segunda-feira, dezembro 05, 2005

Mansidão Hermenêutica II

O homem esbraveja agressivo.
Percebo sua postura corporal
e apreendo sentidos ocultos.
Concentro-me na certeza
de que somos animados
pela mesma fonte.
Falo mais alto que ele
e expulso-o da sala.
Ele se acalma e vai
embora, em paz.

(ser manso não é ser passivo,
mas obediente)

sábado, dezembro 03, 2005

Mansidão Hermenêutica

O homem esbraveja, agressivo.
Percebo sua postura corporal.
Apreendo sentidos além
da rigidez aparente.
Deixo que fale.
Cruzo os dedos das mãos
sobre a mesa e permaneço
em silêncio
enquanto leio significados.
Ele me faz muitas perguntas
e dá, ele mesmo, as respostas.
Visualizo seu coração e
concentro-me na certeza de
que somos animados
pela mesma fonte.
Ele se transforma
num pequeno ponto negro
sobre uma folha branca.

sexta-feira, dezembro 02, 2005

Nino, o predador

Nino está feliz. Recuperou o peso e está gordinho de apertar. Cresceu o pelo. Corre e brinca por toda a casa (nas poucas horas diárias em que se mantém acordado). Esfrega-se tanto no Trilogia de Nova York do Auster que penso que deseja comê-lo. Faz o mesmo com as violetas. Chamo-o pelo nome para oferecer-lhe algum carinho e ele nem move a cabeça. Só se aproxima depois de um tempo de pausa e, quando finalmente atende ao chamado, disfarça ao cheirar uma pequena formiga, ou algo insignificante pelo caminho. Deixa claro, dessa forma, que não atende ordens. Quando é o contrário, faz tudo para ser notado. Sobe no teclado, ajeita-se entre mim e o monitor, mia em vários tons. Nesta semana, torturou uma lagartixa. Ele a perseguiu como se fosse um brinquedo, até que ela expirasse. Nosso bichinho de pelúcia, não passa de um felino predador, pensei. Fiquei desapontada e dei-lhe conselhos. Contei-lhe a história do filhote Zumbi, da Carmem, que foi adotado pela gata Nina que o amamenta com farta produção de leite, mesmo sendo castrada. Ele ignorou e me lançou aquele olhar doce, amoroso. Perdoei tudo.
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(Este post é dedicado à Maria do Carmo de Castro Teixeira. Ela tem uma alma nobre, tecida de sensibilidade, de beleza e do amor pela vida das plantas e dos animais).

Incoerência

Estou apenas esperando o amor para poder afinal me abandonar inteiramente em suas mãos. Por isso já é tão tarde e por isso fui culpado de tantas faltas.
Elas vêm com as suas leis e os seus códigos para obrigar-me a uma decisão rápida; mas consigo sempre afugentá-las, porque estou esperando o amor para me abandonar por fim em suas mãos.
As pessoas me censuram e me chamam negligente; não duvido que tenham razão para me censurar.
O dia da feira terminou e cessou o trabalho no mercado. Esses que vieram e em vão me chamaram, voltaram desapontados. Estou apenas esperando o amor para finalmente me abandonar de todo em suas mãos.
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P.S. O título é meu e o texto é do TAGORE, Rabindranath. Gitanjali. Oferenda Lírica. Livro pelo qual recebeu o Prêmio Nobel em 1913.

quinta-feira, dezembro 01, 2005

Espasmo

Digo menos
do que sei
na palavra solta
sempre contida
inexata.
Ela vem
de algum lugar
entre o estômago
e o coração.
Escrevo dor
como quem
escreve amor
em movimentos
involuntários
e rítmicos.

quarta-feira, novembro 30, 2005

Espelho

Olhos.
Só eles existem
no cristal especular.

Uma rosa no peito.
A dor incessante que
jorra da fonte rubra.

Um vazio incômodo.
O que preenche espaços
entre o estômago
e o coração.

Uma alma nova.
É a que sai pela boca
numa golfada
de vômito.

segunda-feira, novembro 28, 2005

Casa

Do quarto à sala
os mesmos gestos.

Portas trancadas.
Janelas de vidro.

Paredes
quadros
livros
retratos
olham inertes.

Passos
armários
a caneta
roçando o papel.

A mandala rúnica
evoca sons
sobre a mesa.

Tudo é ruído e silêncio.

sábado, novembro 26, 2005

Engano

Tomou-a nos braços
e a levou para longe do vale da morte.
Mostrou-lhe campos verdes.
Sua expressão era doce
e sua boca estava cheia de palavras.

