sexta-feira, dezembro 02, 2011

Da presença

Danielle Huillet e J.M. Straub

“O cinema consiste em surpreender uma coisa que não mais se repetirá”.
J.M.Straub.

domingo, novembro 27, 2011

"A Nave Fantasma"

Yoko e Lennon - créditos

Como termina um amor? - O quê? Termina? Em suma  ninguém - exceto os outros - sabe disso; uma espécie de inocência mascara o fim dessa coisa concebida, afirmada, vivida como se fosse eterna. O que quer que se torne objeto amado, quer ele desapareça ou passe à região da amizade, de qualquer maneira, eu não o vejo nem mesmo se dissipar: o amor que termina se afasta para um outro mundo como uma nave espacial que deixa de piscar: o ser amado ressoava como um clamor, de repente, ei-lo sem brilho (o outro nunca desaparece como se esperava). Esse fenômeno resulta de uma imposição do discurso amoroso: eu mesmo (sujeito enamorado) não posso construir até o fim minha história de amor: sou o poeta (recitante) apenas do começo; o final dessa história, assim como minha própria morte, pertence aos outros; eles que escrevam o romance, narrativa exterior, mítica. (Roland Barthes. Fragmentos de um Discurso Amoroso).  

segunda-feira, novembro 21, 2011

Vivo em Goi


Leonardo Lobo

FUTURARTES

meu futuro está nas artes
meu futuro está presente
e eu estou desferrolhado
(...)
assim como na dor
é dever gargalhar
como assim no azedume
é dever amar
e na falta de amor
armar, inventar
inverter
(...)
eu quero mesmo isso aqui?
é isso mesmo isso daí?
pelo que me cabe
talvez eu esteja
carente doente
dormente
quente

(Leonardo Carmo)

domingo, novembro 20, 2011

A Sagração





"Sonhei com um grande ritual pagão! Tive uma soberba visão
repleta dos mais inusitados efeitos  sonoros indefiníveis..."


Em três tempos sagra-se uma mulher à primavera. Ela parte de si. A música lhe chega como sedução leve, alento aos seus dias limitados em forma e construção de sentidos. Ela se entrega aos poucos, até que a música a tome, afinal. Ela se dá ao piano, aos sons, aos impulsos das forças anímicas que a colocam no limite entre os mundos humano e animal. Rastejante como um réptil, agressiva e armada como um tigre, ela se movimenta, dissonante, e agoniza. Ao fim deste ato, ela já está despida do que a limitava em espaços e formas. Desconstrói-se nos ímpetos entre ritmos e pausas. Timbres, percussões e ritmos acima da harmonia, transformam-na em uma noiva primitiva. Algo enfim, se define e costura uma trama. Como Ariadne em torno do labirinto, ela enlaça fios entre a razão e a loucura. Forças primitivas incontroláveis violentam o ato e a impelem à construção de uma geografia sagrada, gestos que se ritualizam na repetição e nos impulsos. Ao final, no colo do piano, ela se transmuta em uma massa informe, algo ainda não nascido, zoomórfico, um ser que ensaia um vôo frágil.

segunda-feira, outubro 24, 2011

quinta-feira, outubro 13, 2011

Supernovas


Supernova I

sou uma mulher que pulsa
um oco no fim da expiração
um lugar seguro
no quintal da infância
onde eu brincava só

sou um brincar que pulsa
um sopro no fim da expiração
um vôo no portal da infância
um quintal no fim
uma mulher só


Supernova II

sou um pulsar que brinca um oco no quintal
uma mulher na infância sou um vôo no fim
um oco no portal um quintal no fim um lugar
uma mulher um sopro um vôo sou um sopro
no fim uma mulher na infância um pulsar um
brincar um vôo sou só um sopro no fim só
um sopro que pulsa que brinca que voa

