quarta-feira, maio 25, 2005

Mudança

Já que não dá para alterar o resto, mudei o template. Os comentários? Hum, ficaram guardados no meu coração.

terça-feira, maio 24, 2005

Sentido

Dizem que o que todos procuramos é um sentido para a vida. Não penso que seja assim. Penso que o que estamos procurando é uma experiência de estar vivos, de modo que nossas experiências de vida, no plano puramente físico, tenham ressonância no interior do nosso ser e da nossa realidade mais íntima, de modo que realmente sintamos o enlevo de estar vivos.

(Joseph Campbell)

sexta-feira, maio 20, 2005

Fênix



Acho que há dois anos, mais intensamente no último, que não passo dois dias sem ver um carro de funerária. Na última semana, algumas vezes por mais de uma vez no mesmo dia, uma van branca, com uma bela imagem azul de ave, onde se pode ler: fênix.

Memórias




Quando tinha 8, 9 anos morava numa casa com jardim num bairro popular da cidade. Dormia num quarto com minha avó. Ainda posso vê-la sentada fazendo crochê ou rezando um terço (ela se vangloriava de rezar três terços por dia). Era uma mulher altiva e inteligente.

Lembro-me bem dos seus pés: sempre muito limpos e perfumados. Eu os sentia quando, assombrada por terrores noturnos, pulava para a sua cama nas madrugadas. Dormi abraçada a eles em muitas noites (ela nunca me negou um canto e isso sempre me surpreendeu). À essa época, já repetia a mesma história com o descontrole da memória afetada pela arteriosclerose: foi traída pela irmã e casou-se com um homem que não amava.

Guardava uma mala de fotos antigas roubada por um gatuno que pudemos ver, em vulto, pela janela. Tinha um baú com um prego saliente que me rasgou o joelho numa outra vez. Depois de muitos anos, quando eu já era adulta e a encontrava, sem me reconhecer, ela sorria e dizia: - Filha, você é tão boa...

Quando morreu, duas cenas tornaram-se, também, inesquecíveis: as escaras de suas costas sendo limpas, com carinho, pela minha mãe e minha tia e, por último, os seus pés, amarelos, pendurados no lençol através do qual um homem desconhecido carregava, sem cuidado, o seu corpo sem vida.

terça-feira, maio 17, 2005

Instante



Debruçada na sacada do quarto, esperava-o com certa ansiedade. Vigiava os carros e pedestres adivinhando neles sua aproximação. Lá dentro, tudo pronto: frutas e castanhas no balcão da cozinha, duas taças, um vinho na geladeira, jogo de luzes e sombras. Como seria? Não gostava de imaginar. Não atendeu aos seus telefonemas durante o dia, menos o primeiro: o que confirmava o recebimento das flores pela manhã, com um convite: Janta comigo hoje? Indicava o local e a hora. Foram dois anos de assédio cuidadoso e paciente. Sim, admirava-lhe a persistência, refletia enquanto olhava-se no espelho minutos antes. Preparou-se com esmero: um banho de imersão com ervas aromáticas, lingerie nova, vestido de tecido leve com alguma transparência. A despeito de todas as intenções expressas em gestos e olhares, nunca haviam se tocado. Como seria? Não queria imaginar. Sabia que o sonho matava o instante. Ouviu a campainha e correu para a porta. Era ele. Não conseguira vê-lo pela sacada, mas observou com agrado que estava perfumado e com os cabelos úmidos. Cumprimentaram-se cordialmente com certo constrangimento. Numa fração de segundo, uma sensação perturbadora: viu-se como professora nos olhos dele. O quanto havia lhe ensinado? O que seriam agora? Fizeram comentários banais sobre o ambiente antes que ele se colocasse ao seu lado para dizer que estava tudo bem. Antes que a tocasse levemente com a mão e, num lance de surpreendente fúria, a tomasse pela cintura e a beijasse sofregamente. Dois anos por este dia. Fizeram o amor do desejo e da espera. Lavaram os pratos juntos, mantiveram-se abraçados frente à sacada que revelava a noite clara sobre prédios altos. Conversaram amenidades próprias aos momentos sem promessas. E nunca mais se encontraram novamente.

domingo, maio 08, 2005

A elas, o meu amor

Para minha mãe e minha filha que hoje faz aniversário, todo o meu amor.

sexta-feira, maio 06, 2005

Olhem só!

