segunda-feira, fevereiro 14, 2005

Aikido


Maria Clara e eu refletimos sobre as regras de luta inspiradas em Sun Tzu. Numa delas há uma grande ênfase à necessidade de conhecer o inimigo. Disse-lhe que não concordo. Pelo menos não inteiramente. Nem sempre isso é possível. Muitas vezes a luta é cega, o inimigo está à espreita e nos surpreende. Sabemos como podemos ser atingidos. Assim, podem acreditar, se formos muito mentais, a guerra será mental, se, ao contrário, formos emocionais demais, as batalhas serão travadas nesse nível. Ela argumenta que poderemos, então, conhecer as fragilidades do inimigo e fazer o mesmo. Todavia, explico-lhe que prefiro usar o princípio das lutas orientais do tipo aikido: esperar o ataque e trabalhar a defesa, utilizando a própria força do oponente. Quando o inimigo ataca ele revela a verdadeira face. Aí sim, dá pra bater (e que as armas sejam coerentes com a nossa natureza, sempre). Em todos os casos, vale muito mais conhecer-se, portanto.
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Recebi, hoje, por e-mail:
Não use a força física no combate. Apenas defenda-se.
Use a força interior , o equilíbrio e sobretudo o auto controle .
Lute usando a energia da água e do ar. Está tudo na natureza.
Não use a força. Ao imprimir a força física no combate,
sua energia se vai.
Use sua energia interior para obter concentração.
A concentração e o controle te tornarão apto ao equilíbrio.
O equilíbrio te torna capaz de tomar decisões com sabedoria.
Não tome decisões sob conflito interno.
Busque o equilíbrio antes de decidir.
Sob conflito, pode decidir fazer o que não quer
e deixar de fazer o que seria sábio fazer.
Cada movimento a seu tempo e em seu tempo .
E isto se chama tai-chi-chuan.

sexta-feira, fevereiro 11, 2005

Previsões

-Diga-me se meus amigos vão morrer.
-Tudo é possível, meu jovem, pois o futuro, o futuro muda a todo instante.
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(Instrução jedi de Yoda a Luke Skywalker em Star Wars - O Império Contra Ataca)

sábado, fevereiro 05, 2005

Agenda

Além das atividades permanentes (cuidar de uma filha, um gato, algumas plantas, uma casa sem ajudante e estar à frente de uma loja em crise financeira e todos os efeitos decorrentes disso), a partir de quinta recomeço: coordenação de dois cursos lato sensu (História Cultural – turmas 2004 e 2005), coordenação de um centro de pesquisa (Centro de Pesquisa em História, segundo ano, com projeto de mestrado em História em estudo), coordenação de dois projetos de pesquisa (Vida Privada e Cotidiano Doméstico em Goiás Tradicional com cinco estagiários sob orientação e Memória Institucional no prelo), aulas em três disciplinas (o que, talvez, eu faça melhor na vida): uma na especialização (História Cultural: entre Práticas e Representações), duas na graduação (Métodos e Técnicas de Pesquisa em História e a experimental Mito e Teatro) e cinco orientações com temáticas diferentes na Pós-Graduação. Há, ainda, alguns projetos editoriais a serem entregues até o final de março: coordenação de uma revista temática e artigo (Revista Fragmentos de Cultura), coordenação e elaboração de capítulo do livro História Cultural e Documento com um Instituto de Pesquisa de Goiânia, elaboração de um capítulo de livro sobre Identidade Cultural em parceria com a UNB (falarei sobre a elite goiana a partir de três gerações de mulheres escritoras da cidade de Goiás) e um artigo (e seminário) em que apresentarei os resultados de um ano contando e vivenciando mitos com os alunos da licenciatura (adoro esta experiência). Ainda em fevereiro será minha estréia como avaliadora de banca de mestrado (Ciências da Religião, trabalho de um psicanalista sobre o mito da queda do homem no Gênesis). Hum, acho que desta vez, exagerei. Mas tenham fé, vai dar tudo certo.
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P.S. Esqueci da atividade voluntária com os adultos na Paróquia N.Sra de Fátima nos finais de semana. Claro que vou.

quinta-feira, fevereiro 03, 2005

Diário de uma sobrevivente

Quatro dias. Nem acredito. O corpo ainda ressente os impactos da semana. Por tudo que fui obrigada a ouvir e digerir, ainda sinto os ouvidos, o estômago. Mas isso não importa. Quatro dias para estar sossegada, ler, ir ao cinema, estudar. Sem pressões ou obrigações de qualquer natureza. Descanso com o senso do dever cumprido. Adormeço a mente e o coração neste eterno agora. Deus! O paraíso é um estado de espírito.
Assuntos Escatológicos

