida pendente não é vida. Mas este é mais um pensamento inútil. Abro um livro qualquer da pilha que está na cabeceira da cama e leio:

Meu coração dói-me como um corpo estranho. Meu cérebro dorme tudo quanto sinto. Sim, é o princípio do outono, e o conhecimento claro, na hora límpida, da insuficiência anônima de tudo. O outono, sim, o outono, o que há ou o que vai haver, e o cansaço antecipado de todos os gestos, a desilusão antecipada de todos os sonhos. Que posso eu esperar e de quê? Já, no que penso de mim, vou entre as folhas e os pós do átrio, na órbita sem sentido de coisa nenhuma, fazendo som de vida nas lages limpas que um sol angular doura de fim não sei onde. Tudo quanto pensei, tudo quanto sonhei, tudo quanto fiz ou não fiz, tudo isso irá no outono...

(Pessoa, F.O Livro do Desassossego)

domingo, novembro 13, 2005

O Mestre e o Cavalo

(Viagens ao Oriente, igrejas, imagens, grupos de meditação, etc, etc...quantas voltas temos que dar até chegar aqui mesmo?)
...

Um discípulo, que amava e admirava seu mestre, resolveu observá-lo em todos os detalhes, acreditando que, ao fazer o que ele fazia, também adquiriria sua sabedoria. O mestre só usava roupas brancas, o discípulo passou a vestir-se da mesma maneira. O mestre era vegetariano, o discípulo deixou de comer qualquer tipo de carne, substituindo sua alimentação por ervas. O mestre era um homem austero, o discípulo resolveu dedicar-se ao sacrifício, passando a dormir numa cama de palha. Passado algum tempo, o mestre notou a mudança de comportamento de seu discípulo e foi ver o que estava acontecendo. "Estou subindo os degraus da iniciação, foi a resposta. "O branco de minha roupa mostra a simplicidade da busca, a alimentação vegetariana purifica meu corpo e a falta de conforto faz com que eu apenas pense nas coisas espirituais". Sorrindo o mestre o levou para um campo, onde um cavalo pastava.“Você passou este tempo olhando apenas para fora, quando isso é o que menos importa”, disse.“Está vendo aquele animal ali? Ele tem a pele branca, come apenas ervas e dorme num celeiro com palha no chão. Você acha que ele tem cara de santo ou chegará algum dia a ser um verdadeiro mestre"?

Sofrimento Perspectivo

Passei toda a semana lendo sobre o martírio de Jesus nos evangelhos. Não foi bem uma escolha. Foi necessário por causa da oração que um grupo de senhoras deixou aqui em casa na segunda feira para ser lido por alguns dias: o terço da misericórdia. Ele é baseado nas visões diárias que Irmã Faustina teve de todo o processo que culminou na crucificação de Jesus e que resultou naquela famosa imagem em que é apresentado com os braços abertos e com os dois raios (um vermelho e outro branco azulado) que jorram do seu coração. Eles representam o sangue e a água de suas chagas, fonte de misericórdia para o mundo. Foi chocante ler isso tudo nos detalhes, Deus do céu. Triste pensar na solidão de Jesus na hora suprema (todos o abandonaram), no escárnio, nas injúrias, na humilhação, nos seus sofrimentos físicos e espirituais. Imaginei as sensações físicas de estar pendurado pelas mãos perfuradas e morrer lentamente, sufocado, depois de muitas horas de agonia (ele foi crucificado às nove da manhã e só morreu às três da tarde). A princípio eu chorava ao ler isso, depois passei a sentir vergonha, indignação, culpa. Foi interessante ver a diferença dos evangelhos, mesmo entre os que parecem contar a mesma história e, além disso, observar a visão espiritual de João, o amado. A partir das leituras e das orações, fiquei me perguntando sobre os males do mundo. Não deveríamos meditar apenas sobre a ressurreição? Depois de uma semana pensando nisso, ontem assisti uma parte da palestra do psicólogo, teólogo e filósofo ortodoxo Jean-Yves Leloup, na TV, assim, por acaso. Vou tentar anotar aqui o que ele disse para não esquecer. Ele falava sobre o mal, sobre os absurdos. Os que existem em nós e os que estão no mundo. Afirmou que tudo tem um propósito e que chega o tempo de encará-los. Encarar a nossa sombra, a de tudo que nos parece inaceitável, em nós. Ficar frente a frente com os absurdos do mundo. Nos dois casos, há o tempo de acolhê-los com a serenidade do Cristo, sem culpas. Não há como transmutar o mal sem reconhecê-lo, ficar frente a ele. Aceitar o absurdo é uma etapa de desenvolvimento psíquico e espiritual, a da compaixão. Só a compaixão amorosa pode nos fazer ver além do mal. Só assim saberemos que tudo tem uma razão, mesmo que ela não nos pareça óbvia. Isso significa aceitar o sofrimento com uma visão perspectiva. Ele relembrou uma música de Vivaldi*: a que ele traduz o sofrimento perspectivo de Maria, a mãe de Jesus a partir de um poema medieval. Ela sofria em pé. Lembrou, também, a visão do cordeiro do Apocalipse, o que foi decepado, mas permaneceu sobre as quatro patas. Bem, por um breve instante, tudo me pareceu menos sórdido e mais coerente. Hoje vou me concentrar nas descrições de Lucas, às três horas da tarde, hora em que, segundo Irmã Faustina, devemos pedir pela misericórdia e pela compaixão em nós e por todos nós.
...
*Vivaldi, Stabat Mater.

quarta-feira, novembro 09, 2005

Caminhos

Podia-me dizer por favor, qual é o caminho para sair daqui? - Perguntou Alice.
- Isso depende muito do lugar para onde você quer ir. - disse o Gato.
- Não me importa muito onde... - disse Alice.
- Nesse caso não importa por onde você vá. - Disse o Gato.
- ...contanto que eu chegue a algum lugar. - acrescentou Alice como explicação.
- É claro que isso acontecerá. - Disse o Gato - desde que você ande durante algum tempo.( Lewis Carroll)


Paul Auster descreve, em Cidade de Vidro, as sensações de um homem ao andar pela cidade. Perambular pelo labirinto de caminhos que fazia sentir-se perdido. Não apenas na cidade, mas também dentro de si mesmo. Andar pela cidade era abandonar-se ao movimento das ruas. Reduzir seu olhar à observação e, neste ato, fugir da obrigação de pensar. Andar pela cidade produzia nele um saudável vazio interior, uma certa paz. Pois, afinal, o mundo estava fora dele e se apresentava de forma rápida pelas ruas, o que não permitia fixar-se em nada. Ele não era o mundo. Ao caminhar sem rumo, todos os lugares se tornavam iguais e, assim, já não importava mais onde estava. Pois ele não estava em parte alguma. E isto, afinal, era o que pedia às coisas: não estar em lugar nenhum.

sábado, novembro 05, 2005

Raul Gil

Raul Gil é a via da iluminação. Era minha certeza recorrente dos sábados. Dos finais de semana, quando meu corpo doía mais do que o costume, quando minha mente trabalhava, mesmo sem permissão. Sábado era dia de parar (e se paro, vejo; e se vejo, sinto; e se sinto, sofro). Então, concentrava-me no Mestre Raul, nas suas piadas sem-graça, no seu humor pastelão que lembrava os programas domingueiros do Chacrinha com gosto de infância no bairro. Emocionei-me com os anjos que cantavam, que traziam histórias sofridas e o sonho da arte. Lá havia uma menina que só interpretava sucessos da MPB. E o fazia com tanta maestria e seriedade que dava gosto de ver. Havia outra que, de maneira bastante original, mesclava a música clássica com arranjos de rock. Havia, também, uma dupla que cantava músicas de raiz, cujo vocalista, de quinze anos, tinha a voz mais bonita e grave do que a do Tião Carreiro e Zé Ramalho juntos. E havia um menino, Mateus, que me fez chorar ao ouví-lo cantar Planeta Água. Parecia uma oração. Ele tinha uma voz doce, emocionada, e os olhos mais tristes que já tive a oportunidade de ver numa criança.

