quinta-feira, março 24, 2005
quarta-feira, março 16, 2005
Outro dia comentei com alguém que lia a Lygia Fagundes Telles há muito tempo. Lembro-me bem dos contos curtos em que ela narrava histórias que envolviam a disciplina do amor. O amor que está em nós, independente do objeto amado, o amor que não depende de barganhas (as que são fruto de nossas carências, obsessões ou caprichos), o que é paciente, forma um substrato de sentimento que está no fundo de toda experiência aparente de conflito e é incondicional. Este amor resiste ao abandono, aos obstáculos, às indisposições gerais que envolvem todos os relacionamentos. Pela minha longa experiência em amar (não riam, é verdade), penso que estamos mais preparados para este amor quanto mais inocentes somos. Como fomos um dia (quando amamos pela primeira vez) e, paradoxalmente, como voltamos a ser, a cada dia que vivemos e envelhecemos. Para amar com disciplina é preciso acreditar no amor. Desvestí-lo das mágoas e desilusões que encaramos pela vida, considerar com tranqüilidade os “nãos” que recebemos, os sonhos de amor não realizados. Amar com disciplina é amar, apesar de. A maturidade nos prepara para sermos novamente crianças no amor.
sexta-feira, março 11, 2005
A morte não é terrível. Passa-se ao sono e o mundo desaparece – se tudo correr bem. Terrível pode ser a dor dos moribundos, terrível também a perda sofrida pelos vivos quando morre uma pessoa amada. Não há cura conhecida (...). O que as pessoas podem fazer para assegurar umas às outras maneiras fáceis e pacíficas de morrer ainda está por ser descoberto. (Norbert Elias. A Solidão dos Moribundos)
Estávamos na livraria do shopping antes do início do filme, quando recebi um telefonema. Era um amigo avisando-me da morte de uma colega de faculdade. Aconteceu no domingo passado e nem fiquei sabendo. Soube que lutava contra o câncer já há algum tempo, mas que estava bem, confiante que seria curada (era muito religiosa). Entrei no cinema com o coração dilacerado. A velha ferida do peito sangrando todas as dores. Mar adentro. No filme, Ramón Sampedro luta para morrer e minha amiga fazia exatamente o contrário. Nas últimas semanas chorava muito e dizia que queria viver. Queria estar ao lado dos dois filhos pequenos. Ela não tinha quarenta anos. Disseram-me que suplicou até o último instante. A despeito deste contraste, saí do filme com a sensação de que todos tinham razão: os que lutavam pela liberdade individual frente ao poder de um estado laico, os que imbuídos de sua ética existencialista queriam deliberar sobre o seu próprio direito de viver ou morrer, os que defendiam a vida a qualquer custo (mesmo que em migalhas, a vida que vale por um instante de beleza e sentido). O filme é belo e muito tocante, do início ao fim. Saí com os olhos vermelhos da sala. Algumas identificações foram imediatas: a vontade de morrer diante de algumas prisões cotidianas, a necessidade de aprender a chorar sorrindo quando a vida não nos dá outras opções e, afinal, a certeza que por pior que sejam nossas correntes (voluntárias ou impostas), nosso espírito é livre. O que alivia um pouco a dor e a aceitação sobre tudo que não podemos mudar.
terça-feira, março 08, 2005
Hoje é dia internacional da mulher. Tenho uma grande preguiça do discurso feminista. E há momentos que sinto que sou mais homem do que muitos homens. E fico com vontade de aprender a cozinhar e fazer tudo o que as feministas abominam quando estou apaixonada. E é isso o que eu tinha a dizer a respeito.
segunda-feira, março 07, 2005
domingo, março 06, 2005
Hoje assisti a uma palestra do Vice Reitor da Universidade de Lisboa, o professor António Nóvoa. Ele foi um grande inspirador de minhas reflexões teóricas e práticas a respeito do trabalho de recolher histórias de vida na formação de professores. Gostei muito do que ele disse (estava quase sem voz, afinal, quem resiste ao calor brasileiro?). Começou a fala com um quadro de A. Breton e outros: O Cadáver Esquisito (ou elegante). Técnica surrealista que envolvia várias mãos na composição de uma obra e que inspirou um antigo blog que possuíamos, o blog esquisito, escrito com o Luís (Ene) e o Alysson Ferrari (J. Kern). Já comecei a gostar daí. Depois, disse algumas pérolas, como:
Diz-me como ensinas e dir-te-ei quem és.