Lendo revista no banheiro, reflito hoje sobre Kofi Annan e os destinos do mundo. Contemplo seus olhos generosos e surpreendo-me com suas observações sobre o peso das desigualdades sociais e os aspectos perversos das defesas identitárias das nações. A origem africana foi fundamental em sua formação, afirma. Com as sociedades tribais aprendeu a ouvir. Além disso, ressalta que uma de suas funções é a de, de vez em quando, conversar com o diabo. Acho que o compreendo. Profundamente.

quarta-feira, janeiro 26, 2005

Vontade de Potência

Da leitura de Antonin Artaud :

Uma obra de arte só é viva na medida em que comunica algo além de sua aparência. Uma sombra, que a duplica, ou seja, quando o artista é capaz de inscrever naquilo que ele molda o sopro de vida que o inspirou, como Deus que moldou o homem com o barro da terra e depois insuflou-lhe o sopro vital. O sopro é esse exercício de força criadora, a vontade de potência, que apreende aquilo que, do interior, se inscreve e se manifesta na exterioridade. Uma representação habitada por marcas de uma história, escrita com a própria carne. Quando deparamos com alguma obra de arte que carrega em si essa potência, ela nos atinge, nos perturba, nos encanta, nos transfigura. Não saímos dali como entramos, algo foi acrescentado. É o tempo privilegiado em que não apenas nos sentimos existir, mas onde passamos por uma experiência de recuperação material do ato de existir.

E, deste xeque mate:

“se falta enxofre à nossa vida, quer dizer, se falta uma magia constante, é porque nos apraz contemplar os nossos atos e nos perdemos em considerações sobre as formas sonhadas de nossos atos, ao invés de sermos impulsionados por eles, ou seja, falta à nossa vida força, energia, vibração, intensidade e estamos mergulhados no marasmo”.

Concluo:

Desse mal nunca serei acusada. Vivo externamente minhas interioridades.
Casados? Cada um na sua cama.

Estive conversando com minha psicóloga, conhecida empresária e vendedora de caldo de cana, a Dona Lurdes, sobre relacionamentos. (sem contar a Clarice, manicure, ela é a pessoa mais sábia que conheço). Dona Lurdes pensa que num casamento maduro, os envolvidos devem dormir em camas e cômodos separados. É muito melhor, afirma convicta. Quando se quer algo mais, é só bater na porta do quarto e perguntar sem rodeios: vai aí, um carinhozinho extra? Quando um não quer, dois não brigam, ela reafirma, não adianta insistir. Argumento que, neste caso, então, não seria interessante fazer o outro mudar de opinião? Ela até considera. Mas diz que dividindo a mesma cama fica mais difícil dizer um não educado quando se quer dormir sem enfrentar a terceira jornada de trabalho do dia: sexo conjugal. Ela também acha que sexo, depois de muitos anos compartilhados, é melhor que seja realizado de forma não programada. Depois do café da manhã, no meio da tarde, entre um freguês e outro (aquele último caldo que tomei, deus do céu). Filha, entenda o seguinte, quando a gente fica mais velho, quer mesmo é dormir à vontade, sem incomodar e nem ser incomodado. Mas, Dona Lurdes, a Sra, já dormiu de colherzinha? Parece tão romântico. Já dormi até de cuia, minha filha. Homem por trás, com aquele braço pesado em cima da gente, roncando na sua nuca? Unhum. Um pesadelo. Vai por mim, filha, homem bom é aquele que te aparece de manhã, de banhozinho tomado e que não te enche a paciência de noite quando você não está com vontade. Você vai querer ficar com ele o resto da vida, pode ter certeza.
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Dona Lurdes parece pouco apaixonada. Será?

terça-feira, janeiro 25, 2005

"Não importa o que acontece com você, mas sim como reage ao que lhe acontece".