Supernova III

sou
um pulsar
que brinca
um oco
no quintal
uma mulher
na infância
um vôo
no fim

sou
um oco
no portal
um quintal
um lugar
um vôo
uma mulher
um quasar
um brincar

sou
um sopro
no fim
um vôo

quinta-feira, outubro 06, 2011

domingo, outubro 02, 2011

Psicopompo


Auguste Rodin.
Gênio do Repouso Eterno, 1899
Pinacoteca. Parque da Luz/SP

Penetra surdamente no reino das palavras...
Drummond. Estação da Luz/SP

Já não me importa ganhar coisas. Nem pessoas. Muito menos o mundo. Ver tudo da minha janela já me basta. Viajo por obrigação. Com objetivos definidos, datas e locais bem arranjados. Mas, faço sempre com má vontade, nunca sem tensão. Foi assim que cheguei pela primeira vez em São Paulo este ano. Cidade ambígua e silente. Sim, havia muito silêncio no murmúrio indefinido das ruas, nas conversas esparsas, no deslocamento rápido e ensimesmado de pessoas nos ônibus, nas estações de metrô. Tanto ruído, quanto silêncio. Éramos seres impessoais, encapsulados em pequenos mundos, personagens no enredo de um filme de ficção científica.
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Da segunda vez, entretanto, algo diferente aconteceu. Hospedei-me em um lugar central, entre ruas escuras cheias de histórias noturnas. De repente, a São Paulo silente dos seres de plástico, soltava o corpo e a voz entre loucos carros e sussurros, no tilintar de copos em bares bêbados, no ranger de portas entreabertas das boites, no salto de mulheres que animam o vai e vem das esquinas, na súplica dos moradores das calçadas, no cochichar de combinações e segredos dos cantos obscuros.
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Em meu temor forasteiro, encontrei um amigo. Assim, de forma meio inesperada, sem contabilizadas garantias, quase sem querer. De entrada, forneceu-me um cartão de metrô com passagens pagas para que eu não ficasse em filas. Indicou-me rotas facilitadas para que eu não me perdesse na imensidão das ruas. Pagou-me cafés. Enviou-me sms’s com msgs desconcertantes, do tipo: comeu? tá onde? te espero no bloqueio do metrô. Nos intervalos da obrigação, insistiu para que eu visitasse obras, jardins, exposições, experimentasse as frequentações do espírito. Segurou minha mão para me proteger, manter-me em equilíbrio no passo e no ritmo, sem saber que meu corpo-espírito ferido beirava a exaustão e o desalinho.
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Aceitei tudo com dificuldade e parcimônia. Preciso de tempo para digerir dádivas. Neste transe iniciático, ele foi o instrutor, o guardião-guia no umbral desta dura travessia metonímica. Com percepção lenta para os milagres do instante, não me desculpei por não conseguir absorver de forma plena os valiosos presentes que recebi, assim, de maneira tão generosa, nem mesmo sei se soube agradecer a passagem, as entradas que me transportariam da república à estação da luz. Foram momentos de diálogo mudo, instantes em que as falas sem sentido e os corpos tristes das ruas se transformariam no reino das palavras e em esculturas e formas transmutadas em beleza e criação.
(para Leo)

domingo, setembro 04, 2011

Suave Coniunctio (ou Setembro)


seu amor é líquido
suave veludo que escorre
entre alfazemas e camomilas
*
meu amor é fogo
sol de dias frios
manhãs azuis
*
nosso amor é sopro
 aragens sutis
em que acordamos a terra
*
é dia frágil
quando ervas e aromas
brotam nos solos
em que nos encontramos claros
férteis e úmidos


sábado, setembro 03, 2011

Forum


Com pés descalços
caminho por esquinas
imponentes
da cidade fantasma
*
Revisito a
velha casa
vazia
na mesma
solidão das ruas
*
Em cima da mesa
empoeirada
uma carta
escrita à mão
com letras trêmulas
*
Pontifex maximus
evoca-me
a identidade do gesto
a dor que não sangra
o claustro
o ritmo
o passo

