terça-feira, março 08, 2005

Dia Internacional da Mulher


Hoje é dia internacional da mulher. Tenho uma grande preguiça do discurso feminista. E há momentos que sinto que sou mais homem do que muitos homens. E fico com vontade de aprender a cozinhar e fazer tudo o que as feministas abominam quando estou apaixonada. E é isso o que eu tinha a dizer a respeito.

segunda-feira, março 07, 2005

Vingança Privada


Nino e eu temos muitas afinidades. Uma importante: gostamos de banheiro limpo. Isso significa que preciso trocar sua bandeja higiênica várias vezes ao dia. Eu as forro com jornal. Não raro ele fica esperando que eu estenda as fotos e reportagens, para que complete, de imediato, o serviço em cima. Hoje, coincidentemente, foi na Vilma Martins. Mas, não faltará oportunidade de diversão para muitas escolhas conscientes.

domingo, março 06, 2005

Nóvoa

Hoje assisti a uma palestra do Vice Reitor da Universidade de Lisboa, o professor António Nóvoa. Ele foi um grande inspirador de minhas reflexões teóricas e práticas a respeito do trabalho de recolher histórias de vida na formação de professores. Gostei muito do que ele disse (estava quase sem voz, afinal, quem resiste ao calor brasileiro?). Começou a fala com um quadro de A. Breton e outros: O Cadáver Esquisito (ou elegante). Técnica surrealista que envolvia várias mãos na composição de uma obra e que inspirou um antigo blog que possuíamos, o blog esquisito, escrito com o Luís (Ene) e o Alysson Ferrari (J. Kern). Já comecei a gostar daí. Depois, disse algumas pérolas, como:

Diz-me como ensinas e dir-te-ei quem és.
Ou
Diz-me quem és e dir-te-ei como ensinas.

Professor é como médico: um erro pode ser fatal, trágico na vida de um indivíduo.

A memorização é necessária para o processo criativo (sempre pensei nisso, afinal, Mnemósina é mãe das musas).

Falou também de programas curriculares como programas alquímicos e em transposições deliberativas, uma substituição ao termo transposição didática, influenciado por J.Habermas e que envolve conhecimento teórico, prático, profissional e pessoal (inclua-se aí os valores e a ética).

E terminou com a Teoria do Caos, lembrando que as asas de uma borboleta podem influenciar um tufão no outro lado do mundo, além do que é preciso sonhar. E que os sonhos têm que acontecer, pois tudo que é necessário, é possível.

Dei a ele o meu livro e ele me disse que temos grandes afinidades. Ele também fez história e se doutorou em educação e é apaixonado por teatro (amanhã apresento essa disciplina por lá).

Agora só falta ele me convidar para dar uma palestra em Lisboa.Vocês sabem, adoro Fernando Pessoa (rs).

sexta-feira, março 04, 2005

solidão

quando estava na Índia, um terapeuta budista leu um desenho que eu havia feito. disse que os traços mostravam que eu era uma pessoa solitária (ok. ainda não sei direito como ele conseguiu descobrir isso naqueles rabiscos toscos e despreocupados). senti alívio quando afirmou, logo em seguida, que o desenho, entretanto, não apresentava psicopatias(menos mal). de fato, penso que sou uma pessoa que convive bem com a solidão. a começar pelo fato de que as atividades que mais aprecio na vida estão favorecidas pelo estar só: ler, estudar, escrever. o que não significa que não gosto de estar rodeada de pessoas (poucas, por vez, confesso). mas, há momentos em que sinto um peso negativo na solidão. quando estou alegre. nessas horas é muito, muito bom, ter pessoas para compartilhar.

quinta-feira, março 03, 2005

Alice Poliana da Silva


Se acreditar que é possível

viver sempre um grande amor

for ilusão, eu sou

a louca que crê

a tola que escolhe não ser

racional.



Se acreditar que o sempre não dura um só dia

mas sobrevive à revelia

da rotina , do tédio, do esquecimento da paixão

se isso for utopia, eu sou

a ingênua da rua,

Alice Poliana da Silva,

muito prazer.



Se tentar mudar a maré pro meu lado, pro seu lado, nosso barco

com eterno vento a favor,

se isso for fantasia, eu sou

o guizo do palhaço

que toca e avisa:

vem aí uma romântica

em estado terminal,

gastando um resto de vida com amar, crer, brigar e sonhar.