Ou
Diz-me quem és e dir-te-ei como ensinas.
Professor é como médico: um erro pode ser fatal, trágico na vida de um indivíduo.
A memorização é necessária para o processo criativo (sempre pensei nisso, afinal, Mnemósina é mãe das musas).
Falou também de programas curriculares como programas alquímicos e em transposições deliberativas, uma substituição ao termo transposição didática, influenciado por J.Habermas e que envolve conhecimento teórico, prático, profissional e pessoal (inclua-se aí os valores e a ética).
E terminou com a Teoria do Caos, lembrando que as asas de uma borboleta podem influenciar um tufão no outro lado do mundo, além do que é preciso sonhar. E que os sonhos têm que acontecer, pois tudo que é necessário, é possível.
Dei a ele o meu livro e ele me disse que temos grandes afinidades. Ele também fez história e se doutorou em educação e é apaixonado por teatro (amanhã apresento essa disciplina por lá).
Agora só falta ele me convidar para dar uma palestra em Lisboa.Vocês sabem, adoro Fernando Pessoa (rs).
sexta-feira, março 04, 2005
quando estava na Índia, um terapeuta budista leu um desenho que eu havia feito. disse que os traços mostravam que eu era uma pessoa solitária (ok. ainda não sei direito como ele conseguiu descobrir isso naqueles rabiscos toscos e despreocupados). senti alívio quando afirmou, logo em seguida, que o desenho, entretanto, não apresentava psicopatias(menos mal). de fato, penso que sou uma pessoa que convive bem com a solidão. a começar pelo fato de que as atividades que mais aprecio na vida estão favorecidas pelo estar só: ler, estudar, escrever. o que não significa que não gosto de estar rodeada de pessoas (poucas, por vez, confesso). mas, há momentos em que sinto um peso negativo na solidão. quando estou alegre. nessas horas é muito, muito bom, ter pessoas para compartilhar.
quinta-feira, março 03, 2005
Se acreditar que é possível
viver sempre um grande amor
for ilusão, eu sou
a louca que crê
a tola que escolhe não ser
racional.
Se acreditar que o sempre não dura um só dia
mas sobrevive à revelia
da rotina , do tédio, do esquecimento da paixão
se isso for utopia, eu sou
a ingênua da rua,
Alice Poliana da Silva,
muito prazer.
Se tentar mudar a maré pro meu lado, pro seu lado, nosso barco
com eterno vento a favor,
se isso for fantasia, eu sou
o guizo do palhaço
que toca e avisa:
vem aí uma romântica
em estado terminal,
gastando um resto de vida com amar, crer, brigar e sonhar.
Essa, sou eu.
(Tatyana Badim)
Obrigada, Taty :)
terça-feira, março 01, 2005
Uma vez li uma crônica, acho que do Rubem Braga, sobre estar distraído (se não for dele, peço desculpas, estou com preguiça de procurar). Contava a história de um casal que ficava o tempo todo analisando a relação e que, por esse motivo, a despeito do amor que nutriam um pelo outro, acabaram se separando. Fico pensando que, de fato, é bastante útil viver distraído. É, sem pensar demais, analisar demais todas as coisas. Queremos sempre respostas, de preferência exatas. Estabelecemos prazos a todas as coisas: elas têm que acontecer até um determinado momento. Ditamos regras inflexíveis para os outros e para nós mesmos. E como perdemos tempo com titicas que não valem a pena: pequenas mágoas, irritações banais. Porque comigo tem que ser assim! Inflamos o peito e saímos por aí, armados com nossos valores, nossas leis morais, aplicando a espada do querubim a todas as situações. Quanta bobagem. Ontem uma aluna comentou que o seu marido nunca esquece todas as coisas que ela diz, mesmo de passagem. Ele se vangloria de ter “memória retentiva”. Enquanto ríamos da história, um outro soltou lá do fundo da sala: - Ah, filha, fala pro seu marido aí que tão importante como lembrar, é, talvez, esquecer.