Por momentos, cheguei a bendizer a Record e a Igreja Universal do Reino de Deus.
O Programa não acontece mais a partir de hoje. Pena.

sexta-feira, novembro 04, 2005

João de Barro

Alice Capel

Sentada no banco junto à fonte,
solitária e introspectiva,
observo os pássaros que gorjeiam alegres .

O João-de-barro pousa no teto de sua casinha.
Minutos depois vejo-o entrando e saindo,
levantando as asas
num gesto de louvor e contentamento.

Tive vontade de entrar naquela morada,
tão pequenina e aconchegante.
Ah..se pudesse... estaria ali, quietinha, em silêncio,
Assim ,talvez , ficaria incólume do frio que reside
em minha alma.

É impossível manter este anseio infantil...quimérico.

Volto-me para outras paragens
Revejo os pássaros alegres...ágeis...barulhentos.
Eles vão e vem.....voam e repousam num festim
sem igual.

Em pares, voam muito alto e alguns retornam.

Há aquele que se distanciou do bando, sem par,
solitário e triste, tenta alcançar os companheiros
que se foram...para sempre.

quarta-feira, novembro 02, 2005

Morrer, transformar-se.

Quando já, aos trinta e poucos anos, decidi que queria viver de maneira mais intensa, comecei a buscar meios de fazer isso. Não foi bem uma atitude consciente. Uma inquietação interna obrigava-me a isso. Algo deveria ser feito. E, de alguma maneira, eu já sabia de tudo. Resolvi que enfrentaria todos os desafios de auto conhecimento. Sem os tais medos do espelho. De fato, não gostei de tudo que vi. Mas os reflexos, às vezes ilusórios, às vezes fiéis, abriram portas. Dos espelhos que eram meios de reflexão, dos que eram prisões de auto-imagem e precisavam ser destruídos. No auge da experiência, eu temia enlouquecer. Tudo parecia fora de controle. Não sem motivos internos, externamente eu me perdia. Quantas vezes, ao dirigir, perdi a noção de onde estava. Perdi, também, alguns documentos. E um sonho recorrente, um em que aparecia em uma praia deserta diante de uma enorme onda, evoluiu. Desta vez, eu me atirava ao mar. Freqüentei rodas de terapia e conheci muitas pessoas. Houve os anos de compartilhar as experiências. Houve o instante de abandoná-las. Chegou o tempo de estar só. Medo. Este foi o primeiro portal a ser transposto. Mas viriam outros muito mais difíceis e desafiadores. Ainda nesta atitude, revejo minha disposição interna para a transformação. Para a morte. E percebo que muitas capas foram retiradas. Por um lado, há a imensa dor das perdas. Por outro, uma sensação indescritível de liberdade interna. Para celebrar o processo e a aceitação da agonia vou cortar o cabelo e descobrir a nuca.


“Não dormes sob os ciprestes,
Pois não há sono no mundo.
..............................................
O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem o teu ser profundo.

Vem a noite, que é a morte,
E a sombra acabou sem ser.
Vais na noite só recorte,
Iguais a ti sem querer.

Mas na estalagem do Assombro
Tiram-te os anjos a capa:
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.

Então, Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu,
Não tens vestes, não tens nada:
Tens só teu corpo, que és tu.

Por fim, na funda caverna,
Os deuses despem-te mais.
Teu corpo cessa, alma externa,
Mas vês que são seus iguais.
. .............................................

A sombra das tuas vestes
Ficou entre nós na Sorte.
Não estás morto entre os ciprestes.
..............................................
Neófito, não há morte”.
(Iniciação. Fernando Pessoa)

segunda-feira, outubro 17, 2005

Releitura

Então, Almitra disse: Fala-nos do amor.
E ele ergueu a fronte e olhou para a multidão,
e um silêncio caiu sobre todos, e com uma voz forte, disse:

Quando o amor vos chamar, segui-o,
Embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados;
E quando ele vos envolver com suas asas, cedei-lhe,
Embora a espada oculta na sua plumagem possa ferir-vos;
E quando ele vos falar, acreditai nele,
Embora sua voz possa despedaçar vossos sonhos
Como o vento devasta o jardim.
Pois, da mesma forma que o amor vos coroa,
Assim ele vos crucifica.
E da mesma forma que contribui para vosso crescimento,
Trabalha para vossa poda.
E da mesma forma que alcança vossa altura
E acaricia vossos ramos mais tenros que se embalam ao sol,
Assim também desce até vossas raízes
E as sacode no seu apego à terra.
Como feixes de trigo, ele vos aperta junto ao seu coração.
Ele vos debulha para expor vossa nudez.
Ele vos peneira para libertar-vos das palhas.
Ele vos mói até a extrema brancura.
Ele vos amassa até que vos torneis maleáveis.
Então, ele vos leva ao fogo sagrado e vos transforma
No pão místico do banquete divino.
Todas essas coisas, o amor operará em vós
Para que conheçais os segredos de vossos corações
E, com esse conhecimento,
Vos convertais no pão místico do banquete divino.
Todavia, se no vosso temor,
Procurardes somente a paz do amor e o gozo do amor,
Então seria melhor para vós que cobrísseis vossa nudez
E abandonásseis a eira do amor,
Para entrar num mundo sem estações,
Onde rireis, mas não todos os vossos risos,
E chorareis, mas não todas as vossas lágrimas.
O amor nada dá senão de si próprio
E nada recebe senão de si próprio.
O amor não possui, nem se deixa possuir.
Porque o amor basta-se a si mesmo.
Quando um de vós ama, que não diga:Deus está no meu coração,
Mas que diga antes: Eu estou no coração de Deus.
E não imagineis que possais dirigir o curso do amor,
Pois o amor, se vos achar dignos,
Determinará ele próprio o vosso curso.
O amor não tem outro desejo
Senão o de atingir a sua plenitude.
Se, contudo, amardes e precisardes ter desejos,
Sejam estes os vossos desejos:
De vos diluirdes no amor e serdes como um riacho
Que canta sua melodia para a noite;
De conhecerdes a dor de sentir ternura demasiada;
De ficardes feridos por vossa própria compreensão do amor
E de sangrardes de boa vontade e com alegria;
De acordardes na aurora com o coração alado
E agradecerdes por um novo dia de amor;
De descansardes ao meio-dia
E meditardes sobre o êxtase do amor;
De voltardes para casa à noite com gratidão;
E de adormecerdes com uma prece no coração para o bem-amado,
E nos lábios uma canção de bem-aventurança.
(Gibran)

domingo, outubro 09, 2005

Uma vida, nos detalhes.

