domingo, janeiro 15, 2006
Recado
Sou deficiente auditiva. Só um dos ouvidos funciona, por uma anomalia congênita. A natureza encarregou-se de me transmitir mensagens importantes: ouça o mundo, em parte. Busque outros tipos de escuta. Faça um esforço, além do habitual, para ouvir e interpretar. Nem todo som é sensorial e ruidoso. Alguns só são perceptíveis no silêncio.
sábado, janeiro 14, 2006
Saori San
Depois de um ano de encontros e desencontros, MC Saori San e eu fomos almoçar num shopping. Conseguimos conversar. Assunto: a complexidade humana, relacionamentos. Cada um com a sua história, a sua dor, a sua forma de ver o mundo e de se relacionar com as pessoas. Compreender isso é importante para ver o outro, acolher suas contradições e retirar dos encontros o que há de melhor. Alguém já disse que se um indivíduo tem uma virtude, apenas, é com essa que devemos nos relacionar. Sem julgamentos. Não há santos ou demônios, concluímos. Também temos nossas idiossincrasias. Converso com ela de coração, colocando-me, também, eu e minha história. Ela, então, apresentou-me uma lista de pessoas: pediu-me um laudo de alguns de seus amigos. E, de brincadeira, como um exercício, fui detalhando minha percepção sobre cada um deles. Ela dizia, às vezes, surpresa: como você sabe isso? Li no seu corpo, respondia. Ela, então, concordava, discordava, argumentava que eu estava sendo tendenciosa em alguns casos, o que provavelmente era verdade (eu admitia, com sinceridade). Falamos, também, de relacionamentos amorosos, de decepções e desilusões. Contei-lhe que isso, inevitavelmente, vai acontecer. E que ela vai sofrer, mas vai sobreviver a isso, também. É preciso saber lidar com frustrações quando nos relacionamos, controlar expectativas (ela já tem namorado). O melhor de tudo foi poder conversar com minha filha, estabelecer um canal de comunicação. Ás vezes, esqueço que ela tem só treze anos. Admiro-lhe a personalidade forte. A firmeza de opiniões, a abertura em relação a questões polêmicas como aborto, homossexualidade, eutanásia. Ela tem um humor sutil, uma ironia certeira que consegue me arrancar gargalhadas. É uma delícia conversar com ela. À noite, vimos um filme juntas, de meia e pijama, no sofá. Eu lhe disse, então, que tinha saudades de minha menininha. Ela, então, aproveitou-se do enlevo nostálgico e sugeriu: então, seja uma boa mãe, vá até à cozinha e faça um lanchinho. Sua menininha está com fome.
Fui dormir cedo. Não raro, ela vai à minha cama para ajeitar as cobertas, dar-me um beijo de boa noite, antes de fechar a porta da biblioteca para conversar com os amigos na net e ouvir bandas de metal.
Amo minha filha. E não é só pelo fato em si. É uma conquista contínua. E ela está se tornando uma bela mulher, em muitos sentidos.
Fui dormir cedo. Não raro, ela vai à minha cama para ajeitar as cobertas, dar-me um beijo de boa noite, antes de fechar a porta da biblioteca para conversar com os amigos na net e ouvir bandas de metal.
Amo minha filha. E não é só pelo fato em si. É uma conquista contínua. E ela está se tornando uma bela mulher, em muitos sentidos.
sexta-feira, janeiro 13, 2006
Os Sonhos
Mar adentro, mar adentro
E na leveza do fundo
onde se cumprem os sonhos,
juntam-se duas vontades
Para cumprir um desejo.
Um beijo incendeia a vida
com um relâmpago e um trovão
e em uma metamorfose
meu corpo não era meu corpo;
era como penetrar no centro do universo:
O abraço mais pueril,
e o mais puro dos beijos
até sermos reduzidos
em um único desejo:
Seu olhar e meu olhar
Como um eco repetindo, sem palavras:
mais adentro, mais adentro
até o mais além do todo
pelo sangue e pelos ossos.
Mas sempre acordo
e sempre quero estar morto
para seguir com minha boca
enredada em seus cabelos.
(Ramon Sampedro. Cartas do Inferno)
E na leveza do fundo
onde se cumprem os sonhos,
juntam-se duas vontades
Para cumprir um desejo.
