quarta-feira, agosto 10, 2005

Contraste

Ontem à noite,
(depois de mais um dia difícil)
no auditório do Tribunal do Júri da Universidade
(eu, que ando sentada no banco dos réus há tempos)
vestida com uma beca de homenageada,
(eu, que ando despida de tudo)
recebi flores como uma celebração aos fins e recomeços,
(eu, a que coleciona carros de funerárias que vê todos os dias)
e uma placa de metal, com o seguinte texto gravado:

À Profa. Heloísa:

"Se não morre aquele que planta uma árvore e nem morre aquele que escreve um livro, com mais razões não deve morrer um educador. Pois, ele semeia nas almas e escreve nos espíritos." B. Brecht

Pós Graduação Latu Sensu História Cultural – Turma 2004/02
Homenagem dos Formandos
Goiânia, 09 de agosto de 2005.

domingo, agosto 07, 2005

Reverberação

Lya Luft

O destino trama os dias
e desfaz o sonho: demarca
meus contornos, partes
disso que sou e serei.

Quem sabe desejei demais:
milagres não me bastaram,
mas quando eu quis ser rainha
fui simplesmente humana.

A voz da vida insiste,
chama para o que salva
ou desatina:
nem sempre a entendi.

Palavras buscam sentido
para o que fiz, falhei,
conquistei e perdi
- ou que me abandonou
nalguma esquina.

(Talvez eu precisasse é dos silêncios.)

O amor nasce da calma

Amar um ser é ter o espírito apaziguado, a fim de permitir-lhe ser o que é no momento em que está.
(dos padres do deserto, segundo Jean-Yves Leloup)

terça-feira, julho 26, 2005

Maria Clara e a Samaritana

Perguntei à Maria Clara, minha filha de treze anos, se não iria estudar para a prova do dia seguinte. Ela disse que não. Não era necessário. Era de religião. Mas, e o conteúdo? Estava todo em dia? Questionei. Ela ironizou dizendo que as provas de religião costumavam apresentar a seguinte pergunta:
Joãozinho espancou seu irmão Zezinho. Você acha que ele agiu corretamente? Justifique sua resposta. Não consegui deixar de rir, até que ela, empolgada com minha reação, considerasse convicta: Religião consegue ser mais inútil do que artes. Pois bem, ferrou-se. Tirou uma nota baixa na prova, o que a deixou bastante chateada. Perto do seu 9.0(nove) em matemática está lá, um 6.5(seis e meio) em religião, destoando das notas restantes. A professora resolveu deixar de lado as análises do mau comportamento de Joãozinho e pediu uma reflexão sobre a História da Samaritana. Ela não tinha lido a história inútil e, portanto, suas interpretações também não foram de muita utilidade. Vai, portanto, para ela, parte da análise realizada pelo teólogo ortodoxo, PHD em Psicologia, o ex-dominicano Jean-Yves Leloup, que vou tentar traduzir em simples palavras. Leloup traduziu a história do Evangelho de São João, diretamente do grego. Nela, o nome de Jesus é mantido como Ieshua.

Todos conhecem a história (façamos de conta que sim):

Em viagem com os discípulos, Ieshua chega à uma cidade da Samaria, Sicar. Ieshua era judeu e os judeus não se davam com o povo da Samaria. Mas Ieshua estava lá de passagem e, enquanto seus discípulos foram arranjar algum alimento, ele chegou até um poço, uma fonte, para tomar água. Pois bem, lá estava uma bela mulher, com seu cântaro, que havia ido ao local para buscar água (vale dizer que este poço era um lugar importante para a cidade. Diziam que ali, o patriarca Jacó havia realizado, uma vez, o milagre de fazer as águas do fundo chegarem até a superfície. Portanto, era uma fonte sagrada, um local especial). Ieshua chegou ali na 6a. hora, o que quer dizer, ao meio dia (hora em que não há sombras e o sol está a pino). Pediu água para a mulher. Ele diz a ela: Dá-me de beber! A Samaritana lhe responde, com um misto de curiosidade e certa indignação: Como é que um judeu pede água a mim, uma Samaritana? Ieshua lhe responde de forma direta:
Eu lhe ofereci o dom de Deus que diz: Dá-me de beber! Se conhecesses esse dom, tu é que me pedirias e não terias mais sede, porque eu te daria a Água Viva. Ou seja, em outras palavras, Jesus falou como os goianos agro-boys costumam fazer, sempre que insultados: Filhinha, você não sabe o que está fazendo e nem com quem está falando!

