Um homem maduro, inteligente. Um escriba talentoso. Escreve microcontos. Seu texto, mínimo, está de acordo com sua filosofia de vida: despida de acessórios. Um homem que disfarça o refinamento interior com a ética da essencialidade. Um homem simples, de alma complexa. Nem é preciso dizer que esta é uma declaração pública de afeto. Na semana em que faz anos. Que das areias do tempo escoado das mãos possam cair sementes férteis para alimentar todos os seus sonhos. Os de hoje. Os de sempre.
segunda-feira, outubro 03, 2005
domingo, outubro 02, 2005
Ensinar, aprender...
Às voltas com um programa sobre ensino, leio isto:
Tinha dez anos apenas, gostava de folgar, não gostava de aprender. Aprender é muito aborrecido!...Minha mãe fazia-me estudar, e, tanto como o estudo aborrecia-me a atitude. Obrigado a estar sentado, com o livro nas mãos, a um canto ou à mesa, dava ao diabo o livro, a mesa e a cadeira. Usava de um recurso que recomendo aos preguiçosos: deixava os olhos na página e abria a porta à imaginação. Corria a apanhar as flechas dos foguetes, a ouvir os realejos, a bailar com as meninas, a cantar, a rir, a espancar de mentira ou de brincadeira, como for mais claro!...
(Umas Férias, Machado de Assis, 1869)
Tinha dez anos apenas, gostava de folgar, não gostava de aprender. Aprender é muito aborrecido!...Minha mãe fazia-me estudar, e, tanto como o estudo aborrecia-me a atitude. Obrigado a estar sentado, com o livro nas mãos, a um canto ou à mesa, dava ao diabo o livro, a mesa e a cadeira. Usava de um recurso que recomendo aos preguiçosos: deixava os olhos na página e abria a porta à imaginação. Corria a apanhar as flechas dos foguetes, a ouvir os realejos, a bailar com as meninas, a cantar, a rir, a espancar de mentira ou de brincadeira, como for mais claro!...
(Umas Férias, Machado de Assis, 1869)
quinta-feira, setembro 29, 2005
Ínfimo
(p/ Manoel de Barros)
Cansaço na alma.
Alguém diz que o escolhi.
Esboço um sorriso.
Algo entre a ironia
e a aceitação.
Elogiam minha fluência.
Quando é mais importante
o que calo.
Banho-me no sol
branco do meu peito.
Percebo o mundo
com a visão
e a audição
diminuídas.
Sem alimentos
na memória
do que foi
ou será
observo os caminhos
forrados pelas acácias
da primavera.
Acaricio o gato Nino,
converso com
orquídeas e violetas.
Vivo a vida das formigas.
Cansaço na alma.
Alguém diz que o escolhi.
Esboço um sorriso.
Algo entre a ironia
e a aceitação.
Elogiam minha fluência.
Quando é mais importante
o que calo.
Banho-me no sol
branco do meu peito.
Percebo o mundo
com a visão
e a audição
diminuídas.
Sem alimentos
na memória
do que foi
ou será
observo os caminhos
forrados pelas acácias
da primavera.
Acaricio o gato Nino,
converso com
orquídeas e violetas.
Vivo a vida das formigas.
domingo, setembro 18, 2005
Godot: até quando?
Em torno de uma árvore sem folhas, em algum lugar da estrada, dois homens esperam. Por Godot. Enquanto isso, elaboram estratégias de sobrevivência. Para passar o tempo. Para suportarem o tédio, a angústia da existência. São patéticos. Vivem por essa esperança que os aprisiona e os imobiliza. Desejam o desfecho que não ocorre nunca. Godot é a promessa da vida que não chega. E, neste absurdo, imaginam a morte. Mas Godot virá, e, assim, mais um dia se passa. Indefinidamente. Num tempo circular, eterno. Com o passar das horas eles perguntam: o que fazer? Até quando inventaremos estratégias para existir? Mas Godot, argumentam, Godot, que não se sabe ao certo quem é e nem quando se fará presente, virá. Godot os dará uma cama quente, acolhedora. Nesta interminável espera, os dois homens tentam se comunicar. Entretanto, nem as estratégias da fala, da razão, dos gestos emocionais ou mesmo dos silêncios, inevitáveis, parecem resolver o lento passar das horas infindas. Até que confundam as referências temporais e se mantenham na incerteza, entre o sonho e a realidade. Mas, Godot, Godot há de resolver todas as questões. Pois Godot estará com eles. Virá como a noite certa. Em algum momento, em algum tempo.
_______________
Esperando Godot, montado pelo Grupo Máskara, do Núcleo de Pesquisas da UFG. Em cartaz no Martim Cererê, até o dia 29/09. Como uma metáfora da condição humana, a peça é um marco da dramaturgia ocidental, no ano em que se comemora a obra de Samuel Beckett e o teatro do absurdo. Trágico. Cômico. Irreverente. Inquietante. Lindo. Imperdível.