Um beijo incendeia a vida
com um relâmpago e um trovão
e em uma metamorfose
meu corpo não era meu corpo;
era como penetrar no centro do universo:
O abraço mais pueril,
e o mais puro dos beijos
até sermos reduzidos
em um único desejo:
Seu olhar e meu olhar
Como um eco repetindo, sem palavras:
mais adentro, mais adentro
até o mais além do todo
pelo sangue e pelos ossos.
Mas sempre acordo
e sempre quero estar morto
para seguir com minha boca
enredada em seus cabelos.
(Ramon Sampedro. Cartas do Inferno)
domingo, janeiro 08, 2006
Alma Nua
Numa festa de final de ano, na faculdade, convidaram um aluno para cantar. Ele, então, apresentou-nos uma música, Alma Nua, de Vander Lee, que passei a ouvir, desde então. Vander Lee, como descobri, depois, é um cantor e compositor mineiro. Dele, já conhecia uma bela música gravada pela Gal Costa : Onde Deus Possa Me Ouvir. Fiquei, ainda, mais encantada com o resto da obra. Alma Nua é uma oração ao Pai. Podemos chamar o Pai do que quisermos, a partir de tradições religiosas ou laicas. Bom saber é que o Pai está naquele lugar de sabedoria, aquele de endereço incerto e que possui algum nome, embora não saibamos bem qual seja. Um lugar especial, portanto, onde podemos nos apresentar nus, com nossas perguntas e solicitações mais genuínas.
Na primeira estrofe, já uma solicitação:
Ó Pai
Não deixes que façam de mim
O que da pedra tu fizestes
E que a fria luz da razão
Não cale o azul da aura que me vestes
Peço ao Pai que não permita que eu compreenda o mundo apenas pela fria luz da razão. Sim, a razão não é suficiente como chave de interpretação do mundo. Os artistas e poetas sabem, pois utilizam a intuição. E, o compositor ainda solicita: mesmo que eu tente verbalizar, compreender racionalmente todas as coisas, não permita que elas sejam apresentadas como pedra fria, letra morta: que minhas coisas tenham o azul das coisas celestes, uma aura nem sempre visível, mas presente, do mistério que as envolve, do sentido que apreendo além da razão, embora não saiba nominá-lo.
Dá-me leveza nas mãos
Faze de mim um nobre domador
Laçando acordes e versos
Dispersos no tempo
Pro templo do amor
Aqui, uma outra súplica importante: o autor pede leveza nas mãos. Quer interpretar o mundo, agir nele, mas solicita fazer isso com suavidade. Intenciona lutar, domar feras, mas pede ao Pai que o ajude a realizar sua ação com poesia, com versos. E que mesmo que sua produção seja dispersa, inconstante e com freqüência temporal variável para o tempo humano, ou mesmo incompreensível racionalmente, ela possa caminhar rumo à beleza. Chicotes, facas e armas só devem ser utilizadas com a linguagem da suavidade e com esta intenção: o nobre desejo de auxiliar na caminhada rumo ao amor. O verso posterior confirma a idéia:
Que se eu tiver que ficar nu
Hei de envolver-me em pura poesia
E dela farei minha casa,
minha asa
loucura de cada dia.
Na criação genuína, onde a razão contribuiu tanto quanto a intuição, estou nu, porque não é possível criar sem desvestir-se. Do que já aprendi, dos modelos absolutamente pré-estabelecidos, que podem auxiliar, mas não determinar os rumos e o resultado da obra final. Para abrir-se ao novo, é preciso esvaziar-se, estar desarmado. E esta nossa nudez, se por um lado nos traz insegurança e frio, veste-nos da beleza, da poesia da criação. Estou nu, mas a ousadia criativa me devolve meu lugar de poder e sabedoria. Esta atitude me confere asas e me faz voar, em êxtase e liberdade. E, também, me faz louco, porque não há como vivê-la sem flexibilidade anticonvencional.
Dá-me o silêncio da noite
Pra ouvir o sapo namorando a lua
Dá-me direito ao açoite
Ao ócio, ao cio
À vadiagem pela rua
Vander Lee continua assim. Pedindo ao Pai o silêncio. A quietude, a partir da qual posso ouvir vozes mais sutis e compreender as coisas simples como um sapo namorando a lua. A parte do valor poético da estrofe, o autor, pede, ainda o direito de ser humano. Errar, talvez, quando usa o acoite, ou dá expressão aos seus desejos. Na estrofe seguinte, ele "exige" o direito de se contradizer, de não ter que ser perfeito.