Tão lindinho!

Essencialidades



Experimento a sensação de liberdade ao aprender uma difícil lição: posso perfeitamente viver sem muitas coisas, focada no essencial.

quarta-feira, maio 04, 2005

Amizade



Quando adolescentes ouvimos certos chavões sobre a amizade. Concordamos sem saber, de fato, o que significa. Até estarmos num buraco escuro e vislumbrarmos uma mão amiga. Sim, amigos, os de verdade, são seres especiais. Mais que irmãos, às vezes. São preciosidades, dádivas divinas, devidamente colocadas em nossas vidas para nos ajudar. Tenho uma amiga assim. Uma pessoa que está comigo quando o último vai embora e apaga a luz (aconteceu várias vezes). Que me faz rir quando só tenho vontade de chorar. Que preenche os meus dias com leves e saborosas abobrinhas (literalmente) e coisas completamente banais nos momentos em que a vida está amarga, pesada e séria. Quando não quero pensar, ela está sempre lá, ocupando-me o tempo com pequenas coisas do dia a dia: reclamando dos namorados (sempre mais jovens e diáfanos do que ela), fazendo comida, contando piadas sem-graça (é muito difícil me fazer rir), dizendo coisas absolutamente sem importância. Ela é quase dez anos mais velha que eu, mas parece o contrário. Outro dia, entramos num teatro e eu a abracei. Ela observou: - Vão pensar que somos algum "caso". Respondi, rindo, que não me importava nem um pouco. No que ela emendou: - Você seria muito velha para mim.
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Nisso já se vão mais de vinte anos. Não! Deletem este parágrafo. Eu não conseguiria expressar o valor desta amizade nem em longos dez mil posts.

sábado, abril 30, 2005

Desafetos



Outro dia disse à Maria Clara que minha mãe não me ensinou coisas que julgo necessário saber. Uma importante: não precisamos ser adorados por todos. Seremos sim, se adotarmos a detestável atitude mosca morta: a das pessoas sem opinião ou qualquer tipo de iniciativa, insetos pousados sem vida em coisas e pessoas nem sempre agradáveis. Esta posição, aparentemente as salva de críticas e de desafetos, afinal, elas sobrevivem nesse estilo de morte-vida. Até que alguém lhes dá uma boa e merecida dose de inseticida e elas caem sem a força vital que desperdiçaram. Viver significa agir. E saiba, haverá opositores. E nem é preciso que a ação seja "boa". Basta que ela exista para que incomode, abale estruturas e esteja numa vitrine sujeita a pedradas. Então, o que fazer nessa hora, mãe? MC pergunta. Continue o caminho, se nele houver coerência e convicção, respondo. Quanto aos que gritam? Bah, dê de ombros e siga em frente. Você se sentirá viva e livre.

sexta-feira, abril 15, 2005

Pequenas Grandes Coisas



Quem passou por um grande sofrimento, por um tempo longo, entenderá o que quero dizer. O valor de um gesto ou mesmo de uma manifestação da natureza. Nessa conjuntura, são infinitamente grandes as pequenas coisas.
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P.S. Escrevo este post de forma entrecortada. Tomando um chá. Trazido pela Dona Jô. A da limpeza. Da minha erva favorita. Colhida no quintal de sua casa.