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Esperando Godot, montado pelo Grupo Máskara, do Núcleo de Pesquisas da UFG. Em cartaz no Martim Cererê, até o dia 29/09. Como uma metáfora da condição humana, a peça é um marco da dramaturgia ocidental, no ano em que se comemora a obra de Samuel Beckett e o teatro do absurdo. Trágico. Cômico. Irreverente. Inquietante. Lindo. Imperdível.
quinta-feira, setembro 15, 2005
Menopausa Precoce
Anteontem me permiti estar com um amigo. Não nos víamos há tempos. Fiquei triste. Ao ouví-lo contar sobre as coisas que o animam percebi que não sou mais a mesma. Onde estariam meus velhos desejos? Saí do encontro com uma incômoda sensação de nada. Se há uma morte interna, não identifico o que sobrevive e se recompõe.
sábado, setembro 10, 2005
Megasena
Uma raquete, algumas almofadas, uma caixa de lenços, um beco solitário, florais, o psicanalista transpessoal, duas sessões de respiração holotrópica, teatro, cinema, shiatsu toda semana, tai-chi sempre, alguns velhos amigos e um passaporte para entrar num grupo de gente pirada que vê naves espaciais no céu de Paraúna.
Momento Mágico
Caminhava apressada em meio aos blocos monumentais da universidade. Havia recebido más notícias por telefone. Seu corpo tremia. No pátio do corredor central de um dos prédios, estendidos no chão, alguns objetos à venda. Olhou-os rapidamente e, surpresa, viu livros que estivera procurando por muito tempo. Com capas de couro surrado, fechados por fivelas ornadas em cobre, eles continham símbolos cabalísticos e alguns desenhos. Folheou as páginas envelhecidas com pequenos textos manuscritos encabeçados por iluminuras. De dentro deles, a memória de outros tempos. Deixou-se levar por segundos. Saído de algum lugar, um homem apareceu. Trocaram poucas palavras. O suficiente para que soubesse que era um mago. Em seus olhos profundos podia ler, em silêncio: vê, há mais coisas por trás do que é aparente.
terça-feira, setembro 06, 2005
Post Terapêutico
Já me fiz inúmeras perguntas a respeito da manutenção deste blog (na verdade, não tantas assim, pois economizo racionalizações excessivas, sempre inúteis). De todas, uma certeza. Este espaço serve para que eu escreva em momentos como este: de extrema tensão. Desviar a mente por alguns minutos. Fazê-la submeter-se à construção do texto num supremo esforço. Mesmo que seja em torno de uma idéia acessória nada a ver. Disciplinar a mente é uma tarefa tranqüilizadora. Se a deixamos correr solta, ela cria espectros animados que somatizam tremores, dores, indisposições inscritas na alma e no corpo. Continuo a escrever até controlar a ansiedade. Na maior parte das vezes dá certo. Já me fiz inúmeras perguntas a respeito da manutenção deste blog (na verdade, não tantas assim, pois economizo racionalizações excessivas, sempre inúteis). De todas, uma certeza. Este espaço serve para que eu escreva em momentos como este: de extrema tensão. Desviar a mente por alguns minutos. Fazê-la submeter-se à construção do texto num supremo esforço. Mesmo que seja em torno de uma idéia acessória nada a ver. Disciplinar a mente é uma tarefa tranqüilizadora. Se a deixamos correr solta, ela cria espectros animados que somatizam tremores, dores, indisposições inscritas na alma e no corpo. Continuo a escrever até controlar a ansiedade. Na maior parte das vezes dá certo. Já me fiz inúmeras perguntas a respeito da manutenção deste blog (na verdade, não tantas assim, pois economizo racionalizações excessivas, sempre inúteis). De todas, uma certeza. Este espaço serve para que eu escreva em momentos como este: de extrema tensão. Desviar a mente por alguns minutos. Fazê-la submeter-se à construção do texto num supremo esforço. Mesmo que seja em torno de uma idéia acessória nada a ver. Disciplinar a mente é uma tarefa tranqüilizadora. Se a deixamos correr solta, ela cria espectros animados que somatizam tremores, dores, indisposições inscritas na alma e no corpo. Continuo a escrever até controlar a ansiedade. Na maior parte das vezes dá certo.
domingo, agosto 28, 2005
O Anjo Nosso de Todo Dia
Os Anjos tornaram-se tão discretos!
O meu já nem me faz perguntas.
...Não te movas se, de repente,
o Anjo se senta à tua mesa;
Alisa, com vagar, os breves vincos
que a toalha faz, debaixo do teu pão.
Convida-o para a modesta refeição,
Que também ele lhe saboreie o gosto,
E possa levar aos lábios impolutos
Um pobre copo de uso cotidiano.
(Rilke)
O meu já nem me faz perguntas.
...Não te movas se, de repente,
o Anjo se senta à tua mesa;
Alisa, com vagar, os breves vincos
que a toalha faz, debaixo do teu pão.
Convida-o para a modesta refeição,
Que também ele lhe saboreie o gosto,
E possa levar aos lábios impolutos
Um pobre copo de uso cotidiano.
