Por mais que eu me encha de motivos, não consigo ficar infeliz num dia de sol. O grande Deus Rá, pai do Céu e da Terra, venceu a noite e fez nascer o dia. Eliminou a serpente Apópis e trouxe os deuses na barca da manhã. É como se o astro-rei, soberano, redimensionasse o mundo. Sob o sol morno das manhãs, cores, pessoas, situações, tudo fica renovado e cheio de luz. No banho cálido e protetor do sol, o mundo está seguro. Dá uma confiança panteísta no universo. No sol de lá e no de cá. No que nasce todos os dias, para todos, a despeito de tudo, em todos os lugares. O que mais importa?
terça-feira, maio 30, 2006
sexta-feira, maio 26, 2006
O Manobrista
Quem poderia esquecer aquele sorriso? Fecho os olhos e vejo-o com nitidez. Todos os dias, nas mesmas manhãs, um jovem acompanhava-me no estacionamento próximo ao trabalho. Com uma eficiência sem palavras, ele indicava-me vagas e cuidava para que eu colocasse o automóvel, sem dificuldades, em locais seguros. Nas saídas, postava-se ao pé da rampa de acesso à rua. E acenava-me com um sorriso largo, sincero, amigo. Vestia o mesmo uniforme azul e, por muito tempo, anos até, comunica-mo-nos por estes pequenos gestos diários compartilhados à distância, nos poucos minutos em que eu permanecia na meia luz do subsolo. Incontáveis as vezes em que estava preocupada e séria, ou mesmo distraída, e fui tomada por aquele aceno acompanhado de um sorriso luminoso e acolhedor. Até que um dia, ele se aproximou. Ainda não compreendo porque tive medo. Se foi porque ele era Apolo em sua carruagem anunciando o dia em mil raios de luz e vida, um deus que não se podia macular em sua epifania ou por outro motivo qualquer. Ele chegou bem perto e disse: só para dizer que você tem um sorriso muito bonito. Agradeci sem jeito. E nunca tive a oportunidade de dizer-lhe que era um reflexo da luz que me oferecia assim, tão gratuitamente, todos os dias. Perdi a vaga no estacionamento e ele, provavelmente, mudou de emprego. Deve ter ido iluminar outros becos em que burocratas trancafiados em seus automóveis blindados mal percebem a rua, os deuses e os pequenos milagres cotidianos
domingo, maio 21, 2006
A Saída Estética
Penso que nunca fui realista ingênua. Lembro-me de criança. O quarto era o mundo, as ações rotineiras do meu pai, a segurança, e o jardim, o refúgio paradisíaco. Dona Maria Marcos, a professora de matemática, rezava pai-nossos antes de começar as aulas. Sua voz áspera, sua aparência pesada e agressiva já atrapalhavam minha necessidade de crer nela: dois mais dois dariam sempre quatro, sem reclames. Isso não podia ser verdade. Não é de se admirar, portanto, que sempre estivesse ligada, de alguma forma, às experiências estéticas. As que não se pode explicar. As que recriam realidades, fazem releituras de mundo (por qual motivo envolvi-me com a história e com as aspirações acadêmico-científicas de objetividade? sabe-se lá). Desenho, pintura, teatro, dança. Os rituais das organizações filosóficas que participei na adolescência conferiram-me, por sua vez, um sentido sagrado com ares de mistério. Sempre gostei de vê-los por dentro, com um olhar oculto, centrado em outros tempos, outros mundos. Nada de realidades, portanto. É. Um certo temperamento esquizóide (mãos e pés gelados, necessidade de aterramento físico). Já adulta, em momentos difíceis, são deuses que se levantam e apresentam mitos, heróis. Épicos, trágicos. Os que me trazem o ato catártico, fazem-me perceber a finitude e me ajudam a suportar o caos cotidiano das realidades trazidas pelos jornais, pelas circunstâncias todas. Socorro. Mais do que nunca, preciso de lirismo, de poesia, de romance, de teatro e de gente doida.
terça-feira, maio 16, 2006
Da Esperança
"O que eu penso não é importante. A única frase que quero defender sem nenhuma restrição é que os seres humanos não podem viver sem esperança".
Do filósofo hermeneuta, Hans-Georg Gadamer, antes de morrer, aos 102 anos.