domingo, janeiro 23, 2005

O Amor, A Morte, As Paixões
Reencarnação


Assisti com Maria Clara o filme Reencarnação (Birth, 2004). Ela conversa o tempo todo, faz perguntas, e ainda me ridiculariza quando eu a mando calar-se. Shhhhhhh.....ela me devolve o pedido de silêncio quando, momentos depois, ofereço-lhe um Trident. Não parece corar nas cenas de sexo que Nicole Kidman protagoniza com o noivo no filme, nem mesmo diante da tão polêmica cena em que o menino de dez anos compartilha a banheira com a atriz. Fica indignada com o microfone aparecendo no topo da tela. “Erro tosco”, conclui. Comenta com a amiga ao lado que a musiquinha do suspense é irritante e que o ator criança (o mesmo dos filmes O Enviado e Efeito Borboleta) é ótimo. Ao final do filme, vira-se para mim e diz: é claro, a Anna (Nicole Kidman) pediu aos amigos para afastar o menino, pois não conseguiria fazer isso. Portanto, a amiga estava mentindo quando convenceu o garoto que ele não era a reencarnação do marido de Anna. Foi isso. Fico surpresa com a conclusão (perfeitamente possível) que mantém a ambigüidade do filme (como ela consegue pensar, mantendo-se inquieta o tempo todo?). Já na praça de alimentação, contando os sushis que posso comer (pois havíamos dividido a porção) ela explica à amiga sua teoria sobre a reencarnação: bem, acho que seria injusto ter uma só vida, mas isso, Marcela, não é uma coisa para se pensar, não. Falar nisso é perder tempo...e Mãe, não pense que eu estou distraída, não, você comeu um sushi a mais....
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Ir ao cinema com Maria Clara é, no mínimo, interessante.
O Amor, a Morte, as Paixões
Jornada da Alma

Vimos três filmes da IV Mostra de Cinema do Lumiére. O primeiro deles ainda ecoa em mim: Jornada da Alma (Prendimi L´anima, Roberto Faenza, 2002), o belo filme que mostra o amor entre Jung e sua paciente Sabina. Jung ainda é o jovem discípulo de Freud, mas já se pode ver nele os elementos que o fariam único. A utilização das primeiras técnicas da psicanálise, insights sobre o poder dos sonhos e seus arquétipos, os traços de sincronia favorecidos pelo poder psíquico. O filme contém referências históricas importantes, e tem uma bela trilha sonora (ainda posso ouvir a folclórica Tumbalalaika tocada no piano de Sabina). O ator que interpreta Jung (Iain Glen) é maravilhoso (exatamente como imagino que ele foi: sensível, reflexivo). Tudo isso é possível ver no filme. Todavia, para mim, o mais belo, talvez tenha sido mesmo, a quebra da ética médico-paciente, com o envolvimento de Jung com Sabina, sua anima. Eles sofrem muito por isso, mas é deste contato, pelo amor, que Sabina fica curada e torna-se uma psicanalista de vanguarda (iniciativa abortada pela repressão stalinista). Fiquei questionando, ainda, se é possível produzir algo importante, sem quebrar rígidos códigos de conduta, envolver-se até a alma, abrir-se para os ventos mobilizadores do amor, os que alteram o estado de todas as coisas. Jung não teria sido o que foi sem esta permissão. Isto é certo.
P.S: Quando você não consegue olhar dentro da alma de alguém, tente ir embora e voltar mais tarde. (Boris Pasternak, citado no filme)

quinta-feira, janeiro 13, 2005

A Resistência dos Inocentes

Nada como ter olhos de criança. E Valentin é uma criança de nove anos. Mora com a Avó, uma argentina que reclama de tudo, mas cuida bem dele. Sob o contexto da ditadura militar na década de 60, vive num bairro pobre de Buenos Aires. Não sabia do paradeiro da mãe e o pai era ausente. Valentin queria uma família. Uma mãe loira que o buscasse no colégio. Mas isso não o transformava numa criança triste. Assistir ao filme de Alejandro Agresti provocou-me muitas reflexões e acordou alguns sentimentos. Os que se referem à fragilidade da vida, à ternura que está nas pequenas coisas (sem as quais, dificilmente construiríamos algo), ao enfrentamento da solidão, à dor do sonho, à disposição da fé no impossível. Contentar-se com o que nos é dado, mesmo que nos pareça pouco. Valentin divertia-se com os instrumentos que inventava e os treinamentos que o levariam a ser um astronauta da Nasa. Importante imaginar, especialmente o que não se pode viver, não é mesmo? Valentin sabia disso, quando construiu uma roupa espacial, colocou pesos nos sapatos para acostumar-se à falta de gravidade que enfrentaria no espaço. Estabelecer relações sem idéias pré-concebidas. Valentin tem forte laço de amizade com o músico vizinho. Um homem incomum, um judeu solitário. Ser flexível, mudar de planos quando necessário, superar obstáculos sem grandes traumas. Passar pelas dificuldades como quem resolve rápido uma conta de matemática do dever diário e corre para a janela, o brinquedo que constrói significados para o mundo. Acreditar, sempre. O filme de Agresti é uma prova lírica e adorável de que não é preciso um grande ou dramático evento para se apresentar uma história. Basta que se saiba contá-la.
Melancolia


O melancólico lança um certo olhar sobre o mundo. Vê por baixo e pelo avesso o que está escondido. Percebe o desencanto por trás da piada e da ironia, o choro que produz o riso. Há, sim, no melancólico, certa familiaridade com o absurdo, pois não há melancolia expressa sem auto-referência, um certo senso de cumplicidade com a dor e com o sofrimento. Nisto está sua fragilidade e sua força. O olhar melancólico implica alguma conformação com o estado das coisas, mas permite o pulsar da vida. E é na expressão de sua tristeza que encontra alívio, beleza e redenção.