Desejo de riqueza material: a primeira etapa da busca

Leloup compreende esta história como o arquétipo da busca e do desejo, representado pela mulher, nossa psique. Dito de outro modo, todos nós, temos interiormente desejos, buscamos alguma coisa e neste início, a história nos diz que a primeira etapa de nossa busca para saciar nossa insatisfação interior, está nas coisas do mundo. A Samaritana levou seu cântaro para buscar água, a água material, a que se pode ver e sentir com nossos sentidos físicos. Assim, achamos que nossos desejos podem ser realizados com livros, cds do Nightwish, coturnos e outros sonhos de consumo, entende? E que nossa felicidade depende disso. Todavia, Ieshua é claro com a mulher, quando lhe diz:
Quem bebe da água desse poço terá sede de novo, mas aquele que bebe da água que eu lhe darei, não mais terá sede. A água que eu lhe darei se transformará nele numa fonte, num jorro de vida eterna!
Isso significa que não adianta buscar a satisfação do nosso desejo interno nas coisas materiais. Elas não vão nos saciar. E quem escolhe este caminho está sempre querendo mais, mais, e mais (Marcos Valério ganhando dinheiro e favorecimentos do PT, por exemplo). Esta é a primeira etapa de nossa busca, a mais primária. Mas, a história não termina aqui. A Samaritana, então, pede à Jesus: Dá-me dessa água para que eu não tenha mais sede e não tenha que vir aqui para tirar água do poço. No que Jesus responde: Vá buscar teu marido e volte aqui.

Desejo de riqueza afetiva: a segunda etapa da busca

Aqui Jesus faz com que a Samaritana entre em outra etapa de seu desejo, para que ela possa compreender sua incompletude. Porque talvez não encontremos a felicidade nas coisas materiais, mas talvez possamos procurá-la nas riquezas afetivas, na riqueza das relações. Conheço muita gente que vive assim, atrás de um amor, de alguém que vá resolver todos os seus problemas. E a Samaritana parece compreender a dificuldade de satisfação deste desejo, quando responde a ele: Não tenho marido.
Ieshua, então, dá-lhe um show particular de vidência e elogia-lhe a sinceridade. Afirma-lhe que sim, o homem que estava ao seu lado não era, de fato, seu marido, e que ela já tinha tido cinco outros no passado. Ela estava só e não conhecia a unidade e o apaziguamento dos seus desejos por esta via, portanto. Com este diálogo, Jesus estava ensinando a ela sobre o seu desejo e a sua busca, percebe? Mas a história não termina aí. A Samaritana se impressiona com a resposta de Jesus e afirma:
Rabi, vejo que és um vidente, um profeta. Nossos pais adoraram sobre essa montanha e vós dizeis que é em Jerusalém que é necessário adorar (pois ele era um judeu). Ao que Ieshua responde:
Mulher, crê em mim. Dia virá que não será nem sobre essa montanha, nem em Jerusalém que vós adorareis o Pai. Vós adorais quem não conheceis (...) É chegada a hora, e nós estamos nela, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai no espírito e na verdade, no Sopro e na Vigilância, porque são estes adoradores que o Pai procura.
A mulher lhe diz: Eu sei que quando o Messias chegar ele nos explicará tudo.
E Ieshua lhe revela: Sou Eu. Sou Eu que te falo. Eu sou aquele que É.


Desejo de riqueza religiosa: a terceira etapa da busca.

Pois bem, aqui está a terceira etapa da busca. Já que não resolvemos nossa busca de felicidade nas coisas materiais e nem no nível afetivo, alguns de nós buscam a satisfação na religião. E aí a Samaritana faz uma pergunta importante ao Mestre. Onde deve estar nossa religião? (nas Montanhas da Samaria ou em Jerusalém?). Qual é a melhor religião? E a resposta de Jesus vai mostrar que este é mais um engano. Nós nos decepcionamos na medida das nossas expectativas, diz Leloup: Pedimos muito às coisas, pedimos muito às pessoas, pedimos muito às religiões. Quer dizer, pedimos o infinito às coisas finitas. Não pode dar um bom resultado, não acha? (Lembra da sua professora de catequese? Pois é). Assim, devemos saber o que adorar (no sentido antigo – onde orientar nosso desejo para a fonte de todo o Ser). Jesus diz: não é em nenhum desses lugares, nem nas coisas, nem nas pessoas e nem na religião. E ele dá a resposta da qual é o exemplo vivo: devemos orientar nosso ser para o nosso Sopro, entrar no nosso Sopro e permanecermos vigilantes, pois aí está o fio que sobe até a fonte.