Do filósofo hermeneuta, Hans-Georg Gadamer, antes de morrer, aos 102 anos.
quarta-feira, maio 03, 2006
Punk Rock Não é só Pro seu Namorado!
É o que está escrito na capa do fichário de escola de minha filha adolescente depois que deixou a fase gótico-metal e adotou o estilo punk-rock. Aliás, quando ouço os sons guturais das bandas independentes que ela escuta agora e me lembro dos anteriores, os do tal metal melódico, fico com a certeza de que eu era feliz e não sabia. Contra o sistema e contra o machismo. Marxista e feminista. As más línguas, que hoje me alcunham de culturalista, diriam que joguei pedras na cruz de Cristo. Questão cármica. Devo merecer. Mas, vamos ao punk rock que não é só pro seu namorado, é pra você também. Nele, as mulheres comandam, tipo, tem os mesmos direitos dos homens, saca? Aborto? legalizar, claro. Questão de direitos. E Don’t cry for boys, they are stupid, também está escrito na mochila. Fico em silêncio, até onde posso, observando tudo. Tentando não alimentar a atitude: se seus pais têm alguma opinião a respeito, contrarie, eles estão sempre errados. Mas, aqui, neste espaço, posso dizer. O blog é meu e escrevo o que quero. Sim, ela precisa flexibilizar. Não falo dos direitos femininos conquistados a duras penas e blá blá blá, nem das injustiças sociais e coisa e tal. Falo sobre os excessos. Penso que teria dificuldades em defender o aborto legal. Votaria filosoficamente contra, questão espiritual pessoal. Agora, Deus, como demorei para admitir e reconhecer minha natureza feminina. Na plenitude do ser mulher e orgulhar-me disso. De gostar até de ficar menstruada e de tolerar a tal TPM. E de integrar, com prazer, todos os atributos dessa essência: a prudência, a espera, as características de amor, acolhimento e cuidados que vêm da mãe. De desejar e apreciar a presença masculina em sua diversidade: a pegada, a proteção, a iniciativa (lindo ver como eles acham que podem resolver tudo sózinhos e são tão frágeis, não é?). Pra não dizer dos aspectos sexuais. Sim, fazer sexo integrando as duas naturezas é, algo, efetivamente...divino. A natureza é sábia, não tenho dúvidas. Como as mulheres dos relevos de Pompéia, já enterrei o meu falo, aos quarenta. E, embora, esteja sozinha, e acredite na igualdade de direitos e sonhe com sociedades utópicas, ainda prefiro ouvir música acompanhada. Um dia ela vai entender, assim espero.
domingo, abril 09, 2006
Escuta
Uma amiga de muitos anos separou-se do marido. E, é claro, vive as dores desse momento difícil. Ao perguntar-lhe os motivos de nunca ter pronunciado palavra sobre o assunto, já que éramos amigas, ela explicou: ah, você diria isso vai passar, não há de ser nada. Depois desse episódio procurei ficar mais atenta aos conselhos que dou aos amigos e conhecidos. Especialmente os que estão vivendo sob pressões de circunstâncias internas e externas. Compreendi, pelo acontecimento, e por experiência própria, que não existe nada mais aviltante e inútil do que ouvir receitas de salvação, conselhos superficiais de quem verdadeiramente não escuta. Escutar o outro significa desenvolver certa empatia. Sim, sei, é dificílimo. Ás vezes, impossível (não foi Wittgenstein que comprovou o fato pela filosofia?). Então, podemos apelar pelo respeito. Não o compreendo, mas respeito suas opções. E se o amo, fico ao seu lado, apenas para segurar sua mão, se você quiser, enquanto caminha à beira do abismo. E, se você se desequilibrar, posso ajudar-lhe com minha presença, quem sabe. Não lhe darei soluções fáceis, porque não sou você e não posso estar no seu lugar. Sim, eu gostaria de levar-lhe à força para o lado seguro da montanha. Grito para que você saia desse lugar, mas compreendo que não faço isso por você, mas porque não gosto de estar próximo a abismos. Grito para você, mas falo por mim. Mas, você prefere andar aí. Tudo bem, por amor, meu coração permanece sereno e presente. Ninguém vai lhe dizer isso quando você estiver vivendo uma situação difícil e estiver dispensando conselhos. Melhor juntar dinheiro e pagar um bom analista. Pena. O mundo precisa de bons e amorosos ouvintes.