Ao estudar métodos experimentais em história, conheci a importância dos detalhes. A reflexão veio do Dr. Morelli, um médico que desenvolveu formas de indicar a autoria de obras de arte e identificar falsificações. Descobriu que imitadores traíam-se nos pormenores: na forma como representavam as orelhas, as unhas, os dedos das mãos. Em síntese, no que era aparentemente desimportante no todo da obra. Isso, de fato, é significativo. Um aprendizado para a vida. Pessoas se traem nos detalhes. Quem nunca viveu a experiência de relacionar-se com alguém educado, mas que trata mal um garçon num restaurante? Fotografe. Guarde no seu caderninho preto os indícios de uma personalidade dissimulada. De outro lado, preste atenção em outras particularidades. Nas suas. Nos sorrisos, nos cumprimentos, nas palavras ditas de forma apressada. Já participei de bancas decisórias em que membros foram excluídos porque não responderam a uma pergunta, vestiam-se de modo inadequado ou não cumprimentaram alguém no corredor. E não houve meios de evitar isso. Uma vida profissional, uma relação, muita coisa pode estar em jogo nos atos mínimos. Como li na epígrafe de A.Warburg, escrita por um historiador italiano: Deus está no particular.

segunda-feira, outubro 03, 2005

Luis N

Um homem maduro, inteligente. Um escriba talentoso. Escreve microcontos. Seu texto, mínimo, está de acordo com sua filosofia de vida: despida de acessórios. Um homem que disfarça o refinamento interior com a ética da essencialidade. Um homem simples, de alma complexa. Nem é preciso dizer que esta é uma declaração pública de afeto. Na semana em que faz anos. Que das areias do tempo escoado das mãos possam cair sementes férteis para alimentar todos os seus sonhos. Os de hoje. Os de sempre.

domingo, outubro 02, 2005

Ensinar, aprender...

Às voltas com um programa sobre ensino, leio isto:

Tinha dez anos apenas, gostava de folgar, não gostava de aprender. Aprender é muito aborrecido!...Minha mãe fazia-me estudar, e, tanto como o estudo aborrecia-me a atitude. Obrigado a estar sentado, com o livro nas mãos, a um canto ou à mesa, dava ao diabo o livro, a mesa e a cadeira. Usava de um recurso que recomendo aos preguiçosos: deixava os olhos na página e abria a porta à imaginação. Corria a apanhar as flechas dos foguetes, a ouvir os realejos, a bailar com as meninas, a cantar, a rir, a espancar de mentira ou de brincadeira, como for mais claro!...

(Umas Férias, Machado de Assis, 1869)

quinta-feira, setembro 29, 2005

Ínfimo

(p/ Manoel de Barros)

Cansaço na alma.
Alguém diz que o escolhi.
Esboço um sorriso.
Algo entre a ironia
e a aceitação.

Elogiam minha fluência.
Quando é mais importante
o que calo.

Banho-me no sol
branco do meu peito.
Percebo o mundo
com a visão
e a audição
diminuídas.

Sem alimentos
na memória
do que foi
ou será
observo os caminhos
forrados pelas acácias
da primavera.

Acaricio o gato Nino,
converso com
orquídeas e violetas.

Vivo a vida das formigas.

domingo, setembro 18, 2005

Godot: até quando?

Em torno de uma árvore sem folhas, em algum lugar da estrada, dois homens esperam. Por Godot. Enquanto isso, elaboram estratégias de sobrevivência. Para passar o tempo. Para suportarem o tédio, a angústia da existência. São patéticos. Vivem por essa esperança que os aprisiona e os imobiliza. Desejam o desfecho que não ocorre nunca. Godot é a promessa da vida que não chega. E, neste absurdo, imaginam a morte. Mas Godot virá, e, assim, mais um dia se passa. Indefinidamente. Num tempo circular, eterno. Com o passar das horas eles perguntam: o que fazer? Até quando inventaremos estratégias para existir? Mas Godot, argumentam, Godot, que não se sabe ao certo quem é e nem quando se fará presente, virá. Godot os dará uma cama quente, acolhedora. Nesta interminável espera, os dois homens tentam se comunicar. Entretanto, nem as estratégias da fala, da razão, dos gestos emocionais ou mesmo dos silêncios, inevitáveis, parecem resolver o lento passar das horas infindas. Até que confundam as referências temporais e se mantenham na incerteza, entre o sonho e a realidade. Mas, Godot, Godot há de resolver todas as questões. Pois Godot estará com eles. Virá como a noite certa. Em algum momento, em algum tempo.

_______________
Esperando Godot, montado pelo Grupo Máskara, do Núcleo de Pesquisas da UFG. Em cartaz no Martim Cererê, até o dia 29/09. Como uma metáfora da condição humana, a peça é um marco da dramaturgia ocidental, no ano em que se comemora a obra de Samuel Beckett e o teatro do absurdo. Trágico. Cômico. Irreverente. Inquietante. Lindo. Imperdível.

quinta-feira, setembro 15, 2005

Menopausa Precoce

Anteontem me permiti estar com um amigo. Não nos víamos há tempos. Fiquei triste. Ao ouví-lo contar sobre as coisas que o animam percebi que não sou mais a mesma. Onde estariam meus velhos desejos? Saí do encontro com uma incômoda sensação de nada. Se há uma morte interna, não identifico o que sobrevive e se recompõe.

sábado, setembro 10, 2005

Megasena

Uma raquete, algumas almofadas, uma caixa de lenços, um beco solitário, florais, o psicanalista transpessoal, duas sessões de respiração holotrópica, teatro, cinema, shiatsu toda semana, tai-chi sempre, alguns velhos amigos e um passaporte para entrar num grupo de gente pirada que vê naves espaciais no céu de Paraúna.