Essa, sou eu.

(Tatyana Badim)
Obrigada, Taty :)

terça-feira, março 01, 2005

Viver Distraído

Uma vez li uma crônica, acho que do Rubem Braga, sobre estar distraído (se não for dele, peço desculpas, estou com preguiça de procurar). Contava a história de um casal que ficava o tempo todo analisando a relação e que, por esse motivo, a despeito do amor que nutriam um pelo outro, acabaram se separando. Fico pensando que, de fato, é bastante útil viver distraído. É, sem pensar demais, analisar demais todas as coisas. Queremos sempre respostas, de preferência exatas. Estabelecemos prazos a todas as coisas: elas têm que acontecer até um determinado momento. Ditamos regras inflexíveis para os outros e para nós mesmos. E como perdemos tempo com titicas que não valem a pena: pequenas mágoas, irritações banais. Porque comigo tem que ser assim! Inflamos o peito e saímos por aí, armados com nossos valores, nossas leis morais, aplicando a espada do querubim a todas as situações. Quanta bobagem. Ontem uma aluna comentou que o seu marido nunca esquece todas as coisas que ela diz, mesmo de passagem. Ele se vangloria de ter “memória retentiva”. Enquanto ríamos da história, um outro soltou lá do fundo da sala: - Ah, filha, fala pro seu marido aí que tão importante como lembrar, é, talvez, esquecer.

segunda-feira, fevereiro 28, 2005

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos,
as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros
e a luz impura,
até doer.
É urgente o amor,
é urgente permanecer.
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Eugénio de Andrade
(Diante da poesia, bem como de certas sensações, não há palavras).

quinta-feira, fevereiro 24, 2005

Momento Desespero

Pai Anderson de Oxum. Resolvo todos os seus problemas. Hoje abri este mail. Foi grave. Mas, o pior, o pior mesmo foi, em meio à toda correria de ontem, ter jogado na mega sena acumulada em 31 milhões. Não antes de ter comprado uma raspadinha. Premiada na primeira vez. R$ 0,50 centavos. A loteria corre hoje. Pensar que posso estar milionária e fico aqui, escrevendo neste blog.

quarta-feira, fevereiro 23, 2005

Disposição

Como explicar uma noite de sono que descansa, um despertar noturno com uma lua cheia iluminando o quarto e uma manhã clara de sol e céu azul sob a qual tudo parece possível (interrogação). Cara, Deus fez com que eu fosse professora, para saber que há coisas na vida que não se pode explicar.
Apelo

Mostre-me como você rodopia na dança espiral da dor dentro da dor. Como mantém a rígida e cansativa disciplina, mesmo quando sofre agressões e teme. Diga-me como é capaz de correr tantos riscos com a insegurança do hoje num exercício insano de entrega incondicional ao amanhã. Como consegue ficar à vontade com a maneira como as coisas são neste exato momento e também no seguinte e no seguinte. Conte-me como você desmorona quando esbarra nos muros. Lugares que não pode transpor apenas pela força da tua vontade. Como consegue ultrapassá-los sem esclarecimentos da tua razão. Mostre-me como se percebe na frágil condição humana, uma folha sem proteção ao vento. A condição que te esmaga, mas que o leva a lugares onde a terra debaixo de teus pés e um sol intenso fazem seu coração marcado ficar mais sábio, inteiro de novo e de novo, e de novo. Explique-me como cuida das coisas corriqueiras do dia a dia sem deixar que elas determinem quem você é. Como administra o ser que grita em você no teu silêncio no espelho. E como percebe que, mesmo que os desejos da alma tenham um preço muito alto, no final, fica tudo bem.

(Inspirado em Oriah)

terça-feira, fevereiro 22, 2005

Cidade de Goiás


Esquecer o tempo. Sentar num meio fio em frente à fonte do Chafariz da Boa Morte e espalhar gravetos com a cabeça entre os joelhos. Pensamentos soltos, longe. Deixar levar pela conversa leve dos amigos. Andar à toa, sem rumo. Deitar nas pedras do Rio Bacalhau e olhar o céu azul sob o sol morno das manhãs. Comer pastel de queijo, bolo de arroz e tomar suco de cajuzinho do campo na rodoviária. Experimentar os doces cristalizados da rua Cândido Penso. E à noite, à noite ver as estrelas no silêncio do outeiro da Igreja Santa Bárbara.

sábado, fevereiro 19, 2005

...

