quinta-feira, janeiro 26, 2006

Beijos para todos

Amanhã é meu aniversário. 42 anos. Não sei bem o que isso significa. A não ser quando olho no espelho e imediatamente me lembro das propostas (sempre recusadas) do médico, meu compadre, que tem uma clínica de estética (o que será que ele quis dizer com as tais propostas, né? Melhor não investigar). Aquário, ascendente câncer (dura por fora, mole por dentro). Não gosto de aniversários. Sou absolutamente sem graça para cumprimentos. Fico encabulada, e por instantes (especialmente quando começam a dizer coisas bonitas e coisa e tal) fico surda dos dois ouvidos. Não trabalhei isso na terapia a tempo. Elogios, então? Deus, que coisa mais constrangedora. Não gosto. Fujo quilômetros. Este aniversário está engraçado, indefinido, como muitas coisas na minha vida. Todavia, depois de examinar a situação como um todo (financeira, emocional, grupal e o resto), decidi com MC e Góia (minha amiga-irmã), que iremos comer uma pizza de rúcula lá na Pizzaria Paulista. Fico aqui torcendo para ir pouca gente (Góia é uma agenciadora sacana, uma fdp*). Para que eu possa dar mais atenção às pessoas e ir embora logo (durmo cedo, que veieira). E, se disserem coisas bonitas, eu vou ficar surda. E, também, dura como pedra, nestes dias de bipolaridade momento down (como diz a Perséfone), em que choro vendo novela. E, se eu tiver que dizer alguma coisa, farei como uma vez me contaram: a moça tinha que fazer um discurso solene e não sabia o que dizer. Então, subiu no palco, agarrou o microfone e arriscou a frase síntese: beijos para todos, obrigada.
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*fdp: flor de pequi.

quarta-feira, janeiro 25, 2006

terça-feira, janeiro 24, 2006

Nino na gaveta



Não costumo colocar imagens neste blog.

Mas, no clima da Fal e da Renata, abrirei uma exceção.

A Última Gota

Era a gota que faltava. Para que eu tomasse uma decisão importante na minha vida. Eu já queria fazer isso há muito tempo. Nino e eu vimos um programa, ontem, na TV Comunitária (sim, ele também assiste, embora seja bastante seletivo, e sempre durma no meio, como eu). Já havia começado. Uma mulher com uma expressão simpática e uma voz suave, falava sobre animais. Sobre o comportamento dos porcos (Nino deve ter achado uma bobagem, de início). Ela contou que eles são animais sociáveis e brincalhões, facilmente domesticáveis. Até aí, tudo bem. Gostei das imagens dos porquinhos bebês em diversas situações, embora o Nino já estivesse dormitando. Depois desta cena, a palestrante começou a mostrar o sistema de criação e abate para o consumo de carne de porco. Informou como as porcas ficam obesas, por processos antinaturais, para que produzam carne em abundância e de bom valor comercial. As cenas foram revelando como, a partir de algum tempo, elas só conseguem fazer dois movimentos: deitar e levantar. E eu fui ficando enjoada. Ela, então, começou a mostrar o mesmo processo para a carne de vaca. Animais em abatedouro, sim senhores. Passo a passo, fomos vendo como são enclausurados no corredor da morte, o pânico, os choques para que se mantenham andando, a injeção que os idiotiza (processo sofisticado), antes que recebam as pauladas finais. Uma funcionária de um matadouro, contou, com a cara mais lavada do mundo, que já se acostumou a ver aquilo, embora não ousasse olhar para o rosto dos animais. A cena mais chocante: um boi recebendo a injeção e tombando sobre um vomitório (sim, é assim que se chama), antes que fosse golpeado e sangrado. As cenas do documentário eram intercaladas por profissionais gabaritados que explicavam sobre o “mito da proteína”, sobre as toxinas produzidas por um organismo animal acuado, agredido. A essa altura, Nino já havia abandonado a sala. E eu estava com o controle na mão (vantagem exclusiva de mulheres sem marido), pronta para mudar de canal. Não como carne vermelha há tempos, mesmo, dei de ombros. Não consegui, entretanto, trocar a estação, antes que visse o processo do frango. Os pintinhos (aqueles, amarelinhos, que a gente admirava em calendários) sendo selecionados. Como coisas, os que não estão “perfeitos”(se é que algum animal possa ser perfeito nascendo nessas condições, sem filiação, de maneira forçada) são separados em grandes tanques para serem triturados. Eles têm o bico cortado, pois desenvolvem canibalismo, uma beleza. Isso faz com que comam desmesuradamente a ração, o que é ótimo para o criador. Um dos entrevistados falou que nós somos seres fúteis, pois, além de tudo, queremos consumir a carne de avestruz, de cão, de gato, de perdiz e o escambau. Coloque uma criança africana num quarto, depois de três dias sem comer, com uma maçã e um coelho. Ela escolherá comer a maçã e brincar com o coelho. Ei, não somos carnívoros, PQP, só faltou o cara dizer esta última frase. Tive que me levantar para providenciar um remédio para o estômago. A partir de hoje, não comerei mais nenhum tipo de carne. Sim, eu sei. É antipático e antisocial. Bem, &*$#@*%. Tenho mais de quarenta anos, ainda posso escolher os meus amigos. Em relação aos outros, vou fazer como cavalo em desfiles comemorativos: permanecer cagando e andando.