quinta-feira, junho 16, 2011

terça-feira, maio 24, 2011

Amores Captativos














O beijo de Judas (painel 31), Giotto, Capela Scrovegni, 1304-6

É impressionante como ao ler um mesmo texto, temos diferentes concepções de seu significado conforme o tempo em que o lemos. (Re)li, como se fosse a primeira vez, a análise do arquétipo de Judas no livro do Jean-Yves Leloup*. O autor discute nossas relações uns com os outros, em especial, quando estamos em idolatria, que é semelhante à paixão: quando pedimos o absoluto a um ser relativo. Quando este ser nos decepciona, entramos, naturalmente, no desespero. E ele segue com análises importantes. Conta-nos como Judas não consegue se colocar no meio na relação com o Mestre. Segundo o autor, precisamos aprender a tocar o outro no meio, entre sua dimensão humana e divina. Judas queria um líder político e não um homem que salvasse a poucos e se prestasse às calúnias e à morte. É por essa decepção que passa facilmente da idolatria ao desprezo. Ele esperava demais, com ilimitadas expectativas, e, paradoxalmente, com uma limitada visão das coisas. E é essa atitude que o faz vender e trair o Mestre. Depois do ato, Judas se enclausura na própria culpa e se envenena. Diferente de Pedro, que erra e se redime, pois é capaz da prática do perdão com o outro e, portanto, consigo próprio. Com a atitude típica de um suicida, Judas não crê no perdão e isso se volta contra ele. Ele era assim e por esse motivo, útil ao serviço da traição. Leloup nos lembra que a palavra doença, em hebraico, significa andar em círculos, estar preso em um círculo, estar fechado na conseqüência dos seus atos e do seu carma. Leloup nos recorda a incapacidade de perdoar, o excesso de expectativas e a avareza destes homens que, não souberam compreender Madalena, o arquétipo contrário a Judas. A que lavou os pés de Jesus com caros perfumes e foi por isso repreendida (seria mais útil “dar o dinheiro aos pobres”). Homens como Judas, que se prestaram ao serviço da traição, não souberam ver a generosidade de Madalena, a grandeza de seu abnegado gesto, que dava mais do que o que possuía, além de oferecer de si própria. Madalena é o arquétipo da generosidade e da entrega, incapaz de se realizar em homens presos nos sintomas de seu desespero, na ilusão e avareza das aparências, na idolatria que não concebe o respeito, o amor como algo que se coloca entre o humano e o divino. No arquétipo de Judas há alguma coisa deste estado de consciência que nos envenena, que envenena a existência. Como conclui o autor: em Madalena, vemos o arquétipo do amor oblativo e em Judas, o do amor captativo, tão bem expresso em Giotto na cena do beijo. Um gesto que tem a aparência de amor, mas é um gesto vazio.

Tai, agora entendi.

__________________

*Leloup, Jean-Yves. Caminhos de Realização. Dos Medos do Eu ao Mergulho no Ser. Ed. Vozes.

Caeiro e o Pasmo Essencial











nascido a cada momento
para a eterna novidade do mundo.

segunda-feira, maio 23, 2011

Evangelização Diária

Generosidade
Então, você cria galinhas?
Crio, tenho nove. Crio para matar.
Para matar? Mas, você não tem pena?
Só quando a faca tá cega e elas me olham.

Flexibilidade
Minha cunhada é uma pessoa boa,
Trabalhou em um caixa, mas, saiu. Suspeita de roubo.

Devoção
Esta prateleira ficará ótima lá em casa, vou tirar uma foto.
Mandarei fazer uma idêntica.
Quando for comprar aquele peixe, traga para mim.
Quero um igual.
Aquela massa de pastel é boa, compre-me uma.
Da mesma marca, viu?
Esse tempero é muito bom, vou levar.
Ficará como o que você fez outro dia, igual.
Esse batom é bonito, vou querer um.
Da mesma cor.