Momento Mágico

Caminhava apressada em meio aos blocos monumentais da universidade. Havia recebido más notícias por telefone. Seu corpo tremia. No pátio do corredor central de um dos prédios, estendidos no chão, alguns objetos à venda. Olhou-os rapidamente e, surpresa, viu livros que estivera procurando por muito tempo. Com capas de couro surrado, fechados por fivelas ornadas em cobre, eles continham símbolos cabalísticos e alguns desenhos. Folheou as páginas envelhecidas com pequenos textos manuscritos encabeçados por iluminuras. De dentro deles, a memória de outros tempos. Deixou-se levar por segundos. Saído de algum lugar, um homem apareceu. Trocaram poucas palavras. O suficiente para que soubesse que era um mago. Em seus olhos profundos podia ler, em silêncio: vê, há mais coisas por trás do que é aparente.

terça-feira, setembro 06, 2005

Post Terapêutico

Já me fiz inúmeras perguntas a respeito da manutenção deste blog (na verdade, não tantas assim, pois economizo racionalizações excessivas, sempre inúteis). De todas, uma certeza. Este espaço serve para que eu escreva em momentos como este: de extrema tensão. Desviar a mente por alguns minutos. Fazê-la submeter-se à construção do texto num supremo esforço. Mesmo que seja em torno de uma idéia acessória nada a ver. Disciplinar a mente é uma tarefa tranqüilizadora. Se a deixamos correr solta, ela cria espectros animados que somatizam tremores, dores, indisposições inscritas na alma e no corpo. Continuo a escrever até controlar a ansiedade. Na maior parte das vezes dá certo. Já me fiz inúmeras perguntas a respeito da manutenção deste blog (na verdade, não tantas assim, pois economizo racionalizações excessivas, sempre inúteis). De todas, uma certeza. Este espaço serve para que eu escreva em momentos como este: de extrema tensão. Desviar a mente por alguns minutos. Fazê-la submeter-se à construção do texto num supremo esforço. Mesmo que seja em torno de uma idéia acessória nada a ver. Disciplinar a mente é uma tarefa tranqüilizadora. Se a deixamos correr solta, ela cria espectros animados que somatizam tremores, dores, indisposições inscritas na alma e no corpo. Continuo a escrever até controlar a ansiedade. Na maior parte das vezes dá certo. Já me fiz inúmeras perguntas a respeito da manutenção deste blog (na verdade, não tantas assim, pois economizo racionalizações excessivas, sempre inúteis). De todas, uma certeza. Este espaço serve para que eu escreva em momentos como este: de extrema tensão. Desviar a mente por alguns minutos. Fazê-la submeter-se à construção do texto num supremo esforço. Mesmo que seja em torno de uma idéia acessória nada a ver. Disciplinar a mente é uma tarefa tranqüilizadora. Se a deixamos correr solta, ela cria espectros animados que somatizam tremores, dores, indisposições inscritas na alma e no corpo. Continuo a escrever até controlar a ansiedade. Na maior parte das vezes dá certo.

domingo, agosto 28, 2005

O Anjo Nosso de Todo Dia

Os Anjos tornaram-se tão discretos!
O meu já nem me faz perguntas.

...Não te movas se, de repente,
o Anjo se senta à tua mesa;
Alisa, com vagar, os breves vincos
que a toalha faz, debaixo do teu pão.
Convida-o para a modesta refeição,
Que também ele lhe saboreie o gosto,
E possa levar aos lábios impolutos
Um pobre copo de uso cotidiano.

(Rilke)

sexta-feira, agosto 26, 2005

O Livro

Foi depois de alguns meses que minha filha havia nascido que o encontrei. De uma forma inesperada. Vi o livro na estante de minha mãe. As páginas já um pouco gastas pelo tempo não apagavam a imagem estampada na capa: um belo rosto masculino envolto em chamas. Abandonei-o na cabeceira da cama. Por dias. Meses. Não me lembro. Um dia, deitei-me bastante cansada. Minha filha já estava com alguns meses e eu ainda lidava com a maternidade de uma maneira extrema, dolorida, por razões que não consigo explicar. Além de tudo, sentia-me mal por olhar no espelho e constatar que me encontrava bastante acima do peso. Uma bobagem que adquiria dimensões inimaginadas pelo fato de ter sido gorda na infância e parte da adolescência. Neste dia, abri o livro aleatoriamente e fiquei surpresa com o texto. O homem envolto em chamas ensinava-me como emagrecer. Achei a coincidência interessante e o ensinamento bastante implausível. Guardei-o novamente. O fato se repetiu em outra ocasião. E outra. E mais outra. Com assuntos variados. Dos mais simples e corriqueiros, aos mais complexos e difíceis. Os textos não eram textos. Eram respostas. Fiquei curiosa a respeito do autor. Investiguei sua biografia, cruzei dados, e, por fontes variadas, outras informações foram chegando a mim, num tempo pré-google. Leio este livro até hoje. Depois de muitos anos, suas mensagens são sempre novas. Tempos houve em que ele foi a coisa mais real e cheia de sentido que eu possuía, a companhia mais importante nos momentos difíceis e solitários. Já o fechei com vergonha depois de alguns puxões de orelha, já o guardei com o coração cheio de gratidão amorosa. Tenho duas versões do mesmo livro. A que não carrego comigo, deixo, também, na estante. Que ele queira ser encontrado por minha filha, em algum tempo.

quarta-feira, agosto 10, 2005

Eu não sou eu...

Eu sou este ser que caminha ao meu lado
E que não vejo,
Que às vezes chego a visitar
E outras vezes esqueço;
Que mantém a calma e o silêncio
Quando falo,
E amavelmente me perdoa
Quando sinto ódio;
Que anda por lugares
Que não conheço,
E que ficará de pé
Quando eu morrer.

(Juan Ramon Jiménez)

Contraste

Ontem à noite,
(depois de mais um dia difícil)
no auditório do Tribunal do Júri da Universidade
(eu, que ando sentada no banco dos réus há tempos)
vestida com uma beca de homenageada,
(eu, que ando despida de tudo)
recebi flores como uma celebração aos fins e recomeços,
(eu, a que coleciona carros de funerárias que vê todos os dias)
e uma placa de metal, com o seguinte texto gravado:

À Profa. Heloísa:

"Se não morre aquele que planta uma árvore e nem morre aquele que escreve um livro, com mais razões não deve morrer um educador. Pois, ele semeia nas almas e escreve nos espíritos." B. Brecht

Pós Graduação Latu Sensu História Cultural – Turma 2004/02
Homenagem dos Formandos
Goiânia, 09 de agosto de 2005.

domingo, agosto 07, 2005

Reverberação

Lya Luft

O destino trama os dias
e desfaz o sonho: demarca
meus contornos, partes
disso que sou e serei.

Quem sabe desejei demais:
milagres não me bastaram,
mas quando eu quis ser rainha
fui simplesmente humana.

A voz da vida insiste,
chama para o que salva
ou desatina:
nem sempre a entendi.

Palavras buscam sentido
para o que fiz, falhei,
conquistei e perdi
- ou que me abandonou
nalguma esquina.

(Talvez eu precisasse é dos silêncios.)