domingo, abril 03, 2005

A Lenda das Areias
Vindo desde as suas origens em distantes montanhas, após passar por inúmeros acidentes de terreno nas regiões campestres, um rio finalmente alcançou as areias do deserto. E do mesmo modo como vencera as outras barreiras, o rio tentou atravessar esta de agora, mas se deu conta de que suas águas mal tocavam a areia nela desapareciam.
Estava convicto, no entanto, de que fazia parte de seu destino cruzar aquele deserto, embora não visse como fazê-lo. Então uma voz misteriosa, saída do próprio deserto arenoso, sussurrou:- O vento cruza o deserto, o mesmo pode fazer o rio.
O rio objetou estar se arremessando contra as areias, sendo assim absorvido, enquanto o vento podia voar, conseguindo dessa maneira atravessar o deserto.
- Arrojando-se com violência como vem fazendo não conseguirá cruzá-lo. Assim desaparecerá ou se transformará num pântano. Deve permitir que o vento o conduza a seu destino.
- Mas como isso pode acontecer?
- Consentindo em ser absorvido pelo vento.
Tal sugestão não era aceitável para o rio. Afinal de contas, ele nunca fora absorvido até então. Não desejava perder a sua individualidade. Uma vez a tendo perdido, como se poderá saber se a recuperaria mais tarde?
- O vento desempenha essa função - disseram as areias. - eleva a água, a conduz sobre o deserto e depois a deixa cair. Caindo em forma de chuva, a água novamente se converte num rio.
- Como posso saber que isto é verdade?
- Pois assim é, e se não acredita, não se tornará outra coisa senão um pântano, e ainda isto levaria muitos e muitos anos; e um pântano não é certamente a mesma coisa que um rio.
- Mas não posso continuar sendo o mesmo rio que sou agora?
- Você não pode, em caso algum, permanecer assim - retrucou a voz. - Sua parte essencial é transportada e forma um rio novamente. Você é chamado assim ainda hoje por não saber qual a sua parte essencial.
Ao ouvir tais palavras, certos ecos começaram a ressoar nos pensamentos mais profundos do rio. Recordou vagamente um estágio em que ele, ou uma parte dele, não sabia qual, fora transportada nos braços do vento. Também se lembrou, ou lhe pareceu assim, de que era isso o que devia fazer, conquanto não fosse a coisa mais natural.
E o rio elevou então seus vapores nos acolhedores braços do vento, que suave e facilmente o conduziu para o alto, e para bem longe, deixando-o cair suavemente tão logo tinham alcançado o topo de uma montanha, milhas e milhas mais distante. E porque tivera suas dúvidas, o rio pode recordar e gravar com mais firmeza em sua mente os detalhes daquela sua experiência. E ponderou: - Sim, agora conheço a minha verdadeira identidade.
O rio estava fazendo seu aprendizado, mas as areias sussurraram:
- Nós temos o conhecimento porque vemos essa operação ocorrer dia após dia, e porque nós, as areias, nos estendemos por todo o caminho que vai desde as margens do rio até a montanha.
E é por isso que se diz que o caminho pelo qual o Rio da Vida tem de seguir em sua travessia está escrito nas Areias.
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Do livro "O Buscador da Verdade" de Idries Shah

sexta-feira, março 25, 2005

Cura

Era saudável, mas ia sempre ao médico. E não era preciso um grande motivo para fazê-lo. Um pouco resfriado, uma dor de cabeça ocasional, uma leve suspeita. Naquele ato, buscava alívio. Descrevia seus pequenos males cheios de subjetividade sentindo-se acolhido num encontro com Deus. Alguém que, pela sua infinita superioridade e misericórdia, poderia curá-lo de sua dor de alma.

quinta-feira, março 24, 2005

Decreto aos planetas.

O Sol obedece à minha sintaxe.
(Velemir Khlebnikov)
Conto todos os meus segredos, digo tudo o que penso.


Há muita falta de cuidado e respeito na afirmação acima. Qualquer um de nós guarda consigo os seus segredos. Há espaços sagrados em nossa alma. Por outro lado, quantos problemas poderiam ter sido evitados se mantivéssemos silêncio pelos pensamentos fugazes, momentos de impaciência, dúvidas de instantes. Não temos todas as soluções e nem compreendemos tudo com a limitada racionalidade humana. Nesse sentido, dizer tudo o que pensamos é, no mínimo, imprudente. No momento seguinte poderemos pensar diferente e, aí, pode ser tarde. Leva-se apenas um minuto para provocar um longo estrago. Penso, sem dizer tudo, portanto, que é saudável manter os próprios segredos, manter-se em silêncio e respeitar as zonas proibidas do outro. Mais do que uma atitude de respeito, é um ato de amor e confiança nos mistérios insondáveis da natureza humana.