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Proust e Shakespeare podiam dar conselhos. Leiam os motivos lá no Dennis D.
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Proust e Shakespeare podiam dar conselhos. Leiam os motivos lá no Dennis D.
domingo, março 26, 2006
É bom cantar...
Quando a gente não tem o que dizer.
É Isso Aí
Ana Carolina
Composição: Ana Carolina
É isso aí
Como a gente achou que ia ser
A vida tão simples é boa
Quase sempre
É isso aí
Os passos vão pelas ruas
Ninguém reparou na lua
A vida sempre continua
Eu não sei parar de te olhar
Eu não sei parar de te olhar
Não vou parar de te olhar
Eu não me canso de olhar
Não sei parar
De te olhar
É isso aí
Há quem acredite em milagres
Há quem cometa maldades
Há quem não saiba dizer a verdade
É isso aí
Um vendedor de flores
Ensinar seus filhos a escolher seus amores
Eu não sei parar de te olhar
Não sei parar de te olhar
Não vou parar de te olhar
Eu não me canso de olhar
Não vou parar de te olhar
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sábado, março 18, 2006
Mate-me Senhor, enquanto sou anjo!
Tenho uma amiga que sempre diz esta frase. Quando está indignada e não encontra solução para os absurdos do mundo. Num café durante a semana, ela me contou um sonho, antes de repetir a súplica. Um em que encontrava um antigo namorado. Ele lhe dizia: amarei-a eternamente, mas sou comprometido. Meu amor por você é sublime, indestrutível. Ela sorria candidamente, ao mesmo tempo em que balançava a cabeça e pensava: também amo a Jesus do mesmo modo, seu FDP. Então, de repente, ela se rebelou. Suavemente, como pedia a circunstância, vale ressaltar. Disse a ele que agradecia amor tão sublime, mas que preferia algo mais pé-no-chão, pele na pele, algo que envolvesse suor, esforço, o sangue da existência. Ele parecia não ouvir. Queria continuar intocável, etéreo, ideal. Ela, então, levantou-se, agradeceu a prosopopéia flácida para acalentar bovinos* e foi embora. Angelical, etérea, inatingível, como exigia o momento.
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*Conversa mole pra boi dormir.
terça-feira, março 14, 2006
O Morador
Mora alguém dentro de mim.
Alguém que me sabe
sabe o tempo e sabe o mundo.
Esse alguém não tem ouvidos
além de sua própria existência.
Com discreta autoridade
alguém ignora minhas vontades,
desfaz projetos e sonhos.
Temo por suas duras determinações
conhecidas logo antes, desde sempre.
Alguém fala forte dentro de mim.
Às vezes, chego a sentir que
somos os mesmos,
mas, ao primeiro desacordo
penso que somos outros.
Aceito-o, então, em meus aposentos.
Submissa, ignorante,
quase inocente, menos distante,
ávida de encontro.
Alguém que me sabe
sabe o tempo e sabe o mundo.
Esse alguém não tem ouvidos
além de sua própria existência.
Com discreta autoridade
alguém ignora minhas vontades,
desfaz projetos e sonhos.
Temo por suas duras determinações
conhecidas logo antes, desde sempre.
Alguém fala forte dentro de mim.
Às vezes, chego a sentir que
somos os mesmos,
mas, ao primeiro desacordo
penso que somos outros.
Aceito-o, então, em meus aposentos.
Submissa, ignorante,
quase inocente, menos distante,
ávida de encontro.
domingo, março 12, 2006
Palavras e Sofrimento
É tão relativamente pouco o que as palavras podem fazer em relação ao sofrimento. Tão relativamente pouco que as palavras podem fazer em relação a seja lá o que for. Mas, que outra coisa temos?
(Höeg, Peter. Senhorita Smilla e o Sentido da Neve).
(Höeg, Peter. Senhorita Smilla e o Sentido da Neve).
segunda-feira, março 06, 2006
Celibatária, graças a Deus.