(Rilke)
sexta-feira, agosto 26, 2005
O Livro
Foi depois de alguns meses que minha filha havia nascido que o encontrei. De uma forma inesperada. Vi o livro na estante de minha mãe. As páginas já um pouco gastas pelo tempo não apagavam a imagem estampada na capa: um belo rosto masculino envolto em chamas. Abandonei-o na cabeceira da cama. Por dias. Meses. Não me lembro. Um dia, deitei-me bastante cansada. Minha filha já estava com alguns meses e eu ainda lidava com a maternidade de uma maneira extrema, dolorida, por razões que não consigo explicar. Além de tudo, sentia-me mal por olhar no espelho e constatar que me encontrava bastante acima do peso. Uma bobagem que adquiria dimensões inimaginadas pelo fato de ter sido gorda na infância e parte da adolescência. Neste dia, abri o livro aleatoriamente e fiquei surpresa com o texto. O homem envolto em chamas ensinava-me como emagrecer. Achei a coincidência interessante e o ensinamento bastante implausível. Guardei-o novamente. O fato se repetiu em outra ocasião. E outra. E mais outra. Com assuntos variados. Dos mais simples e corriqueiros, aos mais complexos e difíceis. Os textos não eram textos. Eram respostas. Fiquei curiosa a respeito do autor. Investiguei sua biografia, cruzei dados, e, por fontes variadas, outras informações foram chegando a mim, num tempo pré-google. Leio este livro até hoje. Depois de muitos anos, suas mensagens são sempre novas. Tempos houve em que ele foi a coisa mais real e cheia de sentido que eu possuía, a companhia mais importante nos momentos difíceis e solitários. Já o fechei com vergonha depois de alguns puxões de orelha, já o guardei com o coração cheio de gratidão amorosa. Tenho duas versões do mesmo livro. A que não carrego comigo, deixo, também, na estante. Que ele queira ser encontrado por minha filha, em algum tempo.
quarta-feira, agosto 10, 2005
Eu não sou eu...
Eu sou este ser que caminha ao meu lado
E que não vejo,
Que às vezes chego a visitar
E outras vezes esqueço;
Que mantém a calma e o silêncio
Quando falo,
E amavelmente me perdoa
Quando sinto ódio;
Que anda por lugares
Que não conheço,
E que ficará de pé
Quando eu morrer.
(Juan Ramon Jiménez)
E que não vejo,
Que às vezes chego a visitar
E outras vezes esqueço;
Que mantém a calma e o silêncio
Quando falo,
E amavelmente me perdoa
Quando sinto ódio;
Que anda por lugares
Que não conheço,
E que ficará de pé
Quando eu morrer.
(Juan Ramon Jiménez)
Contraste
Ontem à noite,
(depois de mais um dia difícil)
no auditório do Tribunal do Júri da Universidade
(eu, que ando sentada no banco dos réus há tempos)
vestida com uma beca de homenageada,
(eu, que ando despida de tudo)
recebi flores como uma celebração aos fins e recomeços,
(eu, a que coleciona carros de funerárias que vê todos os dias)
e uma placa de metal, com o seguinte texto gravado:
À Profa. Heloísa:
"Se não morre aquele que planta uma árvore e nem morre aquele que escreve um livro, com mais razões não deve morrer um educador. Pois, ele semeia nas almas e escreve nos espíritos." B. Brecht
Pós Graduação Latu Sensu História Cultural – Turma 2004/02
Homenagem dos Formandos
Goiânia, 09 de agosto de 2005.
(depois de mais um dia difícil)
no auditório do Tribunal do Júri da Universidade
(eu, que ando sentada no banco dos réus há tempos)
vestida com uma beca de homenageada,
(eu, que ando despida de tudo)
recebi flores como uma celebração aos fins e recomeços,
(eu, a que coleciona carros de funerárias que vê todos os dias)
e uma placa de metal, com o seguinte texto gravado:
À Profa. Heloísa:
"Se não morre aquele que planta uma árvore e nem morre aquele que escreve um livro, com mais razões não deve morrer um educador. Pois, ele semeia nas almas e escreve nos espíritos." B. Brecht
Pós Graduação Latu Sensu História Cultural – Turma 2004/02
Homenagem dos Formandos
Goiânia, 09 de agosto de 2005.
domingo, agosto 07, 2005
Reverberação
Lya Luft
O destino trama os dias
e desfaz o sonho: demarca
meus contornos, partes
disso que sou e serei.
Quem sabe desejei demais:
milagres não me bastaram,
mas quando eu quis ser rainha
fui simplesmente humana.
A voz da vida insiste,
chama para o que salva
ou desatina:
nem sempre a entendi.
Palavras buscam sentido
para o que fiz, falhei,
conquistei e perdi
- ou que me abandonou
nalguma esquina.
(Talvez eu precisasse é dos silêncios.)
O destino trama os dias
e desfaz o sonho: demarca
meus contornos, partes
disso que sou e serei.
Quem sabe desejei demais:
milagres não me bastaram,
mas quando eu quis ser rainha
fui simplesmente humana.
A voz da vida insiste,
chama para o que salva
ou desatina:
nem sempre a entendi.