Depois que Dona Maria do Socorro do Livramento me abandonou para trabalhar com a vizinha em melhores condições, declaro, para os devidos fins pessoais e profissionais, que a partir de segunda feira próxima começará a trabalhar aqui em casa a Dona Márcia Maria Sacerdote. Evangélica. Ex do Sandes Júnior. Sem comentários.
Zueira

Dr. João é um homem prático, direto, simples. Eu o conheço há pelo menos dez anos e nunca trocamos mais do que algumas poucas palavras para falar de otites, amigdalites, antibióticos ou outras coisas do gênero alopático. Ele é o otorrino de minha filha. Nesta semana que passou eu o procurei. Por conta de um barulho constante no ouvido. Parecia haver um Focker 100 da TAM turbinado dentro da minha cabeça. Depois do exame clínico, ele me perguntou: - você levou um choque, o que foi? Neguei. Mas era verdade. Dr. João não é o tipo de desconhecido bom para confidências (e, depois, eu estava muito à flor da pele para falar com quem quer que fosse). Afirmei que a causa poderia ser física, desafiando-o. Ele riu e disse confiante que no meu caso não era. Receitou-me um remédio fitoterápico, e ainda emendou: - faça ioga, você pensa demais. Coloque a sua cabeça num nível superior e deixe o pau quebrar aqui em baixo.
Surpreendente.

quinta-feira, fevereiro 17, 2005

Identidade

Outro dia um aluno novato me perguntou, desculpando-se pela indiscrição, qual era meu estado civil. Disse-lhe que era solteira. Ponto final. Ele não pareceu acreditar. Problema dele. Adorei falar essa mentira. Se ele fosse um desconhecido de ocasião, seria bom também dizer que me chamo, sei lá...Dora. Há momentos assim, que gostaria de passar tudo a limpo e sair por aí, com um olhar inaugural sobre o mundo.

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

Reinício

Pimeiro dia de aula do semestre. Entro na sala lotada e estão todos em silêncio. Calouros. Escrevo o nome da disciplina e o meu nome no quadro. O ambiente é desconhecido, quase hostil. Sento na mesa e finjo analisar papéis, enquanto aguardo mais alguns minutos para iniciar a primeira conversa. Tento disfarçar meu cansaço (o físico, o de alma). Faço um ar compenetrado e um esforço enorme para manter-me nesta seriedade pelo primeiro contato (mesmo quando vejo pela abertura de vidro no fundo da sala alunos antigos acenando para mim, enviando-me beijos ou fazendo macaquices). Apresento-me. Desfaço pré-conceitos em relação ao curso. Falo das oportunidades profissionais e das motivações internas para realizá-lo. Digo- lhes coisas que acredito e passo a acreditar nelas mais ainda (especialmente quando vejo tanta esperança e interesse naqueles olhos atentos). Ao final, o que, de fato, vale a pena: uma aluna aguarda ficar a sós comigo e confidencia-me:
- Professora, hoje você me deu forças para fazer qualquer coisa. Obrigada.
Volto pra casa com a mesma sensação. Revigorada.

