quinta-feira, setembro 29, 2005
Ínfimo
Cansaço na alma.
Alguém diz que o escolhi.
Esboço um sorriso.
Algo entre a ironia
e a aceitação.
Elogiam minha fluência.
Quando é mais importante
o que calo.
Banho-me no sol
branco do meu peito.
Percebo o mundo
com a visão
e a audição
diminuídas.
Sem alimentos
na memória
do que foi
ou será
observo os caminhos
forrados pelas acácias
da primavera.
Acaricio o gato Nino,
converso com
orquídeas e violetas.
Vivo a vida das formigas.
domingo, setembro 18, 2005
Godot: até quando?
_______________
Esperando Godot, montado pelo Grupo Máskara, do Núcleo de Pesquisas da UFG. Em cartaz no Martim Cererê, até o dia 29/09. Como uma metáfora da condição humana, a peça é um marco da dramaturgia ocidental, no ano em que se comemora a obra de Samuel Beckett e o teatro do absurdo. Trágico. Cômico. Irreverente. Inquietante. Lindo. Imperdível.
quinta-feira, setembro 15, 2005
Menopausa Precoce
sábado, setembro 10, 2005
Megasena
Momento Mágico
terça-feira, setembro 06, 2005
Post Terapêutico
domingo, agosto 28, 2005
O Anjo Nosso de Todo Dia
O meu já nem me faz perguntas.
...Não te movas se, de repente,
o Anjo se senta à tua mesa;
Alisa, com vagar, os breves vincos
que a toalha faz, debaixo do teu pão.
Convida-o para a modesta refeição,
Que também ele lhe saboreie o gosto,
E possa levar aos lábios impolutos
Um pobre copo de uso cotidiano.
(Rilke)
sexta-feira, agosto 26, 2005
O Livro
quarta-feira, agosto 10, 2005
Eu não sou eu...
E que não vejo,
Que às vezes chego a visitar
E outras vezes esqueço;
Que mantém a calma e o silêncio
Quando falo,
E amavelmente me perdoa
Quando sinto ódio;
Que anda por lugares
Que não conheço,
E que ficará de pé
Quando eu morrer.
(Juan Ramon Jiménez)
Contraste
(depois de mais um dia difícil)
no auditório do Tribunal do Júri da Universidade
(eu, que ando sentada no banco dos réus há tempos)
vestida com uma beca de homenageada,
(eu, que ando despida de tudo)
recebi flores como uma celebração aos fins e recomeços,
(eu, a que coleciona carros de funerárias que vê todos os dias)
e uma placa de metal, com o seguinte texto gravado:
À Profa. Heloísa:
"Se não morre aquele que planta uma árvore e nem morre aquele que escreve um livro, com mais razões não deve morrer um educador. Pois, ele semeia nas almas e escreve nos espíritos." B. Brecht
Pós Graduação Latu Sensu História Cultural – Turma 2004/02
Homenagem dos Formandos
Goiânia, 09 de agosto de 2005.
domingo, agosto 07, 2005
Reverberação
O destino trama os dias
e desfaz o sonho: demarca
meus contornos, partes
disso que sou e serei.
Quem sabe desejei demais:
milagres não me bastaram,
mas quando eu quis ser rainha
fui simplesmente humana.
A voz da vida insiste,
chama para o que salva
ou desatina:
nem sempre a entendi.
Palavras buscam sentido
para o que fiz, falhei,
conquistei e perdi
- ou que me abandonou
nalguma esquina.
(Talvez eu precisasse é dos silêncios.)
O amor nasce da calma
(dos padres do deserto, segundo Jean-Yves Leloup)
terça-feira, julho 26, 2005
Maria Clara e a Samaritana
Joãozinho espancou seu irmão Zezinho. Você acha que ele agiu corretamente? Justifique sua resposta. Não consegui deixar de rir, até que ela, empolgada com minha reação, considerasse convicta: Religião consegue ser mais inútil do que artes. Pois bem, ferrou-se. Tirou uma nota baixa na prova, o que a deixou bastante chateada. Perto do seu 9.0(nove) em matemática está lá, um 6.5(seis e meio) em religião, destoando das notas restantes. A professora resolveu deixar de lado as análises do mau comportamento de Joãozinho e pediu uma reflexão sobre a História da Samaritana. Ela não tinha lido a história inútil e, portanto, suas interpretações também não foram de muita utilidade. Vai, portanto, para ela, parte da análise realizada pelo teólogo ortodoxo, PHD em Psicologia, o ex-dominicano Jean-Yves Leloup, que vou tentar traduzir em simples palavras. Leloup traduziu a história do Evangelho de São João, diretamente do grego. Nela, o nome de Jesus é mantido como Ieshua.
Todos conhecem a história (façamos de conta que sim):
Em viagem com os discípulos, Ieshua chega à uma cidade da Samaria, Sicar. Ieshua era judeu e os judeus não se davam com o povo da Samaria. Mas Ieshua estava lá de passagem e, enquanto seus discípulos foram arranjar algum alimento, ele chegou até um poço, uma fonte, para tomar água. Pois bem, lá estava uma bela mulher, com seu cântaro, que havia ido ao local para buscar água (vale dizer que este poço era um lugar importante para a cidade. Diziam que ali, o patriarca Jacó havia realizado, uma vez, o milagre de fazer as águas do fundo chegarem até a superfície. Portanto, era uma fonte sagrada, um local especial). Ieshua chegou ali na 6a. hora, o que quer dizer, ao meio dia (hora em que não há sombras e o sol está a pino). Pediu água para a mulher. Ele diz a ela: Dá-me de beber! A Samaritana lhe responde, com um misto de curiosidade e certa indignação: Como é que um judeu pede água a mim, uma Samaritana? Ieshua lhe responde de forma direta:
Eu lhe ofereci o dom de Deus que diz: Dá-me de beber! Se conhecesses esse dom, tu é que me pedirias e não terias mais sede, porque eu te daria a Água Viva. Ou seja, em outras palavras, Jesus falou como os goianos agro-boys costumam fazer, sempre que insultados: Filhinha, você não sabe o que está fazendo e nem com quem está falando!
Desejo de riqueza material: a primeira etapa da busca
Leloup compreende esta história como o arquétipo da busca e do desejo, representado pela mulher, nossa psique. Dito de outro modo, todos nós, temos interiormente desejos, buscamos alguma coisa e neste início, a história nos diz que a primeira etapa de nossa busca para saciar nossa insatisfação interior, está nas coisas do mundo. A Samaritana levou seu cântaro para buscar água, a água material, a que se pode ver e sentir com nossos sentidos físicos. Assim, achamos que nossos desejos podem ser realizados com livros, cds do Nightwish, coturnos e outros sonhos de consumo, entende? E que nossa felicidade depende disso. Todavia, Ieshua é claro com a mulher, quando lhe diz:
Quem bebe da água desse poço terá sede de novo, mas aquele que bebe da água que eu lhe darei, não mais terá sede. A água que eu lhe darei se transformará nele numa fonte, num jorro de vida eterna!
Isso significa que não adianta buscar a satisfação do nosso desejo interno nas coisas materiais. Elas não vão nos saciar. E quem escolhe este caminho está sempre querendo mais, mais, e mais (Marcos Valério ganhando dinheiro e favorecimentos do PT, por exemplo). Esta é a primeira etapa de nossa busca, a mais primária. Mas, a história não termina aqui. A Samaritana, então, pede à Jesus: Dá-me dessa água para que eu não tenha mais sede e não tenha que vir aqui para tirar água do poço. No que Jesus responde: Vá buscar teu marido e volte aqui.
Desejo de riqueza afetiva: a segunda etapa da busca
Aqui Jesus faz com que a Samaritana entre em outra etapa de seu desejo, para que ela possa compreender sua incompletude. Porque talvez não encontremos a felicidade nas coisas materiais, mas talvez possamos procurá-la nas riquezas afetivas, na riqueza das relações. Conheço muita gente que vive assim, atrás de um amor, de alguém que vá resolver todos os seus problemas. E a Samaritana parece compreender a dificuldade de satisfação deste desejo, quando responde a ele: Não tenho marido.