Palavras buscam sentido
para o que fiz, falhei,
conquistei e perdi
- ou que me abandonou
nalguma esquina.
(Talvez eu precisasse é dos silêncios.)
O amor nasce da calma
Amar um ser é ter o espírito apaziguado, a fim de permitir-lhe ser o que é no momento em que está.
(dos padres do deserto, segundo Jean-Yves Leloup)
(dos padres do deserto, segundo Jean-Yves Leloup)
terça-feira, julho 26, 2005
Maria Clara e a Samaritana
Perguntei à Maria Clara, minha filha de treze anos, se não iria estudar para a prova do dia seguinte. Ela disse que não. Não era necessário. Era de religião. Mas, e o conteúdo? Estava todo em dia? Questionei. Ela ironizou dizendo que as provas de religião costumavam apresentar a seguinte pergunta:
Joãozinho espancou seu irmão Zezinho. Você acha que ele agiu corretamente? Justifique sua resposta. Não consegui deixar de rir, até que ela, empolgada com minha reação, considerasse convicta: Religião consegue ser mais inútil do que artes. Pois bem, ferrou-se. Tirou uma nota baixa na prova, o que a deixou bastante chateada. Perto do seu 9.0(nove) em matemática está lá, um 6.5(seis e meio) em religião, destoando das notas restantes. A professora resolveu deixar de lado as análises do mau comportamento de Joãozinho e pediu uma reflexão sobre a História da Samaritana. Ela não tinha lido a história inútil e, portanto, suas interpretações também não foram de muita utilidade. Vai, portanto, para ela, parte da análise realizada pelo teólogo ortodoxo, PHD em Psicologia, o ex-dominicano Jean-Yves Leloup, que vou tentar traduzir em simples palavras. Leloup traduziu a história do Evangelho de São João, diretamente do grego. Nela, o nome de Jesus é mantido como Ieshua.
Todos conhecem a história (façamos de conta que sim):
Em viagem com os discípulos, Ieshua chega à uma cidade da Samaria, Sicar. Ieshua era judeu e os judeus não se davam com o povo da Samaria. Mas Ieshua estava lá de passagem e, enquanto seus discípulos foram arranjar algum alimento, ele chegou até um poço, uma fonte, para tomar água. Pois bem, lá estava uma bela mulher, com seu cântaro, que havia ido ao local para buscar água (vale dizer que este poço era um lugar importante para a cidade. Diziam que ali, o patriarca Jacó havia realizado, uma vez, o milagre de fazer as águas do fundo chegarem até a superfície. Portanto, era uma fonte sagrada, um local especial). Ieshua chegou ali na 6a. hora, o que quer dizer, ao meio dia (hora em que não há sombras e o sol está a pino). Pediu água para a mulher. Ele diz a ela: Dá-me de beber! A Samaritana lhe responde, com um misto de curiosidade e certa indignação: Como é que um judeu pede água a mim, uma Samaritana? Ieshua lhe responde de forma direta:
Eu lhe ofereci o dom de Deus que diz: Dá-me de beber! Se conhecesses esse dom, tu é que me pedirias e não terias mais sede, porque eu te daria a Água Viva. Ou seja, em outras palavras, Jesus falou como os goianos agro-boys costumam fazer, sempre que insultados: Filhinha, você não sabe o que está fazendo e nem com quem está falando!
Desejo de riqueza material: a primeira etapa da busca
Leloup compreende esta história como o arquétipo da busca e do desejo, representado pela mulher, nossa psique. Dito de outro modo, todos nós, temos interiormente desejos, buscamos alguma coisa e neste início, a história nos diz que a primeira etapa de nossa busca para saciar nossa insatisfação interior, está nas coisas do mundo. A Samaritana levou seu cântaro para buscar água, a água material, a que se pode ver e sentir com nossos sentidos físicos. Assim, achamos que nossos desejos podem ser realizados com livros, cds do Nightwish, coturnos e outros sonhos de consumo, entende? E que nossa felicidade depende disso. Todavia, Ieshua é claro com a mulher, quando lhe diz:
Quem bebe da água desse poço terá sede de novo, mas aquele que bebe da água que eu lhe darei, não mais terá sede. A água que eu lhe darei se transformará nele numa fonte, num jorro de vida eterna!
Isso significa que não adianta buscar a satisfação do nosso desejo interno nas coisas materiais. Elas não vão nos saciar. E quem escolhe este caminho está sempre querendo mais, mais, e mais (Marcos Valério ganhando dinheiro e favorecimentos do PT, por exemplo). Esta é a primeira etapa de nossa busca, a mais primária. Mas, a história não termina aqui. A Samaritana, então, pede à Jesus: Dá-me dessa água para que eu não tenha mais sede e não tenha que vir aqui para tirar água do poço. No que Jesus responde: Vá buscar teu marido e volte aqui.