Vê, isto tudo pode ser nosso.

Foi, então, que ela percebeu.
Aquele não era o caminho do encontro.
Agradeceu-lhe o gesto
e voltou solitária aos campos de luta.

terça-feira, novembro 22, 2005

Luxor

Ouço o vento dentro e fora.

A respiração espectral
dos olhos atrás dos portais.

Com olhos semicerrados
pela luz cega caminho.

Em círculos inúteis
por entre as altas colunas.

Tudo está reduzido a pó.
Poeira, pedra, ruína.

segunda-feira, novembro 21, 2005

Expectante

Depois do medo da noite
o dia tem uma estranha calma.
No vazio desta antiga espera
tudo agora é silêncio.

sábado, novembro 19, 2005

Estratégia

Na ataraxia
acima do pensar e do sentir,
cumpro o caminho sobre os
ponteiros dos dias.

Sonho com a luz do sol
à meia noite.

Sento-me à sombra
sob o sol do meio dia.

Então, simplesmente, caminho.

quinta-feira, novembro 17, 2005

Pendências

Em meio à correria dos meus dias insanos, no trânsito, em casa antes de cair exausta na cama, tento fixar-me em algo desimportante e inofensivo. Descubro que não são muitas as opções. Um pensamento me leva a outro, que evoca tal emoção e assim vai. De galho em galho, vou tentando desviar-me do que vejo, do que penso, do que sinto. Para resistir, sobreviver, guardo tudo no baú das pendências. Amanhã vejo isso, amanhã telefono, amanhã respondo a este mail, amanhã resolvo isto, amanhã...sempre um dia que não é hoje e que não chega nunca. Vida pendente não é vida. Mas este é mais um pensamento inútil. Abro um livro qualquer da pilha que está na cabeceira da cama e leio:

Meu coração dói-me como um corpo estranho. Meu cérebro dorme tudo quanto sinto. Sim, é o princípio do outono, e o conhecimento claro, na hora límpida, da insuficiência anônima de tudo. O outono, sim, o outono, o que há ou o que vai haver, e o cansaço antecipado de todos os gestos, a desilusão antecipada de todos os sonhos. Que posso eu esperar e de quê? Já, no que penso de mim, vou entre as folhas e os pós do átrio, na órbita sem sentido de coisa nenhuma, fazendo som de vida nas lages limpas que um sol angular doura de fim não sei onde. Tudo quanto pensei, tudo quanto sonhei, tudo quanto fiz ou não fiz, tudo isso irá no outono...

(Pessoa, F.O Livro do Desassossego)

domingo, novembro 13, 2005

O Mestre e o Cavalo

(Viagens ao Oriente, igrejas, imagens, grupos de meditação, etc, etc...quantas voltas temos que dar até chegar aqui mesmo?)
...

Um discípulo, que amava e admirava seu mestre, resolveu observá-lo em todos os detalhes, acreditando que, ao fazer o que ele fazia, também adquiriria sua sabedoria. O mestre só usava roupas brancas, o discípulo passou a vestir-se da mesma maneira. O mestre era vegetariano, o discípulo deixou de comer qualquer tipo de carne, substituindo sua alimentação por ervas. O mestre era um homem austero, o discípulo resolveu dedicar-se ao sacrifício, passando a dormir numa cama de palha. Passado algum tempo, o mestre notou a mudança de comportamento de seu discípulo e foi ver o que estava acontecendo. "Estou subindo os degraus da iniciação, foi a resposta. "O branco de minha roupa mostra a simplicidade da busca, a alimentação vegetariana purifica meu corpo e a falta de conforto faz com que eu apenas pense nas coisas espirituais". Sorrindo o mestre o levou para um campo, onde um cavalo pastava.“Você passou este tempo olhando apenas para fora, quando isso é o que menos importa”, disse.“Está vendo aquele animal ali? Ele tem a pele branca, come apenas ervas e dorme num celeiro com palha no chão. Você acha que ele tem cara de santo ou chegará algum dia a ser um verdadeiro mestre"?