Eu Sou Aquele que É

Depois que Jesus lhe disse isso, a Samaritana deixou o seu cântaro e correu para a cidade anunciando às pessoas que havia encontrado um homem que lhe disse tudo que ela era. Que ela era, que Eu Sou. Jesus disse, Eu Sou aquele que é. Quando ele dizia Eu Sou, ele não queria dizer que era um bambambam não, ele queria dizer: Deus em mim É. O Sopro em mim habita. Habita em mim, e em todos. Basta que eu oriente o meu desejo para Ele e passe a viver vigilante, a partir dele. Quando estou consciente disso posso deixar o meu cântaro (como a Samaritana), pois a fonte está em mim. Não preciso mais pedir apaziguamento às coisas externas, quer sejam elas materiais, afetivas ou religiosas, pois carrego em mim a própria fonte. E isto me autoriza a dizer isso às pessoas como fez a Samaritana. Assim, posso retornar às coisas materiais, pois as possuo, mas elas não me possuem (ver música da Pitty), posso ir às minhas relações afetivas e vivenciar qualquer religião, mas serei livre em relação a elas. Meditar sobre a história da Samaritana é, portanto, compreender o itinerário de nossos desejos, os que nos guiarão por toda a nossa vida, o que pode ser bastante útil, viu coisinha?

Referências deste post:

História da Samaritana: Evangelho Segundo João, 4: 1-30.
Jean-Yves Leloup: LELOUP, Jean-Yves. Caminhos da Realização. Petrópolis, Vozes, 1999.
Marcos Valério e o PT: Ah, deixa pra lá.
Música da Pitty: Só de Passagem.

domingo, julho 24, 2005

Pra Rua Me Levar

Não vou viver como alguém que só espera um novo amor. Há outras coisas no caminho onde eu vou. Às vezes ando só, trocando passos com a solidão. Momentos que são meus, e que não abro mão. Já sei olhar o rio por onde a vida passa, sem me precipitar e nem perder a hora. Escuto no silêncio que há em mim e basta. Vou deixar a rua me levar, ver a cidade se acender. A lua vai banhar esse lugar e eu vou lembrar você. É, mas tenho ainda muita coisa pra arrumar...promessas que me fiz e que ainda não cumpri. Palavras me aguardam o tempo exato pra falar. Coisas minhas, talvez você nem queira ouvir. Já sei olhar o rio por onde a vida passa, sem me precipitar e nem perder a hora. Escuto no silêncio que há em mim e basta. Outro tempo começou pra mim agora.
(Ana Carolina / Totonho Villeroy)

terça-feira, julho 19, 2005

Dica de Férias

Imaginem um homem, cuja vida está no piloto automático, que, ao andar na calçada em uma manhã qualquer, depara-se com um fragmento de construção gigantesco que cai a um passo em sua frente. Mais um passo apenas e ele estaria morto sob a pedra que despencou do alto. Este é o ato detonador de um impulso. O homem vira a esquina e resolve que seria outro. Como se houvesse, de fato, morrido, assume outra identidade, abandonando a vida anterior, profissão, família e todo o resto. Temos assim o início de uma história dentro de outra história. Como braços da trama principal, as histórias se sucedem, se interpenetram, se sobrepõem umas às outras no livro que estou lendo. Chato, né? Ficaria com preguiça de ler se me contassem isso. Ledo engano. Todas as histórias do meu livro são interessantes. Especialmente porque as personagens (e isto parece ser uma característica do autor) são muito bem construídas, e estão sempre às voltas com aquelas perguntas filosófico – existenciais para as quais nunca temos uma resposta satisfatória, mesmo que nos seja imprescindível fazê-las. Vivendo no limite. Elas estão sempre assim. Em alguns casos, sofreram perdas irreparáveis ou estão seriamente doentes, ou melhor, foram submetidas a situações que as levaram a explorar as questões mais complicadas da vida. Então é mais um daqueles livros sem ação e com intensos e longos monólogos interiores? Errado. Há uma dosagem exata e encantadora entre a ação e o pensar reflexivo. Acrescente-se a isso, uma narrativa viva, uma trama original e uma pincelada de ironia e humor sutis. E, ainda, para finalizar, ensinamentos de como aliviar-se, utilizando-se da literatura e da escrita como meios de sistematizar perguntas sem resposta. Ah, em tempo: a encadernação do livro é bárbara - uma edição bem cuidada com uma ante-capa macia de papel canelado azul - daqueles que a gente fica acariciando antes de abrir. Não me perguntem o que acontece com o homem sem identidade do início deste parágrafo. No momento, por uma série de acontecimentos, ele está preso num abrigo subterrâneo, e o escritor está pensando o que fazer para tirá-lo de lá de uma maneira coerente e não usual. Se souberem o final não me contem rápido. Agora vou ler devagar, para degustar cada linha. O nome do livro é Noite do Oráculo e o autor é Paul Auster. Uma amiga contou-me que, na Flip, o autor disse que é apenas uma história de amor. Mas o livro é muito mais que isso.