Desejo de riqueza afetiva: a segunda etapa da busca
Aqui Jesus faz com que a Samaritana entre em outra etapa de seu desejo, para que ela possa compreender sua incompletude. Porque talvez não encontremos a felicidade nas coisas materiais, mas talvez possamos procurá-la nas riquezas afetivas, na riqueza das relações. Conheço muita gente que vive assim, atrás de um amor, de alguém que vá resolver todos os seus problemas. E a Samaritana parece compreender a dificuldade de satisfação deste desejo, quando responde a ele: Não tenho marido.
Ieshua, então, dá-lhe um show particular de vidência e elogia-lhe a sinceridade. Afirma-lhe que sim, o homem que estava ao seu lado não era, de fato, seu marido, e que ela já tinha tido cinco outros no passado. Ela estava só e não conhecia a unidade e o apaziguamento dos seus desejos por esta via, portanto. Com este diálogo, Jesus estava ensinando a ela sobre o seu desejo e a sua busca, percebe? Mas a história não termina aí. A Samaritana se impressiona com a resposta de Jesus e afirma:
Rabi, vejo que és um vidente, um profeta. Nossos pais adoraram sobre essa montanha e vós dizeis que é em Jerusalém que é necessário adorar (pois ele era um judeu). Ao que Ieshua responde:
Mulher, crê em mim. Dia virá que não será nem sobre essa montanha, nem em Jerusalém que vós adorareis o Pai. Vós adorais quem não conheceis (...) É chegada a hora, e nós estamos nela, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai no espírito e na verdade, no Sopro e na Vigilância, porque são estes adoradores que o Pai procura.
A mulher lhe diz: Eu sei que quando o Messias chegar ele nos explicará tudo.
E Ieshua lhe revela: Sou Eu. Sou Eu que te falo. Eu sou aquele que É.
Desejo de riqueza religiosa: a terceira etapa da busca.
Pois bem, aqui está a terceira etapa da busca. Já que não resolvemos nossa busca de felicidade nas coisas materiais e nem no nível afetivo, alguns de nós buscam a satisfação na religião. E aí a Samaritana faz uma pergunta importante ao Mestre. Onde deve estar nossa religião? (nas Montanhas da Samaria ou em Jerusalém?). Qual é a melhor religião? E a resposta de Jesus vai mostrar que este é mais um engano. Nós nos decepcionamos na medida das nossas expectativas, diz Leloup: Pedimos muito às coisas, pedimos muito às pessoas, pedimos muito às religiões. Quer dizer, pedimos o infinito às coisas finitas. Não pode dar um bom resultado, não acha? (Lembra da sua professora de catequese? Pois é). Assim, devemos saber o que adorar (no sentido antigo – onde orientar nosso desejo para a fonte de todo o Ser). Jesus diz: não é em nenhum desses lugares, nem nas coisas, nem nas pessoas e nem na religião. E ele dá a resposta da qual é o exemplo vivo: devemos orientar nosso ser para o nosso Sopro, entrar no nosso Sopro e permanecermos vigilantes, pois aí está o fio que sobe até a fonte.
Eu Sou Aquele que É
Depois que Jesus lhe disse isso, a Samaritana deixou o seu cântaro e correu para a cidade anunciando às pessoas que havia encontrado um homem que lhe disse tudo que ela era. Que ela era, que Eu Sou. Jesus disse, Eu Sou aquele que é. Quando ele dizia Eu Sou, ele não queria dizer que era um bambambam não, ele queria dizer: Deus em mim É. O Sopro em mim habita. Habita em mim, e em todos. Basta que eu oriente o meu desejo para Ele e passe a viver vigilante, a partir dele. Quando estou consciente disso posso deixar o meu cântaro (como a Samaritana), pois a fonte está em mim. Não preciso mais pedir apaziguamento às coisas externas, quer sejam elas materiais, afetivas ou religiosas, pois carrego em mim a própria fonte. E isto me autoriza a dizer isso às pessoas como fez a Samaritana. Assim, posso retornar às coisas materiais, pois as possuo, mas elas não me possuem (ver música da Pitty), posso ir às minhas relações afetivas e vivenciar qualquer religião, mas serei livre em relação a elas. Meditar sobre a história da Samaritana é, portanto, compreender o itinerário de nossos desejos, os que nos guiarão por toda a nossa vida, o que pode ser bastante útil, viu coisinha?
Referências deste post:
História da Samaritana: Evangelho Segundo João, 4: 1-30.
Jean-Yves Leloup: LELOUP, Jean-Yves. Caminhos da Realização. Petrópolis, Vozes, 1999.
Marcos Valério e o PT: Ah, deixa pra lá.
Música da Pitty: Só de Passagem.
Joãozinho espancou seu irmão Zezinho. Você acha que ele agiu corretamente? Justifique sua resposta. Não consegui deixar de rir, até que ela, empolgada com minha reação, considerasse convicta: Religião consegue ser mais inútil do que artes. Pois bem, ferrou-se. Tirou uma nota baixa na prova, o que a deixou bastante chateada. Perto do seu 9.0(nove) em matemática está lá, um 6.5(seis e meio) em religião, destoando das notas restantes. A professora resolveu deixar de lado as análises do mau comportamento de Joãozinho e pediu uma reflexão sobre a História da Samaritana. Ela não tinha lido a história inútil e, portanto, suas interpretações também não foram de muita utilidade. Vai, portanto, para ela, parte da análise realizada pelo teólogo ortodoxo, PHD em Psicologia, o ex-dominicano Jean-Yves Leloup, que vou tentar traduzir em simples palavras. Leloup traduziu a história do Evangelho de São João, diretamente do grego. Nela, o nome de Jesus é mantido como Ieshua.