Desabafos? Só com desconhecidos.

É inegável que falar de nossas ansiedades e problemas, quase sempre faz bem. Especialmente quando a respiração está difícil e parece haver um boi entre a garganta e o estômago dificultando a passagem do ar, da comida, da vida que anima o corpo. Mas, é indiscutível que é problemático falar com pessoas conhecidas. O envolvimento emocional é desagradável, prejudicial ao outro e, por reflexo, a nós mesmos. Melhor mesmo é falar com desconhecidos. Motoristas de táxi, jornaleiros, o seu Zé da padaria.
Hoje tive um dia difícil. Além do normal. No final da manhã, ainda descubro que por uma fraude, fizeram um débito indevido em minha conta corrente. Quanto trabalho e chateação. Sem almoço por esperar o gerente de banco (que, se minha praga pegar, deve ir – com todos os outros - para o meio do inferno, desculpem), fui tomar um caldo de cana na lanchonete mais próxima ao Banco (por que escrevo esta merda com letra maiúscula?).
O Quiosque Tropicana da Dona Lourdes. Conversamos muito. Contei-lhe tudo que estava acontecendo naquele momento e mais outras coisas que não diria a ninguém (ninguém mesmo). Pude chorar à vontade sabendo que ficaria ali, entre nós duas, e que eu não a prejudicaria por isso. No final, ela nem cobrou o caldo, desejou-me, sinceramente muito boa sorte, que eu fosse com Deus. Revigorada pela cana de açúcar e de fígado desobstruído, fui lá enfrentar o tal gerente, que, é claro, ressarciu-me de todo prejuízo depois de algum enfrentamento. Ufa. Estou cansada. Mas amanhã estarei novamente pronta, para o que vier.

domingo, janeiro 09, 2005

Há que se viver...

Entendo que minha grande motivação como professora, é aprender e ensinar. Sim, adquirir novos conhecimentos é sempre muito estimulante na medida em que podemos transmití-los. Dá uma sensação de dever cumprido, de utilidade na vida. E não há dinheiro no mundo que pague esta satisfação. Lembro-me sempre dos meus pequenos alunos, as crianças do ensino fundamental. Quando tentava explicar-lhes coisas complicadas, traduzir a linguagem, diversificá –la (sim, porque nem todo mundo entende a partir da palavra falada). Foi um exercício muito importante. Ficava olhando bem nos seus olhinhos, no brilho que expressavam quando uma determinada explicação os tocava. Isto é verdadeiramente motivador. Há uma energia de retroalimentação em todo momento de aprendizagem. É revigorante, compensador interiormente. De fato, um processo divino. Mas não é isso que gostaria de dizer. Escrevo aqui, hoje, para enfatizar outra coisa. Gostaria de dizer que as coisas mais importantes, as mais significativas de uma vida, essas, essas não podem ser ensinadas. Há que se vivê-las. Assim, todas as coisas que tenho vivido e aprendido, estas, provavelmente tentarei dizer a alguém (minha filha, talvez). Mas sei que não serei compreendida.

sábado, janeiro 08, 2005

Senhor, dai-me um coração resoluto*
Minha mãe sempre reclamou que era desestimulante oferecer-me presentes na infância. Diante da bicicleta, sorria. Da boneca quase do meu tamanho, agradecia. Ela me perguntava muitas vezes se eu havia gostado e parecia não acreditar quando eu dizia sim, sim, está bem, gostei, está ótimo, não precisava. Não sei porque cargas d’água eu era fiel a uma lógica interna, a que me acompanha desde criança: manter-se serena, no coração e na mente, diante do infortúnio e da felicidade. Mas, hoje, hoje está difícil controlar minha alegria: minha filha chega de viagem. Permitam-me.