Ó meu Pai,
dá-me o direito
De dizer coisas sem sentido
De não ter que ser perfeito
Pretérito, sujeito, artigo definido
Na música, ele, também, solicita o ócio. O necessário para perceber o que vem da intuição. Desocupar-se para viver a sabedoria. Quem cria, sabe que não é na correria do relógio humano do tempo que nascem os insights originais. Como ensina: é preciso perder a hora para encontrar a rima.
Deixa-me perder a hora
Pra ter tempo de encontrar a rima
Ver o mundo de dentro pra fora
E a beleza que aflora de baixo pra cima
Minha obra assim, terá significados não visíveis, talvez, mas que podem ser sentidos de “dentro pra fora”, pois nela está presente o que não controlo só com o intelecto, mas que me chega do mistério e é captada, num lampejo, pela minha razão que a expressa. E a transforma em verso, em poesia, em música.
Virar os dados do destino
De me contradizer, de não ter meta
Me reinventar, ser meu próprio Deus
Viver menino, morrer poeta
E, quando eu errar, pois sou humano e contraditório, peço ao Pai para recomeçar, me reinventar e ser o meu próprio Deus, o que é criador, assim como eu. Encontrá-lo em meio à contradição, à dor dos meus erros, à minha falta de direção. Assim, posso viver como uma criança que tem sempre olhos novos e se dispõe a aprender, sempre.
Leiam toda a letra e ouçam a bela voz do compositor no site
http://www.vanderlee.com.br/
Na primeira estrofe, já uma solicitação:
Ó Pai
Não deixes que façam de mim
O que da pedra tu fizestes
E que a fria luz da razão
Não cale o azul da aura que me vestes
Peço ao Pai que não permita que eu compreenda o mundo apenas pela fria luz da razão. Sim, a razão não é suficiente como chave de interpretação do mundo. Os artistas e poetas sabem, pois utilizam a intuição. E, o compositor ainda solicita: mesmo que eu tente verbalizar, compreender racionalmente todas as coisas, não permita que elas sejam apresentadas como pedra fria, letra morta: que minhas coisas tenham o azul das coisas celestes, uma aura nem sempre visível, mas presente, do mistério que as envolve, do sentido que apreendo além da razão, embora não saiba nominá-lo.
Dá-me leveza nas mãos
Faze de mim um nobre domador
Laçando acordes e versos
Dispersos no tempo
Pro templo do amor
Aqui, uma outra súplica importante: o autor pede leveza nas mãos. Quer interpretar o mundo, agir nele, mas solicita fazer isso com suavidade. Intenciona lutar, domar feras, mas pede ao Pai que o ajude a realizar sua ação com poesia, com versos. E que mesmo que sua produção seja dispersa, inconstante e com freqüência temporal variável para o tempo humano, ou mesmo incompreensível racionalmente, ela possa caminhar rumo à beleza. Chicotes, facas e armas só devem ser utilizadas com a linguagem da suavidade e com esta intenção: o nobre desejo de auxiliar na caminhada rumo ao amor. O verso posterior confirma a idéia:
Que se eu tiver que ficar nu
Hei de envolver-me em pura poesia
E dela farei minha casa,
minha asa
loucura de cada dia.
Na criação genuína, onde a razão contribuiu tanto quanto a intuição, estou nu, porque não é possível criar sem desvestir-se. Do que já aprendi, dos modelos absolutamente pré-estabelecidos, que podem auxiliar, mas não determinar os rumos e o resultado da obra final. Para abrir-se ao novo, é preciso esvaziar-se, estar desarmado. E esta nossa nudez, se por um lado nos traz insegurança e frio, veste-nos da beleza, da poesia da criação. Estou nu, mas a ousadia criativa me devolve meu lugar de poder e sabedoria. Esta atitude me confere asas e me faz voar, em êxtase e liberdade. E, também, me faz louco, porque não há como vivê-la sem flexibilidade anticonvencional.
Dá-me o silêncio da noite
Pra ouvir o sapo namorando a lua
Dá-me direito ao açoite
Ao ócio, ao cio
À vadiagem pela rua
Vander Lee continua assim. Pedindo ao Pai o silêncio. A quietude, a partir da qual posso ouvir vozes mais sutis e compreender as coisas simples como um sapo namorando a lua. A parte do valor poético da estrofe, o autor, pede, ainda o direito de ser humano. Errar, talvez, quando usa o acoite, ou dá expressão aos seus desejos. Na estrofe seguinte, ele "exige" o direito de se contradizer, de não ter que ser perfeito.