Todos conhecem a história (façamos de conta que sim):
Em viagem com os discípulos, Ieshua chega à uma cidade da Samaria, Sicar. Ieshua era judeu e os judeus não se davam com o povo da Samaria. Mas Ieshua estava lá de passagem e, enquanto seus discípulos foram arranjar algum alimento, ele chegou até um poço, uma fonte, para tomar água. Pois bem, lá estava uma bela mulher, com seu cântaro, que havia ido ao local para buscar água (vale dizer que este poço era um lugar importante para a cidade. Diziam que ali, o patriarca Jacó havia realizado, uma vez, o milagre de fazer as águas do fundo chegarem até a superfície. Portanto, era uma fonte sagrada, um local especial). Ieshua chegou ali na 6a. hora, o que quer dizer, ao meio dia (hora em que não há sombras e o sol está a pino). Pediu água para a mulher. Ele diz a ela: Dá-me de beber! A Samaritana lhe responde, com um misto de curiosidade e certa indignação: Como é que um judeu pede água a mim, uma Samaritana? Ieshua lhe responde de forma direta:
Eu lhe ofereci o dom de Deus que diz: Dá-me de beber! Se conhecesses esse dom, tu é que me pedirias e não terias mais sede, porque eu te daria a Água Viva. Ou seja, em outras palavras, Jesus falou como os goianos agro-boys costumam fazer, sempre que insultados: Filhinha, você não sabe o que está fazendo e nem com quem está falando!
Desejo de riqueza material: a primeira etapa da busca
Leloup compreende esta história como o arquétipo da busca e do desejo, representado pela mulher, nossa psique. Dito de outro modo, todos nós, temos interiormente desejos, buscamos alguma coisa e neste início, a história nos diz que a primeira etapa de nossa busca para saciar nossa insatisfação interior, está nas coisas do mundo. A Samaritana levou seu cântaro para buscar água, a água material, a que se pode ver e sentir com nossos sentidos físicos. Assim, achamos que nossos desejos podem ser realizados com livros, cds do Nightwish, coturnos e outros sonhos de consumo, entende? E que nossa felicidade depende disso. Todavia, Ieshua é claro com a mulher, quando lhe diz:
Quem bebe da água desse poço terá sede de novo, mas aquele que bebe da água que eu lhe darei, não mais terá sede. A água que eu lhe darei se transformará nele numa fonte, num jorro de vida eterna!
Isso significa que não adianta buscar a satisfação do nosso desejo interno nas coisas materiais. Elas não vão nos saciar. E quem escolhe este caminho está sempre querendo mais, mais, e mais (Marcos Valério ganhando dinheiro e favorecimentos do PT, por exemplo). Esta é a primeira etapa de nossa busca, a mais primária. Mas, a história não termina aqui. A Samaritana, então, pede à Jesus: Dá-me dessa água para que eu não tenha mais sede e não tenha que vir aqui para tirar água do poço. No que Jesus responde: Vá buscar teu marido e volte aqui.
Desejo de riqueza afetiva: a segunda etapa da busca
Aqui Jesus faz com que a Samaritana entre em outra etapa de seu desejo, para que ela possa compreender sua incompletude. Porque talvez não encontremos a felicidade nas coisas materiais, mas talvez possamos procurá-la nas riquezas afetivas, na riqueza das relações. Conheço muita gente que vive assim, atrás de um amor, de alguém que vá resolver todos os seus problemas. E a Samaritana parece compreender a dificuldade de satisfação deste desejo, quando responde a ele: Não tenho marido.
Ieshua, então, dá-lhe um show particular de vidência e elogia-lhe a sinceridade. Afirma-lhe que sim, o homem que estava ao seu lado não era, de fato, seu marido, e que ela já tinha tido cinco outros no passado. Ela estava só e não conhecia a unidade e o apaziguamento dos seus desejos por esta via, portanto. Com este diálogo, Jesus estava ensinando a ela sobre o seu desejo e a sua busca, percebe? Mas a história não termina aí. A Samaritana se impressiona com a resposta de Jesus e afirma:
Rabi, vejo que és um vidente, um profeta. Nossos pais adoraram sobre essa montanha e vós dizeis que é em Jerusalém que é necessário adorar (pois ele era um judeu). Ao que Ieshua responde:
Mulher, crê em mim. Dia virá que não será nem sobre essa montanha, nem em Jerusalém que vós adorareis o Pai. Vós adorais quem não conheceis (...) É chegada a hora, e nós estamos nela, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai no espírito e na verdade, no Sopro e na Vigilância, porque são estes adoradores que o Pai procura.
