quarta-feira, novembro 09, 2005

Caminhos

Podia-me dizer por favor, qual é o caminho para sair daqui? - Perguntou Alice.
- Isso depende muito do lugar para onde você quer ir. - disse o Gato.
- Não me importa muito onde... - disse Alice.
- Nesse caso não importa por onde você vá. - Disse o Gato.
- ...contanto que eu chegue a algum lugar. - acrescentou Alice como explicação.
- É claro que isso acontecerá. - Disse o Gato - desde que você ande durante algum tempo.( Lewis Carroll)


Paul Auster descreve, em Cidade de Vidro, as sensações de um homem ao andar pela cidade. Perambular pelo labirinto de caminhos que fazia sentir-se perdido. Não apenas na cidade, mas também dentro de si mesmo. Andar pela cidade era abandonar-se ao movimento das ruas. Reduzir seu olhar à observação e, neste ato, fugir da obrigação de pensar. Andar pela cidade produzia nele um saudável vazio interior, uma certa paz. Pois, afinal, o mundo estava fora dele e se apresentava de forma rápida pelas ruas, o que não permitia fixar-se em nada. Ele não era o mundo. Ao caminhar sem rumo, todos os lugares se tornavam iguais e, assim, já não importava mais onde estava. Pois ele não estava em parte alguma. E isto, afinal, era o que pedia às coisas: não estar em lugar nenhum.

sábado, novembro 05, 2005

Raul Gil

Raul Gil é a via da iluminação. Era minha certeza recorrente dos sábados. Dos finais de semana, quando meu corpo doía mais do que o costume, quando minha mente trabalhava, mesmo sem permissão. Sábado era dia de parar (e se paro, vejo; e se vejo, sinto; e se sinto, sofro). Então, concentrava-me no Mestre Raul, nas suas piadas sem-graça, no seu humor pastelão que lembrava os programas domingueiros do Chacrinha com gosto de infância no bairro. Emocionei-me com os anjos que cantavam, que traziam histórias sofridas e o sonho da arte. Lá havia uma menina que só interpretava sucessos da MPB. E o fazia com tanta maestria e seriedade que dava gosto de ver. Havia outra que, de maneira bastante original, mesclava a música clássica com arranjos de rock. Havia, também, uma dupla que cantava músicas de raiz, cujo vocalista, de quinze anos, tinha a voz mais bonita e grave do que a do Tião Carreiro e Zé Ramalho juntos. E havia um menino, Mateus, que me fez chorar ao ouví-lo cantar Planeta Água. Parecia uma oração. Ele tinha uma voz doce, emocionada, e os olhos mais tristes que já tive a oportunidade de ver numa criança.

Por momentos, cheguei a bendizer a Record e a Igreja Universal do Reino de Deus.
O Programa não acontece mais a partir de hoje. Pena.

sexta-feira, novembro 04, 2005

João de Barro

Alice Capel

Sentada no banco junto à fonte,
solitária e introspectiva,
observo os pássaros que gorjeiam alegres .

O João-de-barro pousa no teto de sua casinha.
Minutos depois vejo-o entrando e saindo,
levantando as asas
num gesto de louvor e contentamento.

Tive vontade de entrar naquela morada,
tão pequenina e aconchegante.
Ah..se pudesse... estaria ali, quietinha, em silêncio,
Assim ,talvez , ficaria incólume do frio que reside
em minha alma.

É impossível manter este anseio infantil...quimérico.

Volto-me para outras paragens
Revejo os pássaros alegres...ágeis...barulhentos.
Eles vão e vem.....voam e repousam num festim
sem igual.

Em pares, voam muito alto e alguns retornam.

Há aquele que se distanciou do bando, sem par,
solitário e triste, tenta alcançar os companheiros
que se foram...para sempre.

quarta-feira, novembro 02, 2005

Morrer, transformar-se.