Sofrimento Perspectivo

Passei toda a semana lendo sobre o martírio de Jesus nos evangelhos. Não foi bem uma escolha. Foi necessário por causa da oração que um grupo de senhoras deixou aqui em casa na segunda feira para ser lido por alguns dias: o terço da misericórdia. Ele é baseado nas visões diárias que Irmã Faustina teve de todo o processo que culminou na crucificação de Jesus e que resultou naquela famosa imagem em que é apresentado com os braços abertos e com os dois raios (um vermelho e outro branco azulado) que jorram do seu coração. Eles representam o sangue e a água de suas chagas, fonte de misericórdia para o mundo. Foi chocante ler isso tudo nos detalhes, Deus do céu. Triste pensar na solidão de Jesus na hora suprema (todos o abandonaram), no escárnio, nas injúrias, na humilhação, nos seus sofrimentos físicos e espirituais. Imaginei as sensações físicas de estar pendurado pelas mãos perfuradas e morrer lentamente, sufocado, depois de muitas horas de agonia (ele foi crucificado às nove da manhã e só morreu às três da tarde). A princípio eu chorava ao ler isso, depois passei a sentir vergonha, indignação, culpa. Foi interessante ver a diferença dos evangelhos, mesmo entre os que parecem contar a mesma história e, além disso, observar a visão espiritual de João, o amado. A partir das leituras e das orações, fiquei me perguntando sobre os males do mundo. Não deveríamos meditar apenas sobre a ressurreição? Depois de uma semana pensando nisso, ontem assisti uma parte da palestra do psicólogo, teólogo e filósofo ortodoxo Jean-Yves Leloup, na TV, assim, por acaso. Vou tentar anotar aqui o que ele disse para não esquecer. Ele falava sobre o mal, sobre os absurdos. Os que existem em nós e os que estão no mundo. Afirmou que tudo tem um propósito e que chega o tempo de encará-los. Encarar a nossa sombra, a de tudo que nos parece inaceitável, em nós. Ficar frente a frente com os absurdos do mundo. Nos dois casos, há o tempo de acolhê-los com a serenidade do Cristo, sem culpas. Não há como transmutar o mal sem reconhecê-lo, ficar frente a ele. Aceitar o absurdo é uma etapa de desenvolvimento psíquico e espiritual, a da compaixão. Só a compaixão amorosa pode nos fazer ver além do mal. Só assim saberemos que tudo tem uma razão, mesmo que ela não nos pareça óbvia. Isso significa aceitar o sofrimento com uma visão perspectiva. Ele relembrou uma música de Vivaldi*: a que ele traduz o sofrimento perspectivo de Maria, a mãe de Jesus a partir de um poema medieval. Ela sofria em pé. Lembrou, também, a visão do cordeiro do Apocalipse, o que foi decepado, mas permaneceu sobre as quatro patas. Bem, por um breve instante, tudo me pareceu menos sórdido e mais coerente. Hoje vou me concentrar nas descrições de Lucas, às três horas da tarde, hora em que, segundo Irmã Faustina, devemos pedir pela misericórdia e pela compaixão em nós e por todos nós.
...
*Vivaldi, Stabat Mater.

quarta-feira, novembro 09, 2005

Caminhos

Podia-me dizer por favor, qual é o caminho para sair daqui? - Perguntou Alice.
- Isso depende muito do lugar para onde você quer ir. - disse o Gato.
- Não me importa muito onde... - disse Alice.
- Nesse caso não importa por onde você vá. - Disse o Gato.
- ...contanto que eu chegue a algum lugar. - acrescentou Alice como explicação.
- É claro que isso acontecerá. - Disse o Gato - desde que você ande durante algum tempo.( Lewis Carroll)


Paul Auster descreve, em Cidade de Vidro, as sensações de um homem ao andar pela cidade. Perambular pelo labirinto de caminhos que fazia sentir-se perdido. Não apenas na cidade, mas também dentro de si mesmo. Andar pela cidade era abandonar-se ao movimento das ruas. Reduzir seu olhar à observação e, neste ato, fugir da obrigação de pensar. Andar pela cidade produzia nele um saudável vazio interior, uma certa paz. Pois, afinal, o mundo estava fora dele e se apresentava de forma rápida pelas ruas, o que não permitia fixar-se em nada. Ele não era o mundo. Ao caminhar sem rumo, todos os lugares se tornavam iguais e, assim, já não importava mais onde estava. Pois ele não estava em parte alguma. E isto, afinal, era o que pedia às coisas: não estar em lugar nenhum.

