domingo, agosto 06, 2006

Post para o Luis Ene

A mulher negra, vestida de branco, banha-se com as flores do Ipê Amarelo. Conta-me de Oxum, da força e beleza da natureza feminina. Lembra-me a potencialidade da árvore, que intensifica sua explosão em flores, quanto mais difícil é o inverno, a seca. O Ipê agradece ao derramar, com gestos suaves, delicadas flores sobre nossas cabeças.

Clarice, antes de dormir:

O que atrapalha ao escrever é ter que usar palavras. É incômodo. Se eu pudesse escrever por intermédio de desenhar na madeira ou de alisar uma cabeça de menino ou de passear pelo campo, jamais teria entrado pelo caminho da palavra. Faria o que tanta gente que não escreve faz, e exatamente com a mesma alegria e o mesmo tormento de quem escreve e, com as mesmas profundas decepções inconsoláveis: não usaria palavras. O que pode vir a ser minha solução. Se for, bem-vinda.

Portanto, escrevo todos os dias. :)

quinta-feira, julho 27, 2006

Hoje

Hoje, meu silêncio dói. Talvez seja porque há vozes e sussurros, uma profusão de sentimentos, uma apatia quase louca, uma ferida que goteja, um corpo cansado, uma teia. Esfumo o horizonte com o acúmulo dos dias e o apagar das horas. Afogo a alma nua num banho quente. Ligo um rádio para encobrir os pensamentos, e o som sai bem baixinho porque a música também me agride. Hoje, meu silêncio grita. Hoje não tenho lugar, nem desejos, nem forma. Hoje, morrer nem faz sentido.

domingo, julho 16, 2006

O Quarto Elemento

-Mãe, você gostou da peça?
-Sim, adorei. Encontros e desencontros no amor, quem não os tem?
-Qual a mensagem dos atores sobre o amor?
-Ah, penso que muitas: amar é correr riscos, é entregar-se, é viver contradições, é "sangrar de um jeito próprio"...
-Em resumo, algo que nem sempre vale a pena.
-Não, ao contrário, algo que sempre vale a pena, apesar de tudo.
-Sua teoria não pode ser aplicada a você, né?
-É que eu amo de forma impessoal, deve ser do signo...
-Mas, a peça não fala do amor universal, mas do amor humano e íntimo.
-É...
-É. Mas, você acha que o amor atrapalha a vida das pessoas?
-(...)
-Você está pensando numa forma sutil de me dizer "sim, atrapalha".
-Acho que "a pessoa é para o que nasce", algumas nasceram para viver junto com outras, outras para ficarem sozinhas.
-(...)
-("é que eu ando tão cansada, e todo amor em mim, dói"...).


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Notas:
*O 4o Elemento é um espetáculo de direção e texto de Tetê Caetano, apresentado no Centro Municipal de Cultura Goiânia Ouro. "Uma história dos encontros e desencontros no amor, um espetáculo que fala com palavras e coreografias aéreas sobre possibilidades, desejos, busca, paixão, desespero, fim e recomeço".
*A Pessoa é Para o que Nasce é um filme de Roberto Berliner sobre a história de vida de três mulheres cegas, seus dramas, misérias e amores. Também apresentado no Centro Municipal de Cultura Goiânia Ouro.
*16 de julho - Data do meu casamento. Há mais de catorze anos. Divorciei-me há 7.

domingo, junho 25, 2006

Inventário

Coisas importantes. Sempre nos atos mínimos. No inventário final, talvez seja o que permanece. A recepção inesperada de um sorriso, o carinho dos alunos, o café quente para acordar o dia, o bolo de chocolate com cobertura de creme de leite da Maria, programa do Raul Gil no hiato despreocupado de uma tarde morna de sábado, a gargalhada na leitura do Drops, a conversa de adultos com Maria Clara, os comentários dos amigos no blog, aquele reencontro no final de uma semana difícil, a aula inteira e energizante na manhã do sábado de sol, os olhos de satisfação dos alunos, as sonecas depois de um bom livro literário após o almoço, o mail surpresa daquele amor perdido, o pequeno reconhecimento depois de árduos esforços, o scrap no orkut, o abraço sincero e amoroso do amigo que você nem vê, o lampejo de esperança. Sutilezas me emocionam. Deve ser por isso que gostei tanto dos poemas de Marcelo Montenegro, o que quer “expressar a vida nas pequenas coisas”:

Buquê de Presságios

De tudo, talvez, permaneça
o que significa. O que
não interessa. De tudo,
quem sabe, fique aquilo
que passa. Um gerânio
de aflição. Um gosto
de obturação na boca.
Você de cabelo molhado
saindo do banho.
Uma piada. Um provérbio.
Um buquê de presságios.
Sons de gotas na torneira da pia.
Tranqueiras líricas
na velha caixa de sapatos.
De tudo, talvez restem
bêbadas anotações
no guardanapo.
E aquela música linda
que nunca toca no rádio.