Quando já, aos trinta e poucos anos, decidi que queria viver de maneira mais intensa, comecei a buscar meios de fazer isso. Não foi bem uma atitude consciente. Uma inquietação interna obrigava-me a isso. Algo deveria ser feito. E, de alguma maneira, eu já sabia de tudo. Resolvi que enfrentaria todos os desafios de auto conhecimento. Sem os tais medos do espelho. De fato, não gostei de tudo que vi. Mas os reflexos, às vezes ilusórios, às vezes fiéis, abriram portas. Dos espelhos que eram meios de reflexão, dos que eram prisões de auto-imagem e precisavam ser destruídos. No auge da experiência, eu temia enlouquecer. Tudo parecia fora de controle. Não sem motivos internos, externamente eu me perdia. Quantas vezes, ao dirigir, perdi a noção de onde estava. Perdi, também, alguns documentos. E um sonho recorrente, um em que aparecia em uma praia deserta diante de uma enorme onda, evoluiu. Desta vez, eu me atirava ao mar. Freqüentei rodas de terapia e conheci muitas pessoas. Houve os anos de compartilhar as experiências. Houve o instante de abandoná-las. Chegou o tempo de estar só. Medo. Este foi o primeiro portal a ser transposto. Mas viriam outros muito mais difíceis e desafiadores. Ainda nesta atitude, revejo minha disposição interna para a transformação. Para a morte. E percebo que muitas capas foram retiradas. Por um lado, há a imensa dor das perdas. Por outro, uma sensação indescritível de liberdade interna. Para celebrar o processo e a aceitação da agonia vou cortar o cabelo e descobrir a nuca.


“Não dormes sob os ciprestes,
Pois não há sono no mundo.
..............................................
O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem o teu ser profundo.

Vem a noite, que é a morte,
E a sombra acabou sem ser.
Vais na noite só recorte,
Iguais a ti sem querer.

Mas na estalagem do Assombro
Tiram-te os anjos a capa:
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.

Então, Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu,
Não tens vestes, não tens nada:
Tens só teu corpo, que és tu.

Por fim, na funda caverna,
Os deuses despem-te mais.
Teu corpo cessa, alma externa,
Mas vês que são seus iguais.
. .............................................

A sombra das tuas vestes
Ficou entre nós na Sorte.
Não estás morto entre os ciprestes.
..............................................
Neófito, não há morte”.
(Iniciação. Fernando Pessoa)

segunda-feira, outubro 17, 2005

Releitura

Então, Almitra disse: Fala-nos do amor.
E ele ergueu a fronte e olhou para a multidão,
e um silêncio caiu sobre todos, e com uma voz forte, disse:

Quando o amor vos chamar, segui-o,
Embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados;
E quando ele vos envolver com suas asas, cedei-lhe,
Embora a espada oculta na sua plumagem possa ferir-vos;
E quando ele vos falar, acreditai nele,
Embora sua voz possa despedaçar vossos sonhos
Como o vento devasta o jardim.
Pois, da mesma forma que o amor vos coroa,
Assim ele vos crucifica.
E da mesma forma que contribui para vosso crescimento,
Trabalha para vossa poda.
E da mesma forma que alcança vossa altura
E acaricia vossos ramos mais tenros que se embalam ao sol,
Assim também desce até vossas raízes
E as sacode no seu apego à terra.
Como feixes de trigo, ele vos aperta junto ao seu coração.
Ele vos debulha para expor vossa nudez.
Ele vos peneira para libertar-vos das palhas.
Ele vos mói até a extrema brancura.
Ele vos amassa até que vos torneis maleáveis.
Então, ele vos leva ao fogo sagrado e vos transforma
No pão místico do banquete divino.
Todas essas coisas, o amor operará em vós
Para que conheçais os segredos de vossos corações
E, com esse conhecimento,
Vos convertais no pão místico do banquete divino.
Todavia, se no vosso temor,
Procurardes somente a paz do amor e o gozo do amor,
Então seria melhor para vós que cobrísseis vossa nudez
E abandonásseis a eira do amor,
Para entrar num mundo sem estações,
Onde rireis, mas não todos os vossos risos,
E chorareis, mas não todas as vossas lágrimas.
O amor nada dá senão de si próprio
E nada recebe senão de si próprio.
O amor não possui, nem se deixa possuir.
Porque o amor basta-se a si mesmo.
Quando um de vós ama, que não diga:Deus está no meu coração,
Mas que diga antes: Eu estou no coração de Deus.
E não imagineis que possais dirigir o curso do amor,
Pois o amor, se vos achar dignos,
Determinará ele próprio o vosso curso.
O amor não tem outro desejo
Senão o de atingir a sua plenitude.
Se, contudo, amardes e precisardes ter desejos,
Sejam estes os vossos desejos:
De vos diluirdes no amor e serdes como um riacho
Que canta sua melodia para a noite;
De conhecerdes a dor de sentir ternura demasiada;
De ficardes feridos por vossa própria compreensão do amor
E de sangrardes de boa vontade e com alegria;
De acordardes na aurora com o coração alado
E agradecerdes por um novo dia de amor;
De descansardes ao meio-dia
E meditardes sobre o êxtase do amor;
De voltardes para casa à noite com gratidão;
E de adormecerdes com uma prece no coração para o bem-amado,
E nos lábios uma canção de bem-aventurança.
(Gibran)

domingo, outubro 09, 2005

Uma vida, nos detalhes.