Ó meu Pai,
dá-me o direito
De dizer coisas sem sentido
De não ter que ser perfeito
Pretérito, sujeito, artigo definido
Na música, ele, também, solicita o ócio. O necessário para perceber o que vem da intuição. Desocupar-se para viver a sabedoria. Quem cria, sabe que não é na correria do relógio humano do tempo que nascem os insights originais. Como ensina: é preciso perder a hora para encontrar a rima.
Deixa-me perder a hora
Pra ter tempo de encontrar a rima
Ver o mundo de dentro pra fora
E a beleza que aflora de baixo pra cima
Minha obra assim, terá significados não visíveis, talvez, mas que podem ser sentidos de “dentro pra fora”, pois nela está presente o que não controlo só com o intelecto, mas que me chega do mistério e é captada, num lampejo, pela minha razão que a expressa. E a transforma em verso, em poesia, em música.
Virar os dados do destino
De me contradizer, de não ter meta
Me reinventar, ser meu próprio Deus
Viver menino, morrer poeta
E, quando eu errar, pois sou humano e contraditório, peço ao Pai para recomeçar, me reinventar e ser o meu próprio Deus, o que é criador, assim como eu. Encontrá-lo em meio à contradição, à dor dos meus erros, à minha falta de direção. Assim, posso viver como uma criança que tem sempre olhos novos e se dispõe a aprender, sempre.
Leiam toda a letra e ouçam a bela voz do compositor no site
http://www.vanderlee.com.br/
(não se esqueçam de vê-lo e ouví-lo no vídeo da música Esperando Aviões, por favor).
E, finalmente, comprem o disco. Valerá a pena.
E, finalmente, comprem o disco. Valerá a pena.
Cura Hermenêutica
"A única dor insuportável, é aquela que não somos capazes de interpretar".
Jean-Yves Leloup
Jean-Yves Leloup
sábado, dezembro 31, 2005
Passagem
Depois da suprema agonia
Ele a segurou pela mão
e a elevou.
Mostrou-lhe os campos verdes, além.
Era preciso aceitar a dor e a morte
para conhecê-los.
Ele a segurou pela mão
e a elevou.
Mostrou-lhe os campos verdes, além.
Era preciso aceitar a dor e a morte
para conhecê-los.
domingo, dezembro 18, 2005
Entrega
Ando por espaços escuros,
entre paredes altas e pedras antigas.
Vejo janelas altas.
Portas centenárias
olham-me de cima, trancadas.
Há um odor indefinido.
Flores envelhecidas,
incensos apagados, cera queimada.
Procuro a passagem obscura,
mas não a encontro.
Todos já foram embora.
Estamos só eu, meus passos abafados e
gestos contidos que movem o espaço.
Piso devagar para aumentar o silêncio
e captar vozes distantes, sons inaudíveis.
O peito respira com força.
Sustenta o peso das costas, arrepios na nuca.
Sem dores ou perguntas.
Sou só sensações.
entre paredes altas e pedras antigas.
Vejo janelas altas.
Portas centenárias
olham-me de cima, trancadas.
Há um odor indefinido.
Flores envelhecidas,
incensos apagados, cera queimada.
Procuro a passagem obscura,
mas não a encontro.
Todos já foram embora.
Estamos só eu, meus passos abafados e
gestos contidos que movem o espaço.
Piso devagar para aumentar o silêncio
e captar vozes distantes, sons inaudíveis.
O peito respira com força.
Sustenta o peso das costas, arrepios na nuca.
Sem dores ou perguntas.
Sou só sensações.
quinta-feira, dezembro 15, 2005
Sem Efeito
Os últimos dias foram bastante complicados. Neles, pude comprovar minha impotência.
2005 foi um dos anos mais difíceis, trabalhosos e improdutivos que já vivi. Todas as sementes plantadas (com muita dificuldade) caíram em solo infértil. Coincidentemente, hoje fui chamada na Editora da Universidade. Eu receberia uma homenagem, pois a revista que coordenei foi uma das mais vendidas no ano. De presente, um título de mérito editorial e um livro intitulado: Filha do Sol. Foi por esse motivo que me lembrei de partes de um poema:
Na escuridão da lua,
Na escuridão da lua,
no rigor do inverno,
da guerra que se espalha,
do mundo em perigo,
eu caminho pela encosta rochosa,
semeando trevos...
