quinta-feira, janeiro 26, 2006
Beijos para todos
quarta-feira, janeiro 25, 2006
terça-feira, janeiro 24, 2006
A Última Gota
Não acreditam em mim?
Visitem, com tempo, o site do Instituto Nina Rosa. E mostrem para os seus filhos. Ainda seremos humanos no século XXI? Quem sabe.
segunda-feira, janeiro 23, 2006
Desejo
domingo, janeiro 22, 2006
Temporal
Viva para o PRAZER.
ESCOLHA o que te faz feliz.
Faça tudo HOJE.
(A superficialidade da
auto ajuda motivacional
provoca-me risos).
Escrevo isto enquanto me preparo
para mais um dia.
Em que faço o que não gosto
e não escolho fazer.
No hoje que se tece em estações.
De uma existência, talvez.
Tarefas que se cumprem num tempo humano.
Um átimo do que serve à eternidade
de uma vida impessoal.
Pelo menos, é verão.
quarta-feira, janeiro 18, 2006
Construção de Intimidade
Nada mais constrangedor, rimos às gargalhadas. Fiquei chocada. Eles parecem tão arrumadinhos e sóbrios, tão respeitosos. E eles não se separaram, não. Ao contrário, vão comemorar bodas de prata. Lembramos, então, de uma passagem do filme Gênio Indomável. Quando o psicólogo conta das flatulências incontinentes da esposa já falecida e diz, com o exemplo, que num relacionamento, é a aceitação das idiossincrasias do outro que tece a teia da intimidade. Só eu sabia algumas particularidades dela, e isso fazia com que ela fosse minha, de alguma forma, confessa o psicólogo. Ninguém é perfeito, ele conclui, resta saber se são perfeitos um para o outro.
segunda-feira, janeiro 16, 2006
Roberto Crema
domingo, janeiro 15, 2006
Recado
sábado, janeiro 14, 2006
Saori San
Fui dormir cedo. Não raro, ela vai à minha cama para ajeitar as cobertas, dar-me um beijo de boa noite, antes de fechar a porta da biblioteca para conversar com os amigos na net e ouvir bandas de metal.
Amo minha filha. E não é só pelo fato em si. É uma conquista contínua. E ela está se tornando uma bela mulher, em muitos sentidos.
sexta-feira, janeiro 13, 2006
Os Sonhos
E na leveza do fundo
onde se cumprem os sonhos,
juntam-se duas vontades
Para cumprir um desejo.
Um beijo incendeia a vida
com um relâmpago e um trovão
e em uma metamorfose
meu corpo não era meu corpo;
era como penetrar no centro do universo:
O abraço mais pueril,
e o mais puro dos beijos
até sermos reduzidos
em um único desejo:
Seu olhar e meu olhar
Como um eco repetindo, sem palavras:
mais adentro, mais adentro
até o mais além do todo
pelo sangue e pelos ossos.
Mas sempre acordo
e sempre quero estar morto
para seguir com minha boca
enredada em seus cabelos.
(Ramon Sampedro. Cartas do Inferno)
domingo, janeiro 08, 2006
Alma Nua
Na primeira estrofe, já uma solicitação:
Ó Pai
Não deixes que façam de mim
O que da pedra tu fizestes
E que a fria luz da razão
Não cale o azul da aura que me vestes
Peço ao Pai que não permita que eu compreenda o mundo apenas pela fria luz da razão. Sim, a razão não é suficiente como chave de interpretação do mundo. Os artistas e poetas sabem, pois utilizam a intuição. E, o compositor ainda solicita: mesmo que eu tente verbalizar, compreender racionalmente todas as coisas, não permita que elas sejam apresentadas como pedra fria, letra morta: que minhas coisas tenham o azul das coisas celestes, uma aura nem sempre visível, mas presente, do mistério que as envolve, do sentido que apreendo além da razão, embora não saiba nominá-lo.
Dá-me leveza nas mãos
Faze de mim um nobre domador
Laçando acordes e versos
Dispersos no tempo
Pro templo do amor
Aqui, uma outra súplica importante: o autor pede leveza nas mãos. Quer interpretar o mundo, agir nele, mas solicita fazer isso com suavidade. Intenciona lutar, domar feras, mas pede ao Pai que o ajude a realizar sua ação com poesia, com versos. E que mesmo que sua produção seja dispersa, inconstante e com freqüência temporal variável para o tempo humano, ou mesmo incompreensível racionalmente, ela possa caminhar rumo à beleza. Chicotes, facas e armas só devem ser utilizadas com a linguagem da suavidade e com esta intenção: o nobre desejo de auxiliar na caminhada rumo ao amor. O verso posterior confirma a idéia:
Que se eu tiver que ficar nu
Hei de envolver-me em pura poesia
E dela farei minha casa,
minha asa
loucura de cada dia.
Na criação genuína, onde a razão contribuiu tanto quanto a intuição, estou nu, porque não é possível criar sem desvestir-se. Do que já aprendi, dos modelos absolutamente pré-estabelecidos, que podem auxiliar, mas não determinar os rumos e o resultado da obra final. Para abrir-se ao novo, é preciso esvaziar-se, estar desarmado. E esta nossa nudez, se por um lado nos traz insegurança e frio, veste-nos da beleza, da poesia da criação. Estou nu, mas a ousadia criativa me devolve meu lugar de poder e sabedoria. Esta atitude me confere asas e me faz voar, em êxtase e liberdade. E, também, me faz louco, porque não há como vivê-la sem flexibilidade anticonvencional.
Dá-me o silêncio da noite
Pra ouvir o sapo namorando a lua
Dá-me direito ao açoite
Ao ócio, ao cio
À vadiagem pela rua
Vander Lee continua assim. Pedindo ao Pai o silêncio. A quietude, a partir da qual posso ouvir vozes mais sutis e compreender as coisas simples como um sapo namorando a lua. A parte do valor poético da estrofe, o autor, pede, ainda o direito de ser humano. Errar, talvez, quando usa o acoite, ou dá expressão aos seus desejos. Na estrofe seguinte, ele "exige" o direito de se contradizer, de não ter que ser perfeito.