O amor nasce da calma

Amar um ser é ter o espírito apaziguado, a fim de permitir-lhe ser o que é no momento em que está.
(dos padres do deserto, segundo Jean-Yves Leloup)

terça-feira, julho 26, 2005

Maria Clara e a Samaritana

Perguntei à Maria Clara, minha filha de treze anos, se não iria estudar para a prova do dia seguinte. Ela disse que não. Não era necessário. Era de religião. Mas, e o conteúdo? Estava todo em dia? Questionei. Ela ironizou dizendo que as provas de religião costumavam apresentar a seguinte pergunta:
Joãozinho espancou seu irmão Zezinho. Você acha que ele agiu corretamente? Justifique sua resposta. Não consegui deixar de rir, até que ela, empolgada com minha reação, considerasse convicta: Religião consegue ser mais inútil do que artes. Pois bem, ferrou-se. Tirou uma nota baixa na prova, o que a deixou bastante chateada. Perto do seu 9.0(nove) em matemática está lá, um 6.5(seis e meio) em religião, destoando das notas restantes. A professora resolveu deixar de lado as análises do mau comportamento de Joãozinho e pediu uma reflexão sobre a História da Samaritana. Ela não tinha lido a história inútil e, portanto, suas interpretações também não foram de muita utilidade. Vai, portanto, para ela, parte da análise realizada pelo teólogo ortodoxo, PHD em Psicologia, o ex-dominicano Jean-Yves Leloup, que vou tentar traduzir em simples palavras. Leloup traduziu a história do Evangelho de São João, diretamente do grego. Nela, o nome de Jesus é mantido como Ieshua.

Todos conhecem a história (façamos de conta que sim):

Em viagem com os discípulos, Ieshua chega à uma cidade da Samaria, Sicar. Ieshua era judeu e os judeus não se davam com o povo da Samaria. Mas Ieshua estava lá de passagem e, enquanto seus discípulos foram arranjar algum alimento, ele chegou até um poço, uma fonte, para tomar água. Pois bem, lá estava uma bela mulher, com seu cântaro, que havia ido ao local para buscar água (vale dizer que este poço era um lugar importante para a cidade. Diziam que ali, o patriarca Jacó havia realizado, uma vez, o milagre de fazer as águas do fundo chegarem até a superfície. Portanto, era uma fonte sagrada, um local especial). Ieshua chegou ali na 6a. hora, o que quer dizer, ao meio dia (hora em que não há sombras e o sol está a pino). Pediu água para a mulher. Ele diz a ela: Dá-me de beber! A Samaritana lhe responde, com um misto de curiosidade e certa indignação: Como é que um judeu pede água a mim, uma Samaritana? Ieshua lhe responde de forma direta:
Eu lhe ofereci o dom de Deus que diz: Dá-me de beber! Se conhecesses esse dom, tu é que me pedirias e não terias mais sede, porque eu te daria a Água Viva. Ou seja, em outras palavras, Jesus falou como os goianos agro-boys costumam fazer, sempre que insultados: Filhinha, você não sabe o que está fazendo e nem com quem está falando!

Desejo de riqueza material: a primeira etapa da busca

Leloup compreende esta história como o arquétipo da busca e do desejo, representado pela mulher, nossa psique. Dito de outro modo, todos nós, temos interiormente desejos, buscamos alguma coisa e neste início, a história nos diz que a primeira etapa de nossa busca para saciar nossa insatisfação interior, está nas coisas do mundo. A Samaritana levou seu cântaro para buscar água, a água material, a que se pode ver e sentir com nossos sentidos físicos. Assim, achamos que nossos desejos podem ser realizados com livros, cds do Nightwish, coturnos e outros sonhos de consumo, entende? E que nossa felicidade depende disso. Todavia, Ieshua é claro com a mulher, quando lhe diz:
Quem bebe da água desse poço terá sede de novo, mas aquele que bebe da água que eu lhe darei, não mais terá sede. A água que eu lhe darei se transformará nele numa fonte, num jorro de vida eterna!
Isso significa que não adianta buscar a satisfação do nosso desejo interno nas coisas materiais. Elas não vão nos saciar. E quem escolhe este caminho está sempre querendo mais, mais, e mais (Marcos Valério ganhando dinheiro e favorecimentos do PT, por exemplo). Esta é a primeira etapa de nossa busca, a mais primária. Mas, a história não termina aqui. A Samaritana, então, pede à Jesus: Dá-me dessa água para que eu não tenha mais sede e não tenha que vir aqui para tirar água do poço. No que Jesus responde: Vá buscar teu marido e volte aqui.

Desejo de riqueza afetiva: a segunda etapa da busca

Aqui Jesus faz com que a Samaritana entre em outra etapa de seu desejo, para que ela possa compreender sua incompletude. Porque talvez não encontremos a felicidade nas coisas materiais, mas talvez possamos procurá-la nas riquezas afetivas, na riqueza das relações. Conheço muita gente que vive assim, atrás de um amor, de alguém que vá resolver todos os seus problemas. E a Samaritana parece compreender a dificuldade de satisfação deste desejo, quando responde a ele: Não tenho marido.
Ieshua, então, dá-lhe um show particular de vidência e elogia-lhe a sinceridade. Afirma-lhe que sim, o homem que estava ao seu lado não era, de fato, seu marido, e que ela já tinha tido cinco outros no passado. Ela estava só e não conhecia a unidade e o apaziguamento dos seus desejos por esta via, portanto. Com este diálogo, Jesus estava ensinando a ela sobre o seu desejo e a sua busca, percebe? Mas a história não termina aí. A Samaritana se impressiona com a resposta de Jesus e afirma:
Rabi, vejo que és um vidente, um profeta. Nossos pais adoraram sobre essa montanha e vós dizeis que é em Jerusalém que é necessário adorar (pois ele era um judeu). Ao que Ieshua responde:
Mulher, crê em mim. Dia virá que não será nem sobre essa montanha, nem em Jerusalém que vós adorareis o Pai. Vós adorais quem não conheceis (...) É chegada a hora, e nós estamos nela, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai no espírito e na verdade, no Sopro e na Vigilância, porque são estes adoradores que o Pai procura.
A mulher lhe diz: Eu sei que quando o Messias chegar ele nos explicará tudo.
E Ieshua lhe revela: Sou Eu. Sou Eu que te falo. Eu sou aquele que É.


Desejo de riqueza religiosa: a terceira etapa da busca.

Pois bem, aqui está a terceira etapa da busca. Já que não resolvemos nossa busca de felicidade nas coisas materiais e nem no nível afetivo, alguns de nós buscam a satisfação na religião. E aí a Samaritana faz uma pergunta importante ao Mestre. Onde deve estar nossa religião? (nas Montanhas da Samaria ou em Jerusalém?). Qual é a melhor religião? E a resposta de Jesus vai mostrar que este é mais um engano. Nós nos decepcionamos na medida das nossas expectativas, diz Leloup: Pedimos muito às coisas, pedimos muito às pessoas, pedimos muito às religiões. Quer dizer, pedimos o infinito às coisas finitas. Não pode dar um bom resultado, não acha? (Lembra da sua professora de catequese? Pois é). Assim, devemos saber o que adorar (no sentido antigo – onde orientar nosso desejo para a fonte de todo o Ser). Jesus diz: não é em nenhum desses lugares, nem nas coisas, nem nas pessoas e nem na religião. E ele dá a resposta da qual é o exemplo vivo: devemos orientar nosso ser para o nosso Sopro, entrar no nosso Sopro e permanecermos vigilantes, pois aí está o fio que sobe até a fonte.