segunda-feira, fevereiro 28, 2005
quinta-feira, fevereiro 24, 2005
Pai Anderson de Oxum. Resolvo todos os seus problemas. Hoje abri este mail. Foi grave. Mas, o pior, o pior mesmo foi, em meio à toda correria de ontem, ter jogado na mega sena acumulada em 31 milhões. Não antes de ter comprado uma raspadinha. Premiada na primeira vez. R$ 0,50 centavos. A loteria corre hoje. Pensar que posso estar milionária e fico aqui, escrevendo neste blog.
quarta-feira, fevereiro 23, 2005
Como explicar uma noite de sono que descansa, um despertar noturno com uma lua cheia iluminando o quarto e uma manhã clara de sol e céu azul sob a qual tudo parece possível (interrogação). Cara, Deus fez com que eu fosse professora, para saber que há coisas na vida que não se pode explicar.
Mostre-me como você rodopia na dança espiral da dor dentro da dor. Como mantém a rígida e cansativa disciplina, mesmo quando sofre agressões e teme. Diga-me como é capaz de correr tantos riscos com a insegurança do hoje num exercício insano de entrega incondicional ao amanhã. Como consegue ficar à vontade com a maneira como as coisas são neste exato momento e também no seguinte e no seguinte. Conte-me como você desmorona quando esbarra nos muros. Lugares que não pode transpor apenas pela força da tua vontade. Como consegue ultrapassá-los sem esclarecimentos da tua razão. Mostre-me como se percebe na frágil condição humana, uma folha sem proteção ao vento. A condição que te esmaga, mas que o leva a lugares onde a terra debaixo de teus pés e um sol intenso fazem seu coração marcado ficar mais sábio, inteiro de novo e de novo, e de novo. Explique-me como cuida das coisas corriqueiras do dia a dia sem deixar que elas determinem quem você é. Como administra o ser que grita em você no teu silêncio no espelho. E como percebe que, mesmo que os desejos da alma tenham um preço muito alto, no final, fica tudo bem.
(Inspirado em Oriah)
terça-feira, fevereiro 22, 2005
Esquecer o tempo. Sentar num meio fio em frente à fonte do Chafariz da Boa Morte e espalhar gravetos com a cabeça entre os joelhos. Pensamentos soltos, longe. Deixar levar pela conversa leve dos amigos. Andar à toa, sem rumo. Deitar nas pedras do Rio Bacalhau e olhar o céu azul sob o sol morno das manhãs. Comer pastel de queijo, bolo de arroz e tomar suco de cajuzinho do campo na rodoviária. Experimentar os doces cristalizados da rua Cândido Penso. E à noite, à noite ver as estrelas no silêncio do outeiro da Igreja Santa Bárbara.
sábado, fevereiro 19, 2005
Depois que Dona Maria do Socorro do Livramento me abandonou para trabalhar com a vizinha em melhores condições, declaro, para os devidos fins pessoais e profissionais, que a partir de segunda feira próxima começará a trabalhar aqui em casa a Dona Márcia Maria Sacerdote. Evangélica. Ex do Sandes Júnior. Sem comentários.