quinta-feira, julho 14, 2005

ainda quando

esquece aquela espera
amar é infindo
e além do tempo
ancora o seu destino:
amar é isto.
esquece aquela dor, esquece
aquela sina de ser e ser ainda
entre o verde , amiga, a vida e o vinho.
durar o quê e quando? e quanto?
além da chama clara de uma vela?
agora é sempre, vê. e nada escolhe
ser eterno, essa miragem.
nem dura a palavra mais
do que o desejo de dizê-la
e nem morte menos
do que o medo de esquecê-la.

(Carlos Rodrigues Brandão)

quarta-feira, julho 13, 2005

Falta de Assunto

Li um pouco o filósofo Paul Ricoeur nestes últimos meses. Encantou-me a importância que dá ao passado. O que não existe a não ser na reconfiguração do presente. Como historiadora, tenho uma nobre missão: recriar o tempo e dar-lhe significados com um discurso de autoridade. Ok. O passado está em nós e é importante. Mas o futuro também está. Somos, da mesma maneira, aquilo que esperamos dos dias que se seguirão. E sob esta perspectiva, os videntes são tão importantes quanto os historiadores. (Re)significam nosso futuro. Tempo que, como o passado, também não existe. Paul Ricoeur fala do tempo fenomenológico: o eterno presente, onde tudo acontece e é efetivamente definido. Assim, todo mundo devia ler Paul Ricoeur. Para viver e relacionar-se com as pessoas no aqui e agora, quando os milagres cotidianos acontecem e nem são percebidos. Passado e futuro absolutos são grandes e pesados grilhões. Impedem-nos de observar a beleza do caminho. Deveríamos viver como se fossemos doentes terminais: valorizando cada segundo, com um passado e um futuro displicentes, não determinantes. E os que nos amam deveriam se relacionar conosco assim, também: aceitando-nos, com a história pregressa que nos construiu e nosso futuro incerto. Não o condeno ao passado que aqui te trouxe e nem o considero uma pessoa-investimento. Encontro-o na eternidade deste instante. Acho que seríamos mais felizes se assim pensássemos.

segunda-feira, julho 11, 2005

Sonho

Viajo na noite fria
de um túnel de pedra.
Uma quietude mórbida
e sufocante dorme
sob a pirâmide.
Na trilha subterrânea
conto os passos
em que piso no chão de vidro.
Na terra vejo corpos
que se contorcem nus
e nadam na lama.
Seguro uma criança
e salto por entre pedras móveis.
Eu a protejo e sinto-me acompanhada.
Desvio-me de paredes úmidas.

Caminho cega em direção à luz.

(Desperto-me antes de alcançar a saída)

sexta-feira, julho 08, 2005

Respire, as ondas vêm e vão.