Não acreditam em mim?

Visitem, com tempo, o site do Instituto Nina Rosa. E mostrem para os seus filhos. Ainda seremos humanos no século XXI? Quem sabe.

segunda-feira, janeiro 23, 2006

Desejo

Eu não quero ver você cuspindo ódio. Eu não quero ver você fumando ópio pra sarar a dor. Eu não quero ver você chorar veneno. Não quero beber o teu café pequeno. Eu não quero isso (seja lá o que isso for). Eu não quero aquele, eu não quero aquilo, peixe na boca do crocodilo, braço da Vênus de Milo acenando ciao. Não quero medir a altura do tombo. Nem passar agosto esperando setembro (se bem me lembro). O melhor futuro, este, hoje escuro. O maior desejo da boca é o beijo. Eu não quero ter o Tejo me escorrendo das mãos. Quero a Guanabara quero o rio Nilo! Quero tudo ter: estrela, flor, estilo! Tua língua em meu mamilo, água e sal... Nada tenho (vez em quando, tudo). Tudo quero mais ou menos quanto. Vida. Vida noves fora zero. Quero viver. Quero ouvir, quero ver. Nada tenho (vez em quando, tudo). Tudo quero (mais ou menos quanto). Vida. Vida noves fora zero Se é assim, quero sim. Acho que vim pra te ver.
(Bandeira. Zeca Baleiro)

domingo, janeiro 22, 2006

Temporal

APROVEITE o dia.
Viva para o PRAZER.
ESCOLHA o que te faz feliz.
Faça tudo HOJE.

(A superficialidade da
auto ajuda motivacional
provoca-me risos).

Escrevo isto enquanto me preparo
para mais um dia.
Em que faço o que não gosto
e não escolho fazer.
No hoje que se tece em estações.
De uma existência, talvez.

Tarefas que se cumprem num tempo humano.
Um átimo do que serve à eternidade
de uma vida impessoal.

Pelo menos, é verão.

quarta-feira, janeiro 18, 2006

Construção de Intimidade

Neste final de semana, reuni-me com alguns primos para o bate papo ameno no almoço de Domingo. Conversamos sobre relacionamentos, sobre a história da família, sobre casamentos. Um deles contou como é difícil a lição da intimidade entre duas pessoas. Relatou que num dos dias da lua de mel, foi ao banheiro da suíte do casal e, constrangido com a proximidade, tentou relaxar e concentrar-se sem fazer barulhos. Aliviar-se no silêncio, como definiu. Esforço inglório. Ao primeiro ruído, surdo e tímido, o parceiro, no outro cômodo, soltou a infame frase que fez com que desejasse estar morto: peidou, hein?
Nada mais constrangedor, rimos às gargalhadas. Fiquei chocada. Eles parecem tão arrumadinhos e sóbrios, tão respeitosos. E eles não se separaram, não. Ao contrário, vão comemorar bodas de prata. Lembramos, então, de uma passagem do filme Gênio Indomável. Quando o psicólogo conta das flatulências incontinentes da esposa já falecida e diz, com o exemplo, que num relacionamento, é a aceitação das idiossincrasias do outro que tece a teia da intimidade. Só eu sabia algumas particularidades dela, e isso fazia com que ela fosse minha, de alguma forma, confessa o psicólogo. Ninguém é perfeito, ele conclui, resta saber se são perfeitos um para o outro.