Assisti ao Programa Saia Justa no Gnt, no sábado. Assunto: sexo. E complementos: masturbação feminina (com indicação de manuais na net), preguiça sexual, histeria masculina (pensavam que era doença de mulher, é?), além de outros assuntos como a dificuldade de atualização do mito de Dom Juan (o mascarado prometia casamentos às vítimas, o que, convenhamos, no século XXI não pode ser mais usado como estratégia de sedução). De tudo, destaco uma posição que ouvi das mulheres: celibato não é patologia psicológica, é opção. Sim, sexo dá trabalho. Manter uma libido em altos níveis é um esforço. Pense em sexo, pense em sexo, imagino isso, enquanto escrevo estas poucas linhas e passo os olhos na mesa cheia de projetos, provas, livros e o relógio que marca o início das aulas que vou ministrar ainda hoje. E sexo significa comprometimento, relacionamento, planejamento, prevenção. Para quem tem parceiro fixo, é preciso inovar, seduzir cotidianamente. Tudo muito estudado e pouco espontâneo. Para quem não tem, é preciso escolher e assumir o risco do investimento. Na análise do custo - benefício, as mulheres acham que, muitas vezes, é mais vantajoso apelar para a tecnologia. A que não exige nada mais do que um pouco de técnica e ritmo. Sexo por sexo. Isso é cada vez menos satisfatório. E, admitamos, não anda nada fácil encontrar alguém com boa sinastria astrológica, para a devida ocupação na agenda diária.
quarta-feira, março 01, 2006
A Saída Narrativa
Ouço muitas histórias. De muitas pessoas. Em muitos tons e gêneros. Dos alunos, da família, de alguns poucos amigos. Não raro, as narrativas giram em torno do mesmo assunto, envolvem as mesmas pessoas, que escuto em momentos diferentes, com versões diversas do mesmo fato, da mesma idéia, do mesmo problema. Nem sempre as histórias são sobre outras pessoas. Às vezes, referem-se a mim mesma (um boato alheio, uma opinião, um comentário de alguém), o que é de mais fácil trato. E como aprendo nesta escuta. Aprendo que todos têm razão. Do seu ponto de vista e do seu lugar no mundo. Nestas horas procuro não dizer nada, permanecer em silêncio. E observo que muitos conflitos poderiam ser evitados, com um pouco mais de escuta e boa vontade em ver e sentir o outro, com um pouco mais de flexibilidade. Nada muito significativo, não. Só um pouquinho de sensibilidade. Aquela, garantida entre pessoas que se amam e que precisam se lembrar disso antes de tomar qualquer atitude, antes de emitir qualquer julgamento. Tudo bem, não amamos todo mundo. Mas podemos, pelo menos tentar compreender o outro. Escutar histórias. Parece tão simples e óbvio. Quanto sofrimento poderia ser evitado.
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Li num livro o que Jürgen Habermas, escreveu sobre Marcuse em seu leito de morte:
Antes de completar oitenta anos, e preparando uma entrevista, Marcuse e eu mantivemos uma longa discussão sobre como poderíamos explicar a base normativa da Teoria Crítica. No verão passado, quando o vi pela primeira vez após esta discussão, Herbert estava sob cuidados intensivos de um hospital de Frankfurt, com todo tipo de aparato controlando-o à direita e à esquerda. Nenhum de nós sabia que isso era o princípio do fim. Naquela ocasião, em verdade nosso último encontro filosófico, Herbert lembrou a polêmica que mantivemos anos antes, e me disse: Sabe, já sei de onde se originam nossos juízos de valor mais básicos: na compaixão, em nosso sentimento pelo sofrimento dos demais.
(Jürgen Habermas, 1980).
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Li num livro o que Jürgen Habermas, escreveu sobre Marcuse em seu leito de morte:
Antes de completar oitenta anos, e preparando uma entrevista, Marcuse e eu mantivemos uma longa discussão sobre como poderíamos explicar a base normativa da Teoria Crítica. No verão passado, quando o vi pela primeira vez após esta discussão, Herbert estava sob cuidados intensivos de um hospital de Frankfurt, com todo tipo de aparato controlando-o à direita e à esquerda. Nenhum de nós sabia que isso era o princípio do fim. Naquela ocasião, em verdade nosso último encontro filosófico, Herbert lembrou a polêmica que mantivemos anos antes, e me disse: Sabe, já sei de onde se originam nossos juízos de valor mais básicos: na compaixão, em nosso sentimento pelo sofrimento dos demais.
(Jürgen Habermas, 1980).
terça-feira, fevereiro 28, 2006
Na Varanda

Sentada na varanda da casa
observo o céu límpido e profundo da manhã.
Cega pelo sol vejo tudo inundado de luz intensa
sobre a grama verde brilhante.