Ó meu Pai,
dá-me o direito
De dizer coisas sem sentido
De não ter que ser perfeito
Pretérito, sujeito, artigo definido
Na música, ele, também, solicita o ócio. O necessário para perceber o que vem da intuição. Desocupar-se para viver a sabedoria. Quem cria, sabe que não é na correria do relógio humano do tempo que nascem os insights originais. Como ensina: é preciso perder a hora para encontrar a rima.
Deixa-me perder a hora
Pra ter tempo de encontrar a rima
Ver o mundo de dentro pra fora
E a beleza que aflora de baixo pra cima
Minha obra assim, terá significados não visíveis, talvez, mas que podem ser sentidos de “dentro pra fora”, pois nela está presente o que não controlo só com o intelecto, mas que me chega do mistério e é captada, num lampejo, pela minha razão que a expressa. E a transforma em verso, em poesia, em música.
Virar os dados do destino
De me contradizer, de não ter meta
Me reinventar, ser meu próprio Deus
Viver menino, morrer poeta
E, quando eu errar, pois sou humano e contraditório, peço ao Pai para recomeçar, me reinventar e ser o meu próprio Deus, o que é criador, assim como eu. Encontrá-lo em meio à contradição, à dor dos meus erros, à minha falta de direção. Assim, posso viver como uma criança que tem sempre olhos novos e se dispõe a aprender, sempre.
Leiam toda a letra e ouçam a bela voz do compositor no site
http://www.vanderlee.com.br/
E, finalmente, comprem o disco. Valerá a pena.
Cura Hermenêutica
Jean-Yves Leloup
sábado, dezembro 31, 2005
Passagem
Ele a segurou pela mão
e a elevou.
Mostrou-lhe os campos verdes, além.
Era preciso aceitar a dor e a morte
para conhecê-los.
domingo, dezembro 18, 2005
Entrega
entre paredes altas e pedras antigas.
Vejo janelas altas.
Portas centenárias
olham-me de cima, trancadas.
Há um odor indefinido.
Flores envelhecidas,
incensos apagados, cera queimada.
Procuro a passagem obscura,
mas não a encontro.
Todos já foram embora.
Estamos só eu, meus passos abafados e
gestos contidos que movem o espaço.
Piso devagar para aumentar o silêncio
e captar vozes distantes, sons inaudíveis.
O peito respira com força.
Sustenta o peso das costas, arrepios na nuca.
Sem dores ou perguntas.
Sou só sensações.
quinta-feira, dezembro 15, 2005
Sem Efeito
Na escuridão da lua,
sábado, dezembro 10, 2005
Acolhimento
às paredes
do peito
em massas de
inquietude
temor
dor.
Alimento
a criança
com leite
sedento.
Abraço o
corpo quente
em tetos
gotejantes
na chuva
fina
fria
incessante.
quinta-feira, dezembro 08, 2005
Reverberação
Voam estilhaços
no vento que dança.
Arrombo portas.
Ganho hematomas
em braços feridos
e livres.
Descubro o telhado.
A luz do sol
inunda aposentos
e me deixa cega.
segunda-feira, dezembro 05, 2005
Mansidão Hermenêutica II
Percebo sua postura corporal
e apreendo sentidos ocultos.
Concentro-me na certeza
de que somos animados
pela mesma fonte.
Falo mais alto que ele
e expulso-o da sala.
Ele se acalma e vai
embora, em paz.
(ser manso não é ser passivo,
mas obediente)
sábado, dezembro 03, 2005
Mansidão Hermenêutica
Percebo sua postura corporal.
Apreendo sentidos além
da rigidez aparente.
Deixo que fale.
Cruzo os dedos das mãos
sobre a mesa e permaneço
em silêncio
enquanto leio significados.
Ele me faz muitas perguntas
e dá, ele mesmo, as respostas.
Visualizo seu coração e
concentro-me na certeza de
que somos animados
pela mesma fonte.
Ele se transforma
num pequeno ponto negro
sobre uma folha branca.
sexta-feira, dezembro 02, 2005
Nino, o predador
Incoerência
quinta-feira, dezembro 01, 2005
Espasmo
do que sei
na palavra solta
sempre contida
inexata.
Ela vem
de algum lugar
entre o estômago
e o coração.
Escrevo dor
como quem
escreve amor
em movimentos
involuntários
e rítmicos.
quarta-feira, novembro 30, 2005
Espelho
Só eles existem
no cristal especular.
Uma rosa no peito.
A dor incessante que
jorra da fonte rubra.
Um vazio incômodo.
O que preenche espaços
entre o estômago
e o coração.
Uma alma nova.
É a que sai pela boca
numa golfada
de vômito.
segunda-feira, novembro 28, 2005
Casa
os mesmos gestos.
Portas trancadas.
Janelas de vidro.
Paredes
quadros
livros
retratos
olham inertes.
Passos
armários
a caneta
roçando o papel.
A mandala rúnica
evoca sons
sobre a mesa.
Tudo é ruído e silêncio.
sábado, novembro 26, 2005
Engano
e a levou para longe do vale da morte.
Mostrou-lhe campos verdes.
Sua expressão era doce
e sua boca estava cheia de palavras.
Vê, isto tudo pode ser nosso.
Foi, então, que ela percebeu.
Aquele não era o caminho do encontro.
Agradeceu-lhe o gesto
e voltou solitária aos campos de luta.
terça-feira, novembro 22, 2005
Luxor
A respiração espectral
dos olhos atrás dos portais.
Com olhos semicerrados
pela luz cega caminho.
Em círculos inúteis
por entre as altas colunas.
Tudo está reduzido a pó.
Poeira, pedra, ruína.
segunda-feira, novembro 21, 2005
Expectante
o dia tem uma estranha calma.
No vazio desta antiga espera
tudo agora é silêncio.
sábado, novembro 19, 2005
Estratégia
acima do pensar e do sentir,
cumpro o caminho sobre os
ponteiros dos dias.
Sonho com a luz do sol
à meia noite.
Sento-me à sombra
sob o sol do meio dia.
Então, simplesmente, caminho.
quinta-feira, novembro 17, 2005
Pendências
Meu coração dói-me como um corpo estranho. Meu cérebro dorme tudo quanto sinto. Sim, é o princípio do outono, e o conhecimento claro, na hora límpida, da insuficiência anônima de tudo. O outono, sim, o outono, o que há ou o que vai haver, e o cansaço antecipado de todos os gestos, a desilusão antecipada de todos os sonhos. Que posso eu esperar e de quê? Já, no que penso de mim, vou entre as folhas e os pós do átrio, na órbita sem sentido de coisa nenhuma, fazendo som de vida nas lages limpas que um sol angular doura de fim não sei onde. Tudo quanto pensei, tudo quanto sonhei, tudo quanto fiz ou não fiz, tudo isso irá no outono...