segunda-feira, janeiro 16, 2006

Roberto Crema

Pouca coisa me interessa na TV. Além do Raul Gil (não riam, é sério), um jornal, de vez em quando, um filme. Outro dia assisti a um filme da Barbie. MC passou pela sala e me lançou um olhar compassivo, enquanto balançava a cabeça num tsc tsc. Há um canal, entretanto, que sempre me detém: o canal comunitário. Ali, há muitas palestras, com assuntos variados que tratam de saúde, de educação, de psicologia, de questões ambientais e outros. Sexta estava lá o Roberto Crema. Da Unipaz. Uma graça. O entrevistador era um autômato, limitou-se a ler suas perguntas, não interagiu com o entrevistado. Pior pra todo mundo. Mas, ainda assim, foi bom ouví-lo falar sobre a necessidade que todos têm de cuidar e de serem cuidados. Cuidar significa escutar o outro, estimulá-lo a curar-se por si mesmo. Cuidar significa assumir uma atitude terapêutica, em relação a si mesmo e ao outro. Grandes dores transformam-se em grandes talentos, quem nunca ouviu a fórmula? Pois, é. De forma suave e poética, Crema falou sobre a crise mundial, sobre as guerras e sobre o trabalho silencioso da Unipaz para estimular a tolerância, a atitude inter-religiosa sem sincretismos superficiais e forçados. É. A gente só escuta as más notícias, e não percebe que uma floresta cresce silenciosamente nos diversos trabalhos para a paz que se espalham pelo mundo. Ele estará em Goiânia no início de março. Assistam.

domingo, janeiro 15, 2006

Recado

Sou deficiente auditiva. Só um dos ouvidos funciona, por uma anomalia congênita. A natureza encarregou-se de me transmitir mensagens importantes: ouça o mundo, em parte. Busque outros tipos de escuta. Faça um esforço, além do habitual, para ouvir e interpretar. Nem todo som é sensorial e ruidoso. Alguns só são perceptíveis no silêncio.

sábado, janeiro 14, 2006

Saori San

Depois de um ano de encontros e desencontros, MC Saori San e eu fomos almoçar num shopping. Conseguimos conversar. Assunto: a complexidade humana, relacionamentos. Cada um com a sua história, a sua dor, a sua forma de ver o mundo e de se relacionar com as pessoas. Compreender isso é importante para ver o outro, acolher suas contradições e retirar dos encontros o que há de melhor. Alguém já disse que se um indivíduo tem uma virtude, apenas, é com essa que devemos nos relacionar. Sem julgamentos. Não há santos ou demônios, concluímos. Também temos nossas idiossincrasias. Converso com ela de coração, colocando-me, também, eu e minha história. Ela, então, apresentou-me uma lista de pessoas: pediu-me um laudo de alguns de seus amigos. E, de brincadeira, como um exercício, fui detalhando minha percepção sobre cada um deles. Ela dizia, às vezes, surpresa: como você sabe isso? Li no seu corpo, respondia. Ela, então, concordava, discordava, argumentava que eu estava sendo tendenciosa em alguns casos, o que provavelmente era verdade (eu admitia, com sinceridade). Falamos, também, de relacionamentos amorosos, de decepções e desilusões. Contei-lhe que isso, inevitavelmente, vai acontecer. E que ela vai sofrer, mas vai sobreviver a isso, também. É preciso saber lidar com frustrações quando nos relacionamos, controlar expectativas (ela já tem namorado). O melhor de tudo foi poder conversar com minha filha, estabelecer um canal de comunicação. Ás vezes, esqueço que ela tem só treze anos. Admiro-lhe a personalidade forte. A firmeza de opiniões, a abertura em relação a questões polêmicas como aborto, homossexualidade, eutanásia. Ela tem um humor sutil, uma ironia certeira que consegue me arrancar gargalhadas. É uma delícia conversar com ela. À noite, vimos um filme juntas, de meia e pijama, no sofá. Eu lhe disse, então, que tinha saudades de minha menininha. Ela, então, aproveitou-se do enlevo nostálgico e sugeriu: então, seja uma boa mãe, vá até à cozinha e faça um lanchinho. Sua menininha está com fome.

Fui dormir cedo. Não raro, ela vai à minha cama para ajeitar as cobertas, dar-me um beijo de boa noite, antes de fechar a porta da biblioteca para conversar com os amigos na net e ouvir bandas de metal.

Amo minha filha. E não é só pelo fato em si. É uma conquista contínua. E ela está se tornando uma bela mulher, em muitos sentidos.

sexta-feira, janeiro 13, 2006

Os Sonhos

Mar adentro, mar adentro
E na leveza do fundo
onde se cumprem os sonhos,
juntam-se duas vontades
Para cumprir um desejo.

Um beijo incendeia a vida
com um relâmpago e um trovão
e em uma metamorfose
meu corpo não era meu corpo;
era como penetrar no centro do universo:

O abraço mais pueril,
e o mais puro dos beijos
até sermos reduzidos
em um único desejo:

Seu olhar e meu olhar
Como um eco repetindo, sem palavras:
mais adentro, mais adentro
até o mais além do todo
pelo sangue e pelos ossos.