Ouço sempre a frase do título quando estou ansiosa. Minha filha costuma dizê-la, ao mesmo tempo em que me endireita a coluna. De fato, penso que a grande solução da vida é respirar. Permitir que o fluxo entre e saia sem obstáculos, o que não é nada fácil. Pude compreender melhor o poder da atitude quando me submeti a uma seção de respiração holotrópica. Era uma loucura proposta pelo meu terapeuta transpessoal. A sensação é a mesma no caso do uso de LSD. Ele me explicava, piorando as coisas, visto que nunca usei drogas de nenhuma espécie. As mãos podem se enrolar. Eu arregalava os olhos. Os pés também. Você pode ter visões. Misericórida. Eu já havia desistido, quando ele me apresentou a solução mágica para resolver qualquer efeito colateral da atividade: respire. Simplesmente continue respirando. E lá fui eu, acompanhada por alguém que não conhecia (pois precisamos ser cuidados por outra pessoa durante o ato), um garoto adolescente que parecia muito mais corajoso do que eu. Tadinho. Ele teve que se levantar inúmeras vezes para me levar ao banheiro. Minha seção de respiração holotrópica transformou-se numa vontade ininterrupta de fazer xixi sobre o mundo. Meu terapeuta disse que foi uma profunda limpeza. Achei melhor acreditar. E, é claro, fiz várias outras seções até perder totalmente o medo e experimentar um contato mais íntimo comigo mesma. Acho que foi útil como estratégia de auto-conhecimento. Além de me ensinar o princípio básico da respiração. Ansioso? Respire. Triste? Respire. Nervoso? Respire. E por aí vai. Sigo assim, todos os dias, até não sei quando, tentando manter o ritmo da respiração. Como as ondas, que, inexoravelmente, vêm e vão.
Como no poema do Luís.
As ondas vêm e vão

inspiro.
atento à sensação
produzida nas narinas
pelo ar que entra.
expiro,
atento à sensação
produzida nas narinas
pelo ar que sai.
inspiro.
a partir do ventre,
a centímetros do umbigo,
o tórax enche.
expiro.
a partir do ventre,
centímetros abaixo do umbigo,
o tórax esvazia-se.
inspiro, expiro.
respiro.
deixo-me respirar,
nada mais.
Mas, de repente, forço-me a respirar,
e inspiro e expiro com aparato,
descontrolado,
o equilíbrio perdido.
recordo-me então
que as ondas vêm e vão,
e deixo-me ir, deixo-me ir.
inspiro, expiro.
respiro.
deixo-me respirar.
não estou ansioso, nem calmo,
nem triste, nem feliz.
respiro, nada mais.
e as ondas vêm e vão.
(Luís Ene)
Obrigada, querido. Adorei.

sexta-feira, junho 17, 2005

A Via de Chuang Tzu

Refugio-me na leitura de Chuang Tzu, em sua sabedoria do século II a.C., quando estou desanimada com tantos problemas:

A Metamorfose

Quatro homens entraram em discussão.
Cada qual falou:
"Quem souber ter o vazio como cabeça,
A vida como espinha dorsal
E a morte como cauda,
Este será meu amigo!"

Nisto todos se entreolharam,
viram que concordaram,
Riram alto
E ficaram amigos.

Depois um caiu doente
E o outro foi visitá-lo.
"Grande é o criador", dizia o doente,
"Que me fez como sou!
(...)
meu corpo é o caos,
mas minha mente está em ordem".

Seu amigo perguntou-lhe:
"Você está desanimado?"

"Qual nada! Por que haveria de estar?
Se Ele me separa e faz um galo
No meu ombro esquerdo,
Eu anunciarei a madrugada.
Se Ele fizer um arco
Do meu ombro direito
Procurarei um pato assado.
Se meu assento se transformar em rodas
E se meu espírito vier a ser um cavalo
Prepararei minha própria carroça
E andarei por aí."

Há um tempo de juntar
E um tempo de separar.
Aquele que entender
Este curso dos acontecimentos
Toma cada novo estado
Em sua devida hora.

Sem nenhuma tristeza nem alegria.
(...)
A natureza é mais forte do que todas as cordas e elos.
Sempre foi assim.
Onde está uma razão
Para desanimar?


Quando estou com vontade de "matar alguém", leio este:

O Galo de Briga

Chi Hsing Tzu era treinador de galos de briga
Para o Rei Hsuan.
Estava treinando uma bela ave.
Sempre perguntava o Rei se a ave
Estava pronta para a briga.
"Ainda não", dizia o treinador.
"Ele é fogoso. É pronto para atiçar briga
Com qualquer ave. É vaidoso e confiante
Na sua própria força".

Depois de dez dias, respondeu novamente:
"Ainda não. Eriça-se todo
Quando ouve outra ave grasnar."
Depois de mais dez dias:
"Ainda não. Ainda está
Com aquele ar irado,
E eriça as pernas."

Depois de dez dias
Disse o treinador:
"Agora ele está pronto.
Quando outra ave grasna,
Seu olho nem pisca.
Fica imóvel
Como um galo de madeira.
É um brigador amadurecido.
Outras aves olharão para ele de relance
E fugirão."