(Pessoa, F.O Livro do Desassossego)
domingo, novembro 13, 2005
O Mestre e o Cavalo
Um discípulo, que amava e admirava seu mestre, resolveu observá-lo em todos os detalhes, acreditando que, ao fazer o que ele fazia, também adquiriria sua sabedoria. O mestre só usava roupas brancas, o discípulo passou a vestir-se da mesma maneira. O mestre era vegetariano, o discípulo deixou de comer qualquer tipo de carne, substituindo sua alimentação por ervas. O mestre era um homem austero, o discípulo resolveu dedicar-se ao sacrifício, passando a dormir numa cama de palha. Passado algum tempo, o mestre notou a mudança de comportamento de seu discípulo e foi ver o que estava acontecendo. "Estou subindo os degraus da iniciação, foi a resposta. "O branco de minha roupa mostra a simplicidade da busca, a alimentação vegetariana purifica meu corpo e a falta de conforto faz com que eu apenas pense nas coisas espirituais". Sorrindo o mestre o levou para um campo, onde um cavalo pastava.“Você passou este tempo olhando apenas para fora, quando isso é o que menos importa”, disse.“Está vendo aquele animal ali? Ele tem a pele branca, come apenas ervas e dorme num celeiro com palha no chão. Você acha que ele tem cara de santo ou chegará algum dia a ser um verdadeiro mestre"?
Sofrimento Perspectivo
quarta-feira, novembro 09, 2005
Caminhos
- Isso depende muito do lugar para onde você quer ir. - disse o Gato.
- Não me importa muito onde... - disse Alice.
- Nesse caso não importa por onde você vá. - Disse o Gato.
- ...contanto que eu chegue a algum lugar. - acrescentou Alice como explicação.
- É claro que isso acontecerá. - Disse o Gato - desde que você ande durante algum tempo.( Lewis Carroll)
sábado, novembro 05, 2005
Raul Gil
Por momentos, cheguei a bendizer a Record e a Igreja Universal do Reino de Deus.
sexta-feira, novembro 04, 2005
João de Barro
Sentada no banco junto à fonte,
solitária e introspectiva,
observo os pássaros que gorjeiam alegres .
O João-de-barro pousa no teto de sua casinha.
Minutos depois vejo-o entrando e saindo,
levantando as asas
num gesto de louvor e contentamento.
Tive vontade de entrar naquela morada,
tão pequenina e aconchegante.
Ah..se pudesse... estaria ali, quietinha, em silêncio,
Assim ,talvez , ficaria incólume do frio que reside
em minha alma.
É impossível manter este anseio infantil...quimérico.
Volto-me para outras paragens
Revejo os pássaros alegres...ágeis...barulhentos.
Eles vão e vem.....voam e repousam num festim
sem igual.
Em pares, voam muito alto e alguns retornam.
Há aquele que se distanciou do bando, sem par,
solitário e triste, tenta alcançar os companheiros
que se foram...para sempre.
quarta-feira, novembro 02, 2005
Morrer, transformar-se.
“Não dormes sob os ciprestes,
Pois não há sono no mundo.
..............................................
O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem o teu ser profundo.
Vem a noite, que é a morte,
E a sombra acabou sem ser.
Vais na noite só recorte,
Iguais a ti sem querer.
Mas na estalagem do Assombro
Tiram-te os anjos a capa:
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.
Então, Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu,
Não tens vestes, não tens nada:
Tens só teu corpo, que és tu.
Por fim, na funda caverna,
Os deuses despem-te mais.
Teu corpo cessa, alma externa,
Mas vês que são seus iguais.
. .............................................
A sombra das tuas vestes
Ficou entre nós na Sorte.
Não estás morto entre os ciprestes.
..............................................
Neófito, não há morte”.
(Iniciação. Fernando Pessoa)
segunda-feira, outubro 17, 2005
Releitura
Quando o amor vos chamar, segui-o,
domingo, outubro 09, 2005
Uma vida, nos detalhes.
segunda-feira, outubro 03, 2005
Luis N
domingo, outubro 02, 2005
Ensinar, aprender...
Tinha dez anos apenas, gostava de folgar, não gostava de aprender. Aprender é muito aborrecido!...Minha mãe fazia-me estudar, e, tanto como o estudo aborrecia-me a atitude. Obrigado a estar sentado, com o livro nas mãos, a um canto ou à mesa, dava ao diabo o livro, a mesa e a cadeira. Usava de um recurso que recomendo aos preguiçosos: deixava os olhos na página e abria a porta à imaginação. Corria a apanhar as flechas dos foguetes, a ouvir os realejos, a bailar com as meninas, a cantar, a rir, a espancar de mentira ou de brincadeira, como for mais claro!...
(Umas Férias, Machado de Assis, 1869)
quinta-feira, setembro 29, 2005
Ínfimo
Cansaço na alma.
Alguém diz que o escolhi.
Esboço um sorriso.
Algo entre a ironia
e a aceitação.
Elogiam minha fluência.
Quando é mais importante
o que calo.
Banho-me no sol
branco do meu peito.
Percebo o mundo
com a visão
e a audição
diminuídas.
Sem alimentos
na memória
do que foi
ou será
observo os caminhos
forrados pelas acácias
da primavera.
Acaricio o gato Nino,
converso com
orquídeas e violetas.
Vivo a vida das formigas.
domingo, setembro 18, 2005
Godot: até quando?
_______________
Esperando Godot, montado pelo Grupo Máskara, do Núcleo de Pesquisas da UFG. Em cartaz no Martim Cererê, até o dia 29/09. Como uma metáfora da condição humana, a peça é um marco da dramaturgia ocidental, no ano em que se comemora a obra de Samuel Beckett e o teatro do absurdo. Trágico. Cômico. Irreverente. Inquietante. Lindo. Imperdível.
quinta-feira, setembro 15, 2005
Menopausa Precoce
sábado, setembro 10, 2005
Megasena
Momento Mágico
terça-feira, setembro 06, 2005
Post Terapêutico
domingo, agosto 28, 2005
O Anjo Nosso de Todo Dia
O meu já nem me faz perguntas.