*Frase de uma oração que recitava todas as noites.

quinta-feira, janeiro 06, 2005

Chuva

Chove lá fora de forma intermitente.
Aqui dentro, lavo a poeira do chão que piso descalça.
Nem feliz, nem triste. Com a alma limpa, tudo respira.
(Em minhas costas sopra uma brisa fresca)
...
Recolho-me em silêncio. Sem expectativas.

quarta-feira, janeiro 05, 2005

Ansiedade

Desliza o mouse. Lê pequenos textos sem prestar muita atenção neles. Numa sucessão descontrolada de cliques, visita sites, blogs, flogs. Entra e sai mais de uma vez buscando atualizações, velhos e novos interesses. Vê jornais, seleciona imagens, procura algo que possa prender sua atenção. Satisfação temporária. Segundos. Com muita sorte, alguns minutos. O google, sim o google. Faz perguntas pessoais ao buscador e não obtém respostas diretas. Reavalia objetivos. Desliza o mouse. Lê rapidamente. Recomeça. Percebe que já é noite. Sim, menos um dia, menos um dia, pensa. Desliga o micro e vai dormir.

domingo, janeiro 02, 2005

Reveillon

Fechou o Word com a conversa gravada pelo MSN. Uma conversa difícil. Parecia sentir o peso das palavras, a respiração ofegante. A indisposição das perguntas para as quais não tinha resposta, o embotamento mental diante das pressões de tão lógicos argumentos. Refletia sobre as acusações e via certa razão nelas. Mas, de maneira geral, considerava sua própria coerência. Com algum orgulho delas. Sim, isso era indiscutível. Tinha sido sincera. No que era possível. Leu tudo mais de uma vez, convencendo-se de que tinha sido melhor assim. Procurava afastar a saudade, a vontade de dizer alô, estou aqui. Ainda. Não. Era arriscado. Soube que tinha um novo amor, ou um antigo renovado, sabia-se lá. Melhor assim. Melhor assim, repetia-se. Estava muito frágil para se ferir. Mas os fogos do reveillon insistiam em refletir-se na tela do micro, lembrando do ano passado juntos. Um olhar terno. Um corpo cálido. Projetos rascunhados com recomendações de sonharem acordados, sem medo.

quinta-feira, dezembro 23, 2004

Natal
Nunca senti tanto a pressão do Natal como nesta semana. Muitos afazeres e grandes desafios, inclusive os que se multiplicaram em função da época e das circunstâncias. Tento desviar-me deste desconforto que encontra ressonâncias em dores temporariamente guardadas para depois, nos sonhos frustrados, nas ausências sentidas que parecem adquirir forma nestes dias.Comentei isso com a Sra da limpeza lá da loja, a Dona Jô. Disse-lhe que não me lembrava de um Natal tão triste. Ela pareceu indiferente às minhas reflexões e completou, animada, que estava pensando na melhor forma de trazer no ônibus coletivo a grande panela para cozinhar o arroz do jantar que ofereceríamos aos companheiros de trabalho. Encontrou a panela hoje, pois estava perdida em meio à mudança forçada pelo oficial de justiça quando lhes pediu desocupação imediata. Disse-me também que não me preocupasse com talheres ou pratos. Ela os pediria em empréstimo à mulher do restaurante vizinho. Não era preciso muito dinheiro, não. Ia comprar frango e verduras no mercado da esquina. Ah, e tinha, ainda, a sobremesa, a que traria da fábrica do bairro onde pegava o primeiro ônibus (era uma delícia, eu ia gostar). Admirada com tanta disposição, desisto de considerar a hipótese de cancelamento da reunião programada. Quando chego do almoço encontro em cima da mesa de trabalho um envelope com um adesivo escrito em letra cursiva de criança: Para Heloisa...dentro dele, um cartão com a imagem de Cristo e suas palavras de incentivo à busca primeira do reino. Leio o texto que diz que os sonhos são possíveis, pois Deus se fez homem e mudou a história humana. Natal era o tempo, portanto, dos milagres. Em letras trêmulas, Dona Jô assina em baixo: com votos de muita estima. Sigo, então, meio encabulada, para a confraternização deste final de tarde em que comeremos o arroz com galinha de Dona Jô e experimentaremos sua receita de esperança renovada pelo amor e pela simplicidade. Lição ensinada pelo menino sagrado nascido há mais de dois mil anos e que tento aprender, a cada dia.

quinta-feira, dezembro 09, 2004

Memórias e Momentos de Dor

Procuro manter os olhos voltados para o futuro, mas há dias, assim, tão sem expectativas, que as memórias involuntárias de Proust ficam favorecidas e daí, qualquer madalena, qualquer música, voz ou gesto, fazem-me voltar a um tempo feliz. Revivo este tempo perdido quando ouço algumas músicas da infância, as que tocavam no rádio da cozinha da Teresa, sempre ligado, na casa azul, a que sempre julguei a mais bonita da minha rua. Uma moldura de cimento na janela do quarto dos meus pais dava para as plantas altas do jardim e formava um esconderijo. Lá eu ficava horas, batendo bife com as folhas, sonhando e lendo numa deliciosa solidão anônima. Rua 209, número 80. Deve ter sido o primeiro endereço que decorei na vida. Há mais ou menos um ano, procurei este palácio, templo das minhas memórias de infância. Lá havia uma pequena casa cinza sem jardins ou crianças brincando, mas minha bela casa azul ainda vive em mim, como um refúgio em momentos de dor.

sábado, dezembro 04, 2004

Nix e a noite adolescente

“No começo era o Caos. Não havia luz e também as trevas não existiam. A noite (Nix) é gerada do Caos e dela nascem o sono(Hypnos), o senhor da morte(Tânathos) e as deusas do destino (moiras)”....
(Hesíodo. Teogonia.)