(Wendel Berry)
______________
Ok.
sábado, dezembro 10, 2005
Acolhimento
Dou forma
às paredes
do peito
em massas de
inquietude
temor
dor.
Alimento
a criança
com leite
sedento.
Abraço o
corpo quente
em tetos
gotejantes
na chuva
fina
fria
incessante.
às paredes
do peito
em massas de
inquietude
temor
dor.
Alimento
a criança
com leite
sedento.
Abraço o
corpo quente
em tetos
gotejantes
na chuva
fina
fria
incessante.
quinta-feira, dezembro 08, 2005
Reverberação
Quebro a janela.
Voam estilhaços
no vento que dança.
Arrombo portas.
Ganho hematomas
em braços feridos
e livres.
Descubro o telhado.
A luz do sol
inunda aposentos
e me deixa cega.
Voam estilhaços
no vento que dança.
Arrombo portas.
Ganho hematomas
em braços feridos
e livres.
Descubro o telhado.
A luz do sol
inunda aposentos
e me deixa cega.
segunda-feira, dezembro 05, 2005
Mansidão Hermenêutica II
O homem esbraveja agressivo.
Percebo sua postura corporal
e apreendo sentidos ocultos.
Concentro-me na certeza
de que somos animados
pela mesma fonte.
Falo mais alto que ele
e expulso-o da sala.
Ele se acalma e vai
embora, em paz.
(ser manso não é ser passivo,
mas obediente)
Percebo sua postura corporal
e apreendo sentidos ocultos.
Concentro-me na certeza
de que somos animados
pela mesma fonte.
Falo mais alto que ele
e expulso-o da sala.
Ele se acalma e vai
embora, em paz.
(ser manso não é ser passivo,
mas obediente)
sábado, dezembro 03, 2005
Mansidão Hermenêutica
O homem esbraveja, agressivo.
Percebo sua postura corporal.
Apreendo sentidos além
da rigidez aparente.
Deixo que fale.
Cruzo os dedos das mãos
sobre a mesa e permaneço
em silêncio
enquanto leio significados.
Ele me faz muitas perguntas
e dá, ele mesmo, as respostas.
Visualizo seu coração e
concentro-me na certeza de
que somos animados
pela mesma fonte.
Ele se transforma
num pequeno ponto negro
sobre uma folha branca.
Percebo sua postura corporal.
Apreendo sentidos além
da rigidez aparente.
Deixo que fale.
Cruzo os dedos das mãos
sobre a mesa e permaneço
em silêncio
enquanto leio significados.
Ele me faz muitas perguntas
e dá, ele mesmo, as respostas.
Visualizo seu coração e
concentro-me na certeza de
que somos animados
pela mesma fonte.
Ele se transforma
num pequeno ponto negro
sobre uma folha branca.
sexta-feira, dezembro 02, 2005
Nino, o predador
Nino está feliz. Recuperou o peso e está gordinho de apertar. Cresceu o pelo. Corre e brinca por toda a casa (nas poucas horas diárias em que se mantém acordado). Esfrega-se tanto no Trilogia de Nova York do Auster que penso que deseja comê-lo. Faz o mesmo com as violetas. Chamo-o pelo nome para oferecer-lhe algum carinho e ele nem move a cabeça. Só se aproxima depois de um tempo de pausa e, quando finalmente atende ao chamado, disfarça ao cheirar uma pequena formiga, ou algo insignificante pelo caminho. Deixa claro, dessa forma, que não atende ordens. Quando é o contrário, faz tudo para ser notado. Sobe no teclado, ajeita-se entre mim e o monitor, mia em vários tons. Nesta semana, torturou uma lagartixa. Ele a perseguiu como se fosse um brinquedo, até que ela expirasse. Nosso bichinho de pelúcia, não passa de um felino predador, pensei. Fiquei desapontada e dei-lhe conselhos. Contei-lhe a história do filhote Zumbi, da Carmem, que foi adotado pela gata Nina que o amamenta com farta produção de leite, mesmo sendo castrada. Ele ignorou e me lançou aquele olhar doce, amoroso. Perdoei tudo.