...Não te movas se, de repente,
o Anjo se senta à tua mesa;
Alisa, com vagar, os breves vincos
que a toalha faz, debaixo do teu pão.
Convida-o para a modesta refeição,
Que também ele lhe saboreie o gosto,
E possa levar aos lábios impolutos
Um pobre copo de uso cotidiano.
(Rilke)
sexta-feira, agosto 26, 2005
O Livro
quarta-feira, agosto 10, 2005
Eu não sou eu...
E que não vejo,
Que às vezes chego a visitar
E outras vezes esqueço;
Que mantém a calma e o silêncio
Quando falo,
E amavelmente me perdoa
Quando sinto ódio;
Que anda por lugares
Que não conheço,
E que ficará de pé
Quando eu morrer.
(Juan Ramon Jiménez)
Contraste
(depois de mais um dia difícil)
no auditório do Tribunal do Júri da Universidade
(eu, que ando sentada no banco dos réus há tempos)
vestida com uma beca de homenageada,
(eu, que ando despida de tudo)
recebi flores como uma celebração aos fins e recomeços,
(eu, a que coleciona carros de funerárias que vê todos os dias)
e uma placa de metal, com o seguinte texto gravado:
À Profa. Heloísa:
"Se não morre aquele que planta uma árvore e nem morre aquele que escreve um livro, com mais razões não deve morrer um educador. Pois, ele semeia nas almas e escreve nos espíritos." B. Brecht
Pós Graduação Latu Sensu História Cultural – Turma 2004/02
Homenagem dos Formandos
Goiânia, 09 de agosto de 2005.
domingo, agosto 07, 2005
Reverberação
O destino trama os dias
e desfaz o sonho: demarca
meus contornos, partes
disso que sou e serei.
Quem sabe desejei demais:
milagres não me bastaram,
mas quando eu quis ser rainha
fui simplesmente humana.
A voz da vida insiste,
chama para o que salva
ou desatina:
nem sempre a entendi.
Palavras buscam sentido
para o que fiz, falhei,
conquistei e perdi
- ou que me abandonou
nalguma esquina.
(Talvez eu precisasse é dos silêncios.)
O amor nasce da calma
(dos padres do deserto, segundo Jean-Yves Leloup)
terça-feira, julho 26, 2005
Maria Clara e a Samaritana
Joãozinho espancou seu irmão Zezinho. Você acha que ele agiu corretamente? Justifique sua resposta. Não consegui deixar de rir, até que ela, empolgada com minha reação, considerasse convicta: Religião consegue ser mais inútil do que artes. Pois bem, ferrou-se. Tirou uma nota baixa na prova, o que a deixou bastante chateada. Perto do seu 9.0(nove) em matemática está lá, um 6.5(seis e meio) em religião, destoando das notas restantes. A professora resolveu deixar de lado as análises do mau comportamento de Joãozinho e pediu uma reflexão sobre a História da Samaritana. Ela não tinha lido a história inútil e, portanto, suas interpretações também não foram de muita utilidade. Vai, portanto, para ela, parte da análise realizada pelo teólogo ortodoxo, PHD em Psicologia, o ex-dominicano Jean-Yves Leloup, que vou tentar traduzir em simples palavras. Leloup traduziu a história do Evangelho de São João, diretamente do grego. Nela, o nome de Jesus é mantido como Ieshua.
Todos conhecem a história (façamos de conta que sim):
Em viagem com os discípulos, Ieshua chega à uma cidade da Samaria, Sicar. Ieshua era judeu e os judeus não se davam com o povo da Samaria. Mas Ieshua estava lá de passagem e, enquanto seus discípulos foram arranjar algum alimento, ele chegou até um poço, uma fonte, para tomar água. Pois bem, lá estava uma bela mulher, com seu cântaro, que havia ido ao local para buscar água (vale dizer que este poço era um lugar importante para a cidade. Diziam que ali, o patriarca Jacó havia realizado, uma vez, o milagre de fazer as águas do fundo chegarem até a superfície. Portanto, era uma fonte sagrada, um local especial). Ieshua chegou ali na 6a. hora, o que quer dizer, ao meio dia (hora em que não há sombras e o sol está a pino). Pediu água para a mulher. Ele diz a ela: Dá-me de beber! A Samaritana lhe responde, com um misto de curiosidade e certa indignação: Como é que um judeu pede água a mim, uma Samaritana? Ieshua lhe responde de forma direta:
Eu lhe ofereci o dom de Deus que diz: Dá-me de beber! Se conhecesses esse dom, tu é que me pedirias e não terias mais sede, porque eu te daria a Água Viva. Ou seja, em outras palavras, Jesus falou como os goianos agro-boys costumam fazer, sempre que insultados: Filhinha, você não sabe o que está fazendo e nem com quem está falando!
Desejo de riqueza material: a primeira etapa da busca
Leloup compreende esta história como o arquétipo da busca e do desejo, representado pela mulher, nossa psique. Dito de outro modo, todos nós, temos interiormente desejos, buscamos alguma coisa e neste início, a história nos diz que a primeira etapa de nossa busca para saciar nossa insatisfação interior, está nas coisas do mundo. A Samaritana levou seu cântaro para buscar água, a água material, a que se pode ver e sentir com nossos sentidos físicos. Assim, achamos que nossos desejos podem ser realizados com livros, cds do Nightwish, coturnos e outros sonhos de consumo, entende? E que nossa felicidade depende disso. Todavia, Ieshua é claro com a mulher, quando lhe diz:
Quem bebe da água desse poço terá sede de novo, mas aquele que bebe da água que eu lhe darei, não mais terá sede. A água que eu lhe darei se transformará nele numa fonte, num jorro de vida eterna!
Isso significa que não adianta buscar a satisfação do nosso desejo interno nas coisas materiais. Elas não vão nos saciar. E quem escolhe este caminho está sempre querendo mais, mais, e mais (Marcos Valério ganhando dinheiro e favorecimentos do PT, por exemplo). Esta é a primeira etapa de nossa busca, a mais primária. Mas, a história não termina aqui. A Samaritana, então, pede à Jesus: Dá-me dessa água para que eu não tenha mais sede e não tenha que vir aqui para tirar água do poço. No que Jesus responde: Vá buscar teu marido e volte aqui.