Eu Sou Aquele que É

Depois que Jesus lhe disse isso, a Samaritana deixou o seu cântaro e correu para a cidade anunciando às pessoas que havia encontrado um homem que lhe disse tudo que ela era. Que ela era, que Eu Sou. Jesus disse, Eu Sou aquele que é. Quando ele dizia Eu Sou, ele não queria dizer que era um bambambam não, ele queria dizer: Deus em mim É. O Sopro em mim habita. Habita em mim, e em todos. Basta que eu oriente o meu desejo para Ele e passe a viver vigilante, a partir dele. Quando estou consciente disso posso deixar o meu cântaro (como a Samaritana), pois a fonte está em mim. Não preciso mais pedir apaziguamento às coisas externas, quer sejam elas materiais, afetivas ou religiosas, pois carrego em mim a própria fonte. E isto me autoriza a dizer isso às pessoas como fez a Samaritana. Assim, posso retornar às coisas materiais, pois as possuo, mas elas não me possuem (ver música da Pitty), posso ir às minhas relações afetivas e vivenciar qualquer religião, mas serei livre em relação a elas. Meditar sobre a história da Samaritana é, portanto, compreender o itinerário de nossos desejos, os que nos guiarão por toda a nossa vida, o que pode ser bastante útil, viu coisinha?

Referências deste post:

História da Samaritana: Evangelho Segundo João, 4: 1-30.
Jean-Yves Leloup: LELOUP, Jean-Yves. Caminhos da Realização. Petrópolis, Vozes, 1999.
Marcos Valério e o PT: Ah, deixa pra lá.
Música da Pitty: Só de Passagem.

domingo, julho 24, 2005

Pra Rua Me Levar

Não vou viver como alguém que só espera um novo amor. Há outras coisas no caminho onde eu vou. Às vezes ando só, trocando passos com a solidão. Momentos que são meus, e que não abro mão. Já sei olhar o rio por onde a vida passa, sem me precipitar e nem perder a hora. Escuto no silêncio que há em mim e basta. Vou deixar a rua me levar, ver a cidade se acender. A lua vai banhar esse lugar e eu vou lembrar você. É, mas tenho ainda muita coisa pra arrumar...promessas que me fiz e que ainda não cumpri. Palavras me aguardam o tempo exato pra falar. Coisas minhas, talvez você nem queira ouvir. Já sei olhar o rio por onde a vida passa, sem me precipitar e nem perder a hora. Escuto no silêncio que há em mim e basta. Outro tempo começou pra mim agora.
(Ana Carolina / Totonho Villeroy)

terça-feira, julho 19, 2005

Dica de Férias

Imaginem um homem, cuja vida está no piloto automático, que, ao andar na calçada em uma manhã qualquer, depara-se com um fragmento de construção gigantesco que cai a um passo em sua frente. Mais um passo apenas e ele estaria morto sob a pedra que despencou do alto. Este é o ato detonador de um impulso. O homem vira a esquina e resolve que seria outro. Como se houvesse, de fato, morrido, assume outra identidade, abandonando a vida anterior, profissão, família e todo o resto. Temos assim o início de uma história dentro de outra história. Como braços da trama principal, as histórias se sucedem, se interpenetram, se sobrepõem umas às outras no livro que estou lendo. Chato, né? Ficaria com preguiça de ler se me contassem isso. Ledo engano. Todas as histórias do meu livro são interessantes. Especialmente porque as personagens (e isto parece ser uma característica do autor) são muito bem construídas, e estão sempre às voltas com aquelas perguntas filosófico – existenciais para as quais nunca temos uma resposta satisfatória, mesmo que nos seja imprescindível fazê-las. Vivendo no limite. Elas estão sempre assim. Em alguns casos, sofreram perdas irreparáveis ou estão seriamente doentes, ou melhor, foram submetidas a situações que as levaram a explorar as questões mais complicadas da vida. Então é mais um daqueles livros sem ação e com intensos e longos monólogos interiores? Errado. Há uma dosagem exata e encantadora entre a ação e o pensar reflexivo. Acrescente-se a isso, uma narrativa viva, uma trama original e uma pincelada de ironia e humor sutis. E, ainda, para finalizar, ensinamentos de como aliviar-se, utilizando-se da literatura e da escrita como meios de sistematizar perguntas sem resposta. Ah, em tempo: a encadernação do livro é bárbara - uma edição bem cuidada com uma ante-capa macia de papel canelado azul - daqueles que a gente fica acariciando antes de abrir. Não me perguntem o que acontece com o homem sem identidade do início deste parágrafo. No momento, por uma série de acontecimentos, ele está preso num abrigo subterrâneo, e o escritor está pensando o que fazer para tirá-lo de lá de uma maneira coerente e não usual. Se souberem o final não me contem rápido. Agora vou ler devagar, para degustar cada linha. O nome do livro é Noite do Oráculo e o autor é Paul Auster. Uma amiga contou-me que, na Flip, o autor disse que é apenas uma história de amor. Mas o livro é muito mais que isso.

quinta-feira, julho 14, 2005

ainda quando

esquece aquela espera
amar é infindo
e além do tempo
ancora o seu destino:
amar é isto.
esquece aquela dor, esquece
aquela sina de ser e ser ainda
entre o verde , amiga, a vida e o vinho.
durar o quê e quando? e quanto?
além da chama clara de uma vela?
agora é sempre, vê. e nada escolhe
ser eterno, essa miragem.
nem dura a palavra mais
do que o desejo de dizê-la
e nem morte menos
do que o medo de esquecê-la.

(Carlos Rodrigues Brandão)

quarta-feira, julho 13, 2005

Falta de Assunto

Li um pouco o filósofo Paul Ricoeur nestes últimos meses. Encantou-me a importância que dá ao passado. O que não existe a não ser na reconfiguração do presente. Como historiadora, tenho uma nobre missão: recriar o tempo e dar-lhe significados com um discurso de autoridade. Ok. O passado está em nós e é importante. Mas o futuro também está. Somos, da mesma maneira, aquilo que esperamos dos dias que se seguirão. E sob esta perspectiva, os videntes são tão importantes quanto os historiadores. (Re)significam nosso futuro. Tempo que, como o passado, também não existe. Paul Ricoeur fala do tempo fenomenológico: o eterno presente, onde tudo acontece e é efetivamente definido. Assim, todo mundo devia ler Paul Ricoeur. Para viver e relacionar-se com as pessoas no aqui e agora, quando os milagres cotidianos acontecem e nem são percebidos. Passado e futuro absolutos são grandes e pesados grilhões. Impedem-nos de observar a beleza do caminho. Deveríamos viver como se fossemos doentes terminais: valorizando cada segundo, com um passado e um futuro displicentes, não determinantes. E os que nos amam deveriam se relacionar conosco assim, também: aceitando-nos, com a história pregressa que nos construiu e nosso futuro incerto. Não o condeno ao passado que aqui te trouxe e nem o considero uma pessoa-investimento. Encontro-o na eternidade deste instante. Acho que seríamos mais felizes se assim pensássemos.

segunda-feira, julho 11, 2005

Sonho

Viajo na noite fria
de um túnel de pedra.
Uma quietude mórbida
e sufocante dorme
sob a pirâmide.
Na trilha subterrânea
conto os passos
em que piso no chão de vidro.
Na terra vejo corpos
que se contorcem nus
e nadam na lama.
Seguro uma criança
e salto por entre pedras móveis.
Eu a protejo e sinto-me acompanhada.
Desvio-me de paredes úmidas.