Ao estudar métodos experimentais em história, conheci a importância dos detalhes. A reflexão veio do Dr. Morelli, um médico que desenvolveu formas de indicar a autoria de obras de arte e identificar falsificações. Descobriu que imitadores traíam-se nos pormenores: na forma como representavam as orelhas, as unhas, os dedos das mãos. Em síntese, no que era aparentemente desimportante no todo da obra. Isso, de fato, é significativo. Um aprendizado para a vida. Pessoas se traem nos detalhes. Quem nunca viveu a experiência de relacionar-se com alguém educado, mas que trata mal um garçon num restaurante? Fotografe. Guarde no seu caderninho preto os indícios de uma personalidade dissimulada. De outro lado, preste atenção em outras particularidades. Nas suas. Nos sorrisos, nos cumprimentos, nas palavras ditas de forma apressada. Já participei de bancas decisórias em que membros foram excluídos porque não responderam a uma pergunta, vestiam-se de modo inadequado ou não cumprimentaram alguém no corredor. E não houve meios de evitar isso. Uma vida profissional, uma relação, muita coisa pode estar em jogo nos atos mínimos. Como li na epígrafe de A.Warburg, escrita por um historiador italiano: Deus está no particular.

segunda-feira, outubro 03, 2005

Luis N

Um homem maduro, inteligente. Um escriba talentoso. Escreve microcontos. Seu texto, mínimo, está de acordo com sua filosofia de vida: despida de acessórios. Um homem que disfarça o refinamento interior com a ética da essencialidade. Um homem simples, de alma complexa. Nem é preciso dizer que esta é uma declaração pública de afeto. Na semana em que faz anos. Que das areias do tempo escoado das mãos possam cair sementes férteis para alimentar todos os seus sonhos. Os de hoje. Os de sempre.

domingo, outubro 02, 2005

Ensinar, aprender...

Às voltas com um programa sobre ensino, leio isto:

Tinha dez anos apenas, gostava de folgar, não gostava de aprender. Aprender é muito aborrecido!...Minha mãe fazia-me estudar, e, tanto como o estudo aborrecia-me a atitude. Obrigado a estar sentado, com o livro nas mãos, a um canto ou à mesa, dava ao diabo o livro, a mesa e a cadeira. Usava de um recurso que recomendo aos preguiçosos: deixava os olhos na página e abria a porta à imaginação. Corria a apanhar as flechas dos foguetes, a ouvir os realejos, a bailar com as meninas, a cantar, a rir, a espancar de mentira ou de brincadeira, como for mais claro!...

(Umas Férias, Machado de Assis, 1869)

quinta-feira, setembro 29, 2005

Ínfimo

(p/ Manoel de Barros)

Cansaço na alma.
Alguém diz que o escolhi.
Esboço um sorriso.
Algo entre a ironia
e a aceitação.

Elogiam minha fluência.
Quando é mais importante
o que calo.

Banho-me no sol
branco do meu peito.
Percebo o mundo
com a visão
e a audição
diminuídas.

Sem alimentos
na memória
do que foi
ou será
observo os caminhos
forrados pelas acácias
da primavera.

Acaricio o gato Nino,
converso com
orquídeas e violetas.

Vivo a vida das formigas.

domingo, setembro 18, 2005

Godot: até quando?

Em torno de uma árvore sem folhas, em algum lugar da estrada, dois homens esperam. Por Godot. Enquanto isso, elaboram estratégias de sobrevivência. Para passar o tempo. Para suportarem o tédio, a angústia da existência. São patéticos. Vivem por essa esperança que os aprisiona e os imobiliza. Desejam o desfecho que não ocorre nunca. Godot é a promessa da vida que não chega. E, neste absurdo, imaginam a morte. Mas Godot virá, e, assim, mais um dia se passa. Indefinidamente. Num tempo circular, eterno. Com o passar das horas eles perguntam: o que fazer? Até quando inventaremos estratégias para existir? Mas Godot, argumentam, Godot, que não se sabe ao certo quem é e nem quando se fará presente, virá. Godot os dará uma cama quente, acolhedora. Nesta interminável espera, os dois homens tentam se comunicar. Entretanto, nem as estratégias da fala, da razão, dos gestos emocionais ou mesmo dos silêncios, inevitáveis, parecem resolver o lento passar das horas infindas. Até que confundam as referências temporais e se mantenham na incerteza, entre o sonho e a realidade. Mas, Godot, Godot há de resolver todas as questões. Pois Godot estará com eles. Virá como a noite certa. Em algum momento, em algum tempo.