Desejo de riqueza afetiva: a segunda etapa da busca
Aqui Jesus faz com que a Samaritana entre em outra etapa de seu desejo, para que ela possa compreender sua incompletude. Porque talvez não encontremos a felicidade nas coisas materiais, mas talvez possamos procurá-la nas riquezas afetivas, na riqueza das relações. Conheço muita gente que vive assim, atrás de um amor, de alguém que vá resolver todos os seus problemas. E a Samaritana parece compreender a dificuldade de satisfação deste desejo, quando responde a ele: Não tenho marido.
Ieshua, então, dá-lhe um show particular de vidência e elogia-lhe a sinceridade. Afirma-lhe que sim, o homem que estava ao seu lado não era, de fato, seu marido, e que ela já tinha tido cinco outros no passado. Ela estava só e não conhecia a unidade e o apaziguamento dos seus desejos por esta via, portanto. Com este diálogo, Jesus estava ensinando a ela sobre o seu desejo e a sua busca, percebe? Mas a história não termina aí. A Samaritana se impressiona com a resposta de Jesus e afirma:
Rabi, vejo que és um vidente, um profeta. Nossos pais adoraram sobre essa montanha e vós dizeis que é em Jerusalém que é necessário adorar (pois ele era um judeu). Ao que Ieshua responde:
Mulher, crê em mim. Dia virá que não será nem sobre essa montanha, nem em Jerusalém que vós adorareis o Pai. Vós adorais quem não conheceis (...) É chegada a hora, e nós estamos nela, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai no espírito e na verdade, no Sopro e na Vigilância, porque são estes adoradores que o Pai procura.
A mulher lhe diz: Eu sei que quando o Messias chegar ele nos explicará tudo.
E Ieshua lhe revela: Sou Eu. Sou Eu que te falo. Eu sou aquele que É.
Desejo de riqueza religiosa: a terceira etapa da busca.
Pois bem, aqui está a terceira etapa da busca. Já que não resolvemos nossa busca de felicidade nas coisas materiais e nem no nível afetivo, alguns de nós buscam a satisfação na religião. E aí a Samaritana faz uma pergunta importante ao Mestre. Onde deve estar nossa religião? (nas Montanhas da Samaria ou em Jerusalém?). Qual é a melhor religião? E a resposta de Jesus vai mostrar que este é mais um engano. Nós nos decepcionamos na medida das nossas expectativas, diz Leloup: Pedimos muito às coisas, pedimos muito às pessoas, pedimos muito às religiões. Quer dizer, pedimos o infinito às coisas finitas. Não pode dar um bom resultado, não acha? (Lembra da sua professora de catequese? Pois é). Assim, devemos saber o que adorar (no sentido antigo – onde orientar nosso desejo para a fonte de todo o Ser). Jesus diz: não é em nenhum desses lugares, nem nas coisas, nem nas pessoas e nem na religião. E ele dá a resposta da qual é o exemplo vivo: devemos orientar nosso ser para o nosso Sopro, entrar no nosso Sopro e permanecermos vigilantes, pois aí está o fio que sobe até a fonte.
Eu Sou Aquele que É
Depois que Jesus lhe disse isso, a Samaritana deixou o seu cântaro e correu para a cidade anunciando às pessoas que havia encontrado um homem que lhe disse tudo que ela era. Que ela era, que Eu Sou. Jesus disse, Eu Sou aquele que é. Quando ele dizia Eu Sou, ele não queria dizer que era um bambambam não, ele queria dizer: Deus em mim É. O Sopro em mim habita. Habita em mim, e em todos. Basta que eu oriente o meu desejo para Ele e passe a viver vigilante, a partir dele. Quando estou consciente disso posso deixar o meu cântaro (como a Samaritana), pois a fonte está em mim. Não preciso mais pedir apaziguamento às coisas externas, quer sejam elas materiais, afetivas ou religiosas, pois carrego em mim a própria fonte. E isto me autoriza a dizer isso às pessoas como fez a Samaritana. Assim, posso retornar às coisas materiais, pois as possuo, mas elas não me possuem (ver música da Pitty), posso ir às minhas relações afetivas e vivenciar qualquer religião, mas serei livre em relação a elas. Meditar sobre a história da Samaritana é, portanto, compreender o itinerário de nossos desejos, os que nos guiarão por toda a nossa vida, o que pode ser bastante útil, viu coisinha?
Referências deste post:
História da Samaritana: Evangelho Segundo João, 4: 1-30.
Jean-Yves Leloup: LELOUP, Jean-Yves. Caminhos da Realização. Petrópolis, Vozes, 1999.
Marcos Valério e o PT: Ah, deixa pra lá.
Música da Pitty: Só de Passagem.
domingo, julho 24, 2005
Pra Rua Me Levar
terça-feira, julho 19, 2005
Dica de Férias
quinta-feira, julho 14, 2005
ainda quando
amar é infindo
e além do tempo
ancora o seu destino:
amar é isto.
esquece aquela dor, esquece
aquela sina de ser e ser ainda
entre o verde , amiga, a vida e o vinho.
durar o quê e quando? e quanto?
além da chama clara de uma vela?
agora é sempre, vê. e nada escolhe
ser eterno, essa miragem.
nem dura a palavra mais
do que o desejo de dizê-la
e nem morte menos
do que o medo de esquecê-la.
(Carlos Rodrigues Brandão)
quarta-feira, julho 13, 2005
Falta de Assunto
segunda-feira, julho 11, 2005
Sonho
de um túnel de pedra.
Uma quietude mórbida
e sufocante dorme
sob a pirâmide.
Na trilha subterrânea
conto os passos
em que piso no chão de vidro.
Na terra vejo corpos
que se contorcem nus
e nadam na lama.
Seguro uma criança
e salto por entre pedras móveis.
Eu a protejo e sinto-me acompanhada.
Desvio-me de paredes úmidas.
Caminho cega em direção à luz.