E, por fim, leio este outro quando acho que as coisas estão insuportáveis e começo ansiosamente a estabelecer prazos para o fim do meu suplício:

A Necessidade da Vitória

Quando um arqueiro atira sem alvo nem mira
Estará com toda a sua habilidade.
Se atira para ganhar uma fivela de metal
Já fica nervoso.
Se atira por um prêmio em ouro
Fica cego
Ou vê dois alvos-
Está louco!

Sua habilidade não mudou.
Mas o prêmio cria nele divisões.
Preocupa-se.
Pensa mais em ganhar
Do que em atirar-
E a necessidade de vencer
Esgota-lhe a força.

quinta-feira, junho 09, 2005

Felizes Demais

Aprendo muitas coisas com minha filha MC no alto de seus treze anos. Com uma índole identificada com a personalidade gótico-metal (felizmente mais nightwish do que iron maiden) ela despreza pessoas "felizes". Faço-lhe a pergunta óbvia-idiota, no seu estilo comunicacional: - Ow, tipo, ser feliz não é bom?. Ela me explica fazendo caras e bocas e traduzo assim, o que consigo compreender: ser "feliz", é ser deslumbrado. Para as "pessoas felizes" tudo é lindo, cor de rosa, maravilhoso. "Pessoas felizes" tendem a uma visão superficial da vida e por esse motivo, tornam-se desprezíveis.

quinta-feira, junho 02, 2005

Constatação

Li hoje, com atenção:

Não sou substituível para quem me ama. Sou substituível para quem me usa.

quarta-feira, junho 01, 2005

Nino

A esta hora Nino deve estar na mesa de cirurgia para uma orquiectomia. Tomará anestesia geral. O fato de estar aborrecida com ele depois que fez xixi no meu livro do Kundera (o dos amores que se tornaram não só risíveis, mas malcheirosos e impossíveis), não significa que não lhe desejo todo o bem do mundo. Ele anda desanimado, com um problema resistente de pele e, a partir de hoje, se tornará definitivamente estéril. Que o deus dos gatos possa me perdoar por minha parcela de culpa nisso tudo. Respire, Heloisa, respire.

terça-feira, maio 31, 2005

Estou Apaixonada

Por Walter Salles. É verdade. Assisti a um programa (Arte com Sérgio Brito), em que o diretor foi convidado a contar sua trajetória profissional. Isso foi feito com maestria pelo entrevistador e, a partir dele, pude saber que Walter Salles começou sua vida artística como fotógrafo. Depois, aventurou-se nos perfis e documentários, para só então, criar e dirigir em cinema de ficção. Está muito magrinho (terei que dar um jeito nisso), mas contou, com detalhes, os perfis e documentários que mais lhe agradaram fazer. Dessa maneira, pude compreender não só aqueles olhos, que sabem chorar e sorrir ao mesmo tempo, mas o seu olhar sobre as coisas. E ele fala com os olhos, já prestaram atenção? Começou contando do perfil de Jorge Luis Borges que realizou há algum tempo. Impressionou-o Borges ser herdeiro de cinco gerações de homens cegos, alguém que ao perder gradativamente a visão, conseguiu ver o mundo de uma maneira tão poética e imaginativa. Foram mostrados trechos dessa entrevista, realizada dois anos antes da morte do escritor. Emocionante. Ele também nos falou de Nick Lauda (escreve assim? ah, sei lá), aquele corredor de fórmula 1 que quase morreu em um acidente, lembram? Pois é, Nick Lauda narrou com detalhes como lutou por três dias para sobreviver. Especialmente depois que recebeu a extrema – unção de um "padre", que mal lhe dirigiu a palavra. Embirrou depois daí e resolveu que não ia morrer, naquela hora não. De fato, sobreviveu milagrosamente para contar a história. Depois disso, Walter Salles começou a falar dos documentários. Um que me fez chorar, foi o que contava a vida de (peraí, esse cara eu preciso escrever o nome direito, um segundo)...voltei: Frank Krajcberg, o poeta dos vestígios. O cara é polonês e depois de viver todos os horrores da Segunda Guerra (sua mãe foi brutalmente assassinada, esteve em campos de batalha, sentiu na pele os absurdos do stalinismo) e passar fome na França, desacreditou na espécie humana (e tem gente que acredita na espécie humana, humpft). Veio para o Brasil e passou a criar esculturas de material destruído da natureza. Ouví-lo contar como a natureza o resgatou é algo que salta os olhos. Putz. Houve um momento, depois de fugir da presença humana refugiando-se nas matas, em que tinha vontade de dançar com as árvores! Walter Salles (será que estou escrevendo certo o seu nome? não importa tá tão chique assim com W e dois eles...) revela que esse contato deu a tônica dos seus personagens de ficção: indivíduos que estavam mal interiormente, mas que olharam no retrovisor e resolveram se recriar, reinventar a própria vida. Krajcberg recebeu carta de uma presidiária e mostrou ao Salles. Este ato deu-lhe a idéia chave de Central do Brasil. Quantas cartas não chegam ao seu destino, afinal? Refletiu com Sérgio Brito. Concluiu que o cinema é uma carta, que também é endereçada e que assume os riscos da viagem até o destinatário. O programa acabou aí (snif), mas continua sei lá em que dia e em que horário (se alguém descobrir, por favor, informe). No próximo, ele vai contar dos filmes: Abril Despedaçado (maravilhoso), Diários da Motocicleta (que não vi ainda, que vergonha...) e de todos os outros. Será que ele vai falar se é casado? Opção sexual? O que pensa fazer nos próximos anos? Telefone para contato? ...............?................? ...................?....................?