Ieshua, então, dá-lhe um show particular de vidência e elogia-lhe a sinceridade. Afirma-lhe que sim, o homem que estava ao seu lado não era, de fato, seu marido, e que ela já tinha tido cinco outros no passado. Ela estava só e não conhecia a unidade e o apaziguamento dos seus desejos por esta via, portanto. Com este diálogo, Jesus estava ensinando a ela sobre o seu desejo e a sua busca, percebe? Mas a história não termina aí. A Samaritana se impressiona com a resposta de Jesus e afirma:
Rabi, vejo que és um vidente, um profeta. Nossos pais adoraram sobre essa montanha e vós dizeis que é em Jerusalém que é necessário adorar (pois ele era um judeu). Ao que Ieshua responde:
Mulher, crê em mim. Dia virá que não será nem sobre essa montanha, nem em Jerusalém que vós adorareis o Pai. Vós adorais quem não conheceis (...) É chegada a hora, e nós estamos nela, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai no espírito e na verdade, no Sopro e na Vigilância, porque são estes adoradores que o Pai procura.
A mulher lhe diz: Eu sei que quando o Messias chegar ele nos explicará tudo.
E Ieshua lhe revela: Sou Eu. Sou Eu que te falo. Eu sou aquele que É.
Desejo de riqueza religiosa: a terceira etapa da busca.
Pois bem, aqui está a terceira etapa da busca. Já que não resolvemos nossa busca de felicidade nas coisas materiais e nem no nível afetivo, alguns de nós buscam a satisfação na religião. E aí a Samaritana faz uma pergunta importante ao Mestre. Onde deve estar nossa religião? (nas Montanhas da Samaria ou em Jerusalém?). Qual é a melhor religião? E a resposta de Jesus vai mostrar que este é mais um engano. Nós nos decepcionamos na medida das nossas expectativas, diz Leloup: Pedimos muito às coisas, pedimos muito às pessoas, pedimos muito às religiões. Quer dizer, pedimos o infinito às coisas finitas. Não pode dar um bom resultado, não acha? (Lembra da sua professora de catequese? Pois é). Assim, devemos saber o que adorar (no sentido antigo – onde orientar nosso desejo para a fonte de todo o Ser). Jesus diz: não é em nenhum desses lugares, nem nas coisas, nem nas pessoas e nem na religião. E ele dá a resposta da qual é o exemplo vivo: devemos orientar nosso ser para o nosso Sopro, entrar no nosso Sopro e permanecermos vigilantes, pois aí está o fio que sobe até a fonte.
Eu Sou Aquele que É
Depois que Jesus lhe disse isso, a Samaritana deixou o seu cântaro e correu para a cidade anunciando às pessoas que havia encontrado um homem que lhe disse tudo que ela era. Que ela era, que Eu Sou. Jesus disse, Eu Sou aquele que é. Quando ele dizia Eu Sou, ele não queria dizer que era um bambambam não, ele queria dizer: Deus em mim É. O Sopro em mim habita. Habita em mim, e em todos. Basta que eu oriente o meu desejo para Ele e passe a viver vigilante, a partir dele. Quando estou consciente disso posso deixar o meu cântaro (como a Samaritana), pois a fonte está em mim. Não preciso mais pedir apaziguamento às coisas externas, quer sejam elas materiais, afetivas ou religiosas, pois carrego em mim a própria fonte. E isto me autoriza a dizer isso às pessoas como fez a Samaritana. Assim, posso retornar às coisas materiais, pois as possuo, mas elas não me possuem (ver música da Pitty), posso ir às minhas relações afetivas e vivenciar qualquer religião, mas serei livre em relação a elas. Meditar sobre a história da Samaritana é, portanto, compreender o itinerário de nossos desejos, os que nos guiarão por toda a nossa vida, o que pode ser bastante útil, viu coisinha?
Referências deste post:
História da Samaritana: Evangelho Segundo João, 4: 1-30.
Jean-Yves Leloup: LELOUP, Jean-Yves. Caminhos da Realização. Petrópolis, Vozes, 1999.
Marcos Valério e o PT: Ah, deixa pra lá.
Música da Pitty: Só de Passagem.
domingo, julho 24, 2005
Pra Rua Me Levar
terça-feira, julho 19, 2005
Dica de Férias
quinta-feira, julho 14, 2005
ainda quando
amar é infindo
e além do tempo
ancora o seu destino:
amar é isto.
esquece aquela dor, esquece
aquela sina de ser e ser ainda
entre o verde , amiga, a vida e o vinho.
durar o quê e quando? e quanto?
além da chama clara de uma vela?
agora é sempre, vê. e nada escolhe
ser eterno, essa miragem.
nem dura a palavra mais
do que o desejo de dizê-la
e nem morte menos
do que o medo de esquecê-la.
(Carlos Rodrigues Brandão)
quarta-feira, julho 13, 2005
Falta de Assunto
segunda-feira, julho 11, 2005
Sonho
de um túnel de pedra.
Uma quietude mórbida
e sufocante dorme
sob a pirâmide.
Na trilha subterrânea
conto os passos
em que piso no chão de vidro.
Na terra vejo corpos
que se contorcem nus
e nadam na lama.
Seguro uma criança
e salto por entre pedras móveis.
Eu a protejo e sinto-me acompanhada.
Desvio-me de paredes úmidas.
Caminho cega em direção à luz.
(Desperto-me antes de alcançar a saída)
sexta-feira, julho 08, 2005
Respire, as ondas vêm e vão.
inspiro.
atento à sensação
produzida nas narinas
pelo ar que entra.
expiro,
atento à sensação
produzida nas narinas
pelo ar que sai.
inspiro.
a partir do ventre,
a centímetros do umbigo,
o tórax enche.
expiro.
a partir do ventre,
centímetros abaixo do umbigo,
o tórax esvazia-se.
inspiro, expiro.
respiro.
deixo-me respirar,
nada mais.
Mas, de repente, forço-me a respirar,
e inspiro e expiro com aparato,
descontrolado,
o equilíbrio perdido.
recordo-me então
que as ondas vêm e vão,
e deixo-me ir, deixo-me ir.
inspiro, expiro.
respiro.
deixo-me respirar.
não estou ansioso, nem calmo,
nem triste, nem feliz.
respiro, nada mais.
e as ondas vêm e vão.
sexta-feira, junho 17, 2005
A Via de Chuang Tzu
A Metamorfose
Quatro homens entraram em discussão.
Cada qual falou:
"Quem souber ter o vazio como cabeça,
A vida como espinha dorsal
E a morte como cauda,
Este será meu amigo!"
Nisto todos se entreolharam,
viram que concordaram,
Riram alto
E ficaram amigos.
Depois um caiu doente
E o outro foi visitá-lo.
"Grande é o criador", dizia o doente,
"Que me fez como sou!
(...)
meu corpo é o caos,
mas minha mente está em ordem".
Seu amigo perguntou-lhe:
"Você está desanimado?"
"Qual nada! Por que haveria de estar?
Se Ele me separa e faz um galo
No meu ombro esquerdo,
Eu anunciarei a madrugada.
Se Ele fizer um arco
Do meu ombro direito
Procurarei um pato assado.
Se meu assento se transformar em rodas
E se meu espírito vier a ser um cavalo
Prepararei minha própria carroça
E andarei por aí."
Há um tempo de juntar
E um tempo de separar.
Aquele que entender
Este curso dos acontecimentos
Toma cada novo estado
Em sua devida hora.
Sem nenhuma tristeza nem alegria.
(...)
A natureza é mais forte do que todas as cordas e elos.
Sempre foi assim.
Onde está uma razão
Para desanimar?
Quando estou com vontade de "matar alguém", leio este:
O Galo de Briga
Chi Hsing Tzu era treinador de galos de briga
Para o Rei Hsuan.
Estava treinando uma bela ave.
Sempre perguntava o Rei se a ave
Estava pronta para a briga.
"Ainda não", dizia o treinador.
"Ele é fogoso. É pronto para atiçar briga
Com qualquer ave. É vaidoso e confiante
Na sua própria força".
Depois de dez dias, respondeu novamente:
"Ainda não. Eriça-se todo
Quando ouve outra ave grasnar."
Depois de mais dez dias:
"Ainda não. Ainda está
Com aquele ar irado,
E eriça as pernas."
Depois de dez dias
Disse o treinador:
"Agora ele está pronto.
Quando outra ave grasna,
Seu olho nem pisca.
Fica imóvel
Como um galo de madeira.
É um brigador amadurecido.
Outras aves olharão para ele de relance
E fugirão."
E, por fim, leio este outro quando acho que as coisas estão insuportáveis e começo ansiosamente a estabelecer prazos para o fim do meu suplício:
A Necessidade da Vitória
Quando um arqueiro atira sem alvo nem mira
Estará com toda a sua habilidade.
Se atira para ganhar uma fivela de metal
Já fica nervoso.
Se atira por um prêmio em ouro
Fica cego
Ou vê dois alvos-
Está louco!
Sua habilidade não mudou.