Mas sempre acordo
e sempre quero estar morto
para seguir com minha boca
enredada em seus cabelos.

(Ramon Sampedro. Cartas do Inferno)

domingo, janeiro 08, 2006

Alma Nua

Numa festa de final de ano, na faculdade, convidaram um aluno para cantar. Ele, então, apresentou-nos uma música, Alma Nua, de Vander Lee, que passei a ouvir, desde então. Vander Lee, como descobri, depois, é um cantor e compositor mineiro. Dele, já conhecia uma bela música gravada pela Gal Costa : Onde Deus Possa Me Ouvir. Fiquei, ainda, mais encantada com o resto da obra. Alma Nua é uma oração ao Pai. Podemos chamar o Pai do que quisermos, a partir de tradições religiosas ou laicas. Bom saber é que o Pai está naquele lugar de sabedoria, aquele de endereço incerto e que possui algum nome, embora não saibamos bem qual seja. Um lugar especial, portanto, onde podemos nos apresentar nus, com nossas perguntas e solicitações mais genuínas.

Na primeira estrofe, já uma solicitação:

Ó Pai
Não deixes que façam de mim
O que da pedra tu fizestes
E que a fria luz da razão
Não cale o azul da aura que me vestes


Peço ao Pai que não permita que eu compreenda o mundo apenas pela fria luz da razão. Sim, a razão não é suficiente como chave de interpretação do mundo. Os artistas e poetas sabem, pois utilizam a intuição. E, o compositor ainda solicita: mesmo que eu tente verbalizar, compreender racionalmente todas as coisas, não permita que elas sejam apresentadas como pedra fria, letra morta: que minhas coisas tenham o azul das coisas celestes, uma aura nem sempre visível, mas presente, do mistério que as envolve, do sentido que apreendo além da razão, embora não saiba nominá-lo.

Dá-me leveza nas mãos
Faze de mim um nobre domador
Laçando acordes e versos
Dispersos no tempo
Pro templo do amor

Aqui, uma outra súplica importante: o autor pede leveza nas mãos. Quer interpretar o mundo, agir nele, mas solicita fazer isso com suavidade. Intenciona lutar, domar feras, mas pede ao Pai que o ajude a realizar sua ação com poesia, com versos. E que mesmo que sua produção seja dispersa, inconstante e com freqüência temporal variável para o tempo humano, ou mesmo incompreensível racionalmente, ela possa caminhar rumo à beleza. Chicotes, facas e armas só devem ser utilizadas com a linguagem da suavidade e com esta intenção: o nobre desejo de auxiliar na caminhada rumo ao amor. O verso posterior confirma a idéia:

Que se eu tiver que ficar nu
Hei de envolver-me em pura poesia
E dela farei minha casa,
minha asa
loucura de cada dia.

Na criação genuína, onde a razão contribuiu tanto quanto a intuição, estou nu, porque não é possível criar sem desvestir-se. Do que já aprendi, dos modelos absolutamente pré-estabelecidos, que podem auxiliar, mas não determinar os rumos e o resultado da obra final. Para abrir-se ao novo, é preciso esvaziar-se, estar desarmado. E esta nossa nudez, se por um lado nos traz insegurança e frio, veste-nos da beleza, da poesia da criação. Estou nu, mas a ousadia criativa me devolve meu lugar de poder e sabedoria. Esta atitude me confere asas e me faz voar, em êxtase e liberdade. E, também, me faz louco, porque não há como vivê-la sem flexibilidade anticonvencional.

Dá-me o silêncio da noite
Pra ouvir o sapo namorando a lua
Dá-me direito ao açoite
Ao ócio, ao cio
À vadiagem pela rua

Vander Lee continua assim. Pedindo ao Pai o silêncio. A quietude, a partir da qual posso ouvir vozes mais sutis e compreender as coisas simples como um sapo namorando a lua. A parte do valor poético da estrofe, o autor, pede, ainda o direito de ser humano. Errar, talvez, quando usa o acoite, ou dá expressão aos seus desejos. Na estrofe seguinte, ele "exige" o direito de se contradizer, de não ter que ser perfeito.

Ó meu Pai,
dá-me o direito
De dizer coisas sem sentido
De não ter que ser perfeito
Pretérito, sujeito, artigo definido


Na música, ele, também, solicita o ócio. O necessário para perceber o que vem da intuição. Desocupar-se para viver a sabedoria. Quem cria, sabe que não é na correria do relógio humano do tempo que nascem os insights originais. Como ensina: é preciso perder a hora para encontrar a rima.