_______________
Esperando Godot, montado pelo Grupo Máskara, do Núcleo de Pesquisas da UFG. Em cartaz no Martim Cererê, até o dia 29/09. Como uma metáfora da condição humana, a peça é um marco da dramaturgia ocidental, no ano em que se comemora a obra de Samuel Beckett e o teatro do absurdo. Trágico. Cômico. Irreverente. Inquietante. Lindo. Imperdível.

quinta-feira, setembro 15, 2005

Menopausa Precoce

Anteontem me permiti estar com um amigo. Não nos víamos há tempos. Fiquei triste. Ao ouví-lo contar sobre as coisas que o animam percebi que não sou mais a mesma. Onde estariam meus velhos desejos? Saí do encontro com uma incômoda sensação de nada. Se há uma morte interna, não identifico o que sobrevive e se recompõe.

sábado, setembro 10, 2005

Megasena

Uma raquete, algumas almofadas, uma caixa de lenços, um beco solitário, florais, o psicanalista transpessoal, duas sessões de respiração holotrópica, teatro, cinema, shiatsu toda semana, tai-chi sempre, alguns velhos amigos e um passaporte para entrar num grupo de gente pirada que vê naves espaciais no céu de Paraúna.

Momento Mágico

Caminhava apressada em meio aos blocos monumentais da universidade. Havia recebido más notícias por telefone. Seu corpo tremia. No pátio do corredor central de um dos prédios, estendidos no chão, alguns objetos à venda. Olhou-os rapidamente e, surpresa, viu livros que estivera procurando por muito tempo. Com capas de couro surrado, fechados por fivelas ornadas em cobre, eles continham símbolos cabalísticos e alguns desenhos. Folheou as páginas envelhecidas com pequenos textos manuscritos encabeçados por iluminuras. De dentro deles, a memória de outros tempos. Deixou-se levar por segundos. Saído de algum lugar, um homem apareceu. Trocaram poucas palavras. O suficiente para que soubesse que era um mago. Em seus olhos profundos podia ler, em silêncio: vê, há mais coisas por trás do que é aparente.

terça-feira, setembro 06, 2005

Post Terapêutico

Já me fiz inúmeras perguntas a respeito da manutenção deste blog (na verdade, não tantas assim, pois economizo racionalizações excessivas, sempre inúteis). De todas, uma certeza. Este espaço serve para que eu escreva em momentos como este: de extrema tensão. Desviar a mente por alguns minutos. Fazê-la submeter-se à construção do texto num supremo esforço. Mesmo que seja em torno de uma idéia acessória nada a ver. Disciplinar a mente é uma tarefa tranqüilizadora. Se a deixamos correr solta, ela cria espectros animados que somatizam tremores, dores, indisposições inscritas na alma e no corpo. Continuo a escrever até controlar a ansiedade. Na maior parte das vezes dá certo. Já me fiz inúmeras perguntas a respeito da manutenção deste blog (na verdade, não tantas assim, pois economizo racionalizações excessivas, sempre inúteis). De todas, uma certeza. Este espaço serve para que eu escreva em momentos como este: de extrema tensão. Desviar a mente por alguns minutos. Fazê-la submeter-se à construção do texto num supremo esforço. Mesmo que seja em torno de uma idéia acessória nada a ver. Disciplinar a mente é uma tarefa tranqüilizadora. Se a deixamos correr solta, ela cria espectros animados que somatizam tremores, dores, indisposições inscritas na alma e no corpo. Continuo a escrever até controlar a ansiedade. Na maior parte das vezes dá certo. Já me fiz inúmeras perguntas a respeito da manutenção deste blog (na verdade, não tantas assim, pois economizo racionalizações excessivas, sempre inúteis). De todas, uma certeza. Este espaço serve para que eu escreva em momentos como este: de extrema tensão. Desviar a mente por alguns minutos. Fazê-la submeter-se à construção do texto num supremo esforço. Mesmo que seja em torno de uma idéia acessória nada a ver. Disciplinar a mente é uma tarefa tranqüilizadora. Se a deixamos correr solta, ela cria espectros animados que somatizam tremores, dores, indisposições inscritas na alma e no corpo. Continuo a escrever até controlar a ansiedade. Na maior parte das vezes dá certo.

domingo, agosto 28, 2005

O Anjo Nosso de Todo Dia

Os Anjos tornaram-se tão discretos!
O meu já nem me faz perguntas.