Caminho cega em direção à luz.

(Desperto-me antes de alcançar a saída)

sexta-feira, julho 08, 2005

Respire, as ondas vêm e vão.

Ouço sempre a frase do título quando estou ansiosa. Minha filha costuma dizê-la, ao mesmo tempo em que me endireita a coluna. De fato, penso que a grande solução da vida é respirar. Permitir que o fluxo entre e saia sem obstáculos, o que não é nada fácil. Pude compreender melhor o poder da atitude quando me submeti a uma seção de respiração holotrópica. Era uma loucura proposta pelo meu terapeuta transpessoal. A sensação é a mesma no caso do uso de LSD. Ele me explicava, piorando as coisas, visto que nunca usei drogas de nenhuma espécie. As mãos podem se enrolar. Eu arregalava os olhos. Os pés também. Você pode ter visões. Misericórida. Eu já havia desistido, quando ele me apresentou a solução mágica para resolver qualquer efeito colateral da atividade: respire. Simplesmente continue respirando. E lá fui eu, acompanhada por alguém que não conhecia (pois precisamos ser cuidados por outra pessoa durante o ato), um garoto adolescente que parecia muito mais corajoso do que eu. Tadinho. Ele teve que se levantar inúmeras vezes para me levar ao banheiro. Minha seção de respiração holotrópica transformou-se numa vontade ininterrupta de fazer xixi sobre o mundo. Meu terapeuta disse que foi uma profunda limpeza. Achei melhor acreditar. E, é claro, fiz várias outras seções até perder totalmente o medo e experimentar um contato mais íntimo comigo mesma. Acho que foi útil como estratégia de auto-conhecimento. Além de me ensinar o princípio básico da respiração. Ansioso? Respire. Triste? Respire. Nervoso? Respire. E por aí vai. Sigo assim, todos os dias, até não sei quando, tentando manter o ritmo da respiração. Como as ondas, que, inexoravelmente, vêm e vão.
Como no poema do Luís.
As ondas vêm e vão

inspiro.
atento à sensação
produzida nas narinas
pelo ar que entra.
expiro,
atento à sensação
produzida nas narinas
pelo ar que sai.
inspiro.
a partir do ventre,
a centímetros do umbigo,
o tórax enche.
expiro.
a partir do ventre,
centímetros abaixo do umbigo,
o tórax esvazia-se.
inspiro, expiro.
respiro.
deixo-me respirar,
nada mais.
Mas, de repente, forço-me a respirar,
e inspiro e expiro com aparato,
descontrolado,
o equilíbrio perdido.
recordo-me então
que as ondas vêm e vão,
e deixo-me ir, deixo-me ir.
inspiro, expiro.
respiro.
deixo-me respirar.
não estou ansioso, nem calmo,
nem triste, nem feliz.
respiro, nada mais.
e as ondas vêm e vão.
(Luís Ene)
Obrigada, querido. Adorei.

sexta-feira, junho 17, 2005

A Via de Chuang Tzu

Refugio-me na leitura de Chuang Tzu, em sua sabedoria do século II a.C., quando estou desanimada com tantos problemas:

A Metamorfose

Quatro homens entraram em discussão.
Cada qual falou:
"Quem souber ter o vazio como cabeça,
A vida como espinha dorsal
E a morte como cauda,
Este será meu amigo!"

Nisto todos se entreolharam,
viram que concordaram,
Riram alto
E ficaram amigos.

Depois um caiu doente
E o outro foi visitá-lo.
"Grande é o criador", dizia o doente,
"Que me fez como sou!
(...)
meu corpo é o caos,
mas minha mente está em ordem".

Seu amigo perguntou-lhe:
"Você está desanimado?"

"Qual nada! Por que haveria de estar?
Se Ele me separa e faz um galo
No meu ombro esquerdo,
Eu anunciarei a madrugada.
Se Ele fizer um arco
Do meu ombro direito
Procurarei um pato assado.
Se meu assento se transformar em rodas
E se meu espírito vier a ser um cavalo
Prepararei minha própria carroça
E andarei por aí."

Há um tempo de juntar
E um tempo de separar.
Aquele que entender
Este curso dos acontecimentos
Toma cada novo estado
Em sua devida hora.

Sem nenhuma tristeza nem alegria.
(...)
A natureza é mais forte do que todas as cordas e elos.
Sempre foi assim.
Onde está uma razão
Para desanimar?


Quando estou com vontade de "matar alguém", leio este:

O Galo de Briga

Chi Hsing Tzu era treinador de galos de briga
Para o Rei Hsuan.
Estava treinando uma bela ave.
Sempre perguntava o Rei se a ave
Estava pronta para a briga.
"Ainda não", dizia o treinador.
"Ele é fogoso. É pronto para atiçar briga
Com qualquer ave. É vaidoso e confiante
Na sua própria força".

Depois de dez dias, respondeu novamente:
"Ainda não. Eriça-se todo
Quando ouve outra ave grasnar."
Depois de mais dez dias:
"Ainda não. Ainda está
Com aquele ar irado,
E eriça as pernas."

Depois de dez dias
Disse o treinador:
"Agora ele está pronto.
Quando outra ave grasna,
Seu olho nem pisca.
Fica imóvel
Como um galo de madeira.
É um brigador amadurecido.
Outras aves olharão para ele de relance
E fugirão."


E, por fim, leio este outro quando acho que as coisas estão insuportáveis e começo ansiosamente a estabelecer prazos para o fim do meu suplício:

A Necessidade da Vitória

Quando um arqueiro atira sem alvo nem mira
Estará com toda a sua habilidade.
Se atira para ganhar uma fivela de metal
Já fica nervoso.
Se atira por um prêmio em ouro
Fica cego
Ou vê dois alvos-
Está louco!

Sua habilidade não mudou.
Mas o prêmio cria nele divisões.
Preocupa-se.
Pensa mais em ganhar
Do que em atirar-
E a necessidade de vencer
Esgota-lhe a força.

quinta-feira, junho 09, 2005

Felizes Demais

Aprendo muitas coisas com minha filha MC no alto de seus treze anos. Com uma índole identificada com a personalidade gótico-metal (felizmente mais nightwish do que iron maiden) ela despreza pessoas "felizes". Faço-lhe a pergunta óbvia-idiota, no seu estilo comunicacional: - Ow, tipo, ser feliz não é bom?. Ela me explica fazendo caras e bocas e traduzo assim, o que consigo compreender: ser "feliz", é ser deslumbrado. Para as "pessoas felizes" tudo é lindo, cor de rosa, maravilhoso. "Pessoas felizes" tendem a uma visão superficial da vida e por esse motivo, tornam-se desprezíveis.

quinta-feira, junho 02, 2005

Constatação

Li hoje, com atenção:

Não sou substituível para quem me ama. Sou substituível para quem me usa.