Mas o prêmio cria nele divisões.
Preocupa-se.
Pensa mais em ganhar
Do que em atirar-
E a necessidade de vencer
Esgota-lhe a força.
quinta-feira, junho 09, 2005
Felizes Demais
quinta-feira, junho 02, 2005
Constatação
Não sou substituível para quem me ama. Sou substituível para quem me usa.
quarta-feira, junho 01, 2005
Nino
terça-feira, maio 31, 2005
Estou Apaixonada
Acho que preciso ver mais TV.
segunda-feira, maio 30, 2005
Márcia Sacerdote
Mãe, você deve brigar com ela!!!!
Já lhe pedi para tomar cuidado, MC.
Exija que ela desligue aquele rádio na estação da Igreja Universal.
Deixa pra lá, filha. É só fechar a porta da cozinha.
Qualquer dia vamos chegar aqui e ela vai ter colocado fogo em tudo.
Não seja intolerante. Vejamos pelo lado bom, ela tem virtudes.
É, justiça seja feita: ela cozinha bem...e
(pensa)
Cozinha bem
(pensa mais um pouco)
Ela cozinha bem...
M. pra sua cozinha. Se ela estragar algum dos meus discos de metal, juro que vou fazer ela engolir aquele rádio. Ela vai ser obrigada a ouvir trash metal o dia todo, prometo.
Acho que prefiro as músicas da Igreja Universal.
Então tome uma atitude.
Calma, filha....as ondas vêm e vão. Respire...
domingo, maio 29, 2005
Redenção
quarta-feira, maio 25, 2005
Mudança
terça-feira, maio 24, 2005
Sentido
(Joseph Campbell)
sexta-feira, maio 20, 2005
Fênix
Acho que há dois anos, mais intensamente no último, que não passo dois dias sem ver um carro de funerária. Na última semana, algumas vezes por mais de uma vez no mesmo dia, uma van branca, com uma bela imagem azul de ave, onde se pode ler: fênix.
Memórias
Quando tinha 8, 9 anos morava numa casa com jardim num bairro popular da cidade. Dormia num quarto com minha avó. Ainda posso vê-la sentada fazendo crochê ou rezando um terço (ela se vangloriava de rezar três terços por dia). Era uma mulher altiva e inteligente.
Lembro-me bem dos seus pés: sempre muito limpos e perfumados. Eu os sentia quando, assombrada por terrores noturnos, pulava para a sua cama nas madrugadas. Dormi abraçada a eles em muitas noites (ela nunca me negou um canto e isso sempre me surpreendeu). À essa época, já repetia a mesma história com o descontrole da memória afetada pela arteriosclerose: foi traída pela irmã e casou-se com um homem que não amava.
Guardava uma mala de fotos antigas roubada por um gatuno que pudemos ver, em vulto, pela janela. Tinha um baú com um prego saliente que me rasgou o joelho numa outra vez. Depois de muitos anos, quando eu já era adulta e a encontrava, sem me reconhecer, ela sorria e dizia: - Filha, você é tão boa...
Quando morreu, duas cenas tornaram-se, também, inesquecíveis: as escaras de suas costas sendo limpas, com carinho, pela minha mãe e minha tia e, por último, os seus pés, amarelos, pendurados no lençol através do qual um homem desconhecido carregava, sem cuidado, o seu corpo sem vida.
terça-feira, maio 17, 2005
Instante
Debruçada na sacada do quarto, esperava-o com certa ansiedade. Vigiava os carros e pedestres adivinhando neles sua aproximação. Lá dentro, tudo pronto: frutas e castanhas no balcão da cozinha, duas taças, um vinho na geladeira, jogo de luzes e sombras. Como seria? Não gostava de imaginar. Não atendeu aos seus telefonemas durante o dia, menos o primeiro: o que confirmava o recebimento das flores pela manhã, com um convite: Janta comigo hoje? Indicava o local e a hora. Foram dois anos de assédio cuidadoso e paciente. Sim, admirava-lhe a persistência, refletia enquanto olhava-se no espelho minutos antes. Preparou-se com esmero: um banho de imersão com ervas aromáticas, lingerie nova, vestido de tecido leve com alguma transparência. A despeito de todas as intenções expressas em gestos e olhares, nunca haviam se tocado. Como seria? Não queria imaginar. Sabia que o sonho matava o instante. Ouviu a campainha e correu para a porta. Era ele. Não conseguira vê-lo pela sacada, mas observou com agrado que estava perfumado e com os cabelos úmidos. Cumprimentaram-se cordialmente com certo constrangimento. Numa fração de segundo, uma sensação perturbadora: viu-se como professora nos olhos dele. O quanto havia lhe ensinado? O que seriam agora? Fizeram comentários banais sobre o ambiente antes que ele se colocasse ao seu lado para dizer que estava tudo bem. Antes que a tocasse levemente com a mão e, num lance de surpreendente fúria, a tomasse pela cintura e a beijasse sofregamente. Dois anos por este dia. Fizeram o amor do desejo e da espera. Lavaram os pratos juntos, mantiveram-se abraçados frente à sacada que revelava a noite clara sobre prédios altos. Conversaram amenidades próprias aos momentos sem promessas. E nunca mais se encontraram novamente.
domingo, maio 08, 2005
sexta-feira, maio 06, 2005
Essencialidades
Experimento a sensação de liberdade ao aprender uma difícil lição: posso perfeitamente viver sem muitas coisas, focada no essencial.
quarta-feira, maio 04, 2005
Amizade
Quando adolescentes ouvimos certos chavões sobre a amizade. Concordamos sem saber, de fato, o que significa. Até estarmos num buraco escuro e vislumbrarmos uma mão amiga. Sim, amigos, os de verdade, são seres especiais. Mais que irmãos, às vezes. São preciosidades, dádivas divinas, devidamente colocadas em nossas vidas para nos ajudar. Tenho uma amiga assim. Uma pessoa que está comigo quando o último vai embora e apaga a luz (aconteceu várias vezes). Que me faz rir quando só tenho vontade de chorar. Que preenche os meus dias com leves e saborosas abobrinhas (literalmente) e coisas completamente banais nos momentos em que a vida está amarga, pesada e séria. Quando não quero pensar, ela está sempre lá, ocupando-me o tempo com pequenas coisas do dia a dia: reclamando dos namorados (sempre mais jovens e diáfanos do que ela), fazendo comida, contando piadas sem-graça (é muito difícil me fazer rir), dizendo coisas absolutamente sem importância. Ela é quase dez anos mais velha que eu, mas parece o contrário. Outro dia, entramos num teatro e eu a abracei. Ela observou: - Vão pensar que somos algum "caso". Respondi, rindo, que não me importava nem um pouco. No que ela emendou: - Você seria muito velha para mim.
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Nisso já se vão mais de vinte anos. Não! Deletem este parágrafo. Eu não conseguiria expressar o valor desta amizade nem em longos dez mil posts.
sábado, abril 30, 2005
Desafetos
Outro dia disse à Maria Clara que minha mãe não me ensinou coisas que julgo necessário saber. Uma importante: não precisamos ser adorados por todos. Seremos sim, se adotarmos a detestável atitude mosca morta: a das pessoas sem opinião ou qualquer tipo de iniciativa, insetos pousados sem vida em coisas e pessoas nem sempre agradáveis. Esta posição, aparentemente as salva de críticas e de desafetos, afinal, elas sobrevivem nesse estilo de morte-vida. Até que alguém lhes dá uma boa e merecida dose de inseticida e elas caem sem a força vital que desperdiçaram. Viver significa agir. E saiba, haverá opositores. E nem é preciso que a ação seja "boa". Basta que ela exista para que incomode, abale estruturas e esteja numa vitrine sujeita a pedradas. Então, o que fazer nessa hora, mãe? MC pergunta. Continue o caminho, se nele houver coerência e convicção, respondo. Quanto aos que gritam? Bah, dê de ombros e siga em frente. Você se sentirá viva e livre.
sexta-feira, abril 15, 2005
Pequenas Grandes Coisas
Quem passou por um grande sofrimento, por um tempo longo, entenderá o que quero dizer. O valor de um gesto ou mesmo de uma manifestação da natureza. Nessa conjuntura, são infinitamente grandes as pequenas coisas.
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P.S. Escrevo este post de forma entrecortada. Tomando um chá. Trazido pela Dona Jô. A da limpeza. Da minha erva favorita. Colhida no quintal de sua casa.
domingo, abril 03, 2005
Estava convicto, no entanto, de que fazia parte de seu destino cruzar aquele deserto, embora não visse como fazê-lo. Então uma voz misteriosa, saída do próprio deserto arenoso, sussurrou:- O vento cruza o deserto, o mesmo pode fazer o rio.