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

Aikido


Maria Clara e eu refletimos sobre as regras de luta inspiradas em Sun Tzu. Numa delas há uma grande ênfase à necessidade de conhecer o inimigo. Disse-lhe que não concordo. Pelo menos não inteiramente. Nem sempre isso é possível. Muitas vezes a luta é cega, o inimigo está à espreita e nos surpreende. Sabemos como podemos ser atingidos. Assim, podem acreditar, se formos muito mentais, a guerra será mental, se, ao contrário, formos emocionais demais, as batalhas serão travadas nesse nível. Ela argumenta que poderemos, então, conhecer as fragilidades do inimigo e fazer o mesmo. Todavia, explico-lhe que prefiro usar o princípio das lutas orientais do tipo aikido: esperar o ataque e trabalhar a defesa, utilizando a própria força do oponente. Quando o inimigo ataca ele revela a verdadeira face. Aí sim, dá pra bater (e que as armas sejam coerentes com a nossa natureza, sempre). Em todos os casos, vale muito mais conhecer-se, portanto.
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Recebi, hoje, por e-mail:
Não use a força física no combate. Apenas defenda-se.
Use a força interior , o equilíbrio e sobretudo o auto controle .
Lute usando a energia da água e do ar. Está tudo na natureza.
Não use a força. Ao imprimir a força física no combate,
sua energia se vai.
Use sua energia interior para obter concentração.
A concentração e o controle te tornarão apto ao equilíbrio.
O equilíbrio te torna capaz de tomar decisões com sabedoria.
Não tome decisões sob conflito interno.
Busque o equilíbrio antes de decidir.
Sob conflito, pode decidir fazer o que não quer
e deixar de fazer o que seria sábio fazer.
Cada movimento a seu tempo e em seu tempo .
E isto se chama tai-chi-chuan.

sexta-feira, fevereiro 11, 2005

Previsões

-Diga-me se meus amigos vão morrer.
-Tudo é possível, meu jovem, pois o futuro, o futuro muda a todo instante.
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(Instrução jedi de Yoda a Luke Skywalker em Star Wars - O Império Contra Ataca)

sábado, fevereiro 05, 2005

Agenda

Além das atividades permanentes (cuidar de uma filha, um gato, algumas plantas, uma casa sem ajudante e estar à frente de uma loja em crise financeira e todos os efeitos decorrentes disso), a partir de quinta recomeço: coordenação de dois cursos lato sensu (História Cultural – turmas 2004 e 2005), coordenação de um centro de pesquisa (Centro de Pesquisa em História, segundo ano, com projeto de mestrado em História em estudo), coordenação de dois projetos de pesquisa (Vida Privada e Cotidiano Doméstico em Goiás Tradicional com cinco estagiários sob orientação e Memória Institucional no prelo), aulas em três disciplinas (o que, talvez, eu faça melhor na vida): uma na especialização (História Cultural: entre Práticas e Representações), duas na graduação (Métodos e Técnicas de Pesquisa em História e a experimental Mito e Teatro) e cinco orientações com temáticas diferentes na Pós-Graduação. Há, ainda, alguns projetos editoriais a serem entregues até o final de março: coordenação de uma revista temática e artigo (Revista Fragmentos de Cultura), coordenação e elaboração de capítulo do livro História Cultural e Documento com um Instituto de Pesquisa de Goiânia, elaboração de um capítulo de livro sobre Identidade Cultural em parceria com a UNB (falarei sobre a elite goiana a partir de três gerações de mulheres escritoras da cidade de Goiás) e um artigo (e seminário) em que apresentarei os resultados de um ano contando e vivenciando mitos com os alunos da licenciatura (adoro esta experiência). Ainda em fevereiro será minha estréia como avaliadora de banca de mestrado (Ciências da Religião, trabalho de um psicanalista sobre o mito da queda do homem no Gênesis). Hum, acho que desta vez, exagerei. Mas tenham fé, vai dar tudo certo.
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P.S. Esqueci da atividade voluntária com os adultos na Paróquia N.Sra de Fátima nos finais de semana. Claro que vou.

quinta-feira, fevereiro 03, 2005

Diário de uma sobrevivente

Quatro dias. Nem acredito. O corpo ainda ressente os impactos da semana. Por tudo que fui obrigada a ouvir e digerir, ainda sinto os ouvidos, o estômago. Mas isso não importa. Quatro dias para estar sossegada, ler, ir ao cinema, estudar. Sem pressões ou obrigações de qualquer natureza. Descanso com o senso do dever cumprido. Adormeço a mente e o coração neste eterno agora. Deus! O paraíso é um estado de espírito.
Assuntos Escatológicos

Lendo revista no banheiro, reflito hoje sobre Kofi Annan e os destinos do mundo. Contemplo seus olhos generosos e surpreendo-me com suas observações sobre o peso das desigualdades sociais e os aspectos perversos das defesas identitárias das nações. A origem africana foi fundamental em sua formação, afirma. Com as sociedades tribais aprendeu a ouvir. Além disso, ressalta que uma de suas funções é a de, de vez em quando, conversar com o diabo. Acho que o compreendo. Profundamente.