Deixa-me perder a hora
Pra ter tempo de encontrar a rima
Ver o mundo de dentro pra fora
E a beleza que aflora de baixo pra cima

Minha obra assim, terá significados não visíveis, talvez, mas que podem ser sentidos de “dentro pra fora”, pois nela está presente o que não controlo só com o intelecto, mas que me chega do mistério e é captada, num lampejo, pela minha razão que a expressa. E a transforma em verso, em poesia, em música.

Virar os dados do destino
De me contradizer, de não ter meta
Me reinventar, ser meu próprio Deus
Viver menino, morrer poeta

E, quando eu errar, pois sou humano e contraditório, peço ao Pai para recomeçar, me reinventar e ser o meu próprio Deus, o que é criador, assim como eu. Encontrá-lo em meio à contradição, à dor dos meus erros, à minha falta de direção. Assim, posso viver como uma criança que tem sempre olhos novos e se dispõe a aprender, sempre.

Leiam toda a letra e ouçam a bela voz do compositor no site

http://www.vanderlee.com.br/
(não se esqueçam de vê-lo e ouví-lo no vídeo da música Esperando Aviões, por favor).

E, finalmente, comprem o disco. Valerá a pena.

Cura Hermenêutica

"A única dor insuportável, é aquela que não somos capazes de interpretar".
Jean-Yves Leloup

sábado, dezembro 31, 2005

Passagem

Depois da suprema agonia

Ele a segurou pela mão

e a elevou.


Mostrou-lhe os campos verdes, além.


Era preciso aceitar a dor e a morte

para conhecê-los.

domingo, dezembro 18, 2005

Entrega

Ando por espaços escuros,
entre paredes altas e pedras antigas.

Vejo janelas altas.
Portas centenárias
olham-me de cima, trancadas.

Há um odor indefinido.
Flores envelhecidas,
incensos apagados, cera queimada.

Procuro a passagem obscura,
mas não a encontro.

Todos já foram embora.
Estamos só eu, meus passos abafados e
gestos contidos que movem o espaço.

Piso devagar para aumentar o silêncio
e captar vozes distantes, sons inaudíveis.

O peito respira com força.
Sustenta o peso das costas, arrepios na nuca.

Sem dores ou perguntas.

Sou só sensações.

quinta-feira, dezembro 15, 2005

Sem Efeito

Os últimos dias foram bastante complicados. Neles, pude comprovar minha impotência.

2005 foi um dos anos mais difíceis, trabalhosos e improdutivos que já vivi. Todas as sementes plantadas (com muita dificuldade) caíram em solo infértil. Coincidentemente, hoje fui chamada na Editora da Universidade. Eu receberia uma homenagem, pois a revista que coordenei foi uma das mais vendidas no ano. De presente, um título de mérito editorial e um livro intitulado: Filha do Sol. Foi por esse motivo que me lembrei de partes de um poema:

Na escuridão da lua,
no rigor do inverno,
da guerra que se espalha,
do mundo em perigo,
eu caminho pela encosta rochosa,
semeando trevos...
(Wendel Berry)
______________
Ok.

sábado, dezembro 10, 2005

Acolhimento

Dou forma
às paredes
do peito
em massas de
inquietude
temor
dor.

Alimento
a criança
com leite
sedento.

Abraço o
corpo quente
em tetos
gotejantes
na chuva
fina
fria
incessante.

quinta-feira, dezembro 08, 2005

Reverberação

Quebro a janela.
Voam estilhaços
no vento que dança.

Arrombo portas.
Ganho hematomas
em braços feridos
e livres.

Descubro o telhado.
A luz do sol
inunda aposentos
e me deixa cega.

segunda-feira, dezembro 05, 2005

Mansidão Hermenêutica II

O homem esbraveja agressivo.
Percebo sua postura corporal
e apreendo sentidos ocultos.
Concentro-me na certeza
de que somos animados
pela mesma fonte.
Falo mais alto que ele
e expulso-o da sala.
Ele se acalma e vai
embora, em paz.

(ser manso não é ser passivo,
mas obediente)

sábado, dezembro 03, 2005

Mansidão Hermenêutica

O homem esbraveja, agressivo.
Percebo sua postura corporal.
Apreendo sentidos além
da rigidez aparente.
Deixo que fale.
Cruzo os dedos das mãos
sobre a mesa e permaneço
em silêncio
enquanto leio significados.
Ele me faz muitas perguntas
e dá, ele mesmo, as respostas.
Visualizo seu coração e
concentro-me na certeza de
que somos animados
pela mesma fonte.
Ele se transforma
num pequeno ponto negro
sobre uma folha branca.