O rio objetou estar se arremessando contra as areias, sendo assim absorvido, enquanto o vento podia voar, conseguindo dessa maneira atravessar o deserto.
- Arrojando-se com violência como vem fazendo não conseguirá cruzá-lo. Assim desaparecerá ou se transformará num pântano. Deve permitir que o vento o conduza a seu destino.
- Mas como isso pode acontecer?
- Consentindo em ser absorvido pelo vento.
Tal sugestão não era aceitável para o rio. Afinal de contas, ele nunca fora absorvido até então. Não desejava perder a sua individualidade. Uma vez a tendo perdido, como se poderá saber se a recuperaria mais tarde?
- O vento desempenha essa função - disseram as areias. - eleva a água, a conduz sobre o deserto e depois a deixa cair. Caindo em forma de chuva, a água novamente se converte num rio.
- Como posso saber que isto é verdade?
- Pois assim é, e se não acredita, não se tornará outra coisa senão um pântano, e ainda isto levaria muitos e muitos anos; e um pântano não é certamente a mesma coisa que um rio.
- Mas não posso continuar sendo o mesmo rio que sou agora?
- Você não pode, em caso algum, permanecer assim - retrucou a voz. - Sua parte essencial é transportada e forma um rio novamente. Você é chamado assim ainda hoje por não saber qual a sua parte essencial.
Ao ouvir tais palavras, certos ecos começaram a ressoar nos pensamentos mais profundos do rio. Recordou vagamente um estágio em que ele, ou uma parte dele, não sabia qual, fora transportada nos braços do vento. Também se lembrou, ou lhe pareceu assim, de que era isso o que devia fazer, conquanto não fosse a coisa mais natural.
E o rio elevou então seus vapores nos acolhedores braços do vento, que suave e facilmente o conduziu para o alto, e para bem longe, deixando-o cair suavemente tão logo tinham alcançado o topo de uma montanha, milhas e milhas mais distante. E porque tivera suas dúvidas, o rio pode recordar e gravar com mais firmeza em sua mente os detalhes daquela sua experiência. E ponderou: - Sim, agora conheço a minha verdadeira identidade.
O rio estava fazendo seu aprendizado, mas as areias sussurraram:
- Nós temos o conhecimento porque vemos essa operação ocorrer dia após dia, e porque nós, as areias, nos estendemos por todo o caminho que vai desde as margens do rio até a montanha.
E é por isso que se diz que o caminho pelo qual o Rio da Vida tem de seguir em sua travessia está escrito nas Areias.
Do livro "O Buscador da Verdade" de Idries Shah
sexta-feira, março 25, 2005
Era saudável, mas ia sempre ao médico. E não era preciso um grande motivo para fazê-lo. Um pouco resfriado, uma dor de cabeça ocasional, uma leve suspeita. Naquele ato, buscava alívio. Descrevia seus pequenos males cheios de subjetividade sentindo-se acolhido num encontro com Deus. Alguém que, pela sua infinita superioridade e misericórdia, poderia curá-lo de sua dor de alma.
quinta-feira, março 24, 2005
quarta-feira, março 16, 2005
Outro dia comentei com alguém que lia a Lygia Fagundes Telles há muito tempo. Lembro-me bem dos contos curtos em que ela narrava histórias que envolviam a disciplina do amor. O amor que está em nós, independente do objeto amado, o amor que não depende de barganhas (as que são fruto de nossas carências, obsessões ou caprichos), o que é paciente, forma um substrato de sentimento que está no fundo de toda experiência aparente de conflito e é incondicional. Este amor resiste ao abandono, aos obstáculos, às indisposições gerais que envolvem todos os relacionamentos. Pela minha longa experiência em amar (não riam, é verdade), penso que estamos mais preparados para este amor quanto mais inocentes somos. Como fomos um dia (quando amamos pela primeira vez) e, paradoxalmente, como voltamos a ser, a cada dia que vivemos e envelhecemos. Para amar com disciplina é preciso acreditar no amor. Desvestí-lo das mágoas e desilusões que encaramos pela vida, considerar com tranqüilidade os “nãos” que recebemos, os sonhos de amor não realizados. Amar com disciplina é amar, apesar de. A maturidade nos prepara para sermos novamente crianças no amor.
sexta-feira, março 11, 2005
A morte não é terrível. Passa-se ao sono e o mundo desaparece – se tudo correr bem. Terrível pode ser a dor dos moribundos, terrível também a perda sofrida pelos vivos quando morre uma pessoa amada. Não há cura conhecida (...). O que as pessoas podem fazer para assegurar umas às outras maneiras fáceis e pacíficas de morrer ainda está por ser descoberto. (Norbert Elias. A Solidão dos Moribundos)
Estávamos na livraria do shopping antes do início do filme, quando recebi um telefonema. Era um amigo avisando-me da morte de uma colega de faculdade. Aconteceu no domingo passado e nem fiquei sabendo. Soube que lutava contra o câncer já há algum tempo, mas que estava bem, confiante que seria curada (era muito religiosa). Entrei no cinema com o coração dilacerado. A velha ferida do peito sangrando todas as dores. Mar adentro. No filme, Ramón Sampedro luta para morrer e minha amiga fazia exatamente o contrário. Nas últimas semanas chorava muito e dizia que queria viver. Queria estar ao lado dos dois filhos pequenos. Ela não tinha quarenta anos. Disseram-me que suplicou até o último instante. A despeito deste contraste, saí do filme com a sensação de que todos tinham razão: os que lutavam pela liberdade individual frente ao poder de um estado laico, os que imbuídos de sua ética existencialista queriam deliberar sobre o seu próprio direito de viver ou morrer, os que defendiam a vida a qualquer custo (mesmo que em migalhas, a vida que vale por um instante de beleza e sentido). O filme é belo e muito tocante, do início ao fim. Saí com os olhos vermelhos da sala. Algumas identificações foram imediatas: a vontade de morrer diante de algumas prisões cotidianas, a necessidade de aprender a chorar sorrindo quando a vida não nos dá outras opções e, afinal, a certeza que por pior que sejam nossas correntes (voluntárias ou impostas), nosso espírito é livre. O que alivia um pouco a dor e a aceitação sobre tudo que não podemos mudar.
terça-feira, março 08, 2005
Hoje é dia internacional da mulher. Tenho uma grande preguiça do discurso feminista. E há momentos que sinto que sou mais homem do que muitos homens. E fico com vontade de aprender a cozinhar e fazer tudo o que as feministas abominam quando estou apaixonada. E é isso o que eu tinha a dizer a respeito.
segunda-feira, março 07, 2005
domingo, março 06, 2005
Hoje assisti a uma palestra do Vice Reitor da Universidade de Lisboa, o professor António Nóvoa. Ele foi um grande inspirador de minhas reflexões teóricas e práticas a respeito do trabalho de recolher histórias de vida na formação de professores. Gostei muito do que ele disse (estava quase sem voz, afinal, quem resiste ao calor brasileiro?). Começou a fala com um quadro de A. Breton e outros: O Cadáver Esquisito (ou elegante). Técnica surrealista que envolvia várias mãos na composição de uma obra e que inspirou um antigo blog que possuíamos, o blog esquisito, escrito com o Luís (Ene) e o Alysson Ferrari (J. Kern). Já comecei a gostar daí. Depois, disse algumas pérolas, como:
Diz-me como ensinas e dir-te-ei quem és.
Ou
Diz-me quem és e dir-te-ei como ensinas.
Professor é como médico: um erro pode ser fatal, trágico na vida de um indivíduo.
A memorização é necessária para o processo criativo (sempre pensei nisso, afinal, Mnemósina é mãe das musas).
Falou também de programas curriculares como programas alquímicos e em transposições deliberativas, uma substituição ao termo transposição didática, influenciado por J.Habermas e que envolve conhecimento teórico, prático, profissional e pessoal (inclua-se aí os valores e a ética).
E terminou com a Teoria do Caos, lembrando que as asas de uma borboleta podem influenciar um tufão no outro lado do mundo, além do que é preciso sonhar. E que os sonhos têm que acontecer, pois tudo que é necessário, é possível.
Dei a ele o meu livro e ele me disse que temos grandes afinidades. Ele também fez história e se doutorou em educação e é apaixonado por teatro (amanhã apresento essa disciplina por lá).