Uma rajada de vento surdo
faz voltas e acaricia-me a face.
Pouso o livro sobre o colo.
De olhos fechados meu corpo é acolhido
e embalado pela luz branca do sol morno.
E se o céu perder o azul?
Ouço a frase num rádio distante
enquanto sinto o vento no roçar das folhas
e planto-me com tronco e raízes.
Estendo os braços para brincar com o vento
compartilho a alegria dos pássaros
e o tilintar dos talheres na cozinha é música.
Uma vibração sonora indica um carro adiante
na estrada em que viajo sentada na varanda
para chegar a lugar nenhum.
domingo, fevereiro 26, 2006
Contínuo
Deito sentimentos na folha branca intacta e o sangue corre pelas veias sem transbordar ou encontrar expressão nos gestos loucos do teclado no silêncio da boca. Os órgãos trabalham em comandos mínimos automáticos e mantém aquilo a que chamo vida por não ter outro nome.Tanta indefinição esgota as linhas e entrelinhas do texto que seleciono tudo e apago os símbolos mesmo que o coração mantenha o ritmo e os olhos fiquem abertos e a folha branca continue sem a tinta das gotas que formam rios represados disciplinados em seu curso.A folha branca insiste e lembra-me do oceano. Desfaço o contratexto e mantenho as palavras sempre poucas. Insuficientes. De todo inúteis.
segunda-feira, fevereiro 06, 2006
Noturno
Escalo paredes de pedra.
Apoios frágeis
largam-se da base.
O gato cai da janela.
Solto-me das bordas
e sou levada pela rua
em águas incontidas.
(preocupação).
Acendo as luzes.
Sinto frio, calor,
uma pressão nas costas,
que é quase dor.
Algo toca-me a nuca.
(medo).
Ligo o som de
um lamento tibetano.
Mantras ao fundo
revelam caos e sofrimento
no tumulto multicolorido dos passantes.
(dor).
Apoios frágeis
largam-se da base.
O gato cai da janela.
Solto-me das bordas
e sou levada pela rua
em águas incontidas.
(preocupação).
Acendo as luzes.
Sinto frio, calor,
uma pressão nas costas,
que é quase dor.
Algo toca-me a nuca.
(medo).
Ligo o som de
um lamento tibetano.
Mantras ao fundo
revelam caos e sofrimento
no tumulto multicolorido dos passantes.
(dor).
terça-feira, janeiro 31, 2006
Manter o foco
Além de surda, nasci com um desvio ocular de convergência (alguém tem idéia do que é corrigir isso num aparelho em que se fica duas horas olhando para o mesmo ponto, com tanta vida, tanta vida lá fora?)
Morte aos ortoptistas e especialistas!
Meus olhos desejavam abarcar o mundo.
Morte aos ortoptistas e especialistas!
Meus olhos desejavam abarcar o mundo.
sábado, janeiro 28, 2006
Pois, é.
Eu tinha dezoito anos e fazia faculdade de história. Ele, vinte. Seria arquiteto. Éramos puros e acreditávamos no amor romântico.
Eu poderia começar assim, este post. Mas, vou trilhar outro caminho.
Ontem, amanheci aborrecida, preocupada. Coloquei uma roupa amarela, que me deixou com tonalidade hepática na pele, mas que me lembrava o sol, que tanto amo e necessito. Pela pressa e pelo estado de espírito, acho que mal usei um batom (mulheres entenderão o sentido deste detalhe no decorrer da leitura do texto). Prendi o cabelo num rabo de cavalo despreocupado (meu pouco cabelo não gosta de mim), saí de casa e fui para o trabalho (aquele, dos meus problemas todos e desafios diários). Passei, antes, na faculdade para organizar uns papéis (reinício do semestre na semana que vem) e cheguei ao meu destino final um pouco tarde. Sentei-me na mesa, liguei o micro e permaneci arrumando coisas, como é de costume (a luz do meu escritório é a única que se mantém acesa, por contenção de gastos e pela minha solidão). De repente, vi um vulto que se aproximava. Não o haviam anunciado. Quem seria? Não era um credor, mas ele. O arquiteto, aquele, dos vinte anos. Levantei-me surpresa e ouvi, num abraço afetuoso: tentei ligar para você, mas o telefone não era mais o mesmo, então, resolvi visitar-lhe, pessoalmente. Parabéns pelo aniversário. Fiquei sem palavras (quase disse “beijos para todos”, mas a frase era inadequada para a ocasião). Ele se sentou e conversamos por mais ou menos uma hora. Pareceu-me o mesmo: a mesma tenacidade, a mesma gentileza à toda prova, os mesmos cabelos, agora nos ombros. Contei-lhe que, no ano passado, depois de uma conversa fortuita por telefone, escrevi um texto, inspirado nele, que se intitulava Diálogo Para um Amor Perdido. Ele, então, argumentou: Então, é assim que você percebe? Como um amor perdido? Eu considero um amor eterno.