A mulher lhe diz: Eu sei que quando o Messias chegar ele nos explicará tudo.
E Ieshua lhe revela: Sou Eu. Sou Eu que te falo. Eu sou aquele que É.
Desejo de riqueza religiosa: a terceira etapa da busca.
Pois bem, aqui está a terceira etapa da busca. Já que não resolvemos nossa busca de felicidade nas coisas materiais e nem no nível afetivo, alguns de nós buscam a satisfação na religião. E aí a Samaritana faz uma pergunta importante ao Mestre. Onde deve estar nossa religião? (nas Montanhas da Samaria ou em Jerusalém?). Qual é a melhor religião? E a resposta de Jesus vai mostrar que este é mais um engano. Nós nos decepcionamos na medida das nossas expectativas, diz Leloup: Pedimos muito às coisas, pedimos muito às pessoas, pedimos muito às religiões. Quer dizer, pedimos o infinito às coisas finitas. Não pode dar um bom resultado, não acha? (Lembra da sua professora de catequese? Pois é). Assim, devemos saber o que adorar (no sentido antigo – onde orientar nosso desejo para a fonte de todo o Ser). Jesus diz: não é em nenhum desses lugares, nem nas coisas, nem nas pessoas e nem na religião. E ele dá a resposta da qual é o exemplo vivo: devemos orientar nosso ser para o nosso Sopro, entrar no nosso Sopro e permanecermos vigilantes, pois aí está o fio que sobe até a fonte.
Eu Sou Aquele que É
Depois que Jesus lhe disse isso, a Samaritana deixou o seu cântaro e correu para a cidade anunciando às pessoas que havia encontrado um homem que lhe disse tudo que ela era. Que ela era, que Eu Sou. Jesus disse, Eu Sou aquele que é. Quando ele dizia Eu Sou, ele não queria dizer que era um bambambam não, ele queria dizer: Deus em mim É. O Sopro em mim habita. Habita em mim, e em todos. Basta que eu oriente o meu desejo para Ele e passe a viver vigilante, a partir dele. Quando estou consciente disso posso deixar o meu cântaro (como a Samaritana), pois a fonte está em mim. Não preciso mais pedir apaziguamento às coisas externas, quer sejam elas materiais, afetivas ou religiosas, pois carrego em mim a própria fonte. E isto me autoriza a dizer isso às pessoas como fez a Samaritana. Assim, posso retornar às coisas materiais, pois as possuo, mas elas não me possuem (ver música da Pitty), posso ir às minhas relações afetivas e vivenciar qualquer religião, mas serei livre em relação a elas. Meditar sobre a história da Samaritana é, portanto, compreender o itinerário de nossos desejos, os que nos guiarão por toda a nossa vida, o que pode ser bastante útil, viu coisinha?
Referências deste post:
História da Samaritana: Evangelho Segundo João, 4: 1-30.
Jean-Yves Leloup: LELOUP, Jean-Yves. Caminhos da Realização. Petrópolis, Vozes, 1999.
Marcos Valério e o PT: Ah, deixa pra lá.
Música da Pitty: Só de Passagem.
domingo, julho 24, 2005
Pra Rua Me Levar
Não vou viver como alguém que só espera um novo amor. Há outras coisas no caminho onde eu vou. Às vezes ando só, trocando passos com a solidão. Momentos que são meus, e que não abro mão. Já sei olhar o rio por onde a vida passa, sem me precipitar e nem perder a hora. Escuto no silêncio que há em mim e basta. Vou deixar a rua me levar, ver a cidade se acender. A lua vai banhar esse lugar e eu vou lembrar você. É, mas tenho ainda muita coisa pra arrumar...promessas que me fiz e que ainda não cumpri. Palavras me aguardam o tempo exato pra falar. Coisas minhas, talvez você nem queira ouvir. Já sei olhar o rio por onde a vida passa, sem me precipitar e nem perder a hora. Escuto no silêncio que há em mim e basta. Outro tempo começou pra mim agora.