Agora só falta ele me convidar para dar uma palestra em Lisboa.Vocês sabem, adoro Fernando Pessoa (rs).
sexta-feira, março 04, 2005
quando estava na Índia, um terapeuta budista leu um desenho que eu havia feito. disse que os traços mostravam que eu era uma pessoa solitária (ok. ainda não sei direito como ele conseguiu descobrir isso naqueles rabiscos toscos e despreocupados). senti alívio quando afirmou, logo em seguida, que o desenho, entretanto, não apresentava psicopatias(menos mal). de fato, penso que sou uma pessoa que convive bem com a solidão. a começar pelo fato de que as atividades que mais aprecio na vida estão favorecidas pelo estar só: ler, estudar, escrever. o que não significa que não gosto de estar rodeada de pessoas (poucas, por vez, confesso). mas, há momentos em que sinto um peso negativo na solidão. quando estou alegre. nessas horas é muito, muito bom, ter pessoas para compartilhar.
quinta-feira, março 03, 2005
Se acreditar que é possível
viver sempre um grande amor
for ilusão, eu sou
a louca que crê
a tola que escolhe não ser
racional.
Se acreditar que o sempre não dura um só dia
mas sobrevive à revelia
da rotina , do tédio, do esquecimento da paixão
se isso for utopia, eu sou
a ingênua da rua,
Alice Poliana da Silva,
muito prazer.
Se tentar mudar a maré pro meu lado, pro seu lado, nosso barco
com eterno vento a favor,
se isso for fantasia, eu sou
o guizo do palhaço
que toca e avisa:
vem aí uma romântica
em estado terminal,
gastando um resto de vida com amar, crer, brigar e sonhar.
Essa, sou eu.
(Tatyana Badim)
Obrigada, Taty :)
terça-feira, março 01, 2005
Uma vez li uma crônica, acho que do Rubem Braga, sobre estar distraído (se não for dele, peço desculpas, estou com preguiça de procurar). Contava a história de um casal que ficava o tempo todo analisando a relação e que, por esse motivo, a despeito do amor que nutriam um pelo outro, acabaram se separando. Fico pensando que, de fato, é bastante útil viver distraído. É, sem pensar demais, analisar demais todas as coisas. Queremos sempre respostas, de preferência exatas. Estabelecemos prazos a todas as coisas: elas têm que acontecer até um determinado momento. Ditamos regras inflexíveis para os outros e para nós mesmos. E como perdemos tempo com titicas que não valem a pena: pequenas mágoas, irritações banais. Porque comigo tem que ser assim! Inflamos o peito e saímos por aí, armados com nossos valores, nossas leis morais, aplicando a espada do querubim a todas as situações. Quanta bobagem. Ontem uma aluna comentou que o seu marido nunca esquece todas as coisas que ela diz, mesmo de passagem. Ele se vangloria de ter “memória retentiva”. Enquanto ríamos da história, um outro soltou lá do fundo da sala: - Ah, filha, fala pro seu marido aí que tão importante como lembrar, é, talvez, esquecer.
segunda-feira, fevereiro 28, 2005
quinta-feira, fevereiro 24, 2005
Pai Anderson de Oxum. Resolvo todos os seus problemas. Hoje abri este mail. Foi grave. Mas, o pior, o pior mesmo foi, em meio à toda correria de ontem, ter jogado na mega sena acumulada em 31 milhões. Não antes de ter comprado uma raspadinha. Premiada na primeira vez. R$ 0,50 centavos. A loteria corre hoje. Pensar que posso estar milionária e fico aqui, escrevendo neste blog.
quarta-feira, fevereiro 23, 2005
Como explicar uma noite de sono que descansa, um despertar noturno com uma lua cheia iluminando o quarto e uma manhã clara de sol e céu azul sob a qual tudo parece possível (interrogação). Cara, Deus fez com que eu fosse professora, para saber que há coisas na vida que não se pode explicar.
Mostre-me como você rodopia na dança espiral da dor dentro da dor. Como mantém a rígida e cansativa disciplina, mesmo quando sofre agressões e teme. Diga-me como é capaz de correr tantos riscos com a insegurança do hoje num exercício insano de entrega incondicional ao amanhã. Como consegue ficar à vontade com a maneira como as coisas são neste exato momento e também no seguinte e no seguinte. Conte-me como você desmorona quando esbarra nos muros. Lugares que não pode transpor apenas pela força da tua vontade. Como consegue ultrapassá-los sem esclarecimentos da tua razão. Mostre-me como se percebe na frágil condição humana, uma folha sem proteção ao vento. A condição que te esmaga, mas que o leva a lugares onde a terra debaixo de teus pés e um sol intenso fazem seu coração marcado ficar mais sábio, inteiro de novo e de novo, e de novo. Explique-me como cuida das coisas corriqueiras do dia a dia sem deixar que elas determinem quem você é. Como administra o ser que grita em você no teu silêncio no espelho. E como percebe que, mesmo que os desejos da alma tenham um preço muito alto, no final, fica tudo bem.
(Inspirado em Oriah)
terça-feira, fevereiro 22, 2005
Esquecer o tempo. Sentar num meio fio em frente à fonte do Chafariz da Boa Morte e espalhar gravetos com a cabeça entre os joelhos. Pensamentos soltos, longe. Deixar levar pela conversa leve dos amigos. Andar à toa, sem rumo. Deitar nas pedras do Rio Bacalhau e olhar o céu azul sob o sol morno das manhãs. Comer pastel de queijo, bolo de arroz e tomar suco de cajuzinho do campo na rodoviária. Experimentar os doces cristalizados da rua Cândido Penso. E à noite, à noite ver as estrelas no silêncio do outeiro da Igreja Santa Bárbara.
sábado, fevereiro 19, 2005
Depois que Dona Maria do Socorro do Livramento me abandonou para trabalhar com a vizinha em melhores condições, declaro, para os devidos fins pessoais e profissionais, que a partir de segunda feira próxima começará a trabalhar aqui em casa a Dona Márcia Maria Sacerdote. Evangélica. Ex do Sandes Júnior. Sem comentários.
Dr. João é um homem prático, direto, simples. Eu o conheço há pelo menos dez anos e nunca trocamos mais do que algumas poucas palavras para falar de otites, amigdalites, antibióticos ou outras coisas do gênero alopático. Ele é o otorrino de minha filha. Nesta semana que passou eu o procurei. Por conta de um barulho constante no ouvido. Parecia haver um Focker 100 da TAM turbinado dentro da minha cabeça. Depois do exame clínico, ele me perguntou: - você levou um choque, o que foi? Neguei. Mas era verdade. Dr. João não é o tipo de desconhecido bom para confidências (e, depois, eu estava muito à flor da pele para falar com quem quer que fosse). Afirmei que a causa poderia ser física, desafiando-o. Ele riu e disse confiante que no meu caso não era. Receitou-me um remédio fitoterápico, e ainda emendou: - faça ioga, você pensa demais. Coloque a sua cabeça num nível superior e deixe o pau quebrar aqui em baixo.
Surpreendente.
quinta-feira, fevereiro 17, 2005
Outro dia um aluno novato me perguntou, desculpando-se pela indiscrição, qual era meu estado civil. Disse-lhe que era solteira. Ponto final. Ele não pareceu acreditar. Problema dele. Adorei falar essa mentira. Se ele fosse um desconhecido de ocasião, seria bom também dizer que me chamo, sei lá...Dora. Há momentos assim, que gostaria de passar tudo a limpo e sair por aí, com um olhar inaugural sobre o mundo.
quarta-feira, fevereiro 16, 2005
Pimeiro dia de aula do semestre. Entro na sala lotada e estão todos em silêncio. Calouros. Escrevo o nome da disciplina e o meu nome no quadro. O ambiente é desconhecido, quase hostil. Sento na mesa e finjo analisar papéis, enquanto aguardo mais alguns minutos para iniciar a primeira conversa. Tento disfarçar meu cansaço (o físico, o de alma). Faço um ar compenetrado e um esforço enorme para manter-me nesta seriedade pelo primeiro contato (mesmo quando vejo pela abertura de vidro no fundo da sala alunos antigos acenando para mim, enviando-me beijos ou fazendo macaquices). Apresento-me. Desfaço pré-conceitos em relação ao curso. Falo das oportunidades profissionais e das motivações internas para realizá-lo. Digo- lhes coisas que acredito e passo a acreditar nelas mais ainda (especialmente quando vejo tanta esperança e interesse naqueles olhos atentos). Ao final, o que, de fato, vale a pena: uma aluna aguarda ficar a sós comigo e confidencia-me:
- Professora, hoje você me deu forças para fazer qualquer coisa. Obrigada.