Acho que preciso ver mais TV.

segunda-feira, maio 30, 2005

Márcia Sacerdote

Maria Clara e eu estávamos rindo de nossa empregada. Em três meses de trabalho ela já conseguiu muitas coisas: quebrou a máquina de lavar roupa, desmontou definitivamente o porta papel higiênico do banheiro, estragou a torneira da cozinha, inutilizou o purificador de água e o fogão de seis bocas, só funciona com duas. Queimou três roupas no ferro de passar, quebrou a coroa da escultura de N.Sra. da Assunção e alguns objetos decorativos. Os pratos de cerâmica cinza estão todos pintados de lasca branca e não há mais um conjunto inteiro de copos. MC fica indignada:

Mãe, você deve brigar com ela!!!!
Já lhe pedi para tomar cuidado, MC.
Exija que ela desligue aquele rádio na estação da Igreja Universal.
Deixa pra lá, filha. É só fechar a porta da cozinha.
Qualquer dia vamos chegar aqui e ela vai ter colocado fogo em tudo.
Não seja intolerante. Vejamos pelo lado bom, ela tem virtudes.
É, justiça seja feita: ela cozinha bem...e
(pensa)
Cozinha bem
(pensa mais um pouco)
Ela cozinha bem...
M. pra sua cozinha. Se ela estragar algum dos meus discos de metal, juro que vou fazer ela engolir aquele rádio. Ela vai ser obrigada a ouvir trash metal o dia todo, prometo.
Acho que prefiro as músicas da Igreja Universal.
Então tome uma atitude.
Calma, filha....as ondas vêm e vão. Respire...

domingo, maio 29, 2005

Redenção

Tomou-lhe a graciosa criança dos braços. E foi como um instante de redenção. Segurar o filho do novo casamento dele tinha algo de recomeço. Num segundo, cenas animaram-se com profusão de sentimentos: o namoro, o casamento naquele templo egípcio, os gestos cotidianos únicos, o cheiro, a agressividade, a dureza de suas mãos e de seu abraço, o sentimento de incompletude e insuficiência inúteis a qualquer esforço, as dores da separação. Teria sido perdoada, enfim? Devolveu-lhe a criança agitada em seu colo e conseguiu sorrir, com genuína alegria.

quarta-feira, maio 25, 2005

Mudança

Já que não dá para alterar o resto, mudei o template. Os comentários? Hum, ficaram guardados no meu coração.

terça-feira, maio 24, 2005

Sentido

Dizem que o que todos procuramos é um sentido para a vida. Não penso que seja assim. Penso que o que estamos procurando é uma experiência de estar vivos, de modo que nossas experiências de vida, no plano puramente físico, tenham ressonância no interior do nosso ser e da nossa realidade mais íntima, de modo que realmente sintamos o enlevo de estar vivos.

(Joseph Campbell)

sexta-feira, maio 20, 2005

Fênix



Acho que há dois anos, mais intensamente no último, que não passo dois dias sem ver um carro de funerária. Na última semana, algumas vezes por mais de uma vez no mesmo dia, uma van branca, com uma bela imagem azul de ave, onde se pode ler: fênix.