Marco é um aluno incomum. Veste-se sempre de negro. O cabelo, no mais belo estilo punk crista de galo. Um piercing no canto esquerdo do lábio. Sim, chama a atenção. Todavia, está sempre em silêncio. É discreto e possui aquele olhar inquiridor, profundo. No início das aulas estava sempre solitário. Sugiro-lhes grupos de vivência alegórica de um mito e ele me apresenta a escolha do grupo em que faz parte: o mito de Nix. Fico surpresa com a opção, mas concordo. Recebo dele, seu primeiro exercício autobiográfico e ele escreve que não consegue se lembrar da primeira infância. Destaca a adolescência, o contato com amigos que estavam fora dos “problemas mundanos”. Diz, então, “fiquei cego e aproveitei tudo que nos importava”. Marco presta muita atenção nas aulas, olha sempre atento para as imagens míticas que apresento, mantém um vivo interesse pelas histórias. Num outro dia, apresenta-me o roteiro, pronto e muito bem escrito: contava a história de um adolescente, suas dificuldades de comunicação e relacionamento com o pai. Em suas reflexões noturnas encontra Nix e dialoga com ela. É influenciado por Nêmesis, pelas Moiras e por Tânathos, o deus da morte. No final, mata o pai, a mãe e se suicida.
Tento disfarçar o meu choque com o desfecho e pergunto se não ficaria muito trágico, escuro. Ele argumenta que não. Essa era mesmo sua intenção: causar desconforto. Era contra um final suave, pois não queria consolo. E não seria a morte o maior consolo? Pergunto. A dificuldade não estaria em manter-se vivo? Marco não responde. Ignora até mesmo a oposição de alguns colegas que achavam que os conflitos adolescentes com o pai não se constituiriam em motivos suficientes para a tragédia. No dia da apresentação encontro a sala de aula muito bem decorada: uma lona negra divide os espaços entre cozinha e quarto. Na cozinha, uma toalha sobre uma mesa arrumada para o café da manhã. É nesse local que ocorrem as maiores discussões com o pai e o adolescente sob os olhares submissos da mãe preocupada em servi-los e amenizar os conflitos. Dois aspectos são muito marcantes: os gritos e a intransigência do pai e as figuras negras míticas que povoam o quarto do adolescente. Quando o jovem consuma o assassinato do pai, Nix e seus companheiros negros tomam o cenário principal. Sentam-se na mesa e o instigam. A seriedade dos alunos na representação calam os risos abafados. Procuro Marco e não o vejo. No final da apresentação, pergunto aos alunos onde estava o roteirista e eles me informam que estava com febre. Uma colega confidencia-me que no dia anterior havia discutido seriamente com o pai. Fico preocupada e vou para casa pensando nas ressonâncias do mito-guia escolhido pelo aluno. Reflito que a noite, Nix, é fruto da necessidade do Grande Espírito de projetar-se e conhecer sua própria existência. Tensionadas em si mesmas, as trevas do Caos e da Noite explodiram em luz. Na versão órfica, é deste esforço que nasceu Eros, o Amor, que ocupou o Nada e impregnou o universo despertando a semente da vida. O amor uniu a luz e as trevas e as duas metades converteram-se no céu (Urano) e na terra (Gaia). É da luta de Urano com o filho, Saturno, e dele com Zeus que o caos é ordenado e cria sentido. O Caos aqui é o inconsciente em potencial, a partir do qual tudo pode ganhar forma. A criação pode ser um ato caótico, que envolve conflitos, lutas entre o adulto (pai) e a criança (filho), entre o consciente o inconsciente. É uma luta dolorosa, em que a morte pode ser uma alternativa para a permanência da vida, em constante transformação. Marco escreve em seu relato autobiográfico: “Nos transformamos a cada olhar, leitura, interação com outro ser, mas mantemos nosso eu...dizer que estou pronto é precipitação, pois estou em processo de mutação sóbrio”. Sim, Marco estava se transformando. A catarse do teatro e a história mítica estimulavam sua autoconsciência e o auxiliavam a atravessar este momento de transição.