Poema Estatístico

Tem uma esquina prenha de um latido.
Trechos de pássaros que permanecem
nos muros que ficam. E vice-versa.
Um mail anotado às pressas no canhoto
do tintureiro.
A cirrose portátil. A síndrome do pânico.
O enroladinho de presunto e queijo.

Tem a Mulher mais Linda da Cidade.
Groupies de cabelo rosa. Poodles
da solidariedade. Alguém chorando lágrimas
de tubaína. Penélopes charmosas.
Dick Vigaristas. Um cara que já sai desviando
do cinema Del arte, evitando ser atingido
Por alguma conversa perdida.

Tem a mulher da vídeo-locadora
que não conhece o filme que estou procurando.
Um amigo que diz que escreve só para colocar
epígrafes.
Taxistas infláveis. Manicures em chamas.
Um casal que desce a rua na banguela
prolongando a gasolina daquilo tudo
que um dia fora. Eu ando apaixonado
pela mulher da vídeo-locadora.
Lendo revistas na sala de espera
do consultório dentário. Tem uma
que venta. E um que desiste.
De arranhar os vidros do aquário.

(Marcelo Montenegro)

segunda-feira, junho 19, 2006

Auto-suficiência

Entrou na sala de meditação e postou-se à espera, em silêncio. Alguém conversava algo desinteressante. Sentou-se e manteve o olhar vazio para evitar ressonâncias. Contemplou o dedo ferido pelo sapato. Uma mão cuidadosa invadiu-lhe o campo: as mãos do instrutor. Um óleo, um bálsamo, um carinho, uma vontade de chorar.

quarta-feira, junho 14, 2006

E Viva o Brasil

Alô! Foi assim, de modo imperativo, rápido e ríspido, que a voz feminina atendeu-me do outro lado da linha. É do Hospital do Rim? Arrisquei. É. Ela respondeu, com o tom irônico da idéia implícita: se você discou esse número, é daqui, sim, ô idiota. Ignorei a receptividade e fui logo ao assunto: você tem médico de plantão? Hum? Ela perguntou num tom entre a incredulidade e a indignação. Depois que repeti a dúvida, a fulana encetou uma conversa abafada com alguém (digo que tem ou que não tem? ah, acho que ele foi embora. vá lá ver). Silêncio. Ouço uma TV. O hino nacional. Ah, pode vir. Depois de alguns minutos foi o que disse, antes de desligar, antes que eu ensaiasse uma despedida. Cheguei ao local sem me importar com a identificação de quem havia desligado o telefone na minha cara. Devia ser uma das moças sentadas no hall de espera dos consultórios. Eram dez pessoas, consegui contar, só pra passar o tempo, desviar a mente. Estavam todos em frente à TV. Estréia do Brasil na copa. O médico estaria lá, também, no meio deles? Deus não permitiria, roguei. Sentei-me em algum lugar distante depois de fazer a ficha com uma recepcionista de cara amarrada e retomei minha leitura de Paul Ricoeur, entre mudanças de posição para tornar a dor mais suportável. Com este capítulo, atingimos a meta proposta nos anteriores, em que a ênfase era dada às aporias do tempo fenomenológico...rede globo na copa! A voz do locutor sobressaía-se entre gritos e buzinas. Dor é psicológico. Não estou com dor. Repetia-me entre reflexões a respeito da disposição médica em me atender naquela hora (lá fora estava escrito plantão 24h, azar dele) e o controle da vontade de chorar. Não vou chorar, não vou chorar. Não vou chorar por essa dor, nem por todas as outras. Olhei para cima e concentrei-me nas bandeirolas verde-amarelas que balançavam no teto. Ele chegou apressado: você é a paciente? Não, sou sua mãe, pensei comigo. Fiquei com vontade de rir ao contemplar a figura: aparentava vinte anos, e, dentro do jaleco, uma camiseta da seleção. Eu o tirei de casa na hora do jogo, tive uma satisfação quase sádica ao constatar o fato. Trocamos poucas palavras, o suficiente para que preenchesse os pedidos de exames, indicasse o analgésico que eu já havia tomado meia hora antes e eu fosse rapidamente dispensada. Deve ser rim. Ele concluiu com raro brilhantismo perceptivo. Na saída, atravessei o hall entre as comemorações do primeiro gol. Ninguém notou que não olhei a TV, nem por um instante. Também não fiz comentários sobre minha repulsa à euforia verde-amarela ou ao nosso nacionalismo hipócrita. Corri para casa, tomei mais um Buscopan e me protegi dos fogos de comemoração da vitória do time com um travesseiro sobre os ouvidos. Lá fora, um grito abafado: e viva o Brasil!