sábado, novembro 05, 2005

Raul Gil

Raul Gil é a via da iluminação. Era minha certeza recorrente dos sábados. Dos finais de semana, quando meu corpo doía mais do que o costume, quando minha mente trabalhava, mesmo sem permissão. Sábado era dia de parar (e se paro, vejo; e se vejo, sinto; e se sinto, sofro). Então, concentrava-me no Mestre Raul, nas suas piadas sem-graça, no seu humor pastelão que lembrava os programas domingueiros do Chacrinha com gosto de infância no bairro. Emocionei-me com os anjos que cantavam, que traziam histórias sofridas e o sonho da arte. Lá havia uma menina que só interpretava sucessos da MPB. E o fazia com tanta maestria e seriedade que dava gosto de ver. Havia outra que, de maneira bastante original, mesclava a música clássica com arranjos de rock. Havia, também, uma dupla que cantava músicas de raiz, cujo vocalista, de quinze anos, tinha a voz mais bonita e grave do que a do Tião Carreiro e Zé Ramalho juntos. E havia um menino, Mateus, que me fez chorar ao ouví-lo cantar Planeta Água. Parecia uma oração. Ele tinha uma voz doce, emocionada, e os olhos mais tristes que já tive a oportunidade de ver numa criança.

Por momentos, cheguei a bendizer a Record e a Igreja Universal do Reino de Deus.
O Programa não acontece mais a partir de hoje. Pena.

sexta-feira, novembro 04, 2005

João de Barro

Alice Capel

Sentada no banco junto à fonte,
solitária e introspectiva,
observo os pássaros que gorjeiam alegres .

O João-de-barro pousa no teto de sua casinha.
Minutos depois vejo-o entrando e saindo,
levantando as asas
num gesto de louvor e contentamento.

Tive vontade de entrar naquela morada,
tão pequenina e aconchegante.
Ah..se pudesse... estaria ali, quietinha, em silêncio,
Assim ,talvez , ficaria incólume do frio que reside
em minha alma.

É impossível manter este anseio infantil...quimérico.

Volto-me para outras paragens
Revejo os pássaros alegres...ágeis...barulhentos.
Eles vão e vem.....voam e repousam num festim
sem igual.

Em pares, voam muito alto e alguns retornam.

Há aquele que se distanciou do bando, sem par,
solitário e triste, tenta alcançar os companheiros
que se foram...para sempre.

quarta-feira, novembro 02, 2005

Morrer, transformar-se.

Quando já, aos trinta e poucos anos, decidi que queria viver de maneira mais intensa, comecei a buscar meios de fazer isso. Não foi bem uma atitude consciente. Uma inquietação interna obrigava-me a isso. Algo deveria ser feito. E, de alguma maneira, eu já sabia de tudo. Resolvi que enfrentaria todos os desafios de auto conhecimento. Sem os tais medos do espelho. De fato, não gostei de tudo que vi. Mas os reflexos, às vezes ilusórios, às vezes fiéis, abriram portas. Dos espelhos que eram meios de reflexão, dos que eram prisões de auto-imagem e precisavam ser destruídos. No auge da experiência, eu temia enlouquecer. Tudo parecia fora de controle. Não sem motivos internos, externamente eu me perdia. Quantas vezes, ao dirigir, perdi a noção de onde estava. Perdi, também, alguns documentos. E um sonho recorrente, um em que aparecia em uma praia deserta diante de uma enorme onda, evoluiu. Desta vez, eu me atirava ao mar. Freqüentei rodas de terapia e conheci muitas pessoas. Houve os anos de compartilhar as experiências. Houve o instante de abandoná-las. Chegou o tempo de estar só. Medo. Este foi o primeiro portal a ser transposto. Mas viriam outros muito mais difíceis e desafiadores. Ainda nesta atitude, revejo minha disposição interna para a transformação. Para a morte. E percebo que muitas capas foram retiradas. Por um lado, há a imensa dor das perdas. Por outro, uma sensação indescritível de liberdade interna. Para celebrar o processo e a aceitação da agonia vou cortar o cabelo e descobrir a nuca.


“Não dormes sob os ciprestes,
Pois não há sono no mundo.
..............................................
O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem o teu ser profundo.

Vem a noite, que é a morte,
E a sombra acabou sem ser.
Vais na noite só recorte,
Iguais a ti sem querer.

Mas na estalagem do Assombro
Tiram-te os anjos a capa:
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.

Então, Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu,
Não tens vestes, não tens nada:
Tens só teu corpo, que és tu.

Por fim, na funda caverna,
Os deuses despem-te mais.
Teu corpo cessa, alma externa,
Mas vês que são seus iguais.
. .............................................