Volto pra casa com a mesma sensação. Revigorada.
segunda-feira, fevereiro 14, 2005
Maria Clara e eu refletimos sobre as regras de luta inspiradas em Sun Tzu. Numa delas há uma grande ênfase à necessidade de conhecer o inimigo. Disse-lhe que não concordo. Pelo menos não inteiramente. Nem sempre isso é possível. Muitas vezes a luta é cega, o inimigo está à espreita e nos surpreende. Sabemos como podemos ser atingidos. Assim, podem acreditar, se formos muito mentais, a guerra será mental, se, ao contrário, formos emocionais demais, as batalhas serão travadas nesse nível. Ela argumenta que poderemos, então, conhecer as fragilidades do inimigo e fazer o mesmo. Todavia, explico-lhe que prefiro usar o princípio das lutas orientais do tipo aikido: esperar o ataque e trabalhar a defesa, utilizando a própria força do oponente. Quando o inimigo ataca ele revela a verdadeira face. Aí sim, dá pra bater (e que as armas sejam coerentes com a nossa natureza, sempre). Em todos os casos, vale muito mais conhecer-se, portanto.
Use a força interior , o equilíbrio e sobretudo o auto controle .
Lute usando a energia da água e do ar. Está tudo na natureza.
Não use a força. Ao imprimir a força física no combate,
sua energia se vai.
sexta-feira, fevereiro 11, 2005
sábado, fevereiro 05, 2005
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P.S. Esqueci da atividade voluntária com os adultos na Paróquia N.Sra de Fátima nos finais de semana. Claro que vou.
quinta-feira, fevereiro 03, 2005
Quatro dias. Nem acredito. O corpo ainda ressente os impactos da semana. Por tudo que fui obrigada a ouvir e digerir, ainda sinto os ouvidos, o estômago. Mas isso não importa. Quatro dias para estar sossegada, ler, ir ao cinema, estudar. Sem pressões ou obrigações de qualquer natureza. Descanso com o senso do dever cumprido. Adormeço a mente e o coração neste eterno agora. Deus! O paraíso é um estado de espírito.
Lendo revista no banheiro, reflito hoje sobre Kofi Annan e os destinos do mundo. Contemplo seus olhos generosos e surpreendo-me com suas observações sobre o peso das desigualdades sociais e os aspectos perversos das defesas identitárias das nações. A origem africana foi fundamental em sua formação, afirma. Com as sociedades tribais aprendeu a ouvir. Além disso, ressalta que uma de suas funções é a de, de vez em quando, conversar com o diabo. Acho que o compreendo. Profundamente.
quarta-feira, janeiro 26, 2005
Da leitura de Antonin Artaud :
Uma obra de arte só é viva na medida em que comunica algo além de sua aparência. Uma sombra, que a duplica, ou seja, quando o artista é capaz de inscrever naquilo que ele molda o sopro de vida que o inspirou, como Deus que moldou o homem com o barro da terra e depois insuflou-lhe o sopro vital. O sopro é esse exercício de força criadora, a vontade de potência, que apreende aquilo que, do interior, se inscreve e se manifesta na exterioridade. Uma representação habitada por marcas de uma história, escrita com a própria carne. Quando deparamos com alguma obra de arte que carrega em si essa potência, ela nos atinge, nos perturba, nos encanta, nos transfigura. Não saímos dali como entramos, algo foi acrescentado. É o tempo privilegiado em que não apenas nos sentimos existir, mas onde passamos por uma experiência de recuperação material do ato de existir.
E, deste xeque mate:
“se falta enxofre à nossa vida, quer dizer, se falta uma magia constante, é porque nos apraz contemplar os nossos atos e nos perdemos em considerações sobre as formas sonhadas de nossos atos, ao invés de sermos impulsionados por eles, ou seja, falta à nossa vida força, energia, vibração, intensidade e estamos mergulhados no marasmo”.
Concluo:
Desse mal nunca serei acusada. Vivo externamente minhas interioridades.
Estive conversando com minha psicóloga, conhecida empresária e vendedora de caldo de cana, a Dona Lurdes, sobre relacionamentos. (sem contar a Clarice, manicure, ela é a pessoa mais sábia que conheço). Dona Lurdes pensa que num casamento maduro, os envolvidos devem dormir em camas e cômodos separados. É muito melhor, afirma convicta. Quando se quer algo mais, é só bater na porta do quarto e perguntar sem rodeios: vai aí, um carinhozinho extra? Quando um não quer, dois não brigam, ela reafirma, não adianta insistir. Argumento que, neste caso, então, não seria interessante fazer o outro mudar de opinião? Ela até considera. Mas diz que dividindo a mesma cama fica mais difícil dizer um não educado quando se quer dormir sem enfrentar a terceira jornada de trabalho do dia: sexo conjugal. Ela também acha que sexo, depois de muitos anos compartilhados, é melhor que seja realizado de forma não programada. Depois do café da manhã, no meio da tarde, entre um freguês e outro (aquele último caldo que tomei, deus do céu). Filha, entenda o seguinte, quando a gente fica mais velho, quer mesmo é dormir à vontade, sem incomodar e nem ser incomodado. Mas, Dona Lurdes, a Sra, já dormiu de colherzinha? Parece tão romântico. Já dormi até de cuia, minha filha. Homem por trás, com aquele braço pesado em cima da gente, roncando na sua nuca? Unhum. Um pesadelo. Vai por mim, filha, homem bom é aquele que te aparece de manhã, de banhozinho tomado e que não te enche a paciência de noite quando você não está com vontade. Você vai querer ficar com ele o resto da vida, pode ter certeza.
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Dona Lurdes parece pouco apaixonada. Será?
terça-feira, janeiro 25, 2005
domingo, janeiro 23, 2005
Reencarnação
Assisti com Maria Clara o filme Reencarnação (Birth, 2004). Ela conversa o tempo todo, faz perguntas, e ainda me ridiculariza quando eu a mando calar-se. Shhhhhhh.....ela me devolve o pedido de silêncio quando, momentos depois, ofereço-lhe um Trident. Não parece corar nas cenas de sexo que Nicole Kidman protagoniza com o noivo no filme, nem mesmo diante da tão polêmica cena em que o menino de dez anos compartilha a banheira com a atriz. Fica indignada com o microfone aparecendo no topo da tela. “Erro tosco”, conclui. Comenta com a amiga ao lado que a musiquinha do suspense é irritante e que o ator criança (o mesmo dos filmes O Enviado e Efeito Borboleta) é ótimo. Ao final do filme, vira-se para mim e diz: é claro, a Anna (Nicole Kidman) pediu aos amigos para afastar o menino, pois não conseguiria fazer isso. Portanto, a amiga estava mentindo quando convenceu o garoto que ele não era a reencarnação do marido de Anna. Foi isso. Fico surpresa com a conclusão (perfeitamente possível) que mantém a ambigüidade do filme (como ela consegue pensar, mantendo-se inquieta o tempo todo?). Já na praça de alimentação, contando os sushis que posso comer (pois havíamos dividido a porção) ela explica à amiga sua teoria sobre a reencarnação: bem, acho que seria injusto ter uma só vida, mas isso, Marcela, não é uma coisa para se pensar, não. Falar nisso é perder tempo...e Mãe, não pense que eu estou distraída, não, você comeu um sushi a mais....
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Ir ao cinema com Maria Clara é, no mínimo, interessante.