quarta-feira, junho 07, 2006

O Cocô do Cavalo do Bandido

Há dias, e não são poucos, em que me sinto assim...

Mas, meus alunos me colocam novamente em pé com tanto carinho e generosidade.
Deus nos conserve nesta relação de amor.

Misticismo

Heloisa, extensão da arte
arte que não se olvida.
Uma - a alma aquece-
Outra- enternece a vida
.


Na faculdade havia uma professora;
Não uma professora qualquer.
Não sei se mulher feito um anjo,
Ou se um anjo feito mulher.

Em seus olhos calmos e serenos,
Havia algo de místico e singular.
Quando surgia na sala,
Como que por encanto,
Algo se punha a brilhar.

Ninguém soube ainda explicar,
Se brilhava por encanto,
Ou se o encanto
Era a luz de seu olhar.


José Maria Alencar – 3o Período

HELOÍSA

Menina, que canta história
Elo, Heloísa, canção
Sob a égide da memória
Traz nos olhos o coração
Alma leve de criança
Mãe de Clara menina
Os olhos que conta a História
A boca que fala e ensina
A mente que ao passado vai
Põe a mão a deslizar
Sob rascunhos e rabiscos
Baús, saudades e cheiros a relembrar
O Elo que liga Heloísa
É tênue como a própria luz
Que do umbigo vai ao céu
Buscando o amor de Jesus
Elo, Heloísa canção
Heloísa Elo coração.

Alba Franco – 1o período

sexta-feira, junho 02, 2006

Guimarães Rosa

"Os rios não querem chegar. Eles querem se tornar mais largos e mais profundos."

terça-feira, maio 30, 2006

Sob o sol das manhãs

Por mais que eu me encha de motivos, não consigo ficar infeliz num dia de sol. O grande Deus Rá, pai do Céu e da Terra, venceu a noite e fez nascer o dia. Eliminou a serpente Apópis e trouxe os deuses na barca da manhã. É como se o astro-rei, soberano, redimensionasse o mundo. Sob o sol morno das manhãs, cores, pessoas, situações, tudo fica renovado e cheio de luz. No banho cálido e protetor do sol, o mundo está seguro. Dá uma confiança panteísta no universo. No sol de lá e no de cá. No que nasce todos os dias, para todos, a despeito de tudo, em todos os lugares. O que mais importa?

sexta-feira, maio 26, 2006

O Manobrista

Quem poderia esquecer aquele sorriso? Fecho os olhos e vejo-o com nitidez. Todos os dias, nas mesmas manhãs, um jovem acompanhava-me no estacionamento próximo ao trabalho. Com uma eficiência sem palavras, ele indicava-me vagas e cuidava para que eu colocasse o automóvel, sem dificuldades, em locais seguros. Nas saídas, postava-se ao pé da rampa de acesso à rua. E acenava-me com um sorriso largo, sincero, amigo. Vestia o mesmo uniforme azul e, por muito tempo, anos até, comunica-mo-nos por estes pequenos gestos diários compartilhados à distância, nos poucos minutos em que eu permanecia na meia luz do subsolo. Incontáveis as vezes em que estava preocupada e séria, ou mesmo distraída, e fui tomada por aquele aceno acompanhado de um sorriso luminoso e acolhedor. Até que um dia, ele se aproximou. Ainda não compreendo porque tive medo. Se foi porque ele era Apolo em sua carruagem anunciando o dia em mil raios de luz e vida, um deus que não se podia macular em sua epifania ou por outro motivo qualquer. Ele chegou bem perto e disse: só para dizer que você tem um sorriso muito bonito. Agradeci sem jeito. E nunca tive a oportunidade de dizer-lhe que era um reflexo da luz que me oferecia assim, tão gratuitamente, todos os dias. Perdi a vaga no estacionamento e ele, provavelmente, mudou de emprego. Deve ter ido iluminar outros becos em que burocratas trancafiados em seus automóveis blindados mal percebem a rua, os deuses e os pequenos milagres cotidianos