Pois, é (outra expressão eloqüente para dizer o indizível).
Pois, é.
Em homenagem a ele, vou republicar o texto. E, antes, que me perguntem, ele é casado, sim, e o amor está mais do que guardado, sublimado. Sem esperanças cor-de-rosa, portanto.
Diálogo para um amor perdido
Eu poderia começar assim, este post. Mas, vou trilhar outro caminho.
Ontem, amanheci aborrecida, preocupada. Coloquei uma roupa amarela, que me deixou com tonalidade hepática na pele, mas que me lembrava o sol, que tanto amo e necessito. Pela pressa e pelo estado de espírito, acho que mal usei um batom (mulheres entenderão o sentido deste detalhe no decorrer da leitura do texto). Prendi o cabelo num rabo de cavalo despreocupado (meu pouco cabelo não gosta de mim), saí de casa e fui para o trabalho (aquele, dos meus problemas todos e desafios diários). Passei, antes, na faculdade para organizar uns papéis (reinício do semestre na semana que vem) e cheguei ao meu destino final um pouco tarde. Sentei-me na mesa, liguei o micro e permaneci arrumando coisas, como é de costume (a luz do meu escritório é a única que se mantém acesa, por contenção de gastos e pela minha solidão). De repente, vi um vulto que se aproximava. Não o haviam anunciado. Quem seria? Não era um credor, mas ele. O arquiteto, aquele, dos vinte anos. Levantei-me surpresa e ouvi, num abraço afetuoso: tentei ligar para você, mas o telefone não era mais o mesmo, então, resolvi visitar-lhe, pessoalmente. Parabéns pelo aniversário. Fiquei sem palavras (quase disse “beijos para todos”, mas a frase era inadequada para a ocasião). Ele se sentou e conversamos por mais ou menos uma hora. Pareceu-me o mesmo: a mesma tenacidade, a mesma gentileza à toda prova, os mesmos cabelos, agora nos ombros. Contei-lhe que, no ano passado, depois de uma conversa fortuita por telefone, escrevi um texto, inspirado nele, que se intitulava Diálogo Para um Amor Perdido. Ele, então, argumentou: Então, é assim que você percebe? Como um amor perdido? Eu considero um amor eterno.
Pois, é (outra expressão eloqüente para dizer o indizível).
Pois, é.
Em homenagem a ele, vou republicar o texto. E, antes, que me perguntem, ele é casado, sim, e o amor está mais do que guardado, sublimado. Sem esperanças cor-de-rosa, portanto.
Diálogo para um amor perdido
Para L.R.J.