...Não te movas se, de repente,
o Anjo se senta à tua mesa;
Alisa, com vagar, os breves vincos
que a toalha faz, debaixo do teu pão.
Convida-o para a modesta refeição,
Que também ele lhe saboreie o gosto,
E possa levar aos lábios impolutos
Um pobre copo de uso cotidiano.

(Rilke)

sexta-feira, agosto 26, 2005

O Livro

Foi depois de alguns meses que minha filha havia nascido que o encontrei. De uma forma inesperada. Vi o livro na estante de minha mãe. As páginas já um pouco gastas pelo tempo não apagavam a imagem estampada na capa: um belo rosto masculino envolto em chamas. Abandonei-o na cabeceira da cama. Por dias. Meses. Não me lembro. Um dia, deitei-me bastante cansada. Minha filha já estava com alguns meses e eu ainda lidava com a maternidade de uma maneira extrema, dolorida, por razões que não consigo explicar. Além de tudo, sentia-me mal por olhar no espelho e constatar que me encontrava bastante acima do peso. Uma bobagem que adquiria dimensões inimaginadas pelo fato de ter sido gorda na infância e parte da adolescência. Neste dia, abri o livro aleatoriamente e fiquei surpresa com o texto. O homem envolto em chamas ensinava-me como emagrecer. Achei a coincidência interessante e o ensinamento bastante implausível. Guardei-o novamente. O fato se repetiu em outra ocasião. E outra. E mais outra. Com assuntos variados. Dos mais simples e corriqueiros, aos mais complexos e difíceis. Os textos não eram textos. Eram respostas. Fiquei curiosa a respeito do autor. Investiguei sua biografia, cruzei dados, e, por fontes variadas, outras informações foram chegando a mim, num tempo pré-google. Leio este livro até hoje. Depois de muitos anos, suas mensagens são sempre novas. Tempos houve em que ele foi a coisa mais real e cheia de sentido que eu possuía, a companhia mais importante nos momentos difíceis e solitários. Já o fechei com vergonha depois de alguns puxões de orelha, já o guardei com o coração cheio de gratidão amorosa. Tenho duas versões do mesmo livro. A que não carrego comigo, deixo, também, na estante. Que ele queira ser encontrado por minha filha, em algum tempo.

quarta-feira, agosto 10, 2005

Eu não sou eu...

Eu sou este ser que caminha ao meu lado
E que não vejo,
Que às vezes chego a visitar
E outras vezes esqueço;
Que mantém a calma e o silêncio
Quando falo,
E amavelmente me perdoa
Quando sinto ódio;
Que anda por lugares
Que não conheço,
E que ficará de pé
Quando eu morrer.

(Juan Ramon Jiménez)

Contraste

Ontem à noite,
(depois de mais um dia difícil)
no auditório do Tribunal do Júri da Universidade
(eu, que ando sentada no banco dos réus há tempos)
vestida com uma beca de homenageada,
(eu, que ando despida de tudo)
recebi flores como uma celebração aos fins e recomeços,
(eu, a que coleciona carros de funerárias que vê todos os dias)
e uma placa de metal, com o seguinte texto gravado:

À Profa. Heloísa:

"Se não morre aquele que planta uma árvore e nem morre aquele que escreve um livro, com mais razões não deve morrer um educador. Pois, ele semeia nas almas e escreve nos espíritos." B. Brecht

Pós Graduação Latu Sensu História Cultural – Turma 2004/02
Homenagem dos Formandos
Goiânia, 09 de agosto de 2005.

domingo, agosto 07, 2005

Reverberação

Lya Luft

O destino trama os dias
e desfaz o sonho: demarca
meus contornos, partes
disso que sou e serei.

Quem sabe desejei demais:
milagres não me bastaram,
mas quando eu quis ser rainha
fui simplesmente humana.

A voz da vida insiste,
chama para o que salva
ou desatina:
nem sempre a entendi.

Palavras buscam sentido
para o que fiz, falhei,
conquistei e perdi
- ou que me abandonou
nalguma esquina.

(Talvez eu precisasse é dos silêncios.)

O amor nasce da calma

Amar um ser é ter o espírito apaziguado, a fim de permitir-lhe ser o que é no momento em que está.
(dos padres do deserto, segundo Jean-Yves Leloup)