domingo, maio 21, 2006

A Saída Estética

Penso que nunca fui realista ingênua. Lembro-me de criança. O quarto era o mundo, as ações rotineiras do meu pai, a segurança, e o jardim, o refúgio paradisíaco. Dona Maria Marcos, a professora de matemática, rezava pai-nossos antes de começar as aulas. Sua voz áspera, sua aparência pesada e agressiva já atrapalhavam minha necessidade de crer nela: dois mais dois dariam sempre quatro, sem reclames. Isso não podia ser verdade. Não é de se admirar, portanto, que sempre estivesse ligada, de alguma forma, às experiências estéticas. As que não se pode explicar. As que recriam realidades, fazem releituras de mundo (por qual motivo envolvi-me com a história e com as aspirações acadêmico-científicas de objetividade? sabe-se lá). Desenho, pintura, teatro, dança. Os rituais das organizações filosóficas que participei na adolescência conferiram-me, por sua vez, um sentido sagrado com ares de mistério. Sempre gostei de vê-los por dentro, com um olhar oculto, centrado em outros tempos, outros mundos. Nada de realidades, portanto. É. Um certo temperamento esquizóide (mãos e pés gelados, necessidade de aterramento físico). Já adulta, em momentos difíceis, são deuses que se levantam e apresentam mitos, heróis. Épicos, trágicos. Os que me trazem o ato catártico, fazem-me perceber a finitude e me ajudam a suportar o caos cotidiano das realidades trazidas pelos jornais, pelas circunstâncias todas. Socorro. Mais do que nunca, preciso de lirismo, de poesia, de romance, de teatro e de gente doida.

terça-feira, maio 16, 2006

Da Esperança

"O que eu penso não é importante. A única frase que quero defender sem nenhuma restrição é que os seres humanos não podem viver sem esperança".

Do filósofo hermeneuta, Hans-Georg Gadamer, antes de morrer, aos 102 anos.

quarta-feira, maio 03, 2006

Punk Rock Não é só Pro seu Namorado!

É o que está escrito na capa do fichário de escola de minha filha adolescente depois que deixou a fase gótico-metal e adotou o estilo punk-rock. Aliás, quando ouço os sons guturais das bandas independentes que ela escuta agora e me lembro dos anteriores, os do tal metal melódico, fico com a certeza de que eu era feliz e não sabia. Contra o sistema e contra o machismo. Marxista e feminista. As más línguas, que hoje me alcunham de culturalista, diriam que joguei pedras na cruz de Cristo. Questão cármica. Devo merecer. Mas, vamos ao punk rock que não é só pro seu namorado, é pra você também. Nele, as mulheres comandam, tipo, tem os mesmos direitos dos homens, saca? Aborto? legalizar, claro. Questão de direitos. E Don’t cry for boys, they are stupid, também está escrito na mochila. Fico em silêncio, até onde posso, observando tudo. Tentando não alimentar a atitude: se seus pais têm alguma opinião a respeito, contrarie, eles estão sempre errados. Mas, aqui, neste espaço, posso dizer. O blog é meu e escrevo o que quero. Sim, ela precisa flexibilizar. Não falo dos direitos femininos conquistados a duras penas e blá blá blá, nem das injustiças sociais e coisa e tal. Falo sobre os excessos. Penso que teria dificuldades em defender o aborto legal. Votaria filosoficamente contra, questão espiritual pessoal. Agora, Deus, como demorei para admitir e reconhecer minha natureza feminina. Na plenitude do ser mulher e orgulhar-me disso. De gostar até de ficar menstruada e de tolerar a tal TPM. E de integrar, com prazer, todos os atributos dessa essência: a prudência, a espera, as características de amor, acolhimento e cuidados que vêm da mãe. De desejar e apreciar a presença masculina em sua diversidade: a pegada, a proteção, a iniciativa (lindo ver como eles acham que podem resolver tudo sózinhos e são tão frágeis, não é?). Pra não dizer dos aspectos sexuais. Sim, fazer sexo integrando as duas naturezas é, algo, efetivamente...divino. A natureza é sábia, não tenho dúvidas. Como as mulheres dos relevos de Pompéia, já enterrei o meu falo, aos quarenta. E, embora, esteja sozinha, e acredite na igualdade de direitos e sonhe com sociedades utópicas, ainda prefiro ouvir música acompanhada. Um dia ela vai entender, assim espero.