(Desperto-me antes de alcançar a saída)
sexta-feira, julho 08, 2005
Respire, as ondas vêm e vão.
inspiro.
atento à sensação
produzida nas narinas
pelo ar que entra.
expiro,
atento à sensação
produzida nas narinas
pelo ar que sai.
inspiro.
a partir do ventre,
a centímetros do umbigo,
o tórax enche.
expiro.
a partir do ventre,
centímetros abaixo do umbigo,
o tórax esvazia-se.
inspiro, expiro.
respiro.
deixo-me respirar,
nada mais.
Mas, de repente, forço-me a respirar,
e inspiro e expiro com aparato,
descontrolado,
o equilíbrio perdido.
recordo-me então
que as ondas vêm e vão,
e deixo-me ir, deixo-me ir.
inspiro, expiro.
respiro.
deixo-me respirar.
não estou ansioso, nem calmo,
nem triste, nem feliz.
respiro, nada mais.
e as ondas vêm e vão.
sexta-feira, junho 17, 2005
A Via de Chuang Tzu
A Metamorfose
Quatro homens entraram em discussão.
Cada qual falou:
"Quem souber ter o vazio como cabeça,
A vida como espinha dorsal
E a morte como cauda,
Este será meu amigo!"
Nisto todos se entreolharam,
viram que concordaram,
Riram alto
E ficaram amigos.
Depois um caiu doente
E o outro foi visitá-lo.
"Grande é o criador", dizia o doente,
"Que me fez como sou!
(...)
meu corpo é o caos,
mas minha mente está em ordem".
Seu amigo perguntou-lhe:
"Você está desanimado?"
"Qual nada! Por que haveria de estar?
Se Ele me separa e faz um galo
No meu ombro esquerdo,
Eu anunciarei a madrugada.
Se Ele fizer um arco
Do meu ombro direito
Procurarei um pato assado.
Se meu assento se transformar em rodas
E se meu espírito vier a ser um cavalo
Prepararei minha própria carroça
E andarei por aí."
Há um tempo de juntar
E um tempo de separar.
Aquele que entender
Este curso dos acontecimentos
Toma cada novo estado
Em sua devida hora.
Sem nenhuma tristeza nem alegria.
(...)
A natureza é mais forte do que todas as cordas e elos.
Sempre foi assim.
Onde está uma razão
Para desanimar?
Quando estou com vontade de "matar alguém", leio este:
O Galo de Briga
Chi Hsing Tzu era treinador de galos de briga
Para o Rei Hsuan.
Estava treinando uma bela ave.
Sempre perguntava o Rei se a ave
Estava pronta para a briga.
"Ainda não", dizia o treinador.
"Ele é fogoso. É pronto para atiçar briga
Com qualquer ave. É vaidoso e confiante
Na sua própria força".
Depois de dez dias, respondeu novamente:
"Ainda não. Eriça-se todo
Quando ouve outra ave grasnar."
Depois de mais dez dias:
"Ainda não. Ainda está
Com aquele ar irado,
E eriça as pernas."
Depois de dez dias
Disse o treinador:
"Agora ele está pronto.
Quando outra ave grasna,
Seu olho nem pisca.
Fica imóvel
Como um galo de madeira.
É um brigador amadurecido.
Outras aves olharão para ele de relance
E fugirão."
E, por fim, leio este outro quando acho que as coisas estão insuportáveis e começo ansiosamente a estabelecer prazos para o fim do meu suplício:
A Necessidade da Vitória
Quando um arqueiro atira sem alvo nem mira
Estará com toda a sua habilidade.
Se atira para ganhar uma fivela de metal
Já fica nervoso.
Se atira por um prêmio em ouro
Fica cego
Ou vê dois alvos-
Está louco!
Sua habilidade não mudou.
Mas o prêmio cria nele divisões.
Preocupa-se.
Pensa mais em ganhar
Do que em atirar-
E a necessidade de vencer
Esgota-lhe a força.
quinta-feira, junho 09, 2005
Felizes Demais
quinta-feira, junho 02, 2005
Constatação
Não sou substituível para quem me ama. Sou substituível para quem me usa.
quarta-feira, junho 01, 2005
Nino
terça-feira, maio 31, 2005
Estou Apaixonada
Acho que preciso ver mais TV.
segunda-feira, maio 30, 2005
Márcia Sacerdote
Mãe, você deve brigar com ela!!!!
Já lhe pedi para tomar cuidado, MC.
Exija que ela desligue aquele rádio na estação da Igreja Universal.
Deixa pra lá, filha. É só fechar a porta da cozinha.
Qualquer dia vamos chegar aqui e ela vai ter colocado fogo em tudo.
Não seja intolerante. Vejamos pelo lado bom, ela tem virtudes.
É, justiça seja feita: ela cozinha bem...e
(pensa)
Cozinha bem
(pensa mais um pouco)
Ela cozinha bem...
M. pra sua cozinha. Se ela estragar algum dos meus discos de metal, juro que vou fazer ela engolir aquele rádio. Ela vai ser obrigada a ouvir trash metal o dia todo, prometo.
Acho que prefiro as músicas da Igreja Universal.
Então tome uma atitude.
Calma, filha....as ondas vêm e vão. Respire...
domingo, maio 29, 2005
Redenção
quarta-feira, maio 25, 2005
Mudança
terça-feira, maio 24, 2005
Sentido
(Joseph Campbell)
sexta-feira, maio 20, 2005
Fênix
Acho que há dois anos, mais intensamente no último, que não passo dois dias sem ver um carro de funerária. Na última semana, algumas vezes por mais de uma vez no mesmo dia, uma van branca, com uma bela imagem azul de ave, onde se pode ler: fênix.
Memórias
Quando tinha 8, 9 anos morava numa casa com jardim num bairro popular da cidade. Dormia num quarto com minha avó. Ainda posso vê-la sentada fazendo crochê ou rezando um terço (ela se vangloriava de rezar três terços por dia). Era uma mulher altiva e inteligente.
Lembro-me bem dos seus pés: sempre muito limpos e perfumados. Eu os sentia quando, assombrada por terrores noturnos, pulava para a sua cama nas madrugadas. Dormi abraçada a eles em muitas noites (ela nunca me negou um canto e isso sempre me surpreendeu). À essa época, já repetia a mesma história com o descontrole da memória afetada pela arteriosclerose: foi traída pela irmã e casou-se com um homem que não amava.