quarta-feira, março 16, 2005

A disciplina do amor


Outro dia comentei com alguém que lia a Lygia Fagundes Telles há muito tempo. Lembro-me bem dos contos curtos em que ela narrava histórias que envolviam a disciplina do amor. O amor que está em nós, independente do objeto amado, o amor que não depende de barganhas (as que são fruto de nossas carências, obsessões ou caprichos), o que é paciente, forma um substrato de sentimento que está no fundo de toda experiência aparente de conflito e é incondicional. Este amor resiste ao abandono, aos obstáculos, às indisposições gerais que envolvem todos os relacionamentos. Pela minha longa experiência em amar (não riam, é verdade), penso que estamos mais preparados para este amor quanto mais inocentes somos. Como fomos um dia (quando amamos pela primeira vez) e, paradoxalmente, como voltamos a ser, a cada dia que vivemos e envelhecemos. Para amar com disciplina é preciso acreditar no amor. Desvestí-lo das mágoas e desilusões que encaramos pela vida, considerar com tranqüilidade os “nãos” que recebemos, os sonhos de amor não realizados. Amar com disciplina é amar, apesar de. A maturidade nos prepara para sermos novamente crianças no amor.

sexta-feira, março 11, 2005

Mar Adentro

A morte não é terrível. Passa-se ao sono e o mundo desaparece – se tudo correr bem. Terrível pode ser a dor dos moribundos, terrível também a perda sofrida pelos vivos quando morre uma pessoa amada. Não há cura conhecida (...). O que as pessoas podem fazer para assegurar umas às outras maneiras fáceis e pacíficas de morrer ainda está por ser descoberto. (Norbert Elias. A Solidão dos Moribundos)

Estávamos na livraria do shopping antes do início do filme, quando recebi um telefonema. Era um amigo avisando-me da morte de uma colega de faculdade. Aconteceu no domingo passado e nem fiquei sabendo. Soube que lutava contra o câncer já há algum tempo, mas que estava bem, confiante que seria curada (era muito religiosa). Entrei no cinema com o coração dilacerado. A velha ferida do peito sangrando todas as dores. Mar adentro. No filme, Ramón Sampedro luta para morrer e minha amiga fazia exatamente o contrário. Nas últimas semanas chorava muito e dizia que queria viver. Queria estar ao lado dos dois filhos pequenos. Ela não tinha quarenta anos. Disseram-me que suplicou até o último instante. A despeito deste contraste, saí do filme com a sensação de que todos tinham razão: os que lutavam pela liberdade individual frente ao poder de um estado laico, os que imbuídos de sua ética existencialista queriam deliberar sobre o seu próprio direito de viver ou morrer, os que defendiam a vida a qualquer custo (mesmo que em migalhas, a vida que vale por um instante de beleza e sentido). O filme é belo e muito tocante, do início ao fim. Saí com os olhos vermelhos da sala. Algumas identificações foram imediatas: a vontade de morrer diante de algumas prisões cotidianas, a necessidade de aprender a chorar sorrindo quando a vida não nos dá outras opções e, afinal, a certeza que por pior que sejam nossas correntes (voluntárias ou impostas), nosso espírito é livre. O que alivia um pouco a dor e a aceitação sobre tudo que não podemos mudar.

terça-feira, março 08, 2005

O tempo não cura as feridas. Alivia a dor e embaça a memória.
(Do filme A Excêntrica Família de Antônia)
Dia Internacional da Mulher


Hoje é dia internacional da mulher. Tenho uma grande preguiça do discurso feminista. E há momentos que sinto que sou mais homem do que muitos homens. E fico com vontade de aprender a cozinhar e fazer tudo o que as feministas abominam quando estou apaixonada. E é isso o que eu tinha a dizer a respeito.

segunda-feira, março 07, 2005

Vingança Privada


Nino e eu temos muitas afinidades. Uma importante: gostamos de banheiro limpo. Isso significa que preciso trocar sua bandeja higiênica várias vezes ao dia. Eu as forro com jornal. Não raro ele fica esperando que eu estenda as fotos e reportagens, para que complete, de imediato, o serviço em cima. Hoje, coincidentemente, foi na Vilma Martins. Mas, não faltará oportunidade de diversão para muitas escolhas conscientes.