domingo, abril 09, 2006

Escuta

Uma amiga de muitos anos separou-se do marido. E, é claro, vive as dores desse momento difícil. Ao perguntar-lhe os motivos de nunca ter pronunciado palavra sobre o assunto, já que éramos amigas, ela explicou: ah, você diria isso vai passar, não há de ser nada. Depois desse episódio procurei ficar mais atenta aos conselhos que dou aos amigos e conhecidos. Especialmente os que estão vivendo sob pressões de circunstâncias internas e externas. Compreendi, pelo acontecimento, e por experiência própria, que não existe nada mais aviltante e inútil do que ouvir receitas de salvação, conselhos superficiais de quem verdadeiramente não escuta. Escutar o outro significa desenvolver certa empatia. Sim, sei, é dificílimo. Ás vezes, impossível (não foi Wittgenstein que comprovou o fato pela filosofia?). Então, podemos apelar pelo respeito. Não o compreendo, mas respeito suas opções. E se o amo, fico ao seu lado, apenas para segurar sua mão, se você quiser, enquanto caminha à beira do abismo. E, se você se desequilibrar, posso ajudar-lhe com minha presença, quem sabe. Não lhe darei soluções fáceis, porque não sou você e não posso estar no seu lugar. Sim, eu gostaria de levar-lhe à força para o lado seguro da montanha. Grito para que você saia desse lugar, mas compreendo que não faço isso por você, mas porque não gosto de estar próximo a abismos. Grito para você, mas falo por mim. Mas, você prefere andar aí. Tudo bem, por amor, meu coração permanece sereno e presente. Ninguém vai lhe dizer isso quando você estiver vivendo uma situação difícil e estiver dispensando conselhos. Melhor juntar dinheiro e pagar um bom analista. Pena. O mundo precisa de bons e amorosos ouvintes.
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Proust e Shakespeare podiam dar conselhos. Leiam os motivos lá no Dennis D.

domingo, março 26, 2006

É bom cantar...

Quando a gente não tem o que dizer.
É Isso Aí

Ana Carolina
Composição: Ana Carolina
É isso aí
Como a gente achou que ia ser
A vida tão simples é boa
Quase sempre
É isso aí
Os passos vão pelas ruas
Ninguém reparou na lua
A vida sempre continua
Eu não sei parar de te olhar
Eu não sei parar de te olhar
Não vou parar de te olhar
Eu não me canso de olhar
Não sei parar
De te olhar
É isso aí
Há quem acredite em milagres
Há quem cometa maldades
Há quem não saiba dizer a verdade
É isso aí
Um vendedor de flores
Ensinar seus filhos a escolher seus amores
Eu não sei parar de te olhar
Não sei parar de te olhar
Não vou parar de te olhar
Eu não me canso de olhar
Não vou parar de te olhar
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sábado, março 18, 2006

Mate-me Senhor, enquanto sou anjo!

Tenho uma amiga que sempre diz esta frase. Quando está indignada e não encontra solução para os absurdos do mundo. Num café durante a semana, ela me contou um sonho, antes de repetir a súplica. Um em que encontrava um antigo namorado. Ele lhe dizia: amarei-a eternamente, mas sou comprometido. Meu amor por você é sublime, indestrutível. Ela sorria candidamente, ao mesmo tempo em que balançava a cabeça e pensava: também amo a Jesus do mesmo modo, seu FDP. Então, de repente, ela se rebelou. Suavemente, como pedia a circunstância, vale ressaltar. Disse a ele que agradecia amor tão sublime, mas que preferia algo mais pé-no-chão, pele na pele, algo que envolvesse suor, esforço, o sangue da existência. Ele parecia não ouvir. Queria continuar intocável, etéreo, ideal. Ela, então, levantou-se, agradeceu a prosopopéia flácida para acalentar bovinos* e foi embora. Angelical, etérea, inatingível, como exigia o momento.
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*Conversa mole pra boi dormir.

terça-feira, março 14, 2006

O Morador

Mora alguém dentro de mim.
Alguém que me sabe
sabe o tempo e sabe o mundo.
Esse alguém não tem ouvidos
além de sua própria existência.
Com discreta autoridade
alguém ignora minhas vontades,
desfaz projetos e sonhos.
Temo por suas duras determinações
conhecidas logo antes, desde sempre.
Alguém fala forte dentro de mim.
Às vezes, chego a sentir que
somos os mesmos,
mas, ao primeiro desacordo
penso que somos outros.
Aceito-o, então, em meus aposentos.
Submissa, ignorante,
quase inocente, menos distante,
ávida de encontro.

domingo, março 12, 2006

Palavras e Sofrimento

É tão relativamente pouco o que as palavras podem fazer em relação ao sofrimento. Tão relativamente pouco que as palavras podem fazer em relação a seja lá o que for. Mas, que outra coisa temos?