Vazio no estômago, respiração curta. Os dedos gelados discam um número de celular. Está chamando. Demora a atender. Pensa em desligar, mas antes que recoloque o telefone no gancho, uma voz grave, diferente, quase ríspida e sem emoção atende do outro lado da linha. “Alô!” Será ele? E se não for, o que dirá? Desliga? Reflete por um segundo antes de responder hesitante: Gostaria de falar com Diego Lima. A voz sai trêmula e insegura. “É ele”. É ele? Repete de forma incrédula e idiota. “É sim”. Ele confirma num tom inquiridor. Aqui é Marta Flores. “Marta?” Ele quase a interrompe num ato estremecido, de outro tom. “Que surpresa”! Completa. Numa emoção cheia de expectativas, Marta continua: Você pode falar agora? “Estou no trânsito”, Diego responde, “mas chegarei ao meu destino daqui a dez minutos. Posso te ligar de volta nesse número?” Marta desmorona. Ele não quer falar, pensa. Não deveria ter ligado. Se ele fosse objetivo não saberia o que dizer depois de tantos anos. Não é necessário, conclui . Ligo numa outra ocasião, completa Marta com voz firme, desistindo. Todavia, Diego insiste: “Não, por favor! Então ligue para mim daqui a dez minutos, ok?” Está certo, responde Marta, sabendo que não cumpriria a promessa. Não deveria ter ligado, martiriza-se. Quantos anos a separavam dele? Quinze, vinte? Tinha saudades sem dor. Saudades de sua inocência e do amor imenso que sentia. Um amor incondicional, fiel, silencioso, generoso e tímido. E era um amor correspondido. Alimentado por cartas, desenhos e retratos que ele elaborava com arte, bilhetes apaixonados escritos em guardanapos de papel. O tempo corria. 5 minutos. Por que mesmo haviam chegado ao fim? Não conseguia se lembrar. Foi um final distraído. Um “até mais” com um beijo apaixonado no alto de uma escada rolante de um shopping recém inaugurado, recorda-se, em fragmentos. Havia ligado por saudades. Viu sua foto num jornal com divulgação de seus trabalhos artísticos. A mesma tez indiana e os mesmos olhos negros. Os olhos ternos que tanto amou. 12 minutos. Pegou no telefone e o colocou distante. Melhor assim, decidiu. Entretanto, antes que deixasse a sala, o aparelho toca alto. Atende, num sobressalto. “Marta, sou eu, Diego. Você não ligou, resolvi arriscar o número.” Marta enterneceu-se...
Conversaram longamente. Falaram de amenidades, coisas de trabalho, sobre os rumos que a vida de cada um tinha tomado... num diálogo cordial, discreto, tentando disfarçar a emoção. Ao final, nas despedidas, falaram da saudade. Num ato de coragem, como se fosse o último diálogo que teriam em vida, Marta ousa revelar: Eu o amarei pelo resto dos meus dias... “Eu também”, Diego afirma, correspondendo, como fazia sempre. “Independente de qualquer coisa, eu sempre vou amar você”, diz, emocionado. Até um dia, “até um dia”. Desligam.
Conversaram longamente. Falaram de amenidades, coisas de trabalho, sobre os rumos que a vida de cada um tinha tomado... num diálogo cordial, discreto, tentando disfarçar a emoção. Ao final, nas despedidas, falaram da saudade. Num ato de coragem, como se fosse o último diálogo que teriam em vida, Marta ousa revelar: Eu o amarei pelo resto dos meus dias... “Eu também”, Diego afirma, correspondendo, como fazia sempre. “Independente de qualquer coisa, eu sempre vou amar você”, diz, emocionado. Até um dia, “até um dia”. Desligam.
quinta-feira, janeiro 26, 2006
Beijos para todos
Amanhã é meu aniversário. 42 anos. Não sei bem o que isso significa. A não ser quando olho no espelho e imediatamente me lembro das propostas (sempre recusadas) do médico, meu compadre, que tem uma clínica de estética (o que será que ele quis dizer com as tais propostas, né? Melhor não investigar). Aquário, ascendente câncer (dura por fora, mole por dentro). Não gosto de aniversários. Sou absolutamente sem graça para cumprimentos. Fico encabulada, e por instantes (especialmente quando começam a dizer coisas bonitas e coisa e tal) fico surda dos dois ouvidos. Não trabalhei isso na terapia a tempo. Elogios, então? Deus, que coisa mais constrangedora. Não gosto. Fujo quilômetros. Este aniversário está engraçado, indefinido, como muitas coisas na minha vida. Todavia, depois de examinar a situação como um todo (financeira, emocional, grupal e o resto), decidi com MC e Góia (minha amiga-irmã), que iremos comer uma pizza de rúcula lá na Pizzaria Paulista. Fico aqui torcendo para ir pouca gente (Góia é uma agenciadora sacana, uma fdp*). Para que eu possa dar mais atenção às pessoas e ir embora logo (durmo cedo, que veieira). E, se disserem coisas bonitas, eu vou ficar surda. E, também, dura como pedra, nestes dias de bipolaridade momento down (como diz a Perséfone), em que choro vendo novela. E, se eu tiver que dizer alguma coisa, farei como uma vez me contaram: a moça tinha que fazer um discurso solene e não sabia o que dizer. Então, subiu no palco, agarrou o microfone e arriscou a frase síntese: beijos para todos, obrigada.
______________
*fdp: flor de pequi.
quarta-feira, janeiro 25, 2006
terça-feira, janeiro 24, 2006
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