A sombra das tuas vestes
Ficou entre nós na Sorte.
Não estás morto entre os ciprestes.
..............................................
Neófito, não há morte”.
(Iniciação. Fernando Pessoa)

segunda-feira, outubro 17, 2005

Releitura

Então, Almitra disse: Fala-nos do amor.
E ele ergueu a fronte e olhou para a multidão,
e um silêncio caiu sobre todos, e com uma voz forte, disse:

Quando o amor vos chamar, segui-o,
Embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados;
E quando ele vos envolver com suas asas, cedei-lhe,
Embora a espada oculta na sua plumagem possa ferir-vos;
E quando ele vos falar, acreditai nele,
Embora sua voz possa despedaçar vossos sonhos
Como o vento devasta o jardim.
Pois, da mesma forma que o amor vos coroa,
Assim ele vos crucifica.
E da mesma forma que contribui para vosso crescimento,
Trabalha para vossa poda.
E da mesma forma que alcança vossa altura
E acaricia vossos ramos mais tenros que se embalam ao sol,
Assim também desce até vossas raízes
E as sacode no seu apego à terra.
Como feixes de trigo, ele vos aperta junto ao seu coração.
Ele vos debulha para expor vossa nudez.
Ele vos peneira para libertar-vos das palhas.
Ele vos mói até a extrema brancura.
Ele vos amassa até que vos torneis maleáveis.
Então, ele vos leva ao fogo sagrado e vos transforma
No pão místico do banquete divino.
Todas essas coisas, o amor operará em vós
Para que conheçais os segredos de vossos corações
E, com esse conhecimento,
Vos convertais no pão místico do banquete divino.
Todavia, se no vosso temor,
Procurardes somente a paz do amor e o gozo do amor,
Então seria melhor para vós que cobrísseis vossa nudez
E abandonásseis a eira do amor,
Para entrar num mundo sem estações,
Onde rireis, mas não todos os vossos risos,
E chorareis, mas não todas as vossas lágrimas.
O amor nada dá senão de si próprio
E nada recebe senão de si próprio.
O amor não possui, nem se deixa possuir.
Porque o amor basta-se a si mesmo.
Quando um de vós ama, que não diga:Deus está no meu coração,
Mas que diga antes: Eu estou no coração de Deus.
E não imagineis que possais dirigir o curso do amor,
Pois o amor, se vos achar dignos,
Determinará ele próprio o vosso curso.
O amor não tem outro desejo
Senão o de atingir a sua plenitude.
Se, contudo, amardes e precisardes ter desejos,
Sejam estes os vossos desejos:
De vos diluirdes no amor e serdes como um riacho
Que canta sua melodia para a noite;
De conhecerdes a dor de sentir ternura demasiada;
De ficardes feridos por vossa própria compreensão do amor
E de sangrardes de boa vontade e com alegria;
De acordardes na aurora com o coração alado
E agradecerdes por um novo dia de amor;
De descansardes ao meio-dia
E meditardes sobre o êxtase do amor;
De voltardes para casa à noite com gratidão;
E de adormecerdes com uma prece no coração para o bem-amado,
E nos lábios uma canção de bem-aventurança.
(Gibran)

domingo, outubro 09, 2005

Uma vida, nos detalhes.

Ao estudar métodos experimentais em história, conheci a importância dos detalhes. A reflexão veio do Dr. Morelli, um médico que desenvolveu formas de indicar a autoria de obras de arte e identificar falsificações. Descobriu que imitadores traíam-se nos pormenores: na forma como representavam as orelhas, as unhas, os dedos das mãos. Em síntese, no que era aparentemente desimportante no todo da obra. Isso, de fato, é significativo. Um aprendizado para a vida. Pessoas se traem nos detalhes. Quem nunca viveu a experiência de relacionar-se com alguém educado, mas que trata mal um garçon num restaurante? Fotografe. Guarde no seu caderninho preto os indícios de uma personalidade dissimulada. De outro lado, preste atenção em outras particularidades. Nas suas. Nos sorrisos, nos cumprimentos, nas palavras ditas de forma apressada. Já participei de bancas decisórias em que membros foram excluídos porque não responderam a uma pergunta, vestiam-se de modo inadequado ou não cumprimentaram alguém no corredor. E não houve meios de evitar isso. Uma vida profissional, uma relação, muita coisa pode estar em jogo nos atos mínimos. Como li na epígrafe de A.Warburg, escrita por um historiador italiano: Deus está no particular.