Jornada da Alma
Vimos três filmes da IV Mostra de Cinema do Lumiére. O primeiro deles ainda ecoa em mim: Jornada da Alma (Prendimi L´anima, Roberto Faenza, 2002), o belo filme que mostra o amor entre Jung e sua paciente Sabina. Jung ainda é o jovem discípulo de Freud, mas já se pode ver nele os elementos que o fariam único. A utilização das primeiras técnicas da psicanálise, insights sobre o poder dos sonhos e seus arquétipos, os traços de sincronia favorecidos pelo poder psíquico. O filme contém referências históricas importantes, e tem uma bela trilha sonora (ainda posso ouvir a folclórica Tumbalalaika tocada no piano de Sabina). O ator que interpreta Jung (Iain Glen) é maravilhoso (exatamente como imagino que ele foi: sensível, reflexivo). Tudo isso é possível ver no filme. Todavia, para mim, o mais belo, talvez tenha sido mesmo, a quebra da ética médico-paciente, com o envolvimento de Jung com Sabina, sua anima. Eles sofrem muito por isso, mas é deste contato, pelo amor, que Sabina fica curada e torna-se uma psicanalista de vanguarda (iniciativa abortada pela repressão stalinista). Fiquei questionando, ainda, se é possível produzir algo importante, sem quebrar rígidos códigos de conduta, envolver-se até a alma, abrir-se para os ventos mobilizadores do amor, os que alteram o estado de todas as coisas. Jung não teria sido o que foi sem esta permissão. Isto é certo.
quinta-feira, janeiro 13, 2005
Nada como ter olhos de criança. E Valentin é uma criança de nove anos. Mora com a Avó, uma argentina que reclama de tudo, mas cuida bem dele. Sob o contexto da ditadura militar na década de 60, vive num bairro pobre de Buenos Aires. Não sabia do paradeiro da mãe e o pai era ausente. Valentin queria uma família. Uma mãe loira que o buscasse no colégio. Mas isso não o transformava numa criança triste. Assistir ao filme de Alejandro Agresti provocou-me muitas reflexões e acordou alguns sentimentos. Os que se referem à fragilidade da vida, à ternura que está nas pequenas coisas (sem as quais, dificilmente construiríamos algo), ao enfrentamento da solidão, à dor do sonho, à disposição da fé no impossível. Contentar-se com o que nos é dado, mesmo que nos pareça pouco. Valentin divertia-se com os instrumentos que inventava e os treinamentos que o levariam a ser um astronauta da Nasa. Importante imaginar, especialmente o que não se pode viver, não é mesmo? Valentin sabia disso, quando construiu uma roupa espacial, colocou pesos nos sapatos para acostumar-se à falta de gravidade que enfrentaria no espaço. Estabelecer relações sem idéias pré-concebidas. Valentin tem forte laço de amizade com o músico vizinho. Um homem incomum, um judeu solitário. Ser flexível, mudar de planos quando necessário, superar obstáculos sem grandes traumas. Passar pelas dificuldades como quem resolve rápido uma conta de matemática do dever diário e corre para a janela, o brinquedo que constrói significados para o mundo. Acreditar, sempre. O filme de Agresti é uma prova lírica e adorável de que não é preciso um grande ou dramático evento para se apresentar uma história. Basta que se saiba contá-la.
O melancólico lança um certo olhar sobre o mundo. Vê por baixo e pelo avesso o que está escondido. Percebe o desencanto por trás da piada e da ironia, o choro que produz o riso. Há, sim, no melancólico, certa familiaridade com o absurdo, pois não há melancolia expressa sem auto-referência, um certo senso de cumplicidade com a dor e com o sofrimento. Nisto está sua fragilidade e sua força. O olhar melancólico implica alguma conformação com o estado das coisas, mas permite o pulsar da vida. E é na expressão de sua tristeza que encontra alívio, beleza e redenção.
É inegável que falar de nossas ansiedades e problemas, quase sempre faz bem. Especialmente quando a respiração está difícil e parece haver um boi entre a garganta e o estômago dificultando a passagem do ar, da comida, da vida que anima o corpo. Mas, é indiscutível que é problemático falar com pessoas conhecidas. O envolvimento emocional é desagradável, prejudicial ao outro e, por reflexo, a nós mesmos. Melhor mesmo é falar com desconhecidos. Motoristas de táxi, jornaleiros, o seu Zé da padaria.
Hoje tive um dia difícil. Além do normal. No final da manhã, ainda descubro que por uma fraude, fizeram um débito indevido em minha conta corrente. Quanto trabalho e chateação. Sem almoço por esperar o gerente de banco (que, se minha praga pegar, deve ir – com todos os outros - para o meio do inferno, desculpem), fui tomar um caldo de cana na lanchonete mais próxima ao Banco (por que escrevo esta merda com letra maiúscula?).
O Quiosque Tropicana da Dona Lourdes. Conversamos muito. Contei-lhe tudo que estava acontecendo naquele momento e mais outras coisas que não diria a ninguém (ninguém mesmo). Pude chorar à vontade sabendo que ficaria ali, entre nós duas, e que eu não a prejudicaria por isso. No final, ela nem cobrou o caldo, desejou-me, sinceramente muito boa sorte, que eu fosse com Deus. Revigorada pela cana de açúcar e de fígado desobstruído, fui lá enfrentar o tal gerente, que, é claro, ressarciu-me de todo prejuízo depois de algum enfrentamento. Ufa. Estou cansada. Mas amanhã estarei novamente pronta, para o que vier.
domingo, janeiro 09, 2005
Entendo que minha grande motivação como professora, é aprender e ensinar. Sim, adquirir novos conhecimentos é sempre muito estimulante na medida em que podemos transmití-los. Dá uma sensação de dever cumprido, de utilidade na vida. E não há dinheiro no mundo que pague esta satisfação. Lembro-me sempre dos meus pequenos alunos, as crianças do ensino fundamental. Quando tentava explicar-lhes coisas complicadas, traduzir a linguagem, diversificá –la (sim, porque nem todo mundo entende a partir da palavra falada). Foi um exercício muito importante. Ficava olhando bem nos seus olhinhos, no brilho que expressavam quando uma determinada explicação os tocava. Isto é verdadeiramente motivador. Há uma energia de retroalimentação em todo momento de aprendizagem. É revigorante, compensador interiormente. De fato, um processo divino. Mas não é isso que gostaria de dizer. Escrevo aqui, hoje, para enfatizar outra coisa. Gostaria de dizer que as coisas mais importantes, as mais significativas de uma vida, essas, essas não podem ser ensinadas. Há que se vivê-las. Assim, todas as coisas que tenho vivido e aprendido, estas, provavelmente tentarei dizer a alguém (minha filha, talvez). Mas sei que não serei compreendida.
sábado, janeiro 08, 2005
*Frase de uma oração que recitava todas as noites.
quinta-feira, janeiro 06, 2005
quarta-feira, janeiro 05, 2005
Desliza o mouse. Lê pequenos textos sem prestar muita atenção neles. Numa sucessão descontrolada de cliques, visita sites, blogs, flogs. Entra e sai mais de uma vez buscando atualizações, velhos e novos interesses. Vê jornais, seleciona imagens, procura algo que possa prender sua atenção. Satisfação temporária. Segundos. Com muita sorte, alguns minutos. O google, sim o google. Faz perguntas pessoais ao buscador e não obtém respostas diretas. Reavalia objetivos. Desliza o mouse. Lê rapidamente. Recomeça. Percebe que já é noite. Sim, menos um dia, menos um dia, pensa. Desliga o micro e vai dormir.
domingo, janeiro 02, 2005
Fechou o Word com a conversa gravada pelo MSN. Uma conversa difícil. Parecia sentir o peso das palavras, a respiração ofegante. A indisposição das perguntas para as quais não tinha resposta, o embotamento mental diante das pressões de tão lógicos argumentos. Refletia sobre as acusações e via certa razão nelas. Mas, de maneira geral, considerava sua própria coerência. Com algum orgulho delas. Sim, isso era indiscutível. Tinha sido sincera. No que era possível. Leu tudo mais de uma vez, convencendo-se de que tinha sido melhor assim. Procurava afastar a saudade, a vontade de dizer alô, estou aqui. Ainda. Não. Era arriscado. Soube que tinha um novo amor, ou um antigo renovado, sabia-se lá. Melhor assim. Melhor assim, repetia-se. Estava muito frágil para se ferir. Mas os fogos do reveillon insistiam em refletir-se na tela do micro, lembrando do ano passado juntos. Um olhar terno. Um corpo cálido. Projetos rascunhados com recomendações de sonharem acordados, sem medo.
quinta-feira, dezembro 23, 2004
quinta-feira, dezembro 09, 2004
Procuro manter os olhos voltados para o futuro, mas há dias, assim, tão sem expectativas, que as memórias involuntárias de Proust ficam favorecidas e daí, qualquer madalena, qualquer música, voz ou gesto, fazem-me voltar a um tempo feliz. Revivo este tempo perdido quando ouço algumas músicas da infância, as que tocavam no rádio da cozinha da Teresa, sempre ligado, na casa azul, a que sempre julguei a mais bonita da minha rua. Uma moldura de cimento na janela do quarto dos meus pais dava para as plantas altas do jardim e formava um esconderijo. Lá eu ficava horas, batendo bife com as folhas, sonhando e lendo numa deliciosa solidão anônima. Rua 209, número 80. Deve ter sido o primeiro endereço que decorei na vida. Há mais ou menos um ano, procurei este palácio, templo das minhas memórias de infância. Lá havia uma pequena casa cinza sem jardins ou crianças brincando, mas minha bela casa azul ainda vive em mim, como um refúgio em momentos de dor.
sábado, dezembro 04, 2004
“No começo era o Caos. Não havia luz e também as trevas não existiam. A noite (Nix) é gerada do Caos e dela nascem o sono(Hypnos), o senhor da morte(Tânathos) e as deusas do destino (moiras)”....