(Ana Carolina / Totonho Villeroy)
terça-feira, julho 19, 2005
Dica de Férias
Imaginem um homem, cuja vida está no piloto automático, que, ao andar na calçada em uma manhã qualquer, depara-se com um fragmento de construção gigantesco que cai a um passo em sua frente. Mais um passo apenas e ele estaria morto sob a pedra que despencou do alto. Este é o ato detonador de um impulso. O homem vira a esquina e resolve que seria outro. Como se houvesse, de fato, morrido, assume outra identidade, abandonando a vida anterior, profissão, família e todo o resto. Temos assim o início de uma história dentro de outra história. Como braços da trama principal, as histórias se sucedem, se interpenetram, se sobrepõem umas às outras no livro que estou lendo. Chato, né? Ficaria com preguiça de ler se me contassem isso. Ledo engano. Todas as histórias do meu livro são interessantes. Especialmente porque as personagens (e isto parece ser uma característica do autor) são muito bem construídas, e estão sempre às voltas com aquelas perguntas filosófico – existenciais para as quais nunca temos uma resposta satisfatória, mesmo que nos seja imprescindível fazê-las. Vivendo no limite. Elas estão sempre assim. Em alguns casos, sofreram perdas irreparáveis ou estão seriamente doentes, ou melhor, foram submetidas a situações que as levaram a explorar as questões mais complicadas da vida. Então é mais um daqueles livros sem ação e com intensos e longos monólogos interiores? Errado. Há uma dosagem exata e encantadora entre a ação e o pensar reflexivo. Acrescente-se a isso, uma narrativa viva, uma trama original e uma pincelada de ironia e humor sutis. E, ainda, para finalizar, ensinamentos de como aliviar-se, utilizando-se da literatura e da escrita como meios de sistematizar perguntas sem resposta. Ah, em tempo: a encadernação do livro é bárbara - uma edição bem cuidada com uma ante-capa macia de papel canelado azul - daqueles que a gente fica acariciando antes de abrir. Não me perguntem o que acontece com o homem sem identidade do início deste parágrafo. No momento, por uma série de acontecimentos, ele está preso num abrigo subterrâneo, e o escritor está pensando o que fazer para tirá-lo de lá de uma maneira coerente e não usual. Se souberem o final não me contem rápido. Agora vou ler devagar, para degustar cada linha. O nome do livro é Noite do Oráculo e o autor é Paul Auster. Uma amiga contou-me que, na Flip, o autor disse que é apenas uma história de amor. Mas o livro é muito mais que isso.
quinta-feira, julho 14, 2005
ainda quando
esquece aquela espera
amar é infindo
e além do tempo
ancora o seu destino:
amar é isto.
esquece aquela dor, esquece
aquela sina de ser e ser ainda
entre o verde , amiga, a vida e o vinho.
durar o quê e quando? e quanto?
além da chama clara de uma vela?
agora é sempre, vê. e nada escolhe
ser eterno, essa miragem.
nem dura a palavra mais
do que o desejo de dizê-la
e nem morte menos
do que o medo de esquecê-la.
(Carlos Rodrigues Brandão)
amar é infindo
e além do tempo
ancora o seu destino:
amar é isto.
esquece aquela dor, esquece
aquela sina de ser e ser ainda
entre o verde , amiga, a vida e o vinho.
durar o quê e quando? e quanto?
além da chama clara de uma vela?
agora é sempre, vê. e nada escolhe
ser eterno, essa miragem.
nem dura a palavra mais
do que o desejo de dizê-la
e nem morte menos
do que o medo de esquecê-la.
(Carlos Rodrigues Brandão)
quarta-feira, julho 13, 2005
Falta de Assunto
Li um pouco o filósofo Paul Ricoeur nestes últimos meses. Encantou-me a importância que dá ao passado. O que não existe a não ser na reconfiguração do presente. Como historiadora, tenho uma nobre missão: recriar o tempo e dar-lhe significados com um discurso de autoridade. Ok. O passado está em nós e é importante. Mas o futuro também está. Somos, da mesma maneira, aquilo que esperamos dos dias que se seguirão. E sob esta perspectiva, os videntes são tão importantes quanto os historiadores. (Re)significam nosso futuro. Tempo que, como o passado, também não existe. Paul Ricoeur fala do tempo fenomenológico: o eterno presente, onde tudo acontece e é efetivamente definido. Assim, todo mundo devia ler Paul Ricoeur. Para viver e relacionar-se com as pessoas no aqui e agora, quando os milagres cotidianos acontecem e nem são percebidos. Passado e futuro absolutos são grandes e pesados grilhões. Impedem-nos de observar a beleza do caminho. Deveríamos viver como se fossemos doentes terminais: valorizando cada segundo, com um passado e um futuro displicentes, não determinantes. E os que nos amam deveriam se relacionar conosco assim, também: aceitando-nos, com a história pregressa que nos construiu e nosso futuro incerto. Não o condeno ao passado que aqui te trouxe e nem o considero uma pessoa-investimento. Encontro-o na eternidade deste instante. Acho que seríamos mais felizes se assim pensássemos.
segunda-feira, julho 11, 2005
Sonho
Viajo na noite fria
de um túnel de pedra.
Uma quietude mórbida
e sufocante dorme
sob a pirâmide.
Na trilha subterrânea
conto os passos
em que piso no chão de vidro.
Na terra vejo corpos
que se contorcem nus
e nadam na lama.
Seguro uma criança
e salto por entre pedras móveis.
Eu a protejo e sinto-me acompanhada.
Desvio-me de paredes úmidas.
Caminho cega em direção à luz.
(Desperto-me antes de alcançar a saída)
de um túnel de pedra.
Uma quietude mórbida
e sufocante dorme
sob a pirâmide.
Na trilha subterrânea
conto os passos
em que piso no chão de vidro.
Na terra vejo corpos
que se contorcem nus
e nadam na lama.
Seguro uma criança
e salto por entre pedras móveis.
Eu a protejo e sinto-me acompanhada.
Desvio-me de paredes úmidas.
Caminho cega em direção à luz.
(Desperto-me antes de alcançar a saída)
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