Guardava uma mala de fotos antigas roubada por um gatuno que pudemos ver, em vulto, pela janela. Tinha um baú com um prego saliente que me rasgou o joelho numa outra vez. Depois de muitos anos, quando eu já era adulta e a encontrava, sem me reconhecer, ela sorria e dizia: - Filha, você é tão boa...
Quando morreu, duas cenas tornaram-se, também, inesquecíveis: as escaras de suas costas sendo limpas, com carinho, pela minha mãe e minha tia e, por último, os seus pés, amarelos, pendurados no lençol através do qual um homem desconhecido carregava, sem cuidado, o seu corpo sem vida.
terça-feira, maio 17, 2005
Instante
Debruçada na sacada do quarto, esperava-o com certa ansiedade. Vigiava os carros e pedestres adivinhando neles sua aproximação. Lá dentro, tudo pronto: frutas e castanhas no balcão da cozinha, duas taças, um vinho na geladeira, jogo de luzes e sombras. Como seria? Não gostava de imaginar. Não atendeu aos seus telefonemas durante o dia, menos o primeiro: o que confirmava o recebimento das flores pela manhã, com um convite: Janta comigo hoje? Indicava o local e a hora. Foram dois anos de assédio cuidadoso e paciente. Sim, admirava-lhe a persistência, refletia enquanto olhava-se no espelho minutos antes. Preparou-se com esmero: um banho de imersão com ervas aromáticas, lingerie nova, vestido de tecido leve com alguma transparência. A despeito de todas as intenções expressas em gestos e olhares, nunca haviam se tocado. Como seria? Não queria imaginar. Sabia que o sonho matava o instante. Ouviu a campainha e correu para a porta. Era ele. Não conseguira vê-lo pela sacada, mas observou com agrado que estava perfumado e com os cabelos úmidos. Cumprimentaram-se cordialmente com certo constrangimento. Numa fração de segundo, uma sensação perturbadora: viu-se como professora nos olhos dele. O quanto havia lhe ensinado? O que seriam agora? Fizeram comentários banais sobre o ambiente antes que ele se colocasse ao seu lado para dizer que estava tudo bem. Antes que a tocasse levemente com a mão e, num lance de surpreendente fúria, a tomasse pela cintura e a beijasse sofregamente. Dois anos por este dia. Fizeram o amor do desejo e da espera. Lavaram os pratos juntos, mantiveram-se abraçados frente à sacada que revelava a noite clara sobre prédios altos. Conversaram amenidades próprias aos momentos sem promessas. E nunca mais se encontraram novamente.
domingo, maio 08, 2005
sexta-feira, maio 06, 2005
Essencialidades
Experimento a sensação de liberdade ao aprender uma difícil lição: posso perfeitamente viver sem muitas coisas, focada no essencial.
quarta-feira, maio 04, 2005
Amizade
Quando adolescentes ouvimos certos chavões sobre a amizade. Concordamos sem saber, de fato, o que significa. Até estarmos num buraco escuro e vislumbrarmos uma mão amiga. Sim, amigos, os de verdade, são seres especiais. Mais que irmãos, às vezes. São preciosidades, dádivas divinas, devidamente colocadas em nossas vidas para nos ajudar. Tenho uma amiga assim. Uma pessoa que está comigo quando o último vai embora e apaga a luz (aconteceu várias vezes). Que me faz rir quando só tenho vontade de chorar. Que preenche os meus dias com leves e saborosas abobrinhas (literalmente) e coisas completamente banais nos momentos em que a vida está amarga, pesada e séria. Quando não quero pensar, ela está sempre lá, ocupando-me o tempo com pequenas coisas do dia a dia: reclamando dos namorados (sempre mais jovens e diáfanos do que ela), fazendo comida, contando piadas sem-graça (é muito difícil me fazer rir), dizendo coisas absolutamente sem importância. Ela é quase dez anos mais velha que eu, mas parece o contrário. Outro dia, entramos num teatro e eu a abracei. Ela observou: - Vão pensar que somos algum "caso". Respondi, rindo, que não me importava nem um pouco. No que ela emendou: - Você seria muito velha para mim.
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Nisso já se vão mais de vinte anos. Não! Deletem este parágrafo. Eu não conseguiria expressar o valor desta amizade nem em longos dez mil posts.
sábado, abril 30, 2005
Desafetos
Outro dia disse à Maria Clara que minha mãe não me ensinou coisas que julgo necessário saber. Uma importante: não precisamos ser adorados por todos. Seremos sim, se adotarmos a detestável atitude mosca morta: a das pessoas sem opinião ou qualquer tipo de iniciativa, insetos pousados sem vida em coisas e pessoas nem sempre agradáveis. Esta posição, aparentemente as salva de críticas e de desafetos, afinal, elas sobrevivem nesse estilo de morte-vida. Até que alguém lhes dá uma boa e merecida dose de inseticida e elas caem sem a força vital que desperdiçaram. Viver significa agir. E saiba, haverá opositores. E nem é preciso que a ação seja "boa". Basta que ela exista para que incomode, abale estruturas e esteja numa vitrine sujeita a pedradas. Então, o que fazer nessa hora, mãe? MC pergunta. Continue o caminho, se nele houver coerência e convicção, respondo. Quanto aos que gritam? Bah, dê de ombros e siga em frente. Você se sentirá viva e livre.
sexta-feira, abril 15, 2005
Pequenas Grandes Coisas
Quem passou por um grande sofrimento, por um tempo longo, entenderá o que quero dizer. O valor de um gesto ou mesmo de uma manifestação da natureza. Nessa conjuntura, são infinitamente grandes as pequenas coisas.
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P.S. Escrevo este post de forma entrecortada. Tomando um chá. Trazido pela Dona Jô. A da limpeza. Da minha erva favorita. Colhida no quintal de sua casa.
domingo, abril 03, 2005
Estava convicto, no entanto, de que fazia parte de seu destino cruzar aquele deserto, embora não visse como fazê-lo. Então uma voz misteriosa, saída do próprio deserto arenoso, sussurrou:- O vento cruza o deserto, o mesmo pode fazer o rio.
O rio objetou estar se arremessando contra as areias, sendo assim absorvido, enquanto o vento podia voar, conseguindo dessa maneira atravessar o deserto.
- Arrojando-se com violência como vem fazendo não conseguirá cruzá-lo. Assim desaparecerá ou se transformará num pântano. Deve permitir que o vento o conduza a seu destino.