(Höeg, Peter. Senhorita Smilla e o Sentido da Neve).

segunda-feira, março 06, 2006

Celibatária, graças a Deus.

Assisti ao Programa Saia Justa no Gnt, no sábado. Assunto: sexo. E complementos: masturbação feminina (com indicação de manuais na net), preguiça sexual, histeria masculina (pensavam que era doença de mulher, é?), além de outros assuntos como a dificuldade de atualização do mito de Dom Juan (o mascarado prometia casamentos às vítimas, o que, convenhamos, no século XXI não pode ser mais usado como estratégia de sedução). De tudo, destaco uma posição que ouvi das mulheres: celibato não é patologia psicológica, é opção. Sim, sexo dá trabalho. Manter uma libido em altos níveis é um esforço. Pense em sexo, pense em sexo, imagino isso, enquanto escrevo estas poucas linhas e passo os olhos na mesa cheia de projetos, provas, livros e o relógio que marca o início das aulas que vou ministrar ainda hoje. E sexo significa comprometimento, relacionamento, planejamento, prevenção. Para quem tem parceiro fixo, é preciso inovar, seduzir cotidianamente. Tudo muito estudado e pouco espontâneo. Para quem não tem, é preciso escolher e assumir o risco do investimento. Na análise do custo - benefício, as mulheres acham que, muitas vezes, é mais vantajoso apelar para a tecnologia. A que não exige nada mais do que um pouco de técnica e ritmo. Sexo por sexo. Isso é cada vez menos satisfatório. E, admitamos, não anda nada fácil encontrar alguém com boa sinastria astrológica, para a devida ocupação na agenda diária.

quarta-feira, março 01, 2006

A Saída Narrativa

Ouço muitas histórias. De muitas pessoas. Em muitos tons e gêneros. Dos alunos, da família, de alguns poucos amigos. Não raro, as narrativas giram em torno do mesmo assunto, envolvem as mesmas pessoas, que escuto em momentos diferentes, com versões diversas do mesmo fato, da mesma idéia, do mesmo problema. Nem sempre as histórias são sobre outras pessoas. Às vezes, referem-se a mim mesma (um boato alheio, uma opinião, um comentário de alguém), o que é de mais fácil trato. E como aprendo nesta escuta. Aprendo que todos têm razão. Do seu ponto de vista e do seu lugar no mundo. Nestas horas procuro não dizer nada, permanecer em silêncio. E observo que muitos conflitos poderiam ser evitados, com um pouco mais de escuta e boa vontade em ver e sentir o outro, com um pouco mais de flexibilidade. Nada muito significativo, não. Só um pouquinho de sensibilidade. Aquela, garantida entre pessoas que se amam e que precisam se lembrar disso antes de tomar qualquer atitude, antes de emitir qualquer julgamento. Tudo bem, não amamos todo mundo. Mas podemos, pelo menos tentar compreender o outro. Escutar histórias. Parece tão simples e óbvio. Quanto sofrimento poderia ser evitado.
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Li num livro o que Jürgen Habermas, escreveu sobre Marcuse em seu leito de morte:

Antes de completar oitenta anos, e preparando uma entrevista, Marcuse e eu mantivemos uma longa discussão sobre como poderíamos explicar a base normativa da Teoria Crítica. No verão passado, quando o vi pela primeira vez após esta discussão, Herbert estava sob cuidados intensivos de um hospital de Frankfurt, com todo tipo de aparato controlando-o à direita e à esquerda. Nenhum de nós sabia que isso era o princípio do fim. Naquela ocasião, em verdade nosso último encontro filosófico, Herbert lembrou a polêmica que mantivemos anos antes, e me disse: Sabe, já sei de onde se originam nossos juízos de valor mais básicos: na compaixão, em nosso sentimento pelo sofrimento dos demais.
(Jürgen Habermas, 1980).