terça-feira, novembro 23, 2004

Bom Humor

Vivo numa conjuntura diária difícil e complicada (tenho preguiça de explicar), mas tenho sobrevivido (não sem muitos arranhões, é certo). Nela, aprendi a valorizar a atitude de algumas pessoas muito próximas. Quando a coisa tá feia mesmo e tudo parece triste e sem saída. Há os que fazem de um simples ato, uma façanha hercúlea e desgastante. De uma pequena dificuldade, uma montanha de reclamações e obstáculos. Há outros, entretanto, que não estão focados nos medos (reais e imaginários), nas portas temporariamente fechadas, nas pressões advindas de todos os lados. Andam assim, distraídos, sem levar tudo muito a sério, bolando alternativas pouco ortodoxas, rindo até do que é pra chorar e caminhando, sempre. Esses são os melhores companheiros de jornada. A você Vinícius, que nunca lerá este post e que me faz acreditar no poder do bom humor, minha gratidão por mais este dia de resistência.
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Da Lygia:
Em seu estado puro, o senso de humor não é negro nem vermelho nem azul, mas tem as sete cores do arco-íris...não tem implicações de ordem ética, mas estética, o bem humorado é um esteta. Uma filosofia de vida?
Digamos, uma doce filosofia que nos permite vislumbrar uma certa graça nas coisas desengraçadas. Sem sarcasmo, que o sarcasmo é cruel...
A casa pegou fogo? O louco bem humorado dá uma volta em torno, tira o cigarro do bolso que não existe e acende o cachimbo numa brasa do fogão.
(In. A Disciplina do Amor)

sábado, novembro 20, 2004

Cristo em Aço*


A primeira vez que entrei na Igreja do meu bairro deparei-me com a escultura painel de Cristo Crucificado. Uma escultura monumental em estrutura metálica. A representação é dura, de uma aspereza ímpar. O material parece ter sido torturado para adaptar-se à forma. São cones, fragmentos de aço combinados para representar Jesus em sua hora final. Sentia uma dor fria ao olhar para ela. Podia ouvir as marteladas agressivas do escultor na matéria prima. Sentia a resistência do material, sua capacidade de cortar e ferir, sua temperatura ártica. Eu não sabia muito bem o que estava fazendo ali e mal conseguia fixar o olhar no painel do altar central. Meu coração estava pesado e aquela figuração não o acolhia. Havia desconforto. Era muito cedo e fazia frio. Sentei-me num banco discreto e esperei para ouvir palavras que não compreendia. Num instante, uma senhora abordou-me: queria que eu lesse um salmo. Ofereceu-me rápidas explicações e desapareceu. Subi ao altar, ao lado do Cristo em aço torturado e, um pouco tonta, li o salmo num só fôlego. Eu não sabia que deveria dar pausas para que as pessoas repetissem a frase principal. Apesar do erro, não fui repreendida. Ficaram todos em silêncio e o ritual seguiu seu curso. Sentei-me novamente e mantive-me com a cabeça baixa. A fala do sacerdote parecia estar numa língua desconhecida. Eu não conseguia pensar, racionalizar, inferir alguma lógica em tudo aquilo. Só nós existíamos: eu, meu coração pesado e um Cristo torturado em aço. Aos poucos, a dor foi se transferindo para minha garganta e saltou-me aos olhos. Assim, com a visão turva o Cristo me parecia envolto em nuvens e flutuava num universo de cimento e metal. Acho que naquele momento pude compreender a dor do sacrifício, aceitá-lo, sentir-me próxima a Cristo. Esta sensação, de um consolo quase cúmplice, levou-me muitas vezes a este local. Eu leria o salmo em muitas outras ocasiões, usaria o púlpito para ler e comentar as escrituras, exploraria o altar com crianças e adolescentes para chamar a atenção para o mistério. Mas, o Cristo dilacerado estaria sempre lá, lembrando-me do sacrifício, incomodando-me com a sua dor, servindo-me de espelho para o enfrentamento e a aceitação de todas as feridas.
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*Painel Escultura do artista paulista Caciporé Torres instalado na Paróquia Nossa Senhora de Fátima em Goiânia.
O Como e o Porquê

Concepções racionalistas valorizam o real, as causas dos fenômenos.
Concluímos que o real é uma construção que possui muitas subjetividades: teórico-culturais, individuais e coletivas.
O passado é um campo de exercícios de anamnese para descobrir as causas reais na busca das origens.
Concluímos que a origem é elaborada a partir de nossas subjetividades. Mais uma construção.
Entretanto, é na elaboração que nos movemos. É a construção que imprime sentido às nossas vidas e pauta nossas ações. Conhecer nossas motivações e construções subjetivas é, portanto, mais útil do que buscar as causas, sempre inapreensíveis em sua complexidade.