(Hesíodo. Teogonia.)
Marco é um aluno incomum. Veste-se sempre de negro. O cabelo, no mais belo estilo punk crista de galo. Um piercing no canto esquerdo do lábio. Sim, chama a atenção. Todavia, está sempre em silêncio. É discreto e possui aquele olhar inquiridor, profundo. No início das aulas estava sempre solitário. Sugiro-lhes grupos de vivência alegórica de um mito e ele me apresenta a escolha do grupo em que faz parte: o mito de Nix. Fico surpresa com a opção, mas concordo. Recebo dele, seu primeiro exercício autobiográfico e ele escreve que não consegue se lembrar da primeira infância. Destaca a adolescência, o contato com amigos que estavam fora dos “problemas mundanos”. Diz, então, “fiquei cego e aproveitei tudo que nos importava”. Marco presta muita atenção nas aulas, olha sempre atento para as imagens míticas que apresento, mantém um vivo interesse pelas histórias. Num outro dia, apresenta-me o roteiro, pronto e muito bem escrito: contava a história de um adolescente, suas dificuldades de comunicação e relacionamento com o pai. Em suas reflexões noturnas encontra Nix e dialoga com ela. É influenciado por Nêmesis, pelas Moiras e por Tânathos, o deus da morte. No final, mata o pai, a mãe e se suicida.
Tento disfarçar o meu choque com o desfecho e pergunto se não ficaria muito trágico, escuro. Ele argumenta que não. Essa era mesmo sua intenção: causar desconforto. Era contra um final suave, pois não queria consolo. E não seria a morte o maior consolo? Pergunto. A dificuldade não estaria em manter-se vivo? Marco não responde. Ignora até mesmo a oposição de alguns colegas que achavam que os conflitos adolescentes com o pai não se constituiriam em motivos suficientes para a tragédia. No dia da apresentação encontro a sala de aula muito bem decorada: uma lona negra divide os espaços entre cozinha e quarto. Na cozinha, uma toalha sobre uma mesa arrumada para o café da manhã. É nesse local que ocorrem as maiores discussões com o pai e o adolescente sob os olhares submissos da mãe preocupada em servi-los e amenizar os conflitos. Dois aspectos são muito marcantes: os gritos e a intransigência do pai e as figuras negras míticas que povoam o quarto do adolescente. Quando o jovem consuma o assassinato do pai, Nix e seus companheiros negros tomam o cenário principal. Sentam-se na mesa e o instigam. A seriedade dos alunos na representação calam os risos abafados. Procuro Marco e não o vejo. No final da apresentação, pergunto aos alunos onde estava o roteirista e eles me informam que estava com febre. Uma colega confidencia-me que no dia anterior havia discutido seriamente com o pai. Fico preocupada e vou para casa pensando nas ressonâncias do mito-guia escolhido pelo aluno. Reflito que a noite, Nix, é fruto da necessidade do Grande Espírito de projetar-se e conhecer sua própria existência. Tensionadas em si mesmas, as trevas do Caos e da Noite explodiram em luz. Na versão órfica, é deste esforço que nasceu Eros, o Amor, que ocupou o Nada e impregnou o universo despertando a semente da vida. O amor uniu a luz e as trevas e as duas metades converteram-se no céu (Urano) e na terra (Gaia). É da luta de Urano com o filho, Saturno, e dele com Zeus que o caos é ordenado e cria sentido. O Caos aqui é o inconsciente em potencial, a partir do qual tudo pode ganhar forma. A criação pode ser um ato caótico, que envolve conflitos, lutas entre o adulto (pai) e a criança (filho), entre o consciente o inconsciente. É uma luta dolorosa, em que a morte pode ser uma alternativa para a permanência da vida, em constante transformação. Marco escreve em seu relato autobiográfico: “Nos transformamos a cada olhar, leitura, interação com outro ser, mas mantemos nosso eu...dizer que estou pronto é precipitação, pois estou em processo de mutação sóbrio”. Sim, Marco estava se transformando. A catarse do teatro e a história mítica estimulavam sua autoconsciência e o auxiliavam a atravessar este momento de transição.
terça-feira, novembro 23, 2004
Vivo numa conjuntura diária difícil e complicada (tenho preguiça de explicar), mas tenho sobrevivido (não sem muitos arranhões, é certo). Nela, aprendi a valorizar a atitude de algumas pessoas muito próximas. Quando a coisa tá feia mesmo e tudo parece triste e sem saída. Há os que fazem de um simples ato, uma façanha hercúlea e desgastante. De uma pequena dificuldade, uma montanha de reclamações e obstáculos. Há outros, entretanto, que não estão focados nos medos (reais e imaginários), nas portas temporariamente fechadas, nas pressões advindas de todos os lados. Andam assim, distraídos, sem levar tudo muito a sério, bolando alternativas pouco ortodoxas, rindo até do que é pra chorar e caminhando, sempre. Esses são os melhores companheiros de jornada. A você Vinícius, que nunca lerá este post e que me faz acreditar no poder do bom humor, minha gratidão por mais este dia de resistência.
sábado, novembro 20, 2004
A primeira vez que entrei na Igreja do meu bairro deparei-me com a escultura painel de Cristo Crucificado. Uma escultura monumental em estrutura metálica. A representação é dura, de uma aspereza ímpar. O material parece ter sido torturado para adaptar-se à forma. São cones, fragmentos de aço combinados para representar Jesus em sua hora final. Sentia uma dor fria ao olhar para ela. Podia ouvir as marteladas agressivas do escultor na matéria prima. Sentia a resistência do material, sua capacidade de cortar e ferir, sua temperatura ártica. Eu não sabia muito bem o que estava fazendo ali e mal conseguia fixar o olhar no painel do altar central. Meu coração estava pesado e aquela figuração não o acolhia. Havia desconforto. Era muito cedo e fazia frio. Sentei-me num banco discreto e esperei para ouvir palavras que não compreendia. Num instante, uma senhora abordou-me: queria que eu lesse um salmo. Ofereceu-me rápidas explicações e desapareceu. Subi ao altar, ao lado do Cristo em aço torturado e, um pouco tonta, li o salmo num só fôlego. Eu não sabia que deveria dar pausas para que as pessoas repetissem a frase principal. Apesar do erro, não fui repreendida. Ficaram todos em silêncio e o ritual seguiu seu curso. Sentei-me novamente e mantive-me com a cabeça baixa. A fala do sacerdote parecia estar numa língua desconhecida. Eu não conseguia pensar, racionalizar, inferir alguma lógica em tudo aquilo. Só nós existíamos: eu, meu coração pesado e um Cristo torturado em aço. Aos poucos, a dor foi se transferindo para minha garganta e saltou-me aos olhos. Assim, com a visão turva o Cristo me parecia envolto em nuvens e flutuava num universo de cimento e metal. Acho que naquele momento pude compreender a dor do sacrifício, aceitá-lo, sentir-me próxima a Cristo. Esta sensação, de um consolo quase cúmplice, levou-me muitas vezes a este local. Eu leria o salmo em muitas outras ocasiões, usaria o púlpito para ler e comentar as escrituras, exploraria o altar com crianças e adolescentes para chamar a atenção para o mistério. Mas, o Cristo dilacerado estaria sempre lá, lembrando-me do sacrifício, incomodando-me com a sua dor, servindo-me de espelho para o enfrentamento e a aceitação de todas as feridas.
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*Painel Escultura do artista paulista Caciporé Torres instalado na Paróquia Nossa Senhora de Fátima em Goiânia.
Concepções racionalistas valorizam o real, as causas dos fenômenos.
Concluímos que o real é uma construção que possui muitas subjetividades: teórico-culturais, individuais e coletivas.
O passado é um campo de exercícios de anamnese para descobrir as causas reais na busca das origens.
Concluímos que a origem é elaborada a partir de nossas subjetividades. Mais uma construção.
Entretanto, é na elaboração que nos movemos. É a construção que imprime sentido às nossas vidas e pauta nossas ações. Conhecer nossas motivações e construções subjetivas é, portanto, mais útil do que buscar as causas, sempre inapreensíveis em sua complexidade.
Existem porquês, certamente. Mas é mais útil compreender o como.
Traduzindo: Se algo está dando errado na sua vida, larga mão de se lamentar e fazer perguntas. Tente descobrir o seu próprio manual de funcionamento e aperte alguns botões. Neste esforço, entre tentativas e erros, uma hora a coisa engrena.