- Mas como isso pode acontecer?
- Consentindo em ser absorvido pelo vento.
Tal sugestão não era aceitável para o rio. Afinal de contas, ele nunca fora absorvido até então. Não desejava perder a sua individualidade. Uma vez a tendo perdido, como se poderá saber se a recuperaria mais tarde?
- O vento desempenha essa função - disseram as areias. - eleva a água, a conduz sobre o deserto e depois a deixa cair. Caindo em forma de chuva, a água novamente se converte num rio.
- Como posso saber que isto é verdade?
- Pois assim é, e se não acredita, não se tornará outra coisa senão um pântano, e ainda isto levaria muitos e muitos anos; e um pântano não é certamente a mesma coisa que um rio.
- Mas não posso continuar sendo o mesmo rio que sou agora?
- Você não pode, em caso algum, permanecer assim - retrucou a voz. - Sua parte essencial é transportada e forma um rio novamente. Você é chamado assim ainda hoje por não saber qual a sua parte essencial.
Ao ouvir tais palavras, certos ecos começaram a ressoar nos pensamentos mais profundos do rio. Recordou vagamente um estágio em que ele, ou uma parte dele, não sabia qual, fora transportada nos braços do vento. Também se lembrou, ou lhe pareceu assim, de que era isso o que devia fazer, conquanto não fosse a coisa mais natural.
E o rio elevou então seus vapores nos acolhedores braços do vento, que suave e facilmente o conduziu para o alto, e para bem longe, deixando-o cair suavemente tão logo tinham alcançado o topo de uma montanha, milhas e milhas mais distante. E porque tivera suas dúvidas, o rio pode recordar e gravar com mais firmeza em sua mente os detalhes daquela sua experiência. E ponderou: - Sim, agora conheço a minha verdadeira identidade.
O rio estava fazendo seu aprendizado, mas as areias sussurraram:
- Nós temos o conhecimento porque vemos essa operação ocorrer dia após dia, e porque nós, as areias, nos estendemos por todo o caminho que vai desde as margens do rio até a montanha.
E é por isso que se diz que o caminho pelo qual o Rio da Vida tem de seguir em sua travessia está escrito nas Areias.
Do livro "O Buscador da Verdade" de Idries Shah
sexta-feira, março 25, 2005
Era saudável, mas ia sempre ao médico. E não era preciso um grande motivo para fazê-lo. Um pouco resfriado, uma dor de cabeça ocasional, uma leve suspeita. Naquele ato, buscava alívio. Descrevia seus pequenos males cheios de subjetividade sentindo-se acolhido num encontro com Deus. Alguém que, pela sua infinita superioridade e misericórdia, poderia curá-lo de sua dor de alma.
quinta-feira, março 24, 2005
quarta-feira, março 16, 2005
Outro dia comentei com alguém que lia a Lygia Fagundes Telles há muito tempo. Lembro-me bem dos contos curtos em que ela narrava histórias que envolviam a disciplina do amor. O amor que está em nós, independente do objeto amado, o amor que não depende de barganhas (as que são fruto de nossas carências, obsessões ou caprichos), o que é paciente, forma um substrato de sentimento que está no fundo de toda experiência aparente de conflito e é incondicional. Este amor resiste ao abandono, aos obstáculos, às indisposições gerais que envolvem todos os relacionamentos. Pela minha longa experiência em amar (não riam, é verdade), penso que estamos mais preparados para este amor quanto mais inocentes somos. Como fomos um dia (quando amamos pela primeira vez) e, paradoxalmente, como voltamos a ser, a cada dia que vivemos e envelhecemos. Para amar com disciplina é preciso acreditar no amor. Desvestí-lo das mágoas e desilusões que encaramos pela vida, considerar com tranqüilidade os “nãos” que recebemos, os sonhos de amor não realizados. Amar com disciplina é amar, apesar de. A maturidade nos prepara para sermos novamente crianças no amor.
sexta-feira, março 11, 2005
A morte não é terrível. Passa-se ao sono e o mundo desaparece – se tudo correr bem. Terrível pode ser a dor dos moribundos, terrível também a perda sofrida pelos vivos quando morre uma pessoa amada. Não há cura conhecida (...). O que as pessoas podem fazer para assegurar umas às outras maneiras fáceis e pacíficas de morrer ainda está por ser descoberto. (Norbert Elias. A Solidão dos Moribundos)
Estávamos na livraria do shopping antes do início do filme, quando recebi um telefonema. Era um amigo avisando-me da morte de uma colega de faculdade. Aconteceu no domingo passado e nem fiquei sabendo. Soube que lutava contra o câncer já há algum tempo, mas que estava bem, confiante que seria curada (era muito religiosa). Entrei no cinema com o coração dilacerado. A velha ferida do peito sangrando todas as dores. Mar adentro. No filme, Ramón Sampedro luta para morrer e minha amiga fazia exatamente o contrário. Nas últimas semanas chorava muito e dizia que queria viver. Queria estar ao lado dos dois filhos pequenos. Ela não tinha quarenta anos. Disseram-me que suplicou até o último instante. A despeito deste contraste, saí do filme com a sensação de que todos tinham razão: os que lutavam pela liberdade individual frente ao poder de um estado laico, os que imbuídos de sua ética existencialista queriam deliberar sobre o seu próprio direito de viver ou morrer, os que defendiam a vida a qualquer custo (mesmo que em migalhas, a vida que vale por um instante de beleza e sentido). O filme é belo e muito tocante, do início ao fim. Saí com os olhos vermelhos da sala. Algumas identificações foram imediatas: a vontade de morrer diante de algumas prisões cotidianas, a necessidade de aprender a chorar sorrindo quando a vida não nos dá outras opções e, afinal, a certeza que por pior que sejam nossas correntes (voluntárias ou impostas), nosso espírito é livre. O que alivia um pouco a dor e a aceitação sobre tudo que não podemos mudar.
terça-feira, março 08, 2005
Hoje é dia internacional da mulher. Tenho uma grande preguiça do discurso feminista. E há momentos que sinto que sou mais homem do que muitos homens. E fico com vontade de aprender a cozinhar e fazer tudo o que as feministas abominam quando estou apaixonada. E é isso o que eu tinha a dizer a respeito.