Existem porquês, certamente. Mas é mais útil compreender o como.

Traduzindo: Se algo está dando errado na sua vida, larga mão de se lamentar e fazer perguntas. Tente descobrir o seu próprio manual de funcionamento e aperte alguns botões. Neste esforço, entre tentativas e erros, uma hora a coisa engrena.
O Pé de Manacá*

Das Dores é uma distinta senhora em que calculo cinqüenta e poucos anos. Na última aula, trouxe-me um pequeno ramalhete de Flores de Manacá que encheram a sala de perfume. Adorei o presente. Não só pelo carinho ou pelo significado da flor e da planta (associados, simbolicamente, à morte e renascimento), mas pela história que havia me relatado no encontro anterior. Explico.
Das Dores andava triste, queria desistir do curso, estava com problemas familiares relacionados a um tio doente que acolheu na própria casa, chegava sempre atrasada nas aulas, os olhos fundos, aérea nas discussões. Na sessão de orientação, contou-me o caso, e, diante da minha recusa em aceitar as conseqüências dessa difícil conjuntura, perguntou-me se poderia realizar o trabalho final a partir de uma narrativa pessoal. Adiantou-me que quando era criança, em Formosa, interior de Goiás, vivia junto à avó, uma mulher sábia e carinhosa. Vó Leonora era uma mulher excepcional. Das Dores contava com ela para responder as perguntas mais difíceis, aconselhar em casos complicados, e ouvir histórias, muitas histórias. Este relacionamento, que durou toda primeira infância de Das Dores, tinha como palco, o grande quintal da casa de D. Leonora, num local específico: embaixo de um gracioso Pé de Manacá. Ali, acomodadas em pequenas banquetas, avó e neta viveram muitas emoções. D. Leonora falava sobre tudo, sobre a vida, a natureza, as formigas, coisas grandes e ínfimas. Um dia, D. Leonora ficou doente e veio a falecer. Das Dores sentiu faltar-lhe o chão. Não poderia ser verdade, custou a acreditar, queria ver com os próprios olhos. Por sua tenra idade, a família não permitiu que chegasse perto do corpo tão querido da Avó. Sua mãe preparava-lhe a mortalha de cor violeta e costurava um travesseiro. Foi quando Das Dores lembrou-se do Pé de Manacá. Colheu então galhos e flores e os ofereceu à mãe para que enchesse a almofada que ficaria sob a cabeça de Vó Leonora.
Passaram-se muitos anos. Das Dores completou quarenta anos e descobriu que estava com câncer no útero em estado avançado. Reuniu os filhos, inclusive a menor, de apenas cinco anos, e explicou que poderia não sair viva do hospital onde realizaria uma operação para a retirada do tumor. Distribuiu responsabilidades, tentou ser forte, não se vitimizar, pediu-lhes que cuidassem uns dos outros. Eis que depois de alguns dias, no centro cirúrgico, após a intervenção, Das Dores encontra-se na mais completa solidão. Sente frio e abandono. A fragilidade dos que estão doentes sob a ação da pesada mão do destino. Nua diante de Deus e dos homens Das Dores fecha os olhos e vê um pé de Manacá. Sente-lhe o perfume, e, num acolhimento sem igual, uma mão que desliza suave sobre sua cabeça.
Das Dores sobreviveu. Está quase terminando o curso de especialização. Viva novamente evoca a história para ter forças e continuar. Em seu trabalho final, a partir de si mesma, falará de Formosa dos anos do Estado Novo, dos costumes interioranos, dos laços familiares e da vida cotidiana. Com ela aprendo novos métodos de escrever a história e absorvo feliz sua sabedoria dos recomeços.

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*O manacá-da-serra (Tibouchina mutabilis) é uma árvore originária do Brasil e em estado nativo pode ser facilmente encontrada na região da Mata Atlântica.Floresce normalmente duas vezes por ano. Entre o final do verão e o início do outono e na parte final da primavera. O interessante é observar que suas flores ao abrirem são brancas e, com o passar do tempo, gradativamente vão mudando de cor até ficarem praticamente roxas. O manacá-da-serra é uma planta pioneira, isto é, é uma das primeiras que aparece naturalmente após a derrubada da mata ou em áreas em processo de regeneração florestal. Devido a essa característica ela é de fácil cultivo e não é exigente. Praticamente não é atacada por pragas e doenças, não é muito exigente quanto à fertilidade do solo. Gosta de umidade atmosférica alta, clima quente, solo bem drenado. É de sol pleno. Há espécies de borboleta que só conseguem completar seu ciclo de transformação ao se alimentarem de manacá.