Obediência
Lave roupas pela manhã, por causa do sol.
(lavo todos os dias à tarde, e depois fecho as janelas para que sequem à sombra)
Não se esqueça de colocar água para o gato, chego tarde.
(a vasilha do gato permanece vazia até a hora que alguém chega para enchê-la, essa é minha regra)
Quando tirar os acessórios da pia do lugar, devolva-os para facilitar que eu os encontre.
(a saboneteira fica sempre escondida em cima da caixa do vaso sanitário após a arrumação, assim é melhor)

Oração de Intercessão Diária
(recitada em reação a qualquer tentativa de diálogo)
Tsc Tsc Tsc Tsc Tsc
Tsc Tsc Tsc Tsc Tsc

quinta-feira, maio 19, 2011

Metamorfoses


Metamorfoses de Narciso. Salvador Dali, 1937.

Em silhueta introspecta
dobro os olhos
sobre joelhos
ressequidos
encarquilhados
eu e meu duplo
torpor narcísico
olhos viciados em ver
ecos de morte e vida
águas paradas
em que me precipito
para ser pedra
ruína
flor

domingo, maio 08, 2011

A Rosa Meditativa

Rosa Meditativa. Salvador Dali

Foi o destino. Estava tudo programado e algo em mim sabia. Que seria difícil. Algo no ápice da intensidade: do medo, da dor, da alegria. Alguém estranho, mas, ao mesmo tempo, tão próximo: mesmo tipo sanguíneo, mesmo jeito de olhar, e, logo, os mesmos hábitos, gostos literários, a mesma paixão pelo silêncio, pela escrita, pela arte. Não sem alguma culpa, identifico-me, também, com algumas dificuldades (doloroso suspiro). Admiro-me por sua singularidade na sutileza e inteligência, por sua sabedoria nata e, suprema glória compartilhada: pela nossa compreensão mútua, sem palavras. Como naquele momento, há exatos dezenove anos, era o dia das mães. Ela era o meu presente: Maria Clara, minha Rosa Meditativa, sublime expressão de força, sabedoria e beleza. Nem Dali poderia interpretar esta florescência amorosa para além das raízes e dos frutos.

sábado, maio 07, 2011

Libertango


"trago a vida agora calma, um tango dentro d' alma"....

sexta-feira, abril 15, 2011

sexta-feira, abril 01, 2011

Aproveitar o Tempo

APOSTILA (11-4-1928)



Aproveitar o tempo!

Ah, deixem-me não aproveitar nada!

Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!...
Deixem-me ser uma folha de árvore, titilada por brisa,
A poeira de uma estrada involuntária e sozinha,
O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras,
O pião do garoto, que vai a parar,

E estremece, no mesmo movimento que o da terra,
E oscila, no mesmo movimento que o da alma,
E cai, como caem os deuses, no chão do Destino.


(Álvaro de Campos)

quinta-feira, janeiro 13, 2011

A Última Folha


"Subsistem folhas nas árvores, aqui e ali. E fico freqüentemente diante delas, pensativo. Contemplo uma folha e fixo nela minha esperança. Quando o vento brinca com ela, todo o meu ser treme. E se ela cai, que se pode fazer, minha esperança cai com ela.”

Para poder interrogar a sorte, é preciso uma pergunta alternativa (mal me quer/bem me quer), um objeto suscetível de uma variação simples (vai cair/não vai cair) e uma força exterior (divindade, acaso, vento) que marque um dos pólos da variação. Faço sempre a mesma pergunta (serei amado?), e essa pergunta é alternativa: tudo ou nada; não concebo que as coisas amadureçam, escapem às conveniências do desejo. Não sou dialético. A dialética diria: a folha não cairá, e depois ela cairá; mas enquanto isso você terá mudado e não fará mais a pergunta.

(ao consultar quem quer que seja, espero que me digam: “a pessoa que você ama também o ama e vai lhe dizer isso essa noite”).

A Última Folha. BARTHES, Roland. Fragmentos de Um Discurso Amoroso. RJ, Francisco Alves, 1989.p.146.