____________
(Este post é dedicado à Maria do Carmo de Castro Teixeira. Ela tem uma alma nobre, tecida de sensibilidade, de beleza e do amor pela vida das plantas e dos animais).
Incoerência
Estou apenas esperando o amor para poder afinal me abandonar inteiramente em suas mãos. Por isso já é tão tarde e por isso fui culpado de tantas faltas.
Elas vêm com as suas leis e os seus códigos para obrigar-me a uma decisão rápida; mas consigo sempre afugentá-las, porque estou esperando o amor para me abandonar por fim em suas mãos.
As pessoas me censuram e me chamam negligente; não duvido que tenham razão para me censurar.
O dia da feira terminou e cessou o trabalho no mercado. Esses que vieram e em vão me chamaram, voltaram desapontados. Estou apenas esperando o amor para finalmente me abandonar de todo em suas mãos.
________
P.S. O título é meu e o texto é do TAGORE, Rabindranath. Gitanjali. Oferenda Lírica. Livro pelo qual recebeu o Prêmio Nobel em 1913.
quinta-feira, dezembro 01, 2005
Espasmo
Digo menos
do que sei
na palavra solta
sempre contida
inexata.
Ela vem
de algum lugar
entre o estômago
e o coração.
Escrevo dor
como quem
escreve amor
em movimentos
involuntários
e rítmicos.
do que sei
na palavra solta
sempre contida
inexata.
Ela vem
de algum lugar
entre o estômago
e o coração.
Escrevo dor
como quem
escreve amor
em movimentos
involuntários
e rítmicos.
quarta-feira, novembro 30, 2005
Espelho
Olhos.
Só eles existem
no cristal especular.
Uma rosa no peito.
A dor incessante que
jorra da fonte rubra.
Um vazio incômodo.
O que preenche espaços
entre o estômago
e o coração.
Uma alma nova.
É a que sai pela boca
numa golfada
de vômito.
Só eles existem
no cristal especular.
Uma rosa no peito.
A dor incessante que
jorra da fonte rubra.
Um vazio incômodo.
O que preenche espaços
entre o estômago
e o coração.
Uma alma nova.
É a que sai pela boca
numa golfada
de vômito.
segunda-feira, novembro 28, 2005
Casa
Do quarto à sala
os mesmos gestos.
Portas trancadas.
Janelas de vidro.
Paredes
quadros
livros
retratos
olham inertes.
Passos
armários
a caneta
roçando o papel.
A mandala rúnica
evoca sons
sobre a mesa.
Tudo é ruído e silêncio.
os mesmos gestos.
Portas trancadas.
Janelas de vidro.
Paredes
quadros
livros
retratos
olham inertes.
Passos
armários
a caneta
roçando o papel.
A mandala rúnica
evoca sons
sobre a mesa.
Tudo é ruído e silêncio.
sábado, novembro 26, 2005
Engano
Tomou-a nos braços
e a levou para longe do vale da morte.
Mostrou-lhe campos verdes.
Sua expressão era doce
e sua boca estava cheia de palavras.
Vê, isto tudo pode ser nosso.
Foi, então, que ela percebeu.
Aquele não era o caminho do encontro.
Agradeceu-lhe o gesto
e voltou solitária aos campos de luta.
e a levou para longe do vale da morte.
Mostrou-lhe campos verdes.
Sua expressão era doce
e sua boca estava cheia de palavras.
Vê, isto tudo pode ser nosso.
Foi, então, que ela percebeu.
Aquele não era o caminho do encontro.
Agradeceu-lhe o gesto
e voltou solitária aos campos de luta.
terça-feira, novembro 22, 2005
Luxor
Ouço o vento dentro e fora.
A respiração espectral
dos olhos atrás dos portais.
Com olhos semicerrados
pela luz cega caminho.
Em círculos inúteis
por entre as altas colunas.
Tudo está reduzido a pó.
Poeira, pedra, ruína.
A respiração espectral
dos olhos atrás dos portais.
Com olhos semicerrados
pela luz cega caminho.
Em círculos inúteis
por entre as altas colunas.
Tudo está reduzido a pó.
Poeira, pedra, ruína.
segunda-feira, novembro 21, 2005
Expectante
Depois do medo da noite
o dia tem uma estranha calma.
No vazio desta antiga espera
tudo agora é silêncio.
o dia tem uma estranha calma.
No vazio desta antiga espera
tudo agora é silêncio.
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