quarta-feira, junho 01, 2005

Nino

A esta hora Nino deve estar na mesa de cirurgia para uma orquiectomia. Tomará anestesia geral. O fato de estar aborrecida com ele depois que fez xixi no meu livro do Kundera (o dos amores que se tornaram não só risíveis, mas malcheirosos e impossíveis), não significa que não lhe desejo todo o bem do mundo. Ele anda desanimado, com um problema resistente de pele e, a partir de hoje, se tornará definitivamente estéril. Que o deus dos gatos possa me perdoar por minha parcela de culpa nisso tudo. Respire, Heloisa, respire.

terça-feira, maio 31, 2005

Estou Apaixonada

Por Walter Salles. É verdade. Assisti a um programa (Arte com Sérgio Brito), em que o diretor foi convidado a contar sua trajetória profissional. Isso foi feito com maestria pelo entrevistador e, a partir dele, pude saber que Walter Salles começou sua vida artística como fotógrafo. Depois, aventurou-se nos perfis e documentários, para só então, criar e dirigir em cinema de ficção. Está muito magrinho (terei que dar um jeito nisso), mas contou, com detalhes, os perfis e documentários que mais lhe agradaram fazer. Dessa maneira, pude compreender não só aqueles olhos, que sabem chorar e sorrir ao mesmo tempo, mas o seu olhar sobre as coisas. E ele fala com os olhos, já prestaram atenção? Começou contando do perfil de Jorge Luis Borges que realizou há algum tempo. Impressionou-o Borges ser herdeiro de cinco gerações de homens cegos, alguém que ao perder gradativamente a visão, conseguiu ver o mundo de uma maneira tão poética e imaginativa. Foram mostrados trechos dessa entrevista, realizada dois anos antes da morte do escritor. Emocionante. Ele também nos falou de Nick Lauda (escreve assim? ah, sei lá), aquele corredor de fórmula 1 que quase morreu em um acidente, lembram? Pois é, Nick Lauda narrou com detalhes como lutou por três dias para sobreviver. Especialmente depois que recebeu a extrema – unção de um "padre", que mal lhe dirigiu a palavra. Embirrou depois daí e resolveu que não ia morrer, naquela hora não. De fato, sobreviveu milagrosamente para contar a história. Depois disso, Walter Salles começou a falar dos documentários. Um que me fez chorar, foi o que contava a vida de (peraí, esse cara eu preciso escrever o nome direito, um segundo)...voltei: Frank Krajcberg, o poeta dos vestígios. O cara é polonês e depois de viver todos os horrores da Segunda Guerra (sua mãe foi brutalmente assassinada, esteve em campos de batalha, sentiu na pele os absurdos do stalinismo) e passar fome na França, desacreditou na espécie humana (e tem gente que acredita na espécie humana, humpft). Veio para o Brasil e passou a criar esculturas de material destruído da natureza. Ouví-lo contar como a natureza o resgatou é algo que salta os olhos. Putz. Houve um momento, depois de fugir da presença humana refugiando-se nas matas, em que tinha vontade de dançar com as árvores! Walter Salles (será que estou escrevendo certo o seu nome? não importa tá tão chique assim com W e dois eles...) revela que esse contato deu a tônica dos seus personagens de ficção: indivíduos que estavam mal interiormente, mas que olharam no retrovisor e resolveram se recriar, reinventar a própria vida. Krajcberg recebeu carta de uma presidiária e mostrou ao Salles. Este ato deu-lhe a idéia chave de Central do Brasil. Quantas cartas não chegam ao seu destino, afinal? Refletiu com Sérgio Brito. Concluiu que o cinema é uma carta, que também é endereçada e que assume os riscos da viagem até o destinatário. O programa acabou aí (snif), mas continua sei lá em que dia e em que horário (se alguém descobrir, por favor, informe). No próximo, ele vai contar dos filmes: Abril Despedaçado (maravilhoso), Diários da Motocicleta (que não vi ainda, que vergonha...) e de todos os outros. Será que ele vai falar se é casado? Opção sexual? O que pensa fazer nos próximos anos? Telefone para contato? ...............?................? ...................?....................?

Acho que preciso ver mais TV.

segunda-feira, maio 30, 2005

Márcia Sacerdote

Maria Clara e eu estávamos rindo de nossa empregada. Em três meses de trabalho ela já conseguiu muitas coisas: quebrou a máquina de lavar roupa, desmontou definitivamente o porta papel higiênico do banheiro, estragou a torneira da cozinha, inutilizou o purificador de água e o fogão de seis bocas, só funciona com duas. Queimou três roupas no ferro de passar, quebrou a coroa da escultura de N.Sra. da Assunção e alguns objetos decorativos. Os pratos de cerâmica cinza estão todos pintados de lasca branca e não há mais um conjunto inteiro de copos. MC fica indignada:

Mãe, você deve brigar com ela!!!!
Já lhe pedi para tomar cuidado, MC.
Exija que ela desligue aquele rádio na estação da Igreja Universal.
Deixa pra lá, filha. É só fechar a porta da cozinha.
Qualquer dia vamos chegar aqui e ela vai ter colocado fogo em tudo.
Não seja intolerante. Vejamos pelo lado bom, ela tem virtudes.
É, justiça seja feita: ela cozinha bem...e
(pensa)
Cozinha bem
(pensa mais um pouco)
Ela cozinha bem...
M. pra sua cozinha. Se ela estragar algum dos meus discos de metal, juro que vou fazer ela engolir aquele rádio. Ela vai ser obrigada a ouvir trash metal o dia todo, prometo.
Acho que prefiro as músicas da Igreja Universal.
Então tome uma atitude.
Calma, filha....as ondas vêm e vão. Respire...

domingo, maio 29, 2005

Redenção

Tomou-lhe a graciosa criança dos braços. E foi como um instante de redenção. Segurar o filho do novo casamento dele tinha algo de recomeço. Num segundo, cenas animaram-se com profusão de sentimentos: o namoro, o casamento naquele templo egípcio, os gestos cotidianos únicos, o cheiro, a agressividade, a dureza de suas mãos e de seu abraço, o sentimento de incompletude e insuficiência inúteis a qualquer esforço, as dores da separação. Teria sido perdoada, enfim? Devolveu-lhe a criança agitada em seu colo e conseguiu sorrir, com genuína alegria.

quarta-feira, maio 25, 2005

Mudança

Já que não dá para alterar o resto, mudei o template. Os comentários? Hum, ficaram guardados no meu coração.

terça-feira, maio 24, 2005

Sentido

Dizem que o que todos procuramos é um sentido para a vida. Não penso que seja assim. Penso que o que estamos procurando é uma experiência de estar vivos, de modo que nossas experiências de vida, no plano puramente físico, tenham ressonância no interior do nosso ser e da nossa realidade mais íntima, de modo que realmente sintamos o enlevo de estar vivos.

(Joseph Campbell)

sexta-feira, maio 20, 2005

Fênix



Acho que há dois anos, mais intensamente no último, que não passo dois dias sem ver um carro de funerária. Na última semana, algumas vezes por mais de uma vez no mesmo dia, uma van branca, com uma bela imagem azul de ave, onde se pode ler: fênix.