Dr. João é um homem prático, direto, simples. Eu o conheço há pelo menos dez anos e nunca trocamos mais do que algumas poucas palavras para falar de otites, amigdalites, antibióticos ou outras coisas do gênero alopático. Ele é o otorrino de minha filha. Nesta semana que passou eu o procurei. Por conta de um barulho constante no ouvido. Parecia haver um Focker 100 da TAM turbinado dentro da minha cabeça. Depois do exame clínico, ele me perguntou: - você levou um choque, o que foi? Neguei. Mas era verdade. Dr. João não é o tipo de desconhecido bom para confidências (e, depois, eu estava muito à flor da pele para falar com quem quer que fosse). Afirmei que a causa poderia ser física, desafiando-o. Ele riu e disse confiante que no meu caso não era. Receitou-me um remédio fitoterápico, e ainda emendou: - faça ioga, você pensa demais. Coloque a sua cabeça num nível superior e deixe o pau quebrar aqui em baixo.
Surpreendente.
quinta-feira, fevereiro 17, 2005
Outro dia um aluno novato me perguntou, desculpando-se pela indiscrição, qual era meu estado civil. Disse-lhe que era solteira. Ponto final. Ele não pareceu acreditar. Problema dele. Adorei falar essa mentira. Se ele fosse um desconhecido de ocasião, seria bom também dizer que me chamo, sei lá...Dora. Há momentos assim, que gostaria de passar tudo a limpo e sair por aí, com um olhar inaugural sobre o mundo.
quarta-feira, fevereiro 16, 2005
Pimeiro dia de aula do semestre. Entro na sala lotada e estão todos em silêncio. Calouros. Escrevo o nome da disciplina e o meu nome no quadro. O ambiente é desconhecido, quase hostil. Sento na mesa e finjo analisar papéis, enquanto aguardo mais alguns minutos para iniciar a primeira conversa. Tento disfarçar meu cansaço (o físico, o de alma). Faço um ar compenetrado e um esforço enorme para manter-me nesta seriedade pelo primeiro contato (mesmo quando vejo pela abertura de vidro no fundo da sala alunos antigos acenando para mim, enviando-me beijos ou fazendo macaquices). Apresento-me. Desfaço pré-conceitos em relação ao curso. Falo das oportunidades profissionais e das motivações internas para realizá-lo. Digo- lhes coisas que acredito e passo a acreditar nelas mais ainda (especialmente quando vejo tanta esperança e interesse naqueles olhos atentos). Ao final, o que, de fato, vale a pena: uma aluna aguarda ficar a sós comigo e confidencia-me:
- Professora, hoje você me deu forças para fazer qualquer coisa. Obrigada.
Volto pra casa com a mesma sensação. Revigorada.
segunda-feira, fevereiro 14, 2005
Maria Clara e eu refletimos sobre as regras de luta inspiradas em Sun Tzu. Numa delas há uma grande ênfase à necessidade de conhecer o inimigo. Disse-lhe que não concordo. Pelo menos não inteiramente. Nem sempre isso é possível. Muitas vezes a luta é cega, o inimigo está à espreita e nos surpreende. Sabemos como podemos ser atingidos. Assim, podem acreditar, se formos muito mentais, a guerra será mental, se, ao contrário, formos emocionais demais, as batalhas serão travadas nesse nível. Ela argumenta que poderemos, então, conhecer as fragilidades do inimigo e fazer o mesmo. Todavia, explico-lhe que prefiro usar o princípio das lutas orientais do tipo aikido: esperar o ataque e trabalhar a defesa, utilizando a própria força do oponente. Quando o inimigo ataca ele revela a verdadeira face. Aí sim, dá pra bater (e que as armas sejam coerentes com a nossa natureza, sempre). Em todos os casos, vale muito mais conhecer-se, portanto.
Use a força interior , o equilíbrio e sobretudo o auto controle .
Lute usando a energia da água e do ar. Está tudo na natureza.
Não use a força. Ao imprimir a força